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O pior da geração Coca Cola

Os filhos da revolução hoje são pais do comodismo.

O que antes era uma forma de liberdade, agora é uma limitação de pensamento, pessoas que só querem sombra e água fresca, sem  stress de ficar brigando aqui e ali por mudanças éticas, como se aquilo que não fora transformado naquela época já não tivesse mais jeito e precisasse ser engolido a seco. Não somos mais os mesmos e nem queremos viver como nossos pais e eles precisam entender isso.

Essa tal geração coca-cola hoje está choca e sem gelo, perdeu a noção de que não se pára de lutar, de que o passado é a visão de um futuro próximo e, quem sabe, um futuro ainda doente. A decepção de não ter conquistado cada um dos objetivos traçados à época rechaça toda e qualquer nova tentativa de transformação rumo a um futuro melhor, destrói a expectativa criada pelo exemplo dado justamente por eles, que eram heróis, que não queriam dinheiro e só queriam amar – mas que agora não estão nessa e só querem sossego.

Talvez por medo é que decidiram tolher as armas ideológicas dessa nova safra, armas aquelas capazes de mover o mundo, de mover montanhas ou de mover pessoas de um lugar para nenhum outro – ou ainda para onde for necessário para o momento. Para eles, esse mesmo momento – o agora – não é mais para pensar e lutar, o tempo bom já se foi e não volta mais, isso é tudo o que temos para hoje e ponto. O detalhe é que a galera, que antes era cheia de gás e gosto, não percebe que esse tal ponto não é um ponto final, mas que ele vem acompanhado da vírgula, que ele é um ponto e vírgula, apenas uma pausa para pensar sim!, para lutar sim!, um momento de preparação para a nova revolução. Por isso é que a gente continua, que vai à luta e conhece a dor.

O pior da geração coca-cola é que ela deixou, sem perceber, resquícios de uma esperança que queima como fogo em mato seco, que se alastra rápido. E aí não tem o que argumentar, não tem justificativa que nos pare, ninguém vai nos segurar com a bunda exposta na janela, porque deu pane no sistema e alguém nos desconfigurou: segura as pontas seu Zé, que a vida agora vai melhorar.

 

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Quando acontecer

São muitos os assuntos que viram polêmica em nosso cotidiano; começam e terminam em um tempo cada vez menor, como se disputassem o recorde de menor duração. Também parecem brigar pelo pódium de qual é mais absurdo, qual é prioridade, qual merece mais mensagens e repercussão. Como se fosse isso mesmo que importasse, no final das contas. E logo depois são esquecidos.

Temos inumeráveis filósofos internéticos soltos por aí, todos eles estão sempre transbordando de razão, todos dominam a arte da crítica maior – a Maiêutica -, a arte dominada pelos sábios da antiguidade, como se fossem o próprio Sócrates: falam, falam e falam pelos cotovelos, cobertos de razões facebookianas, disparam memes como se fossem curas instantâneas, mas esquecem que falam pela boca de outrem.

Esquecem que há quem fale primeiro, há quem esconda a fala e há quem esconda a si mesmo na fala dos outros. O que faz dessas filosofias vãs e, na verdade, apenas brigas de ego. Essas brigas, na verdade, nos fazem esquecer do que realmente é o pior, daquilo que, sobretudo, é o mais importante: que não damos valor a quase nada. Pior: de que damos valor às coisas erradas.

Quando esses tais filósofos contemporâneos realmente estiverem dispostos a qualquer mudança, a primeira será de suas próprias mentalidades, de suas próprias ações. Pensar antes de falar; investigar para pensar; observar para investigar.

Quando isso acontecer… Ah… quando acontecer… Será a revolução!


Uma falsa esperança

 

Há um ano atrás eu escrevi sobre a Revolução Constitucionalista de 32 e trouxe um resumo muito do sem-vergonha sobre o que foi e o que significou para São Paulo – justificando, assim, o feriado estadual. E há um ano parecia que toda essa luta havia ficado para trás, sendo lembrado apenas como parte da história – história essa que nem mesmo o próprio paulista sabe bem qual é. Fico triste de chegar nessa constatação, já que há muito ainda que justificaria uma boa revolução, mas o povo…

Opa. Peraí, porque tem algo diferente pra ser contado: é que dentro desse um ano tivemos uma grata surpresa, ocorrida há menos de dois meses, quando uma parte considerável da população da maior cidade do Brasil resolveu calçar as tamancas e fazer barulho por aí, pedindo mudanças. Gritavam, pulavam, xingavam – e quebravam também! -, assim como fizeram há mais de oitenta anos, exigindo o cumprimento de deveres e a verdadeira aplicação dos direitos. Lindo de ver! E a coisa pegou, porque se espalhou por todo o país, levando mais de um milhão de pessoas às ruas.

Até então era possível pensar que o brasileiro não se importava com sua nação, que estava acomodado, vencido por uma força opressora invisível chamada capital. Parecia que os cidadãos haviam desistido de lutar, invalidando o que os nossos antepassados (pais, avós, tios…) fizeram pela cidade e por um futuro melhor para as gerações seguintes. Mas não!, a multidão se encarregou de dar o recado, de dizer que o povo acordou, que cutucaram o gigante chamado “Saco-cheio” que vive em cada um de nós, forçando o inimigo – travestido de Governo – a recuar em suas tiranias. E então deixamos as redes sociais de lado, paramos de blablablas e mimimis, batemos no peito para cantar o hino nacional e conquistamos a primeira vitória! Diferentemente do que aconteceu em 32, São Paulo venceu e venceu para os paulistanos e também para todos que a cidade um dia acolheu.

Havia chegado a hora, a nossa hora. Começamos a exigir educação, saúde, segurança, honestidade, transparência e a exigir melhorias aqui e ali. E aí… Ué acabou? Já? E toda aquela gana, aquela sede por mudanças justas, toda aquela multidão em uníssono? Será que houve, então, a verdadeira vitória ou apenas caímos no engodo das famosas ações paleativas?

Temo pensar muito e acabar chegando à conclusão que tudo não passou de fogo de palha, que apenas tenhamos nos distraído com os comerciais de uma partida de futebol, e mais: que depois que o intervalo acabar, voltemos ao estado vegetativo de sempre. Parece é que os tais homens do poder fingiram ouvir, fingiram mudar e então nós fingimos democraria.

Fui inocente em acreditar que meus netos estudariam sobre a revolução ocorrida em 2013, ou do Vinagre, ou dos R$0,20, seja lá qual o nome seria dado ao movimento. Senti no coração uma alegria pulsante, desejosa de ir além. Hoje imagino que tudo não passará de uma explosão que não levanta poeira. E então nós voltamos para a frente da tevê achando que tínhamos cumprido com a nossa parcela de cidadão. Pensei que havíamos nos contagiado com o espírito de 32, mas acho que pensei demais.

E um ano depois, todo o significado do levante paulista foi enterrado, perdido, trancado a sete chaves para não ser achado. No fundo, tudo continuou, sim!, como estava antes.


…cai, não fica nada!

É lindo ver as ruas cheias, pés em movimento, ânimos inflamados. Mas é triste ver que as bocas estão murchas, cabeças ainda estão ocas e os corações são vazios. Porque lutar não é bater no peito, dizendo-se acordado; não é se juntar pela emoção, não é responder o coro. Para esses, os heróis morreram de overdose, vencidos, lembrados apenas por uma verdade que eles mesmos deixaram para trás. Hipócritas.

Quero mesmo é ver gente que sabe o que diz, que arregaça as mangas, que defende em pé, pela razão, que leva o coro, cujos ídolos sabem que esperar não é saber e que fazem, sem esperar que as coisas aconteçam por acaso.


Não é mais do mesmo

Então era isso que a dona Dilma tinha para falar. E pelo que se pode perceber pelas redes sociais, o povo não curtiu nem um pouquinho o que ela disse para toda a nação. Estão comentando por aí que o discurso não trouxe nada de novo, que a gente já sabia tudo isso de cor, blablabá. Será mesmo?

Por que, pensando bem – e lendo o discurso com bastante atenção –, ela disse, sim!, muita coisa. Brasileiras e brasileiros que a ouviam estavam banhados de pré-conceitos, predispostos a não gostar do que ouviriam e sequer se deram conta do que, no fundo, foi dito. A coisa é bem diferente e não se trata de mais do mesmo.

Note que logo no comecinho, ela tratou as manifestações populares como “uma nova energia política”, e talvez a pessoa que elaborou o texto não informou à presidente1 o peso que isso, na realidade, tem. Porque se existe uma nova energia política, existe também uma nova situação política, em que as condições são diferentes das anteriores e, portanto, passíveis de remodelagem. Ué, não é justamente isso que a gente queria? Não é esse um dos motivos pelo qual saímos às ruas? Já temos a fome, mas nos falta ainda a faca, o queijo e a vontade de comer.

Mais adiante ela confirma algo de que a gente só percebeu recentemente: que a união do povo tem força – e muita! – e que será dessa forma que conseguiremos atingir os nossos objetivos enquanto cidadãos. Ou ninguém escutou a dona Dilma dizendo que “temos que aproveitar o vigor das manifestações para produzir mais mudanças”? Por um acaso, alguém prestou atenção no mais que apareceu nessa frase? De todos os que estiveram clamando por um país melhor, será que um de vocês, ao menos um!, entendeu o que essa palavra pode vir a significar? Pois foi assim que ela nos entregou de bandeja o poder de produzir essas tais mudanças. Ou seja, ganhamos a faca.

Em seguida, nossa presidente comunica que vai “receber os líderes de manifestações pacíficas, os representantes das organizações de jovens, […] associações populares”. Partindo disso eu pergunto: quem serão os próximos a reivindicar? Qual o próximo objetivo a alcançar? Qual será o próximo movimento popular que levará milhares de pessoas às ruas para lutar por melhores condições de vida, por educação, saúde? Porque, notem, foi exatamente isso que ela mesma nos disse!, que receberá o povo brasileiro, que ouvirá nossas queixas e propostas. Os mais acomodados dirão que é inocência minha acreditar que haverá esse diálogo, mas eu digo que é burrice de cada um de nós que não usar as palavras dela a nosso favor! Imaginem milhões de pessoas, na frente do Palácio dos Bandeirantes gritando, urrando que ela nos ouça como prometeu. Garanto: ela não terá condições de voltar atrás no que disse em rede nacional. E com isso nos tornamos detentores da fome, da faca e agora, também, da vontade de comer.

Tudo o que nos faltaria, então, seria o queijo, mas a dona Dilma o ofereceu momentos depois quando admitiu por duas vezes que o cidadão é a peça mais importante de todo esse jogo. Foi dito com todas as letras que é a cidadania […] quem deve ser ouvido em primeiro lugar e, pasmem!, a presidente disse, também, que existe a necessidade de se fazer um esforço para que “o cidadão tenha mecanismos de controle mais abrangentes sobre os seus representantes”. Ela jogou na nossa cara, assim, sem dó nem piedade, bem escancarado, que nós não cobramos o que nos prometeram, que somos um bando de conformados-acomodados – não necessariamente nessa mesma ordem.

E aí pareceu que o queijo estava meio azedo, ruim de engolir, só porque ela falou que os royalties do petróleo seriam aplicados na educação, ou ainda sobre a importância da copa do mundo2 para o Brasil. Soa esquisito, é verdade, se a gente estiver focado somente no umbigo da população; mas faz um pouco de sentido quando se amplia o olhar para enxergar o horizonte, porque essa é a função primária da dona Dilma, que, na posição de presidente, precisa olhar para a coisa como um todo. Mas ficou um gostinho de azedo porque o tom do discurso foi realista, e como estamos todos vivendo de emoção, ninguém quis tentar entender.

Não, não apoio o governo e repito: não apoio o governo! Também não estou contra, não me enquandro em direita, ou esquerda, tampouco estou em cima do muro. Estou é no meio do povo, querendo mostrar a todos que já conseguimos mudar algumas coisas e ainda que tudo isso se resuma no discurso do poder executivo de nosso país, foi o primeiro passo. Como um bebê, estamos engatinhando, para depois ficar em pé e, por último, correr.

A chance está aí, nas nossas mãos. A presidente confirmou que juntamos a fome com a vontade de comer, e assumiu que estamos com a faca e o queijo na mão. Agora é que entra o slogan: depende de nós.

Mas se a gente achar que fizemos a revolução só porque fomos às ruas, não seremos mais do que uma questão de cinco alternativas do quesito Atualidades dos vestibulares dos próximos anos. Apenas teremos mudado a história desse país se nos movimentarmos cada vez mais, com objetivos cada vez mais profundos e direcionados, inundados de clareza e discernimento. Quem vive de Facebook é o Zuckerberg; o Brasil vive dos seus brasileiros. Se o gigante acordou de verdade, é hora de pensar no próximo passo.

Acesse aqui o link para o discurso completo.

Pequenos e rápidos pareceres gramaticais:

1. Terminantemente, me recuso a infringir a língua portuguesa dizendo presidenta.

2. Meu conceito de copa do mundo me impede de imputar-lhe a letra maiúscula.