Arquivo do autor:Reinaldo Glioche

Sobre Reinaldo Glioche

Jornalista e cinéfilo!

O evangelho segundo o ex-fumante

cigarro

Não existe pesadelo pior para um fumante quando empunha um cigarro aceso do que ver no horizonte um ex-fumante se aproximar. Mal comparando, é como quando a fatia do pão cai com o lado do requeijão, ou da margarina para os menos saudáveis, para baixo.

O ex-fumante é igual mulher traída. Não dá descanso e capricha na campanha negativa. Ele acha que o melhor para ele é o melhor para todo mundo e que os fumantes precisam ser evangelizados. Que eles precisam de um guia; uma espécie de tutor para abandonar o vício. Ao fumante, se paciente, resta dançar conforme a música que o ex-fumante toca. Ele precisa reiterar ao pecador a sua virtude, a legitimando.

Não é uma dança sempre agradável. As vezes, aquele cigarro é o que te impede de socar alguém e chega um sujeito com blá, blá, blá.

A convivência entre fumantes e ex-fumantes é sempre ruidosa. Afinal, eles são divididos por uma questão moral. Aqueles que não fumam mais e aqueles que ainda fumam. Vontade, saudade, asco e desejo são pormenores. Nem todo fumante quer parar de fumar, por mais que tenha consciência do mal que o fumo provoca. Na visão do ex-fumante, o arbítrio é um veneno. Ele sente-se impelido a demovê-lo de todo fumante com quem cruzar.

E assim nos deparamos com essas pegadinhas da vida em que se prova que Deus tem , sim, senso de humor.

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Brasa que abrasa

brasa

O cansaço era flagrante em seu olhar. O adeus estava pronunciado em seu silêncio. O destino arredou-se de seu futuro e partiu consternado com seu passado. Foi. Veio. Voltou. Acabou. Aposentou-se a verdade, abraçou-se a mentira.

Ela fitou-o no buraco negro de seus olhos. Ele engoliu-a com a fome dos devassos. Dos indomáveis. Acordaram. Nada lembravam. Despediram-se. Nunca mais se viram. A memória fragmentou-se em elipses amorosas daquelas que regamos a uísque.

 


O cheiro que o habita

agachamento

Foto: Mundo da Boa Forma

Ele não a achava especialmente bonita. Mas reconhecia nela atributos que lhe favoreciam decididamente. Tinha coxas bem torneadas e a academia parava para vê-la fazer agachamento. Era um acontecimento às segundas, quartas e sextas por volta das 11h da manhã.

Ela tinha cabelos longos, bem lisos. Parecia uma índia. Talvez uma gueixa. Os seios não eram especialmente grandes, mas se faziam notar. O quadril sabia projetar sua feminilidade com exuberância e convidava o olhar para sua cintura. Mas o que realmente o intrigava nela era o cheiro.

Era afrodisíaco.

Por vezes se aproximava dela apenas para brindar suas narinas com aquele perfume. Era forte. Embriagante, ousaria dizer.

Quando sentia aquele cheiro ele só pensava em sexo. Era imediato. Mudava completamente seu humor. Ele nunca imaginou ser tão feliz se reduzir ao mero instinto.


… e o gênio apareceu!

Ele olhava fixamente para a garrafa. Ficou ali imerso em pensamentos diversos por alguns minutos até que um gênio saiu da garrafa. “Você tem três conselhos”, lhe avisou. “Você não quis dizer desejos?”, retrucou o homem ainda um tanto incrédulo. “Não. São três conselhos mesmo”, devolveu o gênio com ar de enfado. “Mas por quê?”, insistiu o homem. “Por que estamos no Brasil e aqui os gênios não realizam desejos, apenas aconselham como você pode realiza-los”.

O homem sorriu. O gênio sorriu e dividiram uma cerveja. Os conselhos seriam um desejo para mais tarde.


A (boa) ditadura de “Game of Thrones”

game

É um tanto difícil se deparar com alguém que não assista à série “Game of Thrones” atualmente. Grande febre da televisão no mundo, a série da HBO é um fenômeno que não encontra precedentes. Elevado a status sacro nas redes sociais e fomentador de debates inconclusivos sobre spoilers e afins, o show merece destaque, ainda, por conseguir a proeza de estimular o espectador a assisti-lo no momento de sua exibição.

Pode parecer algo trivial, mas em meio à revolução do on demand, capitaneada pelo Netflix, é algo vistoso e que deve ser comemorado. A maneira das pessoas assistirem séries está mudando. Mesmo séries cultuadas como “House of Cards”, “The Walking Dead” e “The Big Bang Theory” não suscitam o frisson provocado por “Game of Thrones”.

Todas essas séries são hypadas e, excetuando a primeira, exibidas semanalmente (“House of Cards tem sua temporada disponibilizada inteiramente de uma vez pelo Netflix). A qualidade narrativa, do esmero do roteiro ao brilhantismo dos diálogos, ajuda a entender a razão de tanto confete, mas o que pode ser decisivo mesmo para toda essa atmosfera é o fato de “Game of Thrones” visivelmente estar chegando a algum lugar. Conforme a série intensifica seus preparativos para o clímax, vê subir a temperatura de sua adoração. Algo semelhante, ainda que em proporções bem mais modestas, aconteceu com “Breaking Bad”. Outra série que, como a produção da HBO, primava por qualidade e economia narrativas, e tinha um norte bem claro. A todo o tempo.

A ditadura de “Game of Thrones”, que vivemos hoje, portanto, diz respeito ao fato de ser a única série que falamos a respeito simplesmente por ser a única que realmente está lá. O prazer de repercutir a série semana após semana é algo muito valorizado pela produção e que ajuda a perdurar seu status quo. É uma arte perdida. Depois de “Game of Thrones”, provavelmente não teremos tão cedo, em tamanha escala, uma série capaz de resgatar o prazer de se saboreá-la ao assistir.


Com ou sem foro?

Justiça

Parece ter chegado aquele momento em que precisamos responder a pergunta: queremos ser o país do foro privilegiado ou não?

Em meio a todos os escândalos políticos que mobilizam a opinião pública, essa pergunta surge soterrada em muita desinformação e sensacionalismo. O foro privilegiado, instituto com previsão institucional, objetiva resguardar o cargo, não seu ocupante. É o mandato da autoridade que precipita o foro, não a autoridade. Na série de perversões que nossa cena política apresenta, o foro legitimou-se como uma trincheira para os ditos criminosos do colarinho branco.

Não seria democraticamente maduro, ou institucionalmente prudente, simplesmente extinguir a prerrogativa de foro. Mas é preciso iluminar o debate. Trazê-lo subordinado a interesses eleitorais é incidir em desonestidade intelectual. Um terço da Câmara dos deputados é alvo de inquérito e o STF se vê atolado em ações penais e sublimado de suas atribuições jurisdicionais (doutrinar o exercício do direito no Brasil).

Há de se ponderar, ainda, que a prerrogativa de foro, como está estabelecida, mais do que estimular a impunidade, abastece os meandros da corrupção, como atestam os avanços da operação Lava Jato. Há se pensar que, em essência, a constituição pretendendo a igualdade, criou uma distorção expressa ao criar uma massa aristocrática de cerca de 22 mil brasileiros (estimativa de pessoas com algum tipo de foro privilegiado).

Reformar o instituto do foro privilegiado, por tudo precedentemente exposto, é imperioso para que o Brasil possa sair dessa profunda crise moral e ética fortalecido enquanto sociedade e democracia. Não nos enganemos! A solução passa por esse doloroso debate. Coragem, afinal, não é sair às ruas pedindo a saída de fulano ou sicrano, mas abarcar o debate de país que queremos ser nos ângulos que tanto fulano quanto sicrano querem que ignoremos.


O femismo à espreita

simpson

Quem me conhece, e não me circunscrevo à figura de expressão, sabe que sou feminista. Advogo o feminismo desde antes de ser capaz de elaborar e decodificar seu conceito. Criado por uma mulher e no convívio feminino, me orgulho do fato de possuir valores mais humanizados e sintonizados a um anseio legítimo e perene (nota ao leitor: procure aqui no Vida a Sete Chaves minhas “Crônicas da Vagina”).

No entanto, o feminismo como agenda e causa evoluiu de maneira esquizofrênica e hoje abarca radicalismos que comprometem essencialmente o debate propositivo que surgiu na gênese do movimento.

É claro que não farei justiça à natureza complexa e multifacetada do tema em uma crônica ligeira, mas a preocupação, costumeiramente latente, vem ganhando fôlego. À espreita está o femismo. Em uma conceituação vulgar, femismo poderia ser identificado como um machismo às avessas. Uma concepção de superioridade da mulher em relação ao homem. O grande prejuízo desse radicalismo derivado de um feminismo fálico, que “enfia um pau duro na boca de quem discorde”, como cunhou maravilhosamente bem em um artigo Tati Bernardi é a justaposição de elementos culturais nocivos ao bem estar social.

O femismo, ao contrário do feminismo, é um fenômeno isolacionista, que propaga intolerância e dissemina a cultura do ódio. Mais: arrisca todas as conquistas feministas ao reclamar o direito de trocar o sexo do machismo.