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… e o gênio apareceu!

Ele olhava fixamente para a garrafa. Ficou ali imerso em pensamentos diversos por alguns minutos até que um gênio saiu da garrafa. “Você tem três conselhos”, lhe avisou. “Você não quis dizer desejos?”, retrucou o homem ainda um tanto incrédulo. “Não. São três conselhos mesmo”, devolveu o gênio com ar de enfado. “Mas por quê?”, insistiu o homem. “Por que estamos no Brasil e aqui os gênios não realizam desejos, apenas aconselham como você pode realiza-los”.

O homem sorriu. O gênio sorriu e dividiram uma cerveja. Os conselhos seriam um desejo para mais tarde.


O caso da argentina

Imagem: María Pachón - https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Imagem: María Pachón – https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Ele não viu quando saí do carro. Me enfiei no banheiro feminino e fiquei lá tempo suficiente para ele abastecer uns três daquele jipe estúpido dele.  Mal notei o cheiro carregado daquele cubículo mal ventilado, com papel higiênico que brotava do lixo, das paredes, do chão…

Escapei, pensei.

Não, mas foi por tão pouco!

– Dona, o seu marido acabou de sair!

Eu ainda tentei disfarçar, fingir que não entendia o idioma do sujeito.

– Yo no hablo portugues. No te entiendo.

E o frentista desesperou. Chamou o gerente. Contou também pra mocinha da loja de conveniência.

O gerente arriscou um portunhol.

– Señor, lo siento, no te entiendo. No te preocupes, voy a encontrar una parada de taxis y ya me voy. No necesita preocuparse.

– Tu marito se fué, senhora. Tienes um celular? Se não, podemos ligar da minha sala, no te avexes.

Fez a mímica universal com dedos, simulando um telefone.

Como dizer que eu não sabia o número de Ezequiel?

– Es una conexión internacional, es caro, señor, no te preocupes. Yo lo llamo un taxi y en la próxima me detengo acuerdo, señor.

Ele já ia 100 km adiante, quase chegando no Espírito Santos, me explicou o frentista desenhando números e rabiscos numa caderneta e apontando um mapa na parede da sala do tal gerente .

Ezequiel fez a parte dele, é justo que eu admita. Disse que não entendia o que diziam ao telefone, que não perdera nada, que o menino estava a brincar com o tablet bem ao lado dele. Até uma foto minha mandaram pro celular do maldito.

Não teve jeito.

Ele voltou. Seguimos juntos.


Limite

Mariane queria ele fosse feliz depois que eles terminaram o namoro.  Feliz mesmo, de verdade. Só que felicidade de ex precisa ter limites, né? Quem quer ver o sujeito dando pulinhos de alegria logo depois de a relação ter terminado?

Era o que ela pensava.  Não era justo e sequer era saudável ver o outro publicar fotinhos com a nova companhia na Disney, cozinhando juntinhos, correndo no Ibirapuera. E mesmo que as fotos fossem só dele malhando sorridente, ou caindo na balada com a turma, também não era legal. Tinha que haver um período de luto, até uma psicóloga dizia isso num site.

Ela sim, ainda estava assimilando a nova fase de vida, revendo quais amigos ainda iriam falar com ela depois de três anos de namoro perdidos com aquele infeliz, em qual curso ela iria se matricular pra manter a mente ocupada e, principalmente, para onde iria viajar pra não ouvir a mãe a acusando mais uma vez pela escolha errada, que a enterrou ainda mais baixo no buraco das encalhadas.

E o sujeito estava lá, com o sorriso Colgate. Felizão. Nem parecia que tinha sofrido uma perda tão grande. Afinal, deixar de namorar com ela, uma moça bonita, trabalhadora, boa cozinheira e disposta a tentar manobras da revista Nova (e até da Vip) na cama, era sem dúvida, uma baita perda, né?

Olha, feliz, tudo bem, mas daquele jeito já era afronta, disse Mariane à única amiga que a visitou na clínica. Sim, agora ela estava numa clínica para pessoas que amam demais. Tudo porque ela havia ameaçado Gus, o ex. “Só ameacei, minha gente, não significa que eu fosse fazer nada, né?”, disse ela ao diretor do manicômio, perdão, da clínica.

Ameaçou mesmo. De mutilação física. Mais especificamente, da ferramenta que mais proporcionava alegria ao cidadão que ela mesma havia dispensado.  Tudo flagrado pelas câmeras do prédio deles, aliás, dele, agora que ela havia saído de casa.

Dispensou porque ele a traiu com a recepcionista do escritório, aquela peituda nojenta com as pernas coalhadas de celulite. Ela pegou os dois em flagrante. Ela era a vítima! Era ela quem estava traumatizada. E agora ela estava enquadrada na Lei Maria da Penha. Tinha que fazer tratamento e tal. Só que Mariane nunca o amou demais. “Nunca amei demais aquele desgraçado, que fique bem claro! Eu gostava dele e só. O que ele fez depois foi uma puta falta de respeito. Falta de respeito, viu?!”, disse à amiga. Lidiane não contou nada às outras sobre a visita. Porque, no fundo, ela apoiava a atitude da amiga. Era melhor não dar na vista.


Depois da meia-noite

Toda noite, um velho condutor entrava no pátio dos antigos trens, sem que os seguranças notassem. Os três vigias ficavam cada um em uma cabine ao longo do muro que cercava o pátio.  Montavam sentinela às onze da noite, assistiam ao Corujão na tv, esticavam as pernas e dormiam, não necessariamente nessa ordem. Raramente, se concentravam nos monitores que exibiam o que acontecia no entorno devido ao excelente alcance visual permitido pelas torres. Ainda que se dedicassem, que se concentrassem exclusivamente no trabalho, não acredito que teriam visto o velho condutor se aproximar. Isso porque ele era um tipo mirrado e quase insubstancial de gente. Talvez, se o avistassem, julgassem se tratar de uma sombra, uma ilusão de ótica provocada pela névoa da madrugada. O fato é que nenhum deles deu pela presença do idoso, que durante quase dois meses, entrou e levou embora os primeiros trens da companhia. Muitos datavam da infância do ancião, outros ele conhecia apenas de já ver abandonado naquele mesmo pátio no centro do Rio. Mas trem era como bicicleta, quem manobrou um, manobrava todos. Silenciosamente, os trens partiam. Não digo que ninguém viu, pois tinha uma coruja lá, um animal dos mais discretos e que fazia questão de honrar a tradição de sua espécie. Após levar a 54ª locomotiva, o homem não mais voltou. Os trabalhadores noturnos não se incomodaram com isso mais do que com sua a presença. Até que um dia, muito tempo depois, um auditor municipal precisou fazer um balanço e foi ao pátio vistoriar os antigos trens. Precisava decidir se os levaria a leilão, se doaria a algum museu, ou se os trituraria no ferro velho e para isso botar os olhos no comboio era importante. Não os achou de primeira e pôs o pátio de 50 mil m² de ponta cabeça com o mesmo resultado. Pediu os vídeos de segurança desde o início do ano e assistiu, atônito, os trens rumarem para o sul da cidade e desaparecerem nas brumas do alvorecer. As câmeras, porém, não captaram em nenhum momento o velho condutor. Não havia outras pistas. Os seguranças deviam estar envolvidos, calculou o auditor. As providências seriam tomadas, garantiu ele aos brados ao diretor do pátio de trens. Os jornais, ele iria aos jornais, podiam estar certos, gritou já no portão. Porém, os trens se foram e isso era tudo.

 

Texto inspirado em um caso real.


Selfie

Mônica arrombou a vitrine de uma loja. Pegou um vestido preto, com detalhes em renda na barra e paetê no busto. Totalmente o seu estilo. Fez isso porque mais tarde irá a uma festa. Na festa vai fazer várias selfies. Ela não tinha mais roupa nenhuma, quer dizer, quase nenhuma inédita, o que é praticamente a mesma coisa. Quem se lembraria de uma produção repetida? Qualquer um que abrisse seu perfil no Facebook. E tem quem faça isso? Mônica faz. E se ela faz, os outros também. A Alicia é uma que vive fazendo isso (repetindo roupa), muda o brinco, o sapato, faz do vestido blusa ao enfiá-lo por dentro da calça, mas é óbvio que dá pra reconhecer. As pessoas reparam, sim. E comentam como ela, Mônica, anda sempre bem vestida. A única roupa repetida que ela se permite é aquela legging preta, com a malha com capuz também preta que é capturada pela câmera do shopping – são peças exclusivas para os crimes fashion. Mas o retrato não é dos melhores, ela já estava com uma perna do lado de lá do muro. O coque do cabelo cacheado, preso sob o capuz, já soltava algumas pontas, mas ainda parecia um desleixado calculado.  Os policiais apreciaram o ângulo do flagra, admirando os glúteos da nova ladra da cidade. “Que flexibilidade!”, um deles comentou ao repórter do Diário. “São as aulas de ioga, seu lindo”, pensou Mônica ao ler a notícia. Pena é que não poderia usar o vestido rendado essa noite, daria muito na vista. A matéria sobre o furto estava sendo compartilhada por todos os conhecidos nas redes sociais, um saco. Só porque era uma loja Vip. Teria que vestir o outro vestido, um de couro, super sexy, que ela vinha reservando para uma ocasião de extrema necessidade, quando não tivesse um puto na conta ou não conseguisse dar algum pulo. Porque, sinceramente, quem consegue comprar tanta roupa trabalhando, né?


Educação congelada

frozen

Na minha festa de aniversário mais marcante ganhei um bolo da Branca de Neve. Havia a casa dos anões, os anões, a Branca de Neve e um laguinho de gelatina brilhando azul numa das pontas. Não fui eu quem escolheu o tema, mas esse lago super azul até hoje é uma das lembranças mais fantásticas que guardo na memória.

Desde o seu segundo aniversário meu sobrinho já sabia exatamente o que queria como tema das suas festinhas. Foram os “Backyardigans”, os personagens de “Carros” e agora, aos seis anos, seria “Frozen”. Nesse último sucesso da Disney, duas irmãs são as protagonistas e os mocinhos são uma novidade: um, que se faz passar por príncipe bondoso, para enganar as duas irmãs, e o outro é um caso de amigo que sai da friend zone. Ao fim, uma irmã se sacrifica para salvar a outra e é essa prova de amor que garante o final feliz. Nada de beijo de príncipe, entenderam? E eu que não achei que viveria pra ver a Disney evoluir.

O problema é que são duas princesas. A decoração seria toda cor de rosa. E ele é menino. “Cor de menino é azul”, ele me explicou cheio de convicção. “Tem certeza? Você já me disse que vermelho é cor de menino”, argumentei – e viva o Homem-Aranha! “Todo mundo sabe que rosa é cor de menina”, ele confirmou. E o filme que é todo azul, por causa do vestido da rainha Elsa, do gelo e dos raios congelantes, por que diabos tinha só decoração rosa? Tinha que ser azul pra todo mundo, cáspita!

Todo escritor tenta passar uma mensagem em seus textos e quanto mais trabalhado nas entrelinhas acreditamos que ele dialogue de forma mais profunda com o leitor. Só que os adultos, ah raça, esses não prestam atenção no filme ou dormem o tempo todo! Imagina se vão pegar as migalhas de pão jogadas nas entrelinhas! Decoração rosa pra menino? Duas princesas?! Não, o meu filho é macho, bota aí o “Patati-Patatá”, o “Angry Birds”, o “Batman”, o “Chico Bento”…

Como se isso fosse garantir a heterossexualidade de alguém. Cresci com esse mundo dividido entre coisas de menina e coisas de menino e a minha geração assistiu a uma explosão de gente se assumindo gay, lésbica, transgênero, etc. Foram super reprimidos e sofreram horrores pra sair do armário, mas conseguiram. E tanta menina que, como eu, se divertia subindo muro, jogando bola, usando metralhadora laser porque tinha um irmão, um primo, um amigo com quem brincar? E o amiguinho que brincava de escolinha e de casinha com a gente? Não pode? Até quando?

Mamães e papais, dividir os brinquedos e os arquétipos só derruba preconceitos. Nada mais é garantido.


Cem noivas vietnamitas vendidas a chineses somem de cidade da China

traditional

Xeng foi um dos cem chineses que pagou, mas não recebeu a noiva. Ele esperava entrar o ano novo devidamente casado com uma boa moça, bonita e de caráter simples e modesto. Chegou até a conhecê-la durante as etapas anteriores da negociação. A festa armada, o vestido comprado, os convidados à espera e nada.

Por celular, Xeng é avisado que outro noivo, Pao-chang, cuja noiva viria na mesma remessa, também não teve a mulher entregue. Nem governo, nem agência, nem os sogros deram conta do porquê de Mai-lee e as outras não terem chegado no dia do casamento.

Desolado, nosso herói pensa em se matar. Melhor morrer que viver sem deixar descendentes e herdeiros. Trabalhar pra quê? Dois anos de salário lhe custou aquela esperança. E não precisava nem procurar pra saber que num raio de 300 km mulher solteira não tinha uma. E sequestrar mulher casada, artigo mais valioso que emprego de 40 horas semanais no país, se não desse em morte daria em prisão perpétua.

Naquela mesma noite, lendo alguns livros ocidentais  subversivos, coisa de burguesia degenerada mesmo como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie,  Xeng teve uma iluminação: ele iria investigar o desaparecimento de sua noiva, a traria de volta e consumaria o casamento. Aliás, buscaria todas as outras noivas.

E foi assim que Xeng abriu a primeira agência de detetives especializada em recuperação de noivas estrangeiras. O negócio não para de crescer. Agora, ele oferece até serviço de rastreamento via satélite desde a partida das moças do Vietnã, da Indonésia ou até do Brasil, se alguém for buscar assim tão longe.  Pao-chang, o primeiro cliente satisfeito, está bem casado e faz propaganda de Xeng a todo mundo.

Mai-lee, porém, nunca caiu no radar do nosso investigador. Conformado, Xeng compôs uma música em sua homenagem e partiu pra outra. Dessa vez, escolheu uma moça de Hong-Kong que, inclusive, saiu de graça ao noivo: Genji é um bocado liberal pro gosto dele, mas bonitona e entende tanto dos negócios que dá gosto.

*A crônica de hoje é baseada em reportagem homônima publicada pela Folha de S. Paulo.