OS CORPOS EM ALTA

Dias atrás tivemos a notícia de que o médico cirurgião plástico Ivo Pitangui deixou este mundo, aos 93 anos. No dia anterior ele fez questão de empunhar a tocha olímpica em um trecho da Gávea, sendo levado por uma cadeira de rodas, misturando-se ao espírito do esporte.
Fazendo uma relação do que esse símbolo da medicina na área que trata da estética ou da reparação com o momento das Olimpíadas, há uma analogia muito grande – atletas e esportistas que desfilaram em quadras, arenas e em todos os espaços onde se realizaram os jogos exibiram corpos musculosos e quase perfeitos, chegando a comparações com Apolo, símbolo da mitologia greco-romana, um dos deuses olímpicos.
A beleza dos corpos, a melhor performance, o desempenho, o desfile de músculos e bom rendimento foram a tônica da Rio 2016, como acontece em provas do gênero. A presença desses gênios da superação e que preparam seus corpos por anos a fio até o momento de exibir suas qualidades, vem nos lembrar o quanto eles dependem de seus suportes físicos.
Voltando a Pitangui, que foi uma referência mundial quando o assunto era plástica, e que mudou a vida de famosos e anônimos, fazendo-os mais felizes na correção de suas deformidades ou feiuras, a beleza para ele era uma forma de harmonizar corpo e espírito, emoção e razão. Ele dizia que buscava a autoestima de seus pacientes e que não era capaz de definir o conceito de beleza, mas sempre que a encontrou soube percebê-la.
Usando a delicadeza da citação de Pitangui, entende-se plenamente que a correção de imperfeições, fazendo as pessoas mais felizes e integradas à sociedade, supera e muito o padrão costumeiro da estética. Seu trabalho de recuperar deformidades causadas por acidentes e de queimaduras, o fez subir mais ainda os degraus do Monte Olimpo.
Logo teremos os Jogos Paraolímpicos, onde uma infinidade de atletas chegaram a essa condição, na superação extrema de dificuldades. Isso é beleza plena e que nos agride com suas perfeições. Acredito que essa deveria ser a visão do nosso grande cirurgião plástico.

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Eu não sou todo mundo

Quem é que nunca teve problemas por “estar fora do padrão”?

Estar acima do peso, abaixo da altura, fora daquela faculdade ou não compartilhar do mesmo gosto e atitudes. Existem, na real, muitas outras características que determinam se estamos ou não dentro do que dizem ser o “normal”. Mas o que é que define o que é normal? A maioria das pessoas? Uma pesquisa com resultados elaborada por médicos? Uma média parametrizada de uma parte da população?

Vejamos um exemplo clássico de parametrização médica.

Uma pessoa que sempre teve seus índices de pressão arterial em níveis “mais baixos que o normal”, mas que nunca teve nenhum problema de saúde em decorrência disso. Um médico comum, acostumado aos padrões, faria o quê? Dá remédio pra essa pessoa, tem que subir a pressão para os níveis normais! Dá-lhe pílula disso e daquilo, até que os índices arteriais sobem e sobem mais do que o necessário; “Pára o remédio!”, e a pressão volta a baixar; “Volta o remédio!”, e a pressão torna a aumentar; “Pára o remédio!” e… vá pros quintos dos infernos! Antes tivesse acompanhado para entender qual é o normal daquela pessoa para depois dar um diagnóstico mais assertivo.

Quando eu queria fazer algo que todos os meus amigos faziam – e esse era justamente o meu argumento -, eu recebia de resposta o sonoro e conhecido “você não é todo mundo!”. Então eu aprendi que para mim as coisas seriam sempre muito específicas; quando cresci me dei conta de que seria assim não por ser comigo, mas porque seria assim (ou deveria ser) com todo mundo!

Entendi, assim, que o padrão é algo criado para discriminar, por mais que não pareça. É só pensar que tudo aquilo que estiver fora das características definidas por esse tal padrão será visto com grande diferença, muitas vezes até com preconceito – caso clássico: dizer que “não é normal” ser gay. Pensemos, então: se “ser heterossexual” não estivesse dentro dos padrões da tal normalidade, não seria necessário dizer que ele “ele é hetero” ou “ele é homo”, bastaria dizer ele é. O que ele é? O que quiser, oras! Afinal, a vida é da pessoa, ela escolhe o que der na telha para ser.

“Ser” é, portanto, um empoderamento que poucos têm, poucos conseguem exercer. E este é mais um exemplo de Jesus foi um homem de muitos ensinamentos (considerando, claro, a hipótese dele realmente ter existido): na época, apenas os faraós – e com muitas limitações – usavam a expressão “eu sou”; e diz a história que Jesus, quando interrogado sobre ser o filho de Deus, a resposta dele foi  simples simples e arrebatadora: “eu sou”. Jesus, segundo o livro, sabia o que era, estava empoderado de sua natureza e se fazia valer por ela.

Ou seja: minha mãe estava mesmo certa e isso serve para todo mundo; e quando alguém vier com cara feia me recriminando por qualquer coisa da qual eu não esteja dentro dos ridículos padrões, vou dizer em alto e bom som: eu não sou todo mundo.

 


Tempo

time

Frente ao espelho embasado, impedida de me mover, aguardo os 3 minutos que faltam para ganhar a liberdade da rua. Não há nada que me impeça de sair antes da hora. Apenas a moral. Não há nada que me obrigue a estar. Apenas a ganância pseudo necessária do viver. O dilema de todo dia, quando meus olhos despertam, é saber como vou fingir o que pretendo ser. Encarno a personagem grata, cubro os olhos com a venda do comodismo e saio de casa rumo ao cadafalso antecipado. Em mente tento levar para longe meu espírito enquanto meu corpo aprisionado resiste, inflexível, disciplinado, semi vivo. Olho outra vez o relógio , carrasco. Faltam 2 minutos. Todos os segundos riem de mim.


As voltas que o mundo deu, as voltas que o mundo dá

piao

É curioso como tudo pode se revirar, se desdobrar. Pessoas que você via todos os dias se tornam desconhecidas, pessoas que você não gosta de repente se mostram legais, pessoas que você não esperava te estendem a mão quando poderiam simplesmente desviar da pedra e seguir o caminho. É curioso também ver como a gente se desdobra, se redobra, se origamiza. Como conforme o tempo vai passando, a nossa cabeça (levando todo o resto) passeia por tantas situações, tantos lugares, alguns que a gente sequer imaginava. Abrem-se possibilidades, descortinam-se opções e, por mais clichê que soe, o mundo dá voltas. Às vezes voltas tão compridas, que por um tempo dá a impressão de que está tudo parado, ou que pra sempre continuará. Outras voltas tão rápidas e abruptas que é preciso segurar o chapéu pra que ele não saia voando com o vendaval. Algumas voltas são mansinhas, num outro compasso mais gostoso de acompanhar. Tem umas que viram pra longe, tem umas que voltam pro mesmo lugar. E nesses giros arrítmicos de percorrer do mundo muda-se os chãos e também os viajantes, e ah, como o esperado! Como as coisas vão se desenhando e se deformando de tão sutil maneira, que com um piscar – ou um marejar -de olhos, fica tudo, tudinho, em um outro lugar. Gostos mudam, jeitos mudam, companhias mudam, lealdades mudam, contratos mudam, eu mudei. Troquei até os móveis de lugar na casa, pra combinar com o novo andar da carruagem. Alguns reparos ainda precisam ser feitos pra seguir viagem, algumas bagagens, deixadas pra trás. Uma pitada de coragem na mistura é necessária pra olhar pros lugares feios de dentro, os monstros que vivem na gente (e caminham conosco algumas vezes, também em nossa volta) e escolher atirá-los pela janela, seguir sem com que eles te freiem demais. Pra mim ás vezes é dificílimo, acompanhar as voltas que o mundo deu, as voltas que o mundo dá. Me perco no giro. Me surpreendo com a próxima rodada. Conheço outros outros, e outros eus. As vezes dá um frio na barriga, de pensar o que se tem adiante. Ás vezes esqueço que não ando só, e tenho medo de aonde chegar. Mas não há como negar a beleza que há numa espiral constante, pra frente e avante, traçada no surpreender mais do que no esperar.


LEITURAS QUE MARCAM

Existem algumas máximas que englobam ideias e que quase sempre refletem a realidade. Mas, como nem tudo ē pau ou pedra, as exceções estão aí para desmentir algumas frases que são antológicas. Por exemplo, no que se refere a hábitos das pessoas e que explicam como elas são – Vocé é o que come, vocé é o que pensa, você é o que são seus amigos.
Temos algumas provas cabais de que essas citadas já se comprovaram por várias vezes, mas sempre fico preocupada em defender uma tese com unhas e dentes e, por isso, fujo das generalizações. Agora, um grupo de pessoas em São Paulo está debatendo um tema que tem a ver com isso que falamos. Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, foi lançado um projeto sobre literatura, onde se discute “Você é o que Lê” e o mesmo poderia ser ampliado para o que se busca de informação e de programas culturais.
Nossos gostos e escolhas definem bem as nossas personalidades – se somos aventureiros, românticos, estudiosos, investigadores, eruditos, populares, profundos ou banais. Ou se somos um pouquinho de algumas dessas coisas, já que considero que reunimos uma gama de tipos e transitamos numa multiplicidade deles.
Me parece bem interessante a ideia de incluir a literatura em um debate sobre comportamento e, indiretamente, buscar respostas para gêneros e estilos literários, assim como seus autores e gestores. Acredito que no cerne da questão esteja o interesse das editoras e livrarias para desvendarem obras e escritores e ampliarem vendas. De qualquer forma, coloca no centro o livro para se pensar sobre grandes obras que transformaram a humanidade ou a revelaram, influenciando gerações indicando rotas a serem seguidas ou que registraram momentos históricos do passado assim como da contemporaneidade.
Quem não tem um ou alguns desses livros que foram basilares na sua formação, desde a infância, a juventude e mesmo na idade adulta? São os que fizeram nossa cabeça, mesmo por isso chamados de livros de cabeceira. Você poderia lembrar, pelo menos, de uma dúzia deles?


Potencialmente

Sozinha na rua à noite, acredito ser potencialmente um alvo para qualquer homem que passar por mim, pois eles são, qualquer um e todos eles, nessa mesma lógica, potencialmente uma ameaça de assalto, de estupro e outras formas de violência em geral.

Toda mulher que pertence ao círculo de conhecidos do meu companheiro, acredito que seja, todas elas, até as casadas, potencialmente uma ameaça, que vai dar em cima dele, querendo algumas “cositas más”; meu companheiro, por sua vez, também é potencialmente um canalha que vai cair na lábia de qualquer uma, aproveitar a situação, dizer que foi fraqueza e pedir desculpas.

Por outro lado, eu, que sou de escorpião, e potencialmente sou raivosa e rancorosa, que planeja vingança antecipada, potencialmente posso traí-lo antes mesmo dele fazer alguma coisa, e com qualquer homem que esteja no meu círculo de conhecidos, para que ele aprenda e não me traia nunca.

 

Somos todos potencialmente imbecis. Ou podemos escolher ser potencialmente observadores.

Cabe a cada um a escolha de qual potencial quer ter, com as qualidades e potencialidades que lhe forem competentes.


Ele de preto, Ele de Rosa

eles

Crédito imagem: Tom Privitere e Brian Edwards em www.nj.com

Mais um dia comum raiou na casa dos Silva. Pouco menos comum que os demais, já que era domingo, dia da diversão do João. Cedo ele já pulou na cama dos pais pedindo com olhos de cãozinho faminto o que tinha a certeza de conseguir. Um sorriu para o outro e juntos levantaram. Entre copos de leite com chocolate, bolo com geleia de ameixa, pão dormido com queijo e banana amassada com aveia todos riam das travessuras alimentares do pequeno João. Olhavam-se satisfeitos. Apressados pelo pequeno, foram se aprontar para a aventura fora das quatro paredes. Saíram os três. João corria na frente, saltitante em sua fantasia de princesa, a custo conseguida como presente dos pais. Estes caminhavam um pouco atrás, de mãos dadas. Ele de preto e ele de rosa. Era outro dia feliz para uma família que se permitia.