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Banho de humanidade

Não sei o leitor, mas eu, às vezes, me pego pensando na minha humanidade. Será que estou frio demais? Muito só? Não flerto com a sociologia quando digo que me concentro muito nos meus problemas e me afasto dos problemas daqueles que me cercam. Pode ser uma autodefesa, pode ser egoísmo, pode ser aquilo que o leitor quiser nomear. O fato é que é.

É, também, um toque de mágica quando você visita parentes distantes. Distantes no sentido físico, não emocional. Você compartilha o sangue, mas está inserido em um esquisito esquema de observador partícipe.  Algo que te afere uma insustentável leveza, digamos assim. É um respiro da tua rotina, uma oportunidade de colher perspectiva – para o bem e para o mal – e, fundamentalmente, um banho de humanidade.

É ali, nos calcanhares familiares, que o todo se justifica nos detalhes. Filhos, os sabores e dissabores do casamento, intrigas, celebrações, memória, futuro…

Os laços de família untam vivência e experiência, duas coisas distintas tomadas como siamesas, e fazem do observador, um humilde aprendiz.  As verdadeiras riquezas familiares residem nessa pujança genealógica que matiza anseios, desejos e arrependimentos. Somos acertos e desacertos. Os nossos e os dos outros.

Por certo, algum leitor ainda me acompanha no raciocínio e para este eu falo uma verdade muito simples, mas muito reclusa também. Um intensivo na família pode ser muito mais esclarecedor do que a literatura de autoajuda disponível.  Basta disposição ao olhar.

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De volta à casa

Quarenta e cinco dias depois, a criança reapareceu exatamente de onde tinha sumido, a rua da feira. Era como se alguém houvesse esquecido de checar se deixou os óculos na bancada da pia do banheiro ou no criado-mudo do quarto e dê repente batesse o olho lá, por acaso, e fim da história.

A mãe recebeu incrédula a notícia porque já tinha perdido a conta de quantas vezes voltou ao local onde ficava a barraca de temperos e olhou em cima, em baixo, nas lojas próximas e nada da sua pequena. A menina tinha quatro anos, o cabelo ela estava usando com franjas e preso com maria-chiquinhas, como ela gostava, e vestia o casaquinho que a avó havia dado de presente porque garoava no dia do sumiço.

O pai olhou a mãe também surpreso. Ele refez o caminho da mulher e da criança tantas vezes que até dormindo continuava as buscas. Colou cartazes nos postes, com o anúncio de “procura-se” e os dados para contato. E visitou todos os dias os hospitais, parques infantis e até o necrotério, onde era recebido com uma incômoda e, a àquela altura inevitável, familiaridade.

Pai e mãe começavam a desconfiar que não tinham tido filha alguma. Nunca. Que sofriam de algum tipo de alucinação. Um delírio coletivo que envolvia também os pais deles, os irmãos, o médico e os professores da escolinha.

Os policiais eram os únicos que eles sabiam estar de fora desse surto. O olhar deles dizia o suficiente ao casal: se honestos, não poderiam ser mais inadequados para serem pais; se mentirosos, queriam o dinheiro que a pena dos outros rende.

Acompanhada por uma policial e por uma assistente social, Danizinha chegou em casa. Deu um beijo na mamãe, outro no papai e pediu uma caneca de chocolate quente. Buscou o ursinho preferido no quarto, ligou a tv no desenho e não disse mais nada porque estava mesmo em casa.


Educação congelada

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Na minha festa de aniversário mais marcante ganhei um bolo da Branca de Neve. Havia a casa dos anões, os anões, a Branca de Neve e um laguinho de gelatina brilhando azul numa das pontas. Não fui eu quem escolheu o tema, mas esse lago super azul até hoje é uma das lembranças mais fantásticas que guardo na memória.

Desde o seu segundo aniversário meu sobrinho já sabia exatamente o que queria como tema das suas festinhas. Foram os “Backyardigans”, os personagens de “Carros” e agora, aos seis anos, seria “Frozen”. Nesse último sucesso da Disney, duas irmãs são as protagonistas e os mocinhos são uma novidade: um, que se faz passar por príncipe bondoso, para enganar as duas irmãs, e o outro é um caso de amigo que sai da friend zone. Ao fim, uma irmã se sacrifica para salvar a outra e é essa prova de amor que garante o final feliz. Nada de beijo de príncipe, entenderam? E eu que não achei que viveria pra ver a Disney evoluir.

O problema é que são duas princesas. A decoração seria toda cor de rosa. E ele é menino. “Cor de menino é azul”, ele me explicou cheio de convicção. “Tem certeza? Você já me disse que vermelho é cor de menino”, argumentei – e viva o Homem-Aranha! “Todo mundo sabe que rosa é cor de menina”, ele confirmou. E o filme que é todo azul, por causa do vestido da rainha Elsa, do gelo e dos raios congelantes, por que diabos tinha só decoração rosa? Tinha que ser azul pra todo mundo, cáspita!

Todo escritor tenta passar uma mensagem em seus textos e quanto mais trabalhado nas entrelinhas acreditamos que ele dialogue de forma mais profunda com o leitor. Só que os adultos, ah raça, esses não prestam atenção no filme ou dormem o tempo todo! Imagina se vão pegar as migalhas de pão jogadas nas entrelinhas! Decoração rosa pra menino? Duas princesas?! Não, o meu filho é macho, bota aí o “Patati-Patatá”, o “Angry Birds”, o “Batman”, o “Chico Bento”…

Como se isso fosse garantir a heterossexualidade de alguém. Cresci com esse mundo dividido entre coisas de menina e coisas de menino e a minha geração assistiu a uma explosão de gente se assumindo gay, lésbica, transgênero, etc. Foram super reprimidos e sofreram horrores pra sair do armário, mas conseguiram. E tanta menina que, como eu, se divertia subindo muro, jogando bola, usando metralhadora laser porque tinha um irmão, um primo, um amigo com quem brincar? E o amiguinho que brincava de escolinha e de casinha com a gente? Não pode? Até quando?

Mamães e papais, dividir os brinquedos e os arquétipos só derruba preconceitos. Nada mais é garantido.


Exumação de si mesmo

Hoje eu publicaria um texto sobre o imbróglio vivido no rap americano causado pelo sucesso da rapper Iggy Azalea. Publicaria. Mas o futuro do pretérito calça bem um texto enrijecido, ensimesmado e fruto de um olhar fixo para um juntado de ossos.  Hoje, e rompo alguns limites impostos sobre exposição com essa confissão, exumei os ossos de minha mãe. Não seria o caso de chamar restos mortais? Creio que não. Eram ossos em estágio intermediário de decomposição. O motivo para a exumação é que eles serão transportados para um jazigo familiar. Essa aquisição tão estranha quanto a vida em si.

Não é a primeira vez que escrevo sobre ossos aqui. Não pretendia essa segunda inflexão. Ela apenas veio. Mas voltando aos ossos da vez, o coveiro a quem assistia cavar e cavar com gentileza respeitosa ao buscar os ossos em meio a terra e baratas, me filosofou: “É… do pó viemos e ao pó voltemos (SIC)”.

Não intenciono fazer uma reflexão sobre a vida, ou mesmo a morte, pelo tom que esse texto vai assumindo; mas apenas narrar essa singela cena que comigo permanecerá por muitos e muitos anos. Não há nada de notável nela e talvez eu pudesse adensá-la com alguma emoção ou sentimento. Não que a comoção não tenha me visitado. Mas a sobriedade ganha um peso mais dramático, desesperançoso e insignificante quando se fixa os ossos de sua mãe nove anos e meio após a morte dela. Questões existenciais de toda sorte se inferiorizam diante da verdade em frente aos seus olhos. Ela é apenas uma, irrevogável e inexorável.


As letras de dois mil e treze

Último de aula do curso de redação criativa do qual participo há um ano e tenho que apresentar um livro que tenha me marcado esse ano e compartilhar um trecho com o pessoal.  Ergo o olhar e a estante está a ponto de desfolhar seus títulos sobre mim.  Com tanta opção, o branco é total.

Meu método desordenado de leitura me leva da não ficção para o romanção do século 19 , depois de volta a língua contemporânea com o sotaque antigo de Valter Hugo Mãe e depois de volta para Fernando Sabino e depois nem sei mais. Também houve a contribuição de amigos, com o destaque valendo para o Guia do Mochileiro das Galáxias, empréstimo valiosíssimo da linda da Karina Alencar.

O tour literário de 2013 também se deveu aos eventos literários que andei cobrindo como jornalista (Flip, Pauliceia Literária e Balada Literária) – tais eventos, além de fomentarem a discussão literária em si, são ótimos para que a gente conheça gente da qual nunca ouviu falar, ou se viu foi numa notinha perdida num jornal do ano passado, ou ainda alguém que tínhamos perdido pelo caminho, meu caso com a Patrícia Melo, autora que não lia desde a minha adolescência.

Foi na minha primeira Flip que conheci Neil Gaiman, é dele a passagem que mais me marcou este ano, no “Oceano no fim do caminho” (editora Intrínseca), que ele escreveu para a Amanda Palmer, sua esposa. Cada um que faça a sua leitura, mas para mim essa passagem permitiu um reencontro com crenças íntimas, mas nada apoteótico que valha a pena compartilhar com o mundo com tons bíblicos – apenas aquele sorriso interno de “eu sei”. Enfim, chega de suspense:

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― Ah, os monstros têm medo – disse Letie. ― É por isso que são monstros. E os adultos… ― Ela parou de falar, coçou o nariz sardento com um dedo ― Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho. ―Ela pensou por um instante. Então sorriu. ― Tirando a vovó, claro.”

 

Ps.  Para quem quiser ver a minha versão para esse pequeno insight lírico do Gaiman, vale voltar no túnel do tempo e conferir o Educação Infantil, lá dos tempos do Crônicas das 12.


Uma velhinha impressionante

Um ônibus de solidários compareceu ao meu enterro. Solidários. Gente que convive com meu filho, sua mulher, meus netos vez por outra. Ou conhecidos. E/ou curiosos. Só que dos que estavam lá dando tapinhas nas costas dos sobreviventes, ninguém que eu conhecesse. Verdade. Não pense que continuo enxergando mal só porque estou morta. Vejo essas coisas com uma clareza que preferiria não ter.

Das meninas a quem eu ensinei as primeiras letras não têm nenhuma. E aquela outra que aprendeu o ofício da cozinha na minha casa também não está aqui. A Maria. Mas talvez ela já nem esteja entre eles… Ouvi algo sobre o marido ter tido um acesso de ciúmes, mas o resto não sei direito o que houve… – não porque eu estivesse caducando, mas porque eles, os “novos”, achavam que tinha que ser “poupada”. Falavam tudo aos sussurros, como se a vida dos outros pudesse me matar.

Quando se chega até onde os noventa e seis anos como eu, a vida dos outros é o pouco que nos mantém vivos. Não é o crochê, não se enganem. Os mais novos dão tanta importância a coisas tolas que saber da vida deles parece melhor que novela. Distrai, sabe?

E aqui agora, vou me distrair com quê? Não vi nenhuma luz me chamando, nenhum rio onde algum barqueiro aguardasse pra me atravessar, nada disso que a gente cresce ouvindo dizer que tem na morte.

Acho que vou encostar naquela mocinha ali, a Clarissa.  Dizem que ela é um assombro nos negócios.  Veremos quem impressiona quem agora.


Comida para lembrar

bife a milanesa e macarrãoEu decepcionaria minha mãe se tivesse que listar as duas melhores refeições da minha vida. Primeiro porque ela não foi a autora das obras, embora já ela já tenha executado várias vezes o mesmo prato, e porque não se trata de nenhuma pirotecnia: um básico bife à milanesa com macarrão ao molho.

O bife crocante e o macarrão com o molho perfeito da minha tia, de ascendência italiana, é até hoje a minha definição de almoço de domingo perfeito. Acompanhava salada de alface com tomate e fanta uva. Ou coca-cola. Lembro da minha mãe partindo o bife em quadradinhos no meu prato e no do meu irmão porque ainda não tínhamos a destreza necessária com garfo e faca.

Empatado fica o mesmo prato só que feito pela avó de um amigo de infância. Ela tinha um bar, em Interlagos, que ficava defronte uma fábrica de não sei o quê. O pai desse amigo nos pegava na escola e nos levava lá para almoçar. O bar era meio escuro e ficava na frente da casa. Para não atrapalharmos o atendimento, ela nos levava para a cozinha, onde a luz estava sempre acesa e nos servia. Foi ali que descobri os efeitos poderosos do queijo parmesão ralado numa porção de macarrão quentinho.

O que tornava aqueles pratos perfeitos? O nível de crocância e maciez do bife? O molho do macarrão no tom certo de acidez e sal? Admito que, pra mim, o molho de tomate é uma arte com um nível de complexidade insondável e que admiro num nível próximo da devoção. A minha tia e a avó desse meu amigo são minhas duas musas culinárias e constituíram no meu paladar o conceito de “confort food” muito antes dos chefs pop, como Nigella e Jamie Oliver.

A lembrança desses almoços me vêm fácil e, principalmente, a recordação de sair da mesa feliz. Mesmo sem ter batata frita no cardápio e sem a perspectiva de um repeteco no jantar. Eu sequer me recordo das sobremesas desses dias e olha que nunca fui de dispensar um docinho após a refeição. Hoje, quando começo a elaborar o que fazer pra comer minha ideia é atingir aquele mesmo efeito: algo muito gostoso e sem complicação nenhuma. Comida para relaxar depois de um dia cheio. Comida que me relaxe a mente enquanto vai sendo feita. Comida caseira, como minha mãe sempre fez (e aqui o meu mea culpa), que reúne a família e rende conversa em torno da mesa e da pia antes e depois de tudo pronto. Comida com gosto de infância, sabe como é?