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O caso da argentina

Imagem: María Pachón - https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Imagem: María Pachón – https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Ele não viu quando saí do carro. Me enfiei no banheiro feminino e fiquei lá tempo suficiente para ele abastecer uns três daquele jipe estúpido dele.  Mal notei o cheiro carregado daquele cubículo mal ventilado, com papel higiênico que brotava do lixo, das paredes, do chão…

Escapei, pensei.

Não, mas foi por tão pouco!

– Dona, o seu marido acabou de sair!

Eu ainda tentei disfarçar, fingir que não entendia o idioma do sujeito.

– Yo no hablo portugues. No te entiendo.

E o frentista desesperou. Chamou o gerente. Contou também pra mocinha da loja de conveniência.

O gerente arriscou um portunhol.

– Señor, lo siento, no te entiendo. No te preocupes, voy a encontrar una parada de taxis y ya me voy. No necesita preocuparse.

– Tu marito se fué, senhora. Tienes um celular? Se não, podemos ligar da minha sala, no te avexes.

Fez a mímica universal com dedos, simulando um telefone.

Como dizer que eu não sabia o número de Ezequiel?

– Es una conexión internacional, es caro, señor, no te preocupes. Yo lo llamo un taxi y en la próxima me detengo acuerdo, señor.

Ele já ia 100 km adiante, quase chegando no Espírito Santos, me explicou o frentista desenhando números e rabiscos numa caderneta e apontando um mapa na parede da sala do tal gerente .

Ezequiel fez a parte dele, é justo que eu admita. Disse que não entendia o que diziam ao telefone, que não perdera nada, que o menino estava a brincar com o tablet bem ao lado dele. Até uma foto minha mandaram pro celular do maldito.

Não teve jeito.

Ele voltou. Seguimos juntos.

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Burocratas sem lei

Imagem:  Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Imagem: Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Está escrito, moça! É meu direito. É lei.

Mas aqui é outra lei. Quem rege a gente é outra agência: a Artesp.

Mas está no Código do Consumidor!

Só que a compra foi feita pela internet, então, não podemos trocar sua passagem, não senhora.

É nessa hora que lembro que a carteira de identidade ficou em casa. Guardada num envelope numa gaveta de acessórios eletrônicos que não têm mais serventia.

A razão, que era minha, estava refém. Ganhasse eu a batalha, viria outra: como viajar sem apresentar o documento. Quem garantiria que aquela brigona com o voucher na mão era a mesma cidadã que comprou a passagem? Mea culpa. Ou não.

In dubio pro reu, certo? Não nessa estória. A verdade é que os burocratas todos são inimputáveis. Pense que na véspera do ocorrido, outra pessoa, um servidor público, colocou todos os documentos a minha revelia em um envelope pardo. Pessoa esta que exigiu a apresentação dos originais da certidão de nascimento a de óbito , apenas para que ela mesma tirasse cópias – numa amostra perfeita do rigor insondável dos processos à brasileira. Disso, o caos se produziu até chocar-se com o pé de boi seguinte.

Pessoas como eu não têm toque. Têm é a cabeça cheia de coisas outras. Mais ou menos importantes, não importa, apenas conste que são outras. Estratégia, strateegia, strategi, stratégie, senhores; estão anotando? Tudo deve ser reposto no seu lugar. Sempre. Identidade na carteira. CPF e título de eleitor na mesma capinha plástica. Diploma original mantido em segurança em lugar confidencial – em trânsito apenas cópias. Bilhete único no bolso direito da mochila. Note o equilíbrio sutil.

Na mochila, nem um documento com foto.  E os burocratas do outro lado do balcão confundindo internet com Velho Oeste. Comprou na internet, não pode trocar a passagem alegavam.  Respirei fundo. Vou procurar o Procon, prometi.  Respiraram eles também: aquela não embarcava sem pagar. E iria incomodar em outros níveis, se é que iria.

De um burocrata ao outro. O fundo do poço.


Porque é feriado

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O ano começa e a gente corre para ver quais são os feriados: quais emendam, quais não. E o engraçado é que só há um feriado de verdade, daqueles que até em shopping acontecem. E quando digo acontecem, digo acontecer pra valer: com as lojas fechadas e as pessoas tendo que viver a cidade. Quer dizer, vivem alguma cidade, já que quem mora nos  grandes centros inevitavelmente corre para o litoral. Pois acredita que as forças só se renovam ali, com os pés enfiados na farofa de areia e com os olhos marejados. Salgado, apenas o preço da cerveja e os beijos que forem trocados. Sim, nesse feriado, o sal impregna na pele e nos lábios e dá um novo sabor a algo que na cidade teria outro gosto. Não digo gosto ruim, mas de  coisas menos românticas, como o alho da pizza ou do gloss melequento da menina. O sal do mar no outro é quase melhor que o feriado. Quase que justifica o feriado. É tudo o que deveria ser o ano inteiro. E isso ninguém diz,mas todo mundo concorda porque os engarrafamentos escorrem quase mar adentro. Dentro do tráfego, os homens esperam. Esperança de ver os fogos serem molhados pelas ondas. É véspera de ano novo quando escrevo e a cidade já se despede de si e de seus habitantes: está a avisar que amanhã ela mesma não está. Estará de olho no mar e ponto. Pontos. Gotas. Garoa. Afinal, esta é uma crônica de ano novo paulistano. 


Férias, pra que te quero?

Nunca entendi a gana em tirar férias. Essa coisa desesperadora que bate nas pessoas quando completam o ciclo dos onze meses consecutivos. Todo o foco se volta para o planejamento da viagem, as economias começam e todo mundo fica maluco.

Eu adoro férias e juro que compreendo a ansiedade que dá ao ver o calendário diminuindo e a data do tão almejado descanso cada vez mais próxima de se realizar. O que eu não entendo, juro, é outra coisa. Então vamos por partes.

A preparação. A pessoa que trabalha, por exemplo, é a causa da minha curiosidade. Do momento em que ela anuncia a saída até um dia antes do fato se consumar, é uma correria sem limite: corre atrás de agência de turismo, corre atrás de mala nova, de roupa nova, de acessórios novos… No trabalho, faz hora-extra pra aumentar a verba, leva marmita pra economizar o ticket, e às vezes nem almoça pra adiantar o serviço.

Mas vejam que, nessa saga, o camarada trabalhou o dobro do normal, o equivalente a mais um mês de serviço – que seria o próximo!, o de descanso – e tudo isso para que o amigo que o substituirá saiba o-que-fazer-com-o-quê ou ainda de onde-encontrar-o-quê e não o atrapalhe enquanto estiver tomando banho de sol.

Ele passa trinta dias fora, sem ter hora pra levantar, acorda às onze, dorme às duas, engorda de novo todos os kilos perdidos e se sente o rei do nordeste!

O retorno. Quando chega o momento de voltar, outra correria: corre pra ajeitar a casa, corre para lavar a roupa, pra passar a roupa, pra rever os estragos na conta bancária, corre pra colocar a vida em ordem e recomeçar a briga diária. E essa é a segunda parte do processo de sair de férias que me causa estranheza. O infeliz que passou os últimos dias no sossego, que chega no trabalho ainda a passos de tartaruga, mostrando fotos, distribuindo lembrancinhas e contando histórias, sente que a alegria da mamata dura somente até o meio-dia.

 E então ele cai na real e vê a quantidade de trabalho acumulado, advindo do mês que passou, pra colocar em ordem, e que o desgraçado-filho-da-puta-corno-viado do Pereira não seguiu as orientações e fez tudo errado, que vai levar umas duas semanas pra arrumar – isso, claro, sem contar os serviços novos que vão chegando sem parar.

Aí penso eu: coitado, trabalhou o dobro antes, vai trabalhar o triplo depois, e no quarto dia da volta já estará tão estressando quanto no dia em que saiu de férias. Vai passar os próximos onze meses pagando dívida, além da academia pra mandar embora o excesso readquirido.

Ou seja: trabalhou mais para trabalhar um pouco menos.

É isso mesmo, produção?


Com direito a zoom

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– Se me trouxer a melhor matéria do dia, a vaga é sua, Márcia. O futuro chefe se ergueu com esforço da cadeira capenga para conduzi-la ao desconhecido. No caminho, Setúbal surrupiou da mesa da secretária um bloquinho e uma caneta bic para a foca usar no teste.

A repórter Márcia Gomes não conhecia a cidade. Chegou lá pelos trâmites invisíveis dos fatos não publicados. Mandou um currículo a um amigo, que encaminhou a um conhecido, que o remeteu, se não foi ele foi o seguinte, a outro alguém chamado Setúbal. E lá estava ela, em Eça, no exato ponto em que se cruzavam coisa alguma com o nada, no coração do estado.

Garoava. Olhou para dentro da recepção do jornal e resolveu se prevenir levando a edição do dia. Avançava já pela terceira quadra sentido centro, quando uma das telefonistas veio esbaforida atrás dela:

– Espera! O Cleiber vai com você. O Setúbal não falou?

Cleiber é o fotógrafo novo. Foi escalado para acompanhar a menina por acaso. O combinado era que Wendel acompanharia os candidatos, mas como Cleibão se atrasou de novo, perdeu a vez no bonde que ronda os depês.

Esperaram enquanto a garoa apertava, as duas sob um toldo de uma padaria há muito falida, o fotógrafo chegar com o carro.

– Qual é a pauta, moça? Vamo pra onde?

– Não tenho a menor ideia. Não conheço nada aqui e o Setúbal me mandou só voltar com a manchete. Vamos dar umas voltas por aí, você me conta qual é a da cidade e daí eu penso no que fazer.

Ele engoliu a raiva. Culpa dele mesmo chegar atrasado e ficar de motorista de uma dondoquinha. Podia estar lá no depê de Itatiba fazendo o registro do parricida da foice, o editorial de moda rodeio cheio de modeletes gostosas, ou no bem-bom de alguma inauguração da prefeitura… Todo mundo já pautado e ele ali queimando pneu por nada.

No terceiro solavanco, Márcia quase bateu a cabeça contra o vidro, podia ter se arrebentado toda… A pauta surgiu num estalo: escrever sobre as más condições de atendimento do hospital local. “Foi a capa de segunda, moça”, respondeu ele. Ela sugeriu que fossem à câmara municipal acompanhar a sessão e revelar ao leitor o pouco caso dos políticos com o trabalho, já que o jornal dizia que a pauta estava trancada há semanas, sem que nada fosse votado. “Esse gancho a gente deu na quinta, que foi o dia da sessão. Os caras batiam ponto e vazavam”.  Os bueiros entupidos vomitavam água. A enxurrada invadia as pistas da avenida Rio Branco, a principal da cidade, e prometiam um alagamento e tanto. Seria uma solução digna.  “Deixa isso pra lá. Marcela, seu nome, né? Desculpe, Márcia – não vou esquecer de novo. Com o secretário de obras não se mexe, ele é casado com a filha do Seu Urso, dono do jornal”.

Um mendigo fazia o dinheiro da pinga vendendo guarda-chuvas no calçadão. Podia valer um bom perfil. Era tão bom que rendeu isso mesmo há mais ou menos um mês, quando o Manéu Seco chegou à cidade, com a carrocinha cheia de mercadoria. Foi matéria da Anne Caiena, cortou o fotógrafo, os jornais da capital até compraram a reportagem dela.

As roupas secando no corpo junto com as ideias e ela que não parava de tremer. No bolso só o dinheiro contado para a passagem de volta. Jurou pra dona Zita que ia devolver a grana emprestada pra viagem à noite mesmo, junto com a notícia do emprego novo. Dois anos já naquela loucura de escrever um artigo pra um, uma matéria quilométrica pra revista dos lustres de papel ecológico, descolar um bico em assessoria pra ficar ligando pra mundo e meio pra emplacar foto da rasteirinha da Ana Maria Braga. Não era ela que se orgulhava de nunca ter perdido uma pauta? De conseguir dar furo até em matéria de papinha de nenê?

A chuva apertou tanto que já quase escurecia. Cinco horas já. Tinha até às seis pra entregar o texto. O córrego Dom Ladrão transbordou. Uma ilha se formava no canteiro central da avenida Rio Branco. Dois motoristas abandonaram os carros e se refugiaram ali da força das águas. O vento quase dobrava as palmeiras e os cachorros se encolhiam sob as árvores de sombra. Molhados os cães até por dentro.

Pois ela ia denunciar aquele descalabro de um jeito ou de outro. E ia ter a manchete e o emprego e o dinheiro da dona Zita e um apartamento só dela para morar de novo.

– Se prepara pra fazer a foto que eu vou lá!

E desceu com água pelos joelhos, quase sendo abatida pela correnteza. O fotógrafo não entendeu, mas armou o zoom da câmera, pôs foco na doida e se aboletou na janela do gol. Márcia pisou bamba na ilha, sacudiu o cabelo, escolheu um cachorro barbudo, meio velho, e tascou os dentes nele até garantir a melhor foto pra capa.

 

Crônica originalmente publicada em: http://coletivoclaraboia.wordpress.com


Maior que o mar

Vivian Maier – Undated, Canadá

Soraia não ia ficar naquela vida de amante pra sempre. Decidiu dar o golpe final. No próprio pescoço. Ergueu a faca. A mão sequer tremeu ao cravar a arma em si.

A queda, porém, traiu alguma hesitação. Primeiro dobraram as pernas, depois o peito tombou pra frente e os olhos fecharam antes de atingir a areia. Se estivesse pelada, alguém teria fotografado com um celular e chamado a polícia.

Nem a atenção do Eraldo ela chamou. A roupa nova, que lhe enchia o peito, não provocou reação alguma. O homem não a escutava. O amor deles era maior que a outra, que a família, que o mundo todo. Ele não via mais?

O fusca de Eraldo subindo a trilha de cascalho não despertava mais a curiosidade da vizinhança. Eram tantos que vinham admirar a vista ou simplesmente transar sossegado e de graça por aqueles lados, que não valia a pena se fixar neste ou naquele casal, comentou a moradora do 204 à equipe de tv que veio noticiar o aparecimento do corpo.

Soraia engasgou. De raiva, do próprio sangue e da areia, que se infiltrava em grãos e em grumos misturada aos dois primeiros para dentro do corpo semimorto.

Quando a sombra de Eraldo parou de protegê-la do sol, ela imaginou que ele fosse trazer ajuda. Porém, ele logo voltou com uma pá. E começou a cavar um pouco acima de onde ela estava, em um ponto meio oculto pelas rochas. Abriu os olhos, mas não conseguia enxergar, só captar o som seco da pá contra o chão e dos goles de ar que Eraldo tomava.

O céu exibia já um tom roxo-alaranjado quando o homem retornou. Soraia meio que dormia e acordava, nem ela percebia quando era um, quando era o outro. Eraldo ergueu o corpo da mulher e deu alguns passos em direção à cova recém-aberta. Ele olhou para os lados, mas ninguém mais estava ali para velar pela mulher. Mesmo assim, ajoelhou-se e com cuidado depositou Soraia ali. Sem lhe dedicar uma última palavra, começou a tapar o buraco pela ponta. Os fios escuros logo foram sugados pela montanha de grãos sem cor.

Soraia sonhou que lhe faltava algo. Corria procurando. Não estava nos bolsos do vestido. Nem dentro do sutiã. Nem no porta-luvas. Ou debaixo do banco do carro. Revistou Eraldo e também não encontrou. Talvez … Sim, talvez na areia.

A maré subiu dois dias depois e lavou quase toda a areia que a cobria. Os pescadores viram os pés de unhas negras e os braços. Depois a saia do vestido cor de vinho. Parecia que o corpo afundou e ficou preso pela cabeça, cochichavam de um para o outro. Quando o mar rejeitava alguém era porque nem ele podia com ela. E ninguém ali era maior que o mar. Era melhor chamar a polícia.

Aline Viana


Os poetas estavam reunidos

 

Eram todos homens. De nacionalidades e períodos diferentes. Havia um português provavelmente do século XIX, já que era ungido de forte veia romântica. Havia um inglês que visivelmente se incomodava com o legado de Shakespeare. Um escandinavo, cujo linguajar remetia à era medieval, fitava com certo desprezo o francês que aparentava contemporaneidade. O espanhol fazia valer o sangue quente que atribuem a essa ascendência. Com pinta de navegador, ele gostava de declamar versos sobre natureza e mar. Existia, ainda, um americano que em regozijo logo precisou que vinha dos primórdios do século XX.
Os seis estavam reunidos em virtude de uma pauta bem específica: o feminino.
O americano se declarava um entusiasta do feminino. Não havia no mundo algo que facilitasse mais os poemas do que a mulher. O escandinavo seguia fitando o francês que anuía com a cabeça enquanto o americano falava. O espanhol, então, observou que a “mulher só era útil à poesia quando metáfora”. O português então se levantou e deu um tapa no espanhol. A rivalidade entre as nacionalidades, afinal, é histórica. Mas é compreensível o descontentamento do português com a colocação do espanhol.
O inglês achava aquela discussão toda muito frívola e buscava com os olhos alguém que lhe pudesse trazer um chá. O francês, por sua parte, ponderava como aqueles homens podiam ser estudados e admirados. Era, certamente, um equívoco de historiadores pouco zelosos.
A preocupação do francês, segundo colocou tão pronto o inglês sentou-se com seu chá, era que os poetas no transcorrer das gerações, tivessem falhado em capturar a essência do feminino. “Talvez por estarem inebriados pelo néctar”, pontuou o espanhol sorridente. “Mas e o que dizer dos poetas homossexuais?”, retrucou o americano. “Esses foram os que chegaram mais perto”, devolveu o francês e emendou a pergunta: “Os senhores não amaram?”
O português, novamente, se ofendeu com a pergunta. Mas antes que pudesse estapear o francês, o escandinavo bradou pela primeira vez. “Talvez o problema esteja aí”. Silêncio. Esperavam um complemento do raciocínio, mas ele não veio.
O americano deflagrou, então, alguns versos:

“Women are not science
Women are divine in flesh
Life in silence
Caos in math
Glory in reverse ”

Os poetas entreolharam-se. Estavam todos perdidos. Talvez mais do que aqueles que os leem.