Arquivo da tag: relacionamentos

Felicidade absoluta

Ao lado do cartaz de “Silêncio”, na casa de repouso havia outro, “Não aceite sorvete em um primeiro encontro”. Para quem vinha visitar os parentes mais idosos, o anúncio parecia absurdo ou talvez, quem sabe, alguma brincadeira interna. Mais adiante, no corretor para a sala de pintura, havia outro que recomendava “Leve seu próprio café quando for à biblioteca”.

O diretor hesitou muito em autorizar aqueles avisos, mas ele havia recebido a visita de dois investigadores da polícia que haviam insistido sobre aquilo. A “viúva negra” havia cumprido sua última pena e estava solta novamente. Rumores de que ela voltara à ativa deixaram o departamento em estado de alerta. O delegado consultou a polícia federal que indicou a necessidade de um intenso trabalho preventivo.

Porém, os parentes não haviam sido avisados sobre os trabalhos. E acharam um absurdo. Uma filha se queixou que o pai não era nenhuma criança para ser proibido de aceitar doces de desconhecidos. E ela ainda disse que o pai poderia aceitar o que quisesse de quem quisesse porque ele era um homem lúcido e, no mais, poderia comprar o que quisesse com a mesada que ela lhe deixava todas as semanas.

O pai ria por dentro, sem disfarçar muito. Não disse nenhuma palavra pra defender o diretor ou apoiar a filha. Eles que eram brancos que se entendessem, de onde ele estava agora, ele era plateia do circo e queria mais era continuar vendo o fogo tomar conta.

Um filho advogado da dona Cléo, que ocupa um dormitório no segundo andar, achou que a história era um mero conto de policiais ineptos até para disfarçarem a própria incompetência. Não havia lido nada nos jornais sobre a fuga de nenhuma “viúva negra” e a mãe dele não era nenhuma ingênua. Ela que fizesse amizade e saísse com quem quisesse.

A neta do velho Heffner, aquele safado que havia criado uma revista pornô décadas atrás, foi das poucas que apoiou a iniciativa da direção do instituto. Não faltavam mulheres sem-vergonha querendo fazer o coitado do avô se desfazer do espólio, por isso a família o abrigou num lugar discreto, onde ele ficasse protegido da maldade do mundo. Aliás, justamente por proteção ao patrimônio, digo ao idoso, lá todos o conheciam por Jeremias. Por via das dúvidas, Jeremias passou a ser seguido em suas caminhadas no fim da tarde por dois seguranças à paisana.

Susanah, a viúva negra, porém, ainda tem algum dinheiro na poupança. E pode sondar o terreno antes de soltar seu charme no próximo solteirão. Ela sabe que a polícia está à espreita. O tempo é seu amigo, com 65 anos parecia ter dez a menos – era o que todos diziam. De consciência tranquila, justificava-se dizendo que amava seus ex-companheiros.  “Dou a pobres homens solitários seus últimos dias de felicidade absoluta. E eles querem me retribuir, que mal tem se eu aceito esse carinho deles? No fim, eles morrem disso, de felicidade, tadinhos”, disse ela toda cândida ao juiz de seu último caso.

 

Inspirado na notícia: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2016-03-21/uma-criminosa-esta-morando-na-comunidade-a-volta-da-viuva-negra-da-web.html

Anúncios

O caso da argentina

Imagem: María Pachón - https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Imagem: María Pachón – https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Ele não viu quando saí do carro. Me enfiei no banheiro feminino e fiquei lá tempo suficiente para ele abastecer uns três daquele jipe estúpido dele.  Mal notei o cheiro carregado daquele cubículo mal ventilado, com papel higiênico que brotava do lixo, das paredes, do chão…

Escapei, pensei.

Não, mas foi por tão pouco!

– Dona, o seu marido acabou de sair!

Eu ainda tentei disfarçar, fingir que não entendia o idioma do sujeito.

– Yo no hablo portugues. No te entiendo.

E o frentista desesperou. Chamou o gerente. Contou também pra mocinha da loja de conveniência.

O gerente arriscou um portunhol.

– Señor, lo siento, no te entiendo. No te preocupes, voy a encontrar una parada de taxis y ya me voy. No necesita preocuparse.

– Tu marito se fué, senhora. Tienes um celular? Se não, podemos ligar da minha sala, no te avexes.

Fez a mímica universal com dedos, simulando um telefone.

Como dizer que eu não sabia o número de Ezequiel?

– Es una conexión internacional, es caro, señor, no te preocupes. Yo lo llamo un taxi y en la próxima me detengo acuerdo, señor.

Ele já ia 100 km adiante, quase chegando no Espírito Santos, me explicou o frentista desenhando números e rabiscos numa caderneta e apontando um mapa na parede da sala do tal gerente .

Ezequiel fez a parte dele, é justo que eu admita. Disse que não entendia o que diziam ao telefone, que não perdera nada, que o menino estava a brincar com o tablet bem ao lado dele. Até uma foto minha mandaram pro celular do maldito.

Não teve jeito.

Ele voltou. Seguimos juntos.


Os argentinos ficaram

A mãe finalmente morrera.

A casa ainda fedia à velha.

A única filha já tinha limpado o quarto que havia sido da velha Tônia. Doara as roupas à Igreja porque havia outros velhos que não tinham sequer um filho ressentido com quem gritar. Que dirá pra lhes vestir, alimentar, medicar.

Os vizinhos do apartamento da frente iriam se mudar.

Restaria o casal do lado. Que tem uma filha loira, esportista, linda. Deus queira que aquele homem não morra, pra aquela menina não viver o mesmo horror que ela vivera, cuidar de uma mãe gorda e decrépita até a morte.

E os vizinhos do 72 eram argentinos. Argentinos são ladrões, todo mundo sabe. Agora, Sandra nem descia o lixo sem dar duas voltas na chave e pedir pra velha passar a tranca por dentro.

Agora a velha morreu. Só que os argentinos ficaram.

Pensou em perguntar ao casal da frente para onde eles iriam, se não teria nenhuma casa à venda por perto.

Mas devia ser algum lugar caro, que não dá pra uma mulher falida por ter sustentado uma velha por vinte e cinco anos pagar. Eles são jovens. São bonitos. Mudar é algo que não faz mais parte da vida dela. Melhor não perguntar. Por que eles iriam querer tê-la como vizinha de novo? Melhor não perguntar.

O cheiro da morte ainda estava no apartamento. Ela teria que prender a respiração por um tempo. Mas ela já estava acostumada, era o cheiro da velha.

Velha Tônia, sai daqui! – Sandra se viu dizendo. E depois riu sozinha. Ninguém retrucou. Ninguém retrucaria mais, era isso. E ela estava como a outra, a mãe, velha e louca.


Limite

Mariane queria ele fosse feliz depois que eles terminaram o namoro.  Feliz mesmo, de verdade. Só que felicidade de ex precisa ter limites, né? Quem quer ver o sujeito dando pulinhos de alegria logo depois de a relação ter terminado?

Era o que ela pensava.  Não era justo e sequer era saudável ver o outro publicar fotinhos com a nova companhia na Disney, cozinhando juntinhos, correndo no Ibirapuera. E mesmo que as fotos fossem só dele malhando sorridente, ou caindo na balada com a turma, também não era legal. Tinha que haver um período de luto, até uma psicóloga dizia isso num site.

Ela sim, ainda estava assimilando a nova fase de vida, revendo quais amigos ainda iriam falar com ela depois de três anos de namoro perdidos com aquele infeliz, em qual curso ela iria se matricular pra manter a mente ocupada e, principalmente, para onde iria viajar pra não ouvir a mãe a acusando mais uma vez pela escolha errada, que a enterrou ainda mais baixo no buraco das encalhadas.

E o sujeito estava lá, com o sorriso Colgate. Felizão. Nem parecia que tinha sofrido uma perda tão grande. Afinal, deixar de namorar com ela, uma moça bonita, trabalhadora, boa cozinheira e disposta a tentar manobras da revista Nova (e até da Vip) na cama, era sem dúvida, uma baita perda, né?

Olha, feliz, tudo bem, mas daquele jeito já era afronta, disse Mariane à única amiga que a visitou na clínica. Sim, agora ela estava numa clínica para pessoas que amam demais. Tudo porque ela havia ameaçado Gus, o ex. “Só ameacei, minha gente, não significa que eu fosse fazer nada, né?”, disse ela ao diretor do manicômio, perdão, da clínica.

Ameaçou mesmo. De mutilação física. Mais especificamente, da ferramenta que mais proporcionava alegria ao cidadão que ela mesma havia dispensado.  Tudo flagrado pelas câmeras do prédio deles, aliás, dele, agora que ela havia saído de casa.

Dispensou porque ele a traiu com a recepcionista do escritório, aquela peituda nojenta com as pernas coalhadas de celulite. Ela pegou os dois em flagrante. Ela era a vítima! Era ela quem estava traumatizada. E agora ela estava enquadrada na Lei Maria da Penha. Tinha que fazer tratamento e tal. Só que Mariane nunca o amou demais. “Nunca amei demais aquele desgraçado, que fique bem claro! Eu gostava dele e só. O que ele fez depois foi uma puta falta de respeito. Falta de respeito, viu?!”, disse à amiga. Lidiane não contou nada às outras sobre a visita. Porque, no fundo, ela apoiava a atitude da amiga. Era melhor não dar na vista.


Sonora

Delícia é quando a gente lembra exatamente como o outro fala. É como se o áudio ligasse na nossa cabeça e a mensagem ou o e-mail fossem sendo lido como nas cartas mágicas do Harry Potter.

É ver os “hehehe” de um amiga, antiga chefe minha, nas mensagens que ela envia de Olinda, pra querer rir junto só de lembrar a risada dela, engraçadíssima e contagiante.

Outro manda mensagem no celular e lá estou eu novamente feliz, como se estivéssemos juntos no pátio da escola, eu abraçada, recebendo cafuné, ouvindo os acontecidos e fazendo planos.

Tem a voz da minha mãe, que não é particularmente bonita nem sonora, mas me acompanha há tanto tempo, que só de ouvir já parece que o peito acalma e as coisas vão se resolvendo como se fossem simples como na infância. Sim, porque infância qualquer assunto se resolve com um beijo da mãe e uma noite bem dormida. Mas ela não me escreve pois tem pavor de celular e internet. É uma pena, pois já não acordo com os bilhetes dela, na mesa da cozinha (“Filha, fui ao médico. Já comprei pão. Faça arroz pra gente almoçar e não perca a hora de ir pro colégio. Beijos, mamãe).

Não sei se quando escrevo consigo transmitir isso aos outros. Sequer sei se tenho uma linguagem que soe mais minha do que o tagarelar das outras gentes. Também não sei se tem alguém que realmente goste tanto assim da minha voz para querer que eu atinja essa transcendência literária. Mas, sim, me escrevam, escrevam sempre.


Meu lado enrugado

Consigo me ver velha, quase reacionária, ligando para o Psiu para denunciar o bar ao lado de casa, onde alguém esgoela um antigo sucesso de Adele. Penso que aquele sucesso foi cunhado exclusivamente para perdurar, se não por méritos próprios, como mostra do alcance vocal nos shows de calouros da eternidade e além.

É alguma moça que almeja se tornar uma crooner para os milhões de brasileiros, quem está me perturbando nesse momento e me levando a essa viagem na autocrítica. Crooner é uma palavra que não ouvi sequer nos meus tempos de menina. Velhice é pegar pra si os termos que já eram velhos quando a gente ainda mal sabia o que era doce e o que era salgado.

Envelhecer, alguém dirá, é algo que acontece desde que a gente nasce. Mas até começar a doer as articulações a ponto de impedir a caminhada – caminhada mesmo, não corrida – a gente não se dá conta. No espelho, vejo que as linhas de expressão tingem apenas um lado do rosto. Garanto que, ao sorrir, sempre doei a face inteira à alegria. Não entendo o que houve.

Serei uma velha bizarra. Com rugas exclusivas do lado esquerdo e marcas de desgosto vincando apenas o lado direito. Os netos, meus ou emprestados, acharão graça porque não lhes farei medo e me chamarão apenas de caduca. E confirmarão o diagnóstico, ao ver-me sempre com os fones de ouvido pendurados no pescoço, como as velhas de minha infância andavam com os óculos.  Certeza eu tenho de que não lhes darei bola, meus ouvidos serão sempre seletivos.


Selfie

Mônica arrombou a vitrine de uma loja. Pegou um vestido preto, com detalhes em renda na barra e paetê no busto. Totalmente o seu estilo. Fez isso porque mais tarde irá a uma festa. Na festa vai fazer várias selfies. Ela não tinha mais roupa nenhuma, quer dizer, quase nenhuma inédita, o que é praticamente a mesma coisa. Quem se lembraria de uma produção repetida? Qualquer um que abrisse seu perfil no Facebook. E tem quem faça isso? Mônica faz. E se ela faz, os outros também. A Alicia é uma que vive fazendo isso (repetindo roupa), muda o brinco, o sapato, faz do vestido blusa ao enfiá-lo por dentro da calça, mas é óbvio que dá pra reconhecer. As pessoas reparam, sim. E comentam como ela, Mônica, anda sempre bem vestida. A única roupa repetida que ela se permite é aquela legging preta, com a malha com capuz também preta que é capturada pela câmera do shopping – são peças exclusivas para os crimes fashion. Mas o retrato não é dos melhores, ela já estava com uma perna do lado de lá do muro. O coque do cabelo cacheado, preso sob o capuz, já soltava algumas pontas, mas ainda parecia um desleixado calculado.  Os policiais apreciaram o ângulo do flagra, admirando os glúteos da nova ladra da cidade. “Que flexibilidade!”, um deles comentou ao repórter do Diário. “São as aulas de ioga, seu lindo”, pensou Mônica ao ler a notícia. Pena é que não poderia usar o vestido rendado essa noite, daria muito na vista. A matéria sobre o furto estava sendo compartilhada por todos os conhecidos nas redes sociais, um saco. Só porque era uma loja Vip. Teria que vestir o outro vestido, um de couro, super sexy, que ela vinha reservando para uma ocasião de extrema necessidade, quando não tivesse um puto na conta ou não conseguisse dar algum pulo. Porque, sinceramente, quem consegue comprar tanta roupa trabalhando, né?