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Os argentinos ficaram

A mãe finalmente morrera.

A casa ainda fedia à velha.

A única filha já tinha limpado o quarto que havia sido da velha Tônia. Doara as roupas à Igreja porque havia outros velhos que não tinham sequer um filho ressentido com quem gritar. Que dirá pra lhes vestir, alimentar, medicar.

Os vizinhos do apartamento da frente iriam se mudar.

Restaria o casal do lado. Que tem uma filha loira, esportista, linda. Deus queira que aquele homem não morra, pra aquela menina não viver o mesmo horror que ela vivera, cuidar de uma mãe gorda e decrépita até a morte.

E os vizinhos do 72 eram argentinos. Argentinos são ladrões, todo mundo sabe. Agora, Sandra nem descia o lixo sem dar duas voltas na chave e pedir pra velha passar a tranca por dentro.

Agora a velha morreu. Só que os argentinos ficaram.

Pensou em perguntar ao casal da frente para onde eles iriam, se não teria nenhuma casa à venda por perto.

Mas devia ser algum lugar caro, que não dá pra uma mulher falida por ter sustentado uma velha por vinte e cinco anos pagar. Eles são jovens. São bonitos. Mudar é algo que não faz mais parte da vida dela. Melhor não perguntar. Por que eles iriam querer tê-la como vizinha de novo? Melhor não perguntar.

O cheiro da morte ainda estava no apartamento. Ela teria que prender a respiração por um tempo. Mas ela já estava acostumada, era o cheiro da velha.

Velha Tônia, sai daqui! – Sandra se viu dizendo. E depois riu sozinha. Ninguém retrucou. Ninguém retrucaria mais, era isso. E ela estava como a outra, a mãe, velha e louca.


Limite

Mariane queria ele fosse feliz depois que eles terminaram o namoro.  Feliz mesmo, de verdade. Só que felicidade de ex precisa ter limites, né? Quem quer ver o sujeito dando pulinhos de alegria logo depois de a relação ter terminado?

Era o que ela pensava.  Não era justo e sequer era saudável ver o outro publicar fotinhos com a nova companhia na Disney, cozinhando juntinhos, correndo no Ibirapuera. E mesmo que as fotos fossem só dele malhando sorridente, ou caindo na balada com a turma, também não era legal. Tinha que haver um período de luto, até uma psicóloga dizia isso num site.

Ela sim, ainda estava assimilando a nova fase de vida, revendo quais amigos ainda iriam falar com ela depois de três anos de namoro perdidos com aquele infeliz, em qual curso ela iria se matricular pra manter a mente ocupada e, principalmente, para onde iria viajar pra não ouvir a mãe a acusando mais uma vez pela escolha errada, que a enterrou ainda mais baixo no buraco das encalhadas.

E o sujeito estava lá, com o sorriso Colgate. Felizão. Nem parecia que tinha sofrido uma perda tão grande. Afinal, deixar de namorar com ela, uma moça bonita, trabalhadora, boa cozinheira e disposta a tentar manobras da revista Nova (e até da Vip) na cama, era sem dúvida, uma baita perda, né?

Olha, feliz, tudo bem, mas daquele jeito já era afronta, disse Mariane à única amiga que a visitou na clínica. Sim, agora ela estava numa clínica para pessoas que amam demais. Tudo porque ela havia ameaçado Gus, o ex. “Só ameacei, minha gente, não significa que eu fosse fazer nada, né?”, disse ela ao diretor do manicômio, perdão, da clínica.

Ameaçou mesmo. De mutilação física. Mais especificamente, da ferramenta que mais proporcionava alegria ao cidadão que ela mesma havia dispensado.  Tudo flagrado pelas câmeras do prédio deles, aliás, dele, agora que ela havia saído de casa.

Dispensou porque ele a traiu com a recepcionista do escritório, aquela peituda nojenta com as pernas coalhadas de celulite. Ela pegou os dois em flagrante. Ela era a vítima! Era ela quem estava traumatizada. E agora ela estava enquadrada na Lei Maria da Penha. Tinha que fazer tratamento e tal. Só que Mariane nunca o amou demais. “Nunca amei demais aquele desgraçado, que fique bem claro! Eu gostava dele e só. O que ele fez depois foi uma puta falta de respeito. Falta de respeito, viu?!”, disse à amiga. Lidiane não contou nada às outras sobre a visita. Porque, no fundo, ela apoiava a atitude da amiga. Era melhor não dar na vista.


De volta à casa

Quarenta e cinco dias depois, a criança reapareceu exatamente de onde tinha sumido, a rua da feira. Era como se alguém houvesse esquecido de checar se deixou os óculos na bancada da pia do banheiro ou no criado-mudo do quarto e dê repente batesse o olho lá, por acaso, e fim da história.

A mãe recebeu incrédula a notícia porque já tinha perdido a conta de quantas vezes voltou ao local onde ficava a barraca de temperos e olhou em cima, em baixo, nas lojas próximas e nada da sua pequena. A menina tinha quatro anos, o cabelo ela estava usando com franjas e preso com maria-chiquinhas, como ela gostava, e vestia o casaquinho que a avó havia dado de presente porque garoava no dia do sumiço.

O pai olhou a mãe também surpreso. Ele refez o caminho da mulher e da criança tantas vezes que até dormindo continuava as buscas. Colou cartazes nos postes, com o anúncio de “procura-se” e os dados para contato. E visitou todos os dias os hospitais, parques infantis e até o necrotério, onde era recebido com uma incômoda e, a àquela altura inevitável, familiaridade.

Pai e mãe começavam a desconfiar que não tinham tido filha alguma. Nunca. Que sofriam de algum tipo de alucinação. Um delírio coletivo que envolvia também os pais deles, os irmãos, o médico e os professores da escolinha.

Os policiais eram os únicos que eles sabiam estar de fora desse surto. O olhar deles dizia o suficiente ao casal: se honestos, não poderiam ser mais inadequados para serem pais; se mentirosos, queriam o dinheiro que a pena dos outros rende.

Acompanhada por uma policial e por uma assistente social, Danizinha chegou em casa. Deu um beijo na mamãe, outro no papai e pediu uma caneca de chocolate quente. Buscou o ursinho preferido no quarto, ligou a tv no desenho e não disse mais nada porque estava mesmo em casa.


A fita do jornalista

O trabalho da moça era transcrever fitas. Quer dizer, fita não tem mais já faz tempo. Eram arquivos de áudio. Mas o trabalho permanecia o mesmo. Tinha fita de estudante de medicina que preferia dormir na aula e pegar o conteúdo depois. Fita de sessão judiciária – era público e notório que as audiências sem júri eram uma chatice sem fim, Vossa Excelência. Fita de sessão parlamentar – sempre um parto para descobrir quem era o nobre deputado da voz esganiçada, o da voz rouca ou aquele que parecia pastor de periferia. E tinha as fitas dos jornalistas, as preferidas dela, Glorinha, porque pelo menos tinha um que falava claramente e outro que contava as barbaridades.

A fita não tinha nada de mais, era apenas a “Entrevista 03.05.mp3” numa pilha de pedidos para a próxima manhã. Coisa de seis a sete horas de áudio. Com a prática, ela demorava uma ou duas horas a mais que isso para concluir um arquivo de texto já inteiramente revisado. O tipo de luxo que custa caro para quem pede e rende pouco para quem faz.  Voltando ao nosso papo. A fita era de um jornalista, como não? Mas a voz marcante era a do interlocutor, um veterinário de cavalos que era um deleite. Suavemente áspera, de timbre seguro, jovem.

O dono daquela voz só podia ser um tipo espetacular. Moreno, de barba por fazer, olhos castanho-esverdeados, daqueles que ficam apertadinhos quando a pessoa sorri. Provável que não fosse solteiro, mas nesse caso, era só mudar de namorada – da outra para ela, Glorinha, obviamente. Nem o nome do entrevistado o relaxado do jornalista informou, fosse ao começo ou no fim da gravação!

Ela cogitou comprar a revista com a reportagem, não sabia quando seria publicada, mas isso era o de menos. Era só conversar com o senhor da banca, que ele guardaria um exemplar com a matéria daquele tal jornalista Renato Nero. Pena que assim, ela ia ter que ficar ouvindo apenas dentro do peito aquela voz narrando o que o jornalista selecionasse para o texto final.

Podia ligar lá na redação, também, e pedir o contato do tal veterinário selvagem, apelido íntimo que Glorinha dera ao futuro pretendente. Mas havia um problema: e se aquela grossura de fala fosse efeito do gravador? E, se pessoalmente, ele tivesse uma vozinha mais ou menos, como a de todo mundo?

Por via das dúvidas, ela salvou uma cópia do arquivo pra si. Até a matéria sair, ela podia bem ir se divertindo sozinha imaginando todas as sacanagens que ele ainda iria lhe dizer ao pé do ouvido.


Crônicas da Vagina – Caverna dos delírios

João estava com medo de fechar os olhos. Ele não tinha dúvidas de que teria o mesmo sonho que vinha atormentando-o há semanas. Mas os olhos se fecharam e lá estava ele. Tateando em meio à escuridão. A região era mucosa. João nada enxergava.

João gritava, gritava e seus gritos ecoavam pelas paredes da caverna. A caverna então começava a se contrair; as contrações eram fortes e faziam com que João se debatesse. A agonia terminava quando ele era expelido da caverna e acordava na cama.

O sonho já se repetia por semanas. João estava tomando remédios para ficar acordado. Sua mulher, que estava grávida, estava preocupada com o sonho. Ela via uma relação entre o sonho e uma possível rejeição de João a seu filho. Eles não faziam sexo desde a concepção. Não havia nenhuma razão especial para essa privação. Ela apenas se impôs rotineiramente.

João estava novamente na caverna. Dessa vez, porém, conseguia enxergar. As contrações o espremiam de tal maneira que a respiração era cada vez mais difícil. Ele se debatia. Excitou-se. Após o gozo foi expelido com mais delicadeza. As contrações não cessaram abruptamente, mas foram reduzindo gradualmente após o gozo de João. A última contração o expeliu suavemente.

Era o dia do nascimento de Thiago. João estava na sala do parto. Via sua mulher urrar,suar, chorar enquanto as contrações aumentavam. João se esforçava para disfarçar uma indesejada ereção. Sentiu um misto de raiva e pena de si mesmo. Não sabia ao certo se outros no recinto haviam notado sua excitação. Quando seu filho foi expelido, acordou.


Crônicas da Vagina – A ejaculadora em série

O que Ruth e Max mais gostavam naqueles encontros fortuitos das tardes de sexta-feira não era exatamente o sexo, mas o que vinha depois. Uma conversa que embaçava noções de intimidade, distância e anonimato. Ruth e Max falavam sobre seus pacientes, mas não como médicos falam de seus pacientes. As conversas eram sempre climáticas. Eles esperavam ansiosamente por aquele momento. O sexo era só parte das preliminares. O fetiche, a excitação estava em falar do desejo dos outros. De compartilhar segredos de alcova. Max era um sexólogo de certo prestígio na alta sociedade. Oito livros publicados, um até serviu de base para um filme argentino, coisa chique mesmo. Ele não atendia mais. Mas clinicou durante anos. Hoje, dava aulas e seduzia alunas que queriam ser seduzidas. Um clichê, mas um clichê bem resolvido. Ruth era terapeuta sexual. Sua rotina consistia em atender desde casais em busca de reascender a chama do casamento até ninfomaníacas, passando por pessoas com sintomas de frigidez, gays enrustidos, pessoas insatisfeitas com seus desempenhos sexuais e outros paradigmas tutelados por Freud e seus discípulos.

Naquela sexta-feira, Ruth provocou Max. “Duvido que você já tenha tratado de algo parecido com o que estou lidando agora”. Max ainda estava no chuveiro. “E eu duvido que você duvide que eu não tenha tratado”. Ela sentou-se na privada, ascendeu um cigarro e começou a contar.

“O nome dela é Marie. Pobrezinha. 19 anos. Tão francês, né?” E pausou como se esperasse uma reação de Max, que continuou a banhar-se. “Ela me procurou a coisa de três, quatro meses, mas eu estava esperando o caso amadurecer, se desenvolver para te contar. Marie poderia ser enquadrada em algum tipo de ninfomania. Ela gosta de sexo. Gosta muito. Mas não é algo que a domine, entende?”, Max acenou positivamente com a cabeça enquanto esticava o braço para pegar a toalha ofertada por Ruth.

“Marie assusta seus parceiros sexuais por gozar muito intensamente. Ela ejacula bastante e muitos homens não estão acostumados com isso”. Max, que furtava um cigarro do maço de Ruth enquanto ouvia seu relato, interrompeu. “Uma disfunção. Você me prometeu algo especial”. A mulher o abraçou pelas costas e sussurrou-lhe no ouvido para ter calma. Seguiu o relato.

“Marie” me procurou, compreensivelmente, para cessar as ejaculações. Mas então ela teve uma experiência homossexual, com outra paciente minha. Mais velha. Que nunca tinha gozado. Nunca Max. Você consegue imaginar? Aquela mulher simplesmente não tinha desabrochado. Aquela experiência, nova para as duas, modificou a percepção que as duas tinham sobre si. Mas nos atenhamos a Marie. Ela decidiu assumir-se como ejaculadora. Sentia certo prazer em anunciar para possíveis parceiros que gozava loucamente como eles jamais conceberiam e ir lá e gozar loucamente. De encarar a cama como algo para o prazer dela e não para o prazer deles sabe? “Aposto que isso não durou muito tempo”, introjetou Max que já calçava os sapatos. Do bidê, onde banhava seu sexo, Ruth continuou.  “Dura”. Ela faz sexo três ou quatro vezes por semana. Com parceiros diferentes. É impressionante como ela redescobriu a sexualidade. 19 anos. Tão bem resolvida que me inspira. Me excita. Max aproximou-se. “Está com tesão pela tua paciente, Ruth? Gostaria de ouvir sobre isso. Você está se tocando?”A pergunta foi respondida com um jato forte.


Crônicas da Vagina – Boceta a prêmio

O bar não estava cheio. À mesa estavam três homens. Já aparentavam mais de 30 anos cada. Cervejas vinham a todo o tempo. Pareciam homens de poder aquisitivo diferenciado.  Estavam felizes. Confiantes. Ela entrou. Era morena. O cabelo, liso e longo, brilhava um preto reluzente. O vestido prateado, curto, ressaltava curvas generosas. Ela sentou-se ao bar. Foi o suficiente para atrair a atenção da mesa.

O garçom fez chegar um bilhete.

Vou dar para o primeiro que me convencer, revelava o guardanapo em batom vermelho.

Eles se entreolharam, trocaram palavras que mais lembravam grunhidos e estabeleceram algum tipo de sequência.

O primeiro levantou-se.

Aproximou-se da mulher e a fitou em silêncio. Ela ajeitou o cabelo e tornou a bebericar seu drinque sem dar muita atenção ao bofe. Ele voltou sob escárnio dos colegas de mesa.

O segundo levantou-se. Puxou um isqueiro.

-Quer fogo?

– Não, obrigada.

– E que coisa louca esse bilhete não?

– Que bilhete?

– Esse que você enviou para a gente.

– Mas eu não enviei bilhete nenhum.

Corado, o rapaz voltou para sua mesa sob olhares constrangidos dos colegas. A moça ajeitou o cabelo novamente e pôs-se a bebericar seu drinque. A bartender, uma lésbica que se divertia com os homens que juravam ser capazes de mudar sua orientação sexual, podia jurar que viu um esboço de sorriso na mulher que, a esta altura, já bebia seu terceiro drinque.

E o terceiro homem apresentou-se.

Entregou um bilhete para ela. Ela riu para ele.

– Tem uma caneta?

Ele entregou a caneta. Ela então escreveu algo no bilhete, o fechou suavemente, deixou sobre o balcão e mandou um beijinho que a bartender descreveria como “cheio de charme”.

Ele pegou o bilhete e retornou à companhia dos amigos que o cobraram com o olhar ao que ele prontamente respondeu.

– Ela nunca disse que seria agora!