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Brasa que abrasa

brasa

O cansaço era flagrante em seu olhar. O adeus estava pronunciado em seu silêncio. O destino arredou-se de seu futuro e partiu consternado com seu passado. Foi. Veio. Voltou. Acabou. Aposentou-se a verdade, abraçou-se a mentira.

Ela fitou-o no buraco negro de seus olhos. Ele engoliu-a com a fome dos devassos. Dos indomáveis. Acordaram. Nada lembravam. Despediram-se. Nunca mais se viram. A memória fragmentou-se em elipses amorosas daquelas que regamos a uísque.

 


Os assassinos também amam

Suzane

Foto: reprodução/Youtube

Longe de mim querer defender Suzane Von Richthofen. Na verdade, não me sinto muito disposto a defender quem quer que seja. Mas me chama atenção no caso da moça rica que tramou com o namorado para matar seus pais e caiu na desgraça midiática do brasileiro, seu esforço para amar.

Não acompanho tão de perto sua rotina. Não posso e não quero. Mas a mídia, naturalmente pela natureza controversa da questão, acompanha com avidez os desdobramentos da vida amorosa de Suzane. Creio que ela deva ser muito só. Faz pouco mais de um ano que Gugu nos apresentou a relação homossexual que Suzane tinha. Era com outra mulher que também havia matado. Elas pareciam um casal apaixonado na TV.

Agora ela tem um novo amor. Heterossexual. Chama-se Rogério e vai à televisão dizer que perdeu o emprego após a divulgação do namoro com a assassina dos pais e que em virtude da relação, está sendo cotidianamente hostilizado.

Pode-se argumentar a respeito da publicidade que foram dadas a essas relações e como este fato distorce a realidade das pessoas envolvidas, mas o fato é que assassinos, por mais absurdo que possa parecer, também amam. Muitos dos crimes, não é o caso de Suzane, mas certamente ela se aproveitou do amor de outrem para com ela para concretizar seu diabólico plano, são passionais. Isso quer dizer que o desatino do amor pode ser bastante cruel.

A ideia não é filosofar a respeito dos caminhos do amor, mas observar que há muitos outros assassinos amando por aí impunemente. É um tanto ingênuo pensar que o amor não se manifesta para quem não merece amar. A vida turva expectativas e aferrolha tendências. Sei de gente que não faria mal a uma mosca – e até evita matar baratas – e que nunca amou de verdade.


Deus, o romântico

Deus

Deus estava com vontade de desafios naquele dia. Resolveu fazer com que a prática e o romântico se apaixonassem. No primeiro mês a prática tentou ser romântica. No mês seguinte, o romântico tentou ser prático.

O amor padeceu e Deus decepcionou-se. Decidiu então fazer com que a romântica e o prático se apaixonassem. No primeiro mês, o prático terminou a relação e Deus inquietou-se com a praticidade masculina. Resolveu que homens práticos só se apaixonariam por mulheres românticas até que aceitassem que a prática, na teoria era outra. Sujeito romântico esse Deus.


Felicidade absoluta

Ao lado do cartaz de “Silêncio”, na casa de repouso havia outro, “Não aceite sorvete em um primeiro encontro”. Para quem vinha visitar os parentes mais idosos, o anúncio parecia absurdo ou talvez, quem sabe, alguma brincadeira interna. Mais adiante, no corretor para a sala de pintura, havia outro que recomendava “Leve seu próprio café quando for à biblioteca”.

O diretor hesitou muito em autorizar aqueles avisos, mas ele havia recebido a visita de dois investigadores da polícia que haviam insistido sobre aquilo. A “viúva negra” havia cumprido sua última pena e estava solta novamente. Rumores de que ela voltara à ativa deixaram o departamento em estado de alerta. O delegado consultou a polícia federal que indicou a necessidade de um intenso trabalho preventivo.

Porém, os parentes não haviam sido avisados sobre os trabalhos. E acharam um absurdo. Uma filha se queixou que o pai não era nenhuma criança para ser proibido de aceitar doces de desconhecidos. E ela ainda disse que o pai poderia aceitar o que quisesse de quem quisesse porque ele era um homem lúcido e, no mais, poderia comprar o que quisesse com a mesada que ela lhe deixava todas as semanas.

O pai ria por dentro, sem disfarçar muito. Não disse nenhuma palavra pra defender o diretor ou apoiar a filha. Eles que eram brancos que se entendessem, de onde ele estava agora, ele era plateia do circo e queria mais era continuar vendo o fogo tomar conta.

Um filho advogado da dona Cléo, que ocupa um dormitório no segundo andar, achou que a história era um mero conto de policiais ineptos até para disfarçarem a própria incompetência. Não havia lido nada nos jornais sobre a fuga de nenhuma “viúva negra” e a mãe dele não era nenhuma ingênua. Ela que fizesse amizade e saísse com quem quisesse.

A neta do velho Heffner, aquele safado que havia criado uma revista pornô décadas atrás, foi das poucas que apoiou a iniciativa da direção do instituto. Não faltavam mulheres sem-vergonha querendo fazer o coitado do avô se desfazer do espólio, por isso a família o abrigou num lugar discreto, onde ele ficasse protegido da maldade do mundo. Aliás, justamente por proteção ao patrimônio, digo ao idoso, lá todos o conheciam por Jeremias. Por via das dúvidas, Jeremias passou a ser seguido em suas caminhadas no fim da tarde por dois seguranças à paisana.

Susanah, a viúva negra, porém, ainda tem algum dinheiro na poupança. E pode sondar o terreno antes de soltar seu charme no próximo solteirão. Ela sabe que a polícia está à espreita. O tempo é seu amigo, com 65 anos parecia ter dez a menos – era o que todos diziam. De consciência tranquila, justificava-se dizendo que amava seus ex-companheiros.  “Dou a pobres homens solitários seus últimos dias de felicidade absoluta. E eles querem me retribuir, que mal tem se eu aceito esse carinho deles? No fim, eles morrem disso, de felicidade, tadinhos”, disse ela toda cândida ao juiz de seu último caso.

 

Inspirado na notícia: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2016-03-21/uma-criminosa-esta-morando-na-comunidade-a-volta-da-viuva-negra-da-web.html


Tríade futurista

Um dia me perguntaram o que penso do futuro. Não aquele futuro inalcançável, que apenas os tataranetos dos meus tataranetos verão, mas aquele que está por vir para esta geração, para a geração na qual estou contida.

Respondi apenas que não sabia, que estava cansada demais para pensar em algo tão profundo. Mas era mentira: pois mediante uma pergunta tão séria, eu não poderia responder de qualquer jeito, precisava pensar de verdade.

Até agora não sei bem a que conclusão chegar, mas já consigo sentir algumas coisas e essas coisas são sensações muito particulares do que racionalmente, espiritualmente e emocionalmente eu consigo sentir.

futuro

Espiritualmente, tenho fé de que a mudança está por vir, muito próxima, nas mãos daqueles que hoje são minorias, oprimidos e rechaçados, que farão a reviravolta necessária, instaurando o respeito verdadeiro, a justiça, o amor. Tenho fé de que o mundo está mesmo mudando, que mais e mais pessoas estão engrandecendo a mente e limpando conceitos das pré-concepções que deterioram os direitos inatos. Tenho fé.

Racionalmente, vejo que a coisa está de mal a pior, que estamos perdendo o controle e que não há muita salvação que se esperar. As pessoas são maldosas mesmo, são egoístas mesmo e só importa o que girar a meu favor. É tanta coisa ruim, mas tanta coisa, que não se pode esperar, na real, algo muito diferente do que já temos…

Mas, emocionalmente eu sorrio por dentro ao encontrar pessoas que valem a pena, que lutam por algo que é bom para o coletivo, para si e também para o coletivo, que está disposta a abrir m]ao de uma coisa ou outra, que entende o limite como algo saudável e justo, pois é para todos; que entende a liberdade da mesma forma: e a utiliza sem ferir o amigo ao lado. Existe amor, ele está ao nosso redor, está sendo praticado, está sendo difundido.

O que virá? Não sei mesmo dizer, um mix de sensações que confundem o futuro, que me cegam para o que há de vir, mas me elucidam para o que está aí, que, convenhamos, é o que importa para hoje.

Carpe diem, não só para que possamos ter o que contar, mas para que mais pessoas também tenham o que contar.

 


Depois daquele beijo

beijo

Foto: Flickr

O leitor já se apaixonou. Todo apaixonado sabe quando está apaixonado. Mesmo que não de pronto. A consciência toma forma em algum momento. Pode até ser tarde demais, mas aí já é outra história.

Existe, porém, aquele beijo. Não é o beijo da paixão o que eu falo. É o beijo do prospecto da paixão. O beijo que insinua que você é dela e que ela é sua. Em algum universo paralelo, ao menos. Os tempos são modernos e a paixão, sorrateira. Mas o beijo ainda é o melhor termômetro do estado das coisas.

Há quem diga que o sexo pode até ser mais ou menos, mas o beijo precisa de empatia. Devaneios à parte, existe, sim, o beijo que muda tudo de figura. Que fica na memória te martelando. Você vai se apaixonar. O teu mundo pode ser maravilho, apesar de estar ruindo.

Neste contexto, eu chamo esse beijo de terapêutico. Porque você ainda não está “perdidamente” apaixonado – e as aspas não são minhas, sãos suas, leitor – mas está maravilhado diante da ideia. Se se evita o imponderável da paixão, reconhece-se o alento que ela proporciona à indevassável angústia de “ser” – e de quem serão essas aspas? – no século XXI.


Neve

Ela beijava a nuca com ímpeto e vez ou outra interrompia os beijos com uma mordidinha de leve. Ele a envolvia com os braços fortes, serenados pelo tempo, calejados de outras estações. De outros amores. Ela gostava do abraço. Gostava de como se sentia envolta nos braços dele. Gostava de como o corpo dele tremia com as mordidinhas dela. Ele então tirou a blusa dela. Os mamilos estavam tesos, a renda a excitava ainda mais. Ela respondia ao toque suave com gemidos contidos que o deixavam ainda mais estimulado.

Ele não tirou o sutiã. Deixou-a padecer daquela excitação nervosa que a fazia mexer constantemente nos cabelos. Ela precisava tocá-los. Trazê-los de um lado para o outro. Fazer alguma coisa com aquela ansiedade devoradora.  Ele gostava de percebê-la tentando se conter. Os gemidos já não eram mais tão contidos. O abraço ficou mais apertado.  O calor engolia o frio. O desejo já não mais cabia ali. Ele a tirou de cima dele e, exaustos, puseram-se a fitar a paisagem.