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Os estepes da leitura

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Sou daquelas que anda com uma leitura de estepe na bolsa. Sim, quando percebo que o livro com quem estou envolvida está prestes a me deixar, coloco outra companhia na bolsa. O problema é que não é assim tão simples substituir uma coisa pela outra.

Não vou apelar ao clichê de dizer que um livro é insubstituível. Mas é fato que quando uma obra de ficção termina preciso de um tempo antes de embarcar em outras vidas de faz de conta. Ainda fico remoendo por um tempo por que a mocinha não perdoou seu Romeu; ou avaliando que eu no lugar de Zoe teria ficado mais esperta com aquele congressista carreirista com quem ela vinha saindo; ou ainda fico procurando as pistas que dona Agatha Christie criteriosa e falsamente distribuiu pelos capítulos, enquanto eu, ansiosa para saber o que mais viria, acabei nem vendo na ânsia de segui-la pelas páginas seguintes.

Uma leitura de transição. Algo que não tenha nada, absolutamente, nada a ver com o que eu vinha lendo antes. Que mantenha minha mente longe do trânsito, mas livre para pular algumas cercas e voltar à história onde eu há pouco vivia, se for essa a vontade da nossa relação. Dito isso, seu estepe deve ser fácil de trocar e ocupar pouco espaço na bolsa ou na mochila. Vale um caderno do jornal de domingo, aquela revista semanal  ou uma obra de não ficção – e nisso se inclui desde as apostilas do cursinho até algum libreto do Eric Hobsbawn com menos de 1kg.

Sei de gente que pula de uma obra de ficção para outra, como quem muda o canal e assiste às novelas do concorrente sem o menor constrangimento. Não sei, parece-me como se não soubessem cuidar dos meus mortos, uma vez que aqueles meus amigos não verei tão cedo. Já cumpriram sua missão na minha vida e se voltarem será porque, como os fantasmas ilustres, ainda não acabaram de dar o seu recado. Sentarei confortavelmente, abrirei meus olhos e ouvidos e deixarei que transmitam suas revelações.

Mas não venderei seus segredos. Cada um que busque a simpatia deles. E que traga sempre um estepe consigo – vai que vocês ainda queiram rodar algumas milhas juntos por território (in)consciente?

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O maníaco das vírgulas

Diz que no Hospital do Servidor Público Estadual há um andar exclusivo para professores loucos. Gente vinda de todas pontas do estado de São Paulo para recuperar a sanidade ou, ao menos, conter a desrazão. Não sei de outras carreiras que tenham esse índice de contaminação, embora, haja muita gente louca por aí.

Descobri há pouco tempo um novo tipo de enfermidade mental que pode estar vitimando nossos mestres, em especial os de língua portuguesa. É um tipo inteiramente original de patologia que, certamente, ainda não deve ter sido catalogado pela Organização Mundial de Saúde, pois está diretamente relacionado à observância da aplicação correta da vírgula.

Claro que eu não me arrisquei a conhecer um paciente desse mal pessoalmente. Imagine a pessoa falando e ele interrompendo, pondo um dedo na boca alheia para pedir: “Não, respire um pouco. Nenhuma sentença é assim tão longa, desse jeito eu não identifico onde está o aposto desta oração”.

Meu contato foi mais indireto, por assim dizer. Comprei um livro recentemente em um sebo de Pinheiros. O livro, hermeticamente embrulhado em plástico transparente, sugeria que o dono anterior mal o havia tocado. Sem orelhas, nem aquele tom cinza nas páginas que denuncia uma leitura anterior.

Só que uma pulsão é algo incontrolável. O tal se segurou por 22 páginas do livro e daí não se aguentou: marcou logo quatro inserções da vírgula discutíveis de uma vez. Deve ter se reprimido, tomado uma água, quem sabe saído para dar uma volta, exasperado pelo próprio destempero. Mas, eis que dez páginas adiante ele não se segurou e denunciou novamente o texto: uma vírgula que antecedia um “e”, pois se o “e” é um elemento de ligação, como é que pode haver uma vírgula para separar uma sentença da outra?

Dali em diante, o maníaco se liberou, criticou vírgulas que anunciavam apostos (palavra ou frase que vem explicar ou qualificar o que foi dito antes), outras que se interpunham ao uso do“ou”, que assim como o “e” está lá para juntar as palavras e orações. Noutros momentos em que o autor fez o uso gramaticalmente previsto, o maníaco também circulou com seus lápis número 2 o trecho, como para indicar “está vendo, você sabe muito bem o que fazer, então por quê faz isso? Pra me enlouquecer?”.

E assim foram por 470 páginas do livro. Em defesa do autor, podemos apontar como bode expiatório o tradutor, este sim responsável pelo desatino com a língua portuguesa ou o revisor, este outro pago justamente para impedir tamanha infâmia.

Penso que somente um professor poderia padecer deste mal. Quem mais ficaria tão indignado com o problema? Ou melhor, quem mais poderia identificar esse mal nos livros, jornais e revistas?

Talvez no desespero de saber-se o próximo a ingressar no andar dos loucos do hospital, ele, para despistar, vendeu o livro no sebo. Onde eu, inadvertidamente, dei com o registro de seu delírio. Penso que é triste, mas é menos danoso à população que a loucura dos grifos. Não conhece? Essa é uma patologia bem mais frequente: pense nos livros das bibliotecas, nos da sua família, naqueles dos sebos e se lembrará de já ter pego um exemplar totalmente contaminado por frases, parágrafos e notas de rodapé grifados. E os grifos são contagiosos: se não fazem o leitor também passar a riscar com traços irregulares a obra, distraem sua atenção para coisas totalmente desprovidas de sentido ou importância. E aí, acaba o leitor seguinte frustrado, pois ao invés de pistas, é atraído grifo após grifo para cair no nada.

Quanto a mim, penso em procurar o dono do sebo e exigir que me identifique o dono anterior da obra. Afinal, trata-se de uma questão de saúde pública.

Aline Viana