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Quando nasce uma mãe

Quem nunca duvidou de uma grávida, que atire a primeira pedra.

Essa coisa de que a mulher “se transforma assim que descobre a gravidez” sempre me deixou com a pulga atrás da orelha, do tipo: pô, mas a vida nem mudou tanto assim, só enjoo, fome e sono não te faz rever a vida por esse nível de grandeza. Achava que era meio clichê de mãe recém-descoberta, que está deslumbrada – ou mesmo assustada – com o futuro. Tinha que ter algo mais do que isso.

Até que eu engravidei.

A formatação atual da sociedade incute na mulher uma cobrança intensa e patética de obrigações únicas de mãe e ai de quem não sucumbir a elas para, assim, “padecer no paraíso”. Então, infelizmente, ainda é comum que junto com os enjoos, a fome e o sono venham também o tal futuro, o medo, a insegurança e as expectativas.

Não, não é coisa de mãe deslumbrada. Pensar em como executar o plano “ser a melhor mãe possível” é o que faz a cabeça mudar; pensar em dar o que há de bom e de melhor para o filho, de ser tudo o que ele vier a precisar na vida nos leva a pensamentos longínquos e profundos, nos faz rever nossos próprios conceitos e ver, enfim, a necessidade imediata da mudança.

Felizmente existem aquelas mães que caem na real rápido e entendem que “conto de fadas não existe”; para elas vem logo a primeira decepção: saber que não serão perfeitas, que errarão, errarão muito e errarão feio. Algumas se culpam logo de cara; outras, como eu, fazem escolhas; essas, se forem observadoras escolherão, sobretudo, dar liberdade para seus rebentos fazerem as próprias escolhas no momento em que estiverem inteiros para escolher, de decidirem ser o que quiserem, de escolher o que quiserem. Não criar expectativas é a maior liberdade que podemos dar aos nossos herdeiros.

Hoje o que eu mais almejo para a filha é uma paráfrase que faço de Sérgio Reis: “querer bem a um filho não significa ajudá-lo a crescer com nossas verdades; mas querer bem a um filho significa ajudá-lo a crescer sem nossas mentiras”.

 

P.S.: Tudo isso também vale 100% para os homens pais, sem tirar nem reparar nenhuma parte da crônica. É mais fácil, para uma mulher, falar no feminino; por isso, saiu assim, meio com cara de excludente. Mas não é.

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Eu não sou todo mundo

Quem é que nunca teve problemas por “estar fora do padrão”?

Estar acima do peso, abaixo da altura, fora daquela faculdade ou não compartilhar do mesmo gosto e atitudes. Existem, na real, muitas outras características que determinam se estamos ou não dentro do que dizem ser o “normal”. Mas o que é que define o que é normal? A maioria das pessoas? Uma pesquisa com resultados elaborada por médicos? Uma média parametrizada de uma parte da população?

Vejamos um exemplo clássico de parametrização médica.

Uma pessoa que sempre teve seus índices de pressão arterial em níveis “mais baixos que o normal”, mas que nunca teve nenhum problema de saúde em decorrência disso. Um médico comum, acostumado aos padrões, faria o quê? Dá remédio pra essa pessoa, tem que subir a pressão para os níveis normais! Dá-lhe pílula disso e daquilo, até que os índices arteriais sobem e sobem mais do que o necessário; “Pára o remédio!”, e a pressão volta a baixar; “Volta o remédio!”, e a pressão torna a aumentar; “Pára o remédio!” e… vá pros quintos dos infernos! Antes tivesse acompanhado para entender qual é o normal daquela pessoa para depois dar um diagnóstico mais assertivo.

Quando eu queria fazer algo que todos os meus amigos faziam – e esse era justamente o meu argumento -, eu recebia de resposta o sonoro e conhecido “você não é todo mundo!”. Então eu aprendi que para mim as coisas seriam sempre muito específicas; quando cresci me dei conta de que seria assim não por ser comigo, mas porque seria assim (ou deveria ser) com todo mundo!

Entendi, assim, que o padrão é algo criado para discriminar, por mais que não pareça. É só pensar que tudo aquilo que estiver fora das características definidas por esse tal padrão será visto com grande diferença, muitas vezes até com preconceito – caso clássico: dizer que “não é normal” ser gay. Pensemos, então: se “ser heterossexual” não estivesse dentro dos padrões da tal normalidade, não seria necessário dizer que ele “ele é hetero” ou “ele é homo”, bastaria dizer ele é. O que ele é? O que quiser, oras! Afinal, a vida é da pessoa, ela escolhe o que der na telha para ser.

“Ser” é, portanto, um empoderamento que poucos têm, poucos conseguem exercer. E este é mais um exemplo de Jesus foi um homem de muitos ensinamentos (considerando, claro, a hipótese dele realmente ter existido): na época, apenas os faraós – e com muitas limitações – usavam a expressão “eu sou”; e diz a história que Jesus, quando interrogado sobre ser o filho de Deus, a resposta dele foi  simples simples e arrebatadora: “eu sou”. Jesus, segundo o livro, sabia o que era, estava empoderado de sua natureza e se fazia valer por ela.

Ou seja: minha mãe estava mesmo certa e isso serve para todo mundo; e quando alguém vier com cara feia me recriminando por qualquer coisa da qual eu não esteja dentro dos ridículos padrões, vou dizer em alto e bom som: eu não sou todo mundo.

 


Dia de quê, mesmo?

Dia das mães tá aí e todos os filhos e netos se descabelam pelas liquidações das gôndolas que oferecem os shoppings center, ficam pulando de loja em loja procurando tamanhos de sapatos ou cores da moda, atrás de algo que não vá pesar no orçamento, porque ainda tem dia dos pais e dia das crianças pela frente e tudo está cada vez mais caro. É, porque hoje em dia é isso mesmo: a gente se preocupa mais com o quanto vai gastar. Afinal, mais precioso é o que está dentro da caixa, por baixo do embrulho.