Não é tv, é Netflix. E não é slogan, são os novos tempos

netflix

Diz-se com certa opulência que a internet chegou para mudar as regras do jogo. No âmbito profissional, seja ele qual for, e no âmbito pessoal. A Netflix, inaugurada em 2010, rapidamente se viabilizou como a primeira empresa do segmento da internet a melhor incorporar essa “realidade” tão alardeada. Pelo menos, desde que o Google chamou a atenção para essa “realidade”.
A mudança está na boca do povo. A Netflix oferece um cada vez mais extenso pacote de filmes e séries por um preço acessível e encorajador. Mas não foi isso que fez com que a empresa rapidamente se incensasse como o “the next best thing” do mundo dos negócios, relegando o Facebook ao patamar de “yesterday news”.
O momento chave do crescimento da empresa foi o lançamento da série original “House of Cards”, da David Fincher e com o prestigiado Kevin Spacey como protagonista. Em entrevista à Variety, à época do lançamento da série, Reed Hastings, CEO da Netflix, disse que o objetivo da empresa era se tornar HBO antes que a HBO se tornasse Netflix. A referência ao canal mais prestigiado e bem sucedido da tv por assinatura mundial, conhecido pela alta qualidade de sua programação original, revela que a Netflix não só pretende avançar na produção de conteúdo a ponto de incomodar os gigantes da dita mídia tradicional, como garantir posição de monopólio na distribuição de conteúdo na internet.
De fato, a internet ainda é um terreno desconhecido e pouco explorado pela mídia tradicional. Por isso mesmo a Netflix tem conseguido firmar parcerias, oferecendo a expertise na exploração da rede, com gigantes do entretenimento como The Weinstein Company, Fox, Showtime, entre outras.
Outras empresas tentam expandir seus domínios para a internet, mas a Netflix ensaia muito bem sua resistência. Suas produções originais, todas em parcerias com empresas como a Sony Entertainment (no caso de House of cards), primam pela qualidade do texto, apelo junto a determinado público (caso de Hemlock Grove, de Eli Roth) e se diferenciam das outras por serem disponibilizadas em sua integralidade para o espectador que terá, portanto, a liberdade de escolher como e em que ritmo assistir o programa. Essa lógica ataca especificamente a TV tradicional.
A Netflix foi bem sucedida em diagnosticar que os novos tempos de decodificadores inteligentes e com o tempo real da internet cada vez mais opressor, as pessoas não querem mais ser reféns da programação das tvs. Essa finesse no trato de uma audiência mais irresoluta é o grande diferencial da Netflix que já se movimenta para assegurar exclusividades (como o fato de ser a primeira janela de exibição das animações da DreamWorks depois da exibição nos cinemas a partir de 2016), de modo a garantir sua relevância na selva do entretenimento. Selva esta que vivencia uma disputa carnívora para que um novo rei se levante.
A Netflix, presente em diversos países da Europa, América do Sul, Ásia, além dos EUA e Canadá, já ostenta base de assinantes superior a de qualquer tv por assinatura. No Brasil, programadoras e operadoras já se movimentam para dirimir os avanços da empresa. Com certa razão, reclamam de que a Netflix não paga impostos aqui na mesma proporção, embora avance sobre o mesmo público. Novas regulamentações, previstas para 2014, devem tornar a “tv da internet” menos atrativa financeiramente. É, contudo, apenas o meio do caminho. A tv tradicional não desaparecerá, como o cinema não desapareceu com o surgimento da tv. Mas se verá na contingência de se reinventar.
É difícil prever até onde a Netflix pode ir. Certo é que se movimenta com apetite e inteligência. Diferentemente de outros gigantes digitais que tinham mais apetite do que inteligência. O Facebook, para se fiar na mesma comparação, até hoje não justificou para seus acionistas e para o mercado o alto investimento na rede social Instagram. Passa por circunstâncias como essa o fato das ações da empresa de Mark Zuckerberg terem sido um fiasco quando de sua oferta inicial de ações em 2012, e da Netflix ter superado as mais otimistas previsões subindo mais de 20% em um trimestre. A empresa apresenta historicamente um dos melhores desempenhos entre as empresas listadas na Nasdaq.
Somados todos esses dados, a subversão do slogan que enuncia este título não parece tão despropositada assim.

*em caráter de excepcionalidade, a cronista Aline Viana publicará seu texto na quarta-feira (04/09/2013)

O jeito deles…

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O que seria do exibicionista sem o voyeur? A transcendência do questionamento não enseja a tal da resposta óbvia. Mariana era uma morena fogosa. Mas não sabia que era fogosa. Era reprimida até se descobrir fogosa. Ela se descobriu fogosa com o André. Os nomes são fictícios, os personagens talvez não sejam. André gostava de pensar que sabia tudo de sexo. Talvez soubesse. Não vem ao caso.
André gostava de olhar. Fazia sucesso com as mulheres porque apreciava particularmente as preliminares. Aquela troca intensa de olhares e toques, não necessariamente no privado, que elevam a temperatura de uma mulher. A princípio, pensava-se que André era um particular apreciador das preliminares. Não que não fosse, mas se dedicava mais a elas, porque se excitava com a excitação alheia. Ao perceber a entrega de uma mulher aos labirintos do prazer, André enlouquecia.
Com Mariana foi assim. Barzinho. Jantares. Boates. Motel. A lógica da lógica desses tempos tão banais. Mas Mariana gostava de dançar e não há nada mais poderoso e sensual do que o corpo de uma mulher em movimento. Mariana percebeu, então, que André reagia calorosamente a seu corpo em movimento.
O primeiro orgasmo da dupla foi em uma pista de dança. Assim mesmo. Vestidos.
Ela dançava. A pista fervia. Fumaça e luzes ensurdeciam Mariana e André em meio à roda de homens que se formou para observar os movimentos sensuais dela. André estava confortavelmente sentado em um canto que lhe favorecia uma visão entrecortada de Mariana. Ela se insinuava. Não necessariamente para ele. Os olhares eram cada vez mais agudos. Devassos. Mariana dominava a música. O vestido curto pregava peças aos olhos desatentos. Aos atentos concedia recompensas fugazes. André levantou-se. Foi ao banheiro. Lá passou alguns minutos. Voltou e reencontrou Mariana bebericando uma água tônica no bar. Falaram alguma coisa e partiram. Não dava para dizer se estavam apaixonados. Mas certamente estavam saciados.
Mariana e André são duas pessoas muito criativas em matéria de perseguição ao prazer. Em outra oportunidade, durante uma viagem ao interior de São Paulo, Mariana viajou nua no carro. No banco traseiro, enquanto André dirigia. Novamente a música a embalar movimentos muito mais desavergonhados em um espaço mais restrito e frequentemente sob olhares curiosos. André dividia seu voyeurismo por Mariana com afortunados a esmo. Motoristas de caminhão, cobradores de pedágio e outras figuras míticas das estradas brasileiras.
Teve, ainda, a vez em que ele a fotografou durante um dia inteiro. Um sábado chuvoso em Petrópolis. Em grutas, no verde da Serra e em casarões antigos. Foram mais de 2 mil fotografias que ninguém jamais viu. Vez ou outra eles voltam a elas em conversas picantes que mantém ocasionalmente. André não está no Brasil no momento. Mas a internet não o impede de se relacionar com Mariana. Eles não estão juntos, mas seguem juntos.

2012 em revista

Cena do filme 2012John Cusack pensativo ao olhar para o céu em cena do filme “2012”, que na verdade é de 2009

 

Foi, sob muitos aspectos, um ano intenso. O humor se despede de 2012 mais triste. Partiram Chico Anysio, Millôr Fernandes e Ivan Lessa. Luis Fernando Veríssimo nos deu um susto, mas se segurou na Terra. A torcida corintiana que não se segurou. Foi ao paraíso com escala em Tóquio. A Libertadores e o mundo foram do bando de loucos; que em 2012 responderam pelos picos de audiência da Globo. Já a Record não conseguiu os números que sonhava com as olímpiadas de Londres, que revelaram alguns heróis brasileiros como Arthur Zanetti. Londres também foi palco de Daniel Dias, atleta paraolímpico que fez as piscinas tremerem com seus recordes e conquistas.

Sim, 2012 foi um ano intenso. Do histórico julgamento do mensalão à reeleição de Barack Hussein Obama. Foi o ano do kuduro em Avenida Brasil. De Carminha colocar a culpa em Nina e de Lula mais uma vez não saber de nada da história mal explicada de Rosemary Noronha. Teve também empreguete, música inédita de Robert Carlos, troca de técnico na seleção brasileira e o fim do mundo adiado.

Ah, os maias! Nos pregaram uma peça! Era tudo uma questão de ciclo. Foi um ciclo ruim em muitos aspectos. Em 2012 houve muitas chacinas. Nos EUA, um lunático atirou a esmo em um cinema. Outro lunático assassinou crianças em uma escola. No Brasil,as UPPs cariocas começaram a se fragilizar e em São Paulo as madrugadas trouxeram o pavor das incertezas. Nunca estivemos tão inseguros!

Sim, foi um ciclo difícil. O infinito da Tim se provou finito. Os juros caíram, mas o PIB não aumentou. A Europa mergulhou em crise profunda. O desemprego por lá atinge recordes históricos. Oscar Niemayer finalmente deixou de fazer inveja em fumantes receosos de suas saúdes. “Imagina na copa” virou chavão nacional e o mascote do mundial de 2014 foi batizado de Fuleco.

O ano de asperezas também teve suas belezas. De Débora Nascimento a “Born to die”, de Lana Del Rey – ela própria, outra beleza. Sim, 2012 teve suas belezas. O furacão Sandy não dirimiu o ar cosmopolita de Nova Iorque e o Google não soube o que fazer com a ilha Sandy que está localizada próxima a Austrália, mas na verdade não existe.

O que existe é a virgindade de Catarina Migliorini que a leiloou (um japonês arrematou), mas deve entrar em 2013 inviolada, ainda que exposta na Playboy nacional. Quem não está sabendo se expor é Mark Zuckerberg. Talvez apenas Eike Batista tenha perdido tanto dinheiro em 2012 quanto o dono do Facebook. O jovem bilionário decidiu que só vende ações no ano que vem. O IPO (oferta inicial de ações na sigla em inglês) de sua empresa foi relativamente bem sucedido, mas daí em diante foi ladeira abaixo. O Facebook pode por fim à percepção otimista que o mercado tem de mídias digitais. Mas isso é papo para 2013. 2012 já foi intenso demais…

Lana Del Rey, Adele e outras manias

O mundo do pop é engraçado. Principalmente em tempos de internet. Rapidamente são erigidos os famosos “teams fulano” ou “teams sicranos”. De Edward e Jacob a Lady Gaga e Britney Spears. É uma overdose purpurinada. O que move essas paixões tão próximas em histeria e diametralmente opostas em suas especificidades, é – mais do que defender seus ídolos – falar mal dos ídolos dos outros. Tribos sempre estiveram por aí. Intolerância também. A internet, no entanto, modificou a dialética de fã-clubes, eventos e, até mesmo, do status pop de um artista. De Justin Bieber a Mallu Magalhães, novos expoentes surgiram de um movimento que uns chamam de derrocada da indústria fonográfica e outros de nova era digital. Neologismos a parte, Adele e Lana Del Rey são signos dessa contracultura dos novos tempos.O pop fabricado de Lana Del Ray contra a voz poderosa que traduz angústias amorosas de Adele. Quem leva a melhor? O mais divertido é descobrir as opiniões profissionais e amadoras a respeito de uma e outra. Inegável que tanto Lana quanto Adele tem talento. Igualmente inegável que ambas carregam sua dose de superficial. De construído. Mas é justamente isso que tempera a discussão. O que seria de Edward sem Jacob? E Lady Gaga seria Lady Gaga sem Madonna? O que seria de Justin Bieber sem os Backstreet boys? Seria o bocão “joliniano” (de Angelina Jolie mesmo) de Lana Del Rey o segredo de seu sucesso? O peso de Adele realmente atrapalha sua vida sexual? Ou seria o contrário? Essas discussões colaboram para tornar o pop mais ridículo e mais atraente e é verdade que sempre foi assim, mas a velocidade e o proselitismo com que esse fenômeno ocorre hoje, tendo a internet como plataforma, altera terminantemente nossa percepção dele.
Isso talvez esteja por trás da longevidade de um programa como o Big Brother Brasil, por exemplo. Com índices de audiência cada vez mais anêmicos, o programa é um sucesso na internet e nas redes sociais. Sempre entre as matérias mais lidas, ensejando discussões apaixonadas sobre os prós e os contras dos participantes em interpretações que nunca (e jamais poderiam) excedem a superficialidade que as caracterizam. O BBB ilustra bem a situação. Pois existem aqueles que acompanham o programa, ainda que timidamente, apenas para falar mal. Falar mal é divertido e a internet, na medida que permite certa irreverência, estabelece total complacência com os adeptos da intriga. É uma combinação irresistível. A máxima “fale mal, mas fale de mim” adquiriu um status totalmente novo – ainda que se preserve a mesma na essência. Ser pop nunca foi tão pop.

O meu nome é próprio

A minha sala de aula tinha pares de “Danielas”, “Julianas”, e “Priscilas”, uma “Aparecida” e outra “Daniela Aparecida”. Em todas as turmas do antigo quinto ano só tinha uma “Aline”. “Aline Viana”, então, era único na escola. Exclusivo. Só sentia falta de um apelido, coisa que as outras tinham. Anos depois, com a internet, meu nome tornou-se cobiçado no mercado.

Daí fiz colégio, faculdade, abri contas de e-mail. Alguma “Aline Viana” do mundo conseguiu o privilégio de registrar-se antes de mim no Hotmail e no Gmail. Bati pé e inscrevi-me sem adotar como codinome algum numeral ou apelido. Ficou algo simples e elegante o bastante para divulgar nos milhões de currículos que enviei ao longo da vida.

Mas agora as sombras têm reivindicado o que é meu. Nome, e-mail, memórias e sanidade mental. E é um nome perfeitamente quitado, segundo minha mãe.

Elas criam um e-mail bem parecido com o meu. Daí distribuem por aí para quem não interessa, talvez. Como quem troca um número na seqüência do telefone para despistar alguém. Ou tentam me ganhar pelo cansaço.

Nessas já tive família em Recife. Meu pai virtual me recomendava cursos de língua, meus tios enviavam piadas. Apagava tudo sem ler. Imaginei que fossem notar que a outra nunca respondia e checassem. Até que minha mãe de Pernambuco me cobrou nos termos mais enfáticos por não visitar o tio Alfredo no hospital. Com foto do paciente e tudo. Mamãe, preciso fazer uma revelação: a cegonha trocou os e-mails.

Outro dia, foi um suposto irmão, com nome de desembargador, que me procurou, querendo saber da recuperação do braço quebrado. Respondi à genntileza: “irmãozinho querido, somos parentes não. Procure aí o e-mail da maninha e sucesso”. O brother, em sublime juridiquês, me chamou de ursupadora, queria saber quando abri minha conta. Ora, faça-me o favor, além de desinformado ainda vem me perguntar a minha idade! Eu vi primeiro e não tenho que contar nada. Abri, é minha e não dou, não empresto e nem vendo, tá me entendendo?

O último foi um hermano que diz ter me conhecido por essas veias abertas do continente. Pedia o contato de um professor uruguaio porque queria precisava encontrar algumas maria-joanas e contava que tinha me trazido alguns alfajors lá da capital. Apesar da dor no coração, pelos doces que amo, fui honesta. Não te conheço, amigo. Não tive professor uruguaio. Podia ao menos mandar o alfajor, o ingrato.

Pra não dizer dos vírus. Que enviados em meu nome, por alguma retardatária com menos espírito esportivo, o sujou em algumas praças. Pois é, em algum lugar, tem uma Aline Viana terrorista. Que queima o próprio nome. Essa deveria arder no mármore do inferno.

Nem assim coloco o nome à disposição. Não que ache que irá se valorizar mais, mas é que tem um valor afetivo, sabe? Ganhei de mamãe.


Aline Viana