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O amor acabou

Meu casamento está em vias de acabar. Não é minha culpa. A gente vinha se afastando lentamente, mas eu ainda preservava um grande carinho. Vivemos muita coisa juntos, aprendi muito mesmo com ela. Repito, a culpa não é minha. Estávamos ensaiando uma volta, mas ela me traiu. Novamente. Foi assim, a tv Cultura acabou com o Entrelinhas. Penso em fazer minhas malas.

Para quem não sabe, a tv Cultura é uma emissora do Estado de São Paulo, filha de ninguém menos que Assis Chateaubriand e irmã da tv Tupi. O pai já se foi e ela ficou sob custódia estatal. Daí que, mesmo casada comigo, o comportamento dela varia conforme o tutor.

Tenho ótimas lembranças de infância da tv Cultura. Da minha infância, bem entendido. De assistir ao “Rá-tim-bum” e “Bambalalão” sob os protestos do meu irmão, que queria Xuxa e Sérgio Mallandro . À tarde, ainda tinha o “Fanzine”, com o Marcelo Rubens Paiva, do qual eu entendia pouco nos meus oito anos, exceto que era pra gente mais velha e descolada. Pré-adolescente, escolhi minha profissão por causa da má influência que as entrevistas de Luca Mendes, então correspondente em Nova York do Metrópolis e do Jornal da Cultura, com gente tipo Leonardo Di Caprio, Tom Hanks e Julia Roberts. Talvez eu amasse mesmo o cinema e não o jornalismo, mas divago.

E depois ainda teve a fase com “Tintim”, “O mundo da lua”, “Doug Funny”, “Confissões de Adolescente” e “Anos incríveis”. À tarde, ainda passava um programa de ciências, “O professor”, que me garantiu aprovação no vestibulinho da escola técnica que cursei e mais de uma vaga de emprego.

Depois a gente foi se distanciando. Havia pouca coisa que se destacasse pra mim, além do Metrópolis e do Vitrine, que assisti sob os mais diversos apresentadores. A crise veio firme mesmo com a Marília Gabriela. Marília Gabriela, não tem desculpa! E no Roda Viva, ainda? Cheguei a encaminhar ao santo papa o pedido de nulidade do meu casamento com a emissora. No mínimo, eu iria declarar que ela não era quem eu pensava ser, de maneira nenhuma.

Não sei quem a levou até a verdade, mas obrigada, Senhor. Pelo menos esse sacrilégio não foi tão longe.

E agora essa do fim do Entrelinhas! O único programa em tv aberta que falava de literatura. Era só meia hora semanal, mas com entrevistas de gente como Lilia Schwartz, Alain de Botton, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Joe Sacco, Adriana Falcão… Honestamente, não tem explicação. Como vou acreditar nela novamente depois disso? E só pra citar, na tv a cabo tem emissora grande investindo nisso.

É isso, vou sim fazer as minhas malas. Combinarei as visitas às crianças para segundas, às 22h. Isto é, se a Marília Gabriela não voltar a aparecer por lá.

Aline Viana

Ps. A programação do Entrelinhas pode ser conferida na internet, é só por o dedinho aqui!

PS2. Se você também acha que a tv Cultura deve voltar ao bom caminho e continuar a produzir o “Entrelinhas”, junte-se aos bons, aqui!