A descoberta de Clarice

A descoberta de Clarice

 

Não fui leitora de Clarice Lispector. Clarice é e era um ícone já em vida. Alguns aspectos de sua literatura me afastaram – era endeusada por aquele pequeno grupo de literatas com as quais eu convivia. Sempre fui arredia e assim nunca tive o prazer de conhecer a profundidade de sua obra. Até hoje não li nenhum de seus romances. Herméticos, diziam. Fui deixando para lá. Eu tinha dois livros dela – uma seleção de contos e Clarice na cabeceira, que também é uma seleção de contos. Agora tenho quatro e desconfio que minha prateleira de autoras nacionais vá continuar crescendo.

Estou lendo A descoberta do mundo. Falta um tiquinho só para acabar. Reúne os textos que ela escreveu e publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, de agosto de 1967 a dezembro de 1976. Não é um livro só de crônicas – seu filho, Paulo Gurgel Valente em nota explicativa garante que esses escritos não se enquadram facilmente como crônicas, contos, pensamentos ou anotações. O que é um pouco tranqüilizador – ela escrevia, não se sujeitava a regras. Nem a denominações genéricas.

Nas orelhas, Sylvia Perlingeiro Paixão, Doutora em Literatura Comparada pela UFRJ, apresenta o livro. Ela retransmite as palavras de Clarice: Na literatura de livros permaneço anônima. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer. O enigma aos poucos vai se revelando. Pois é isso que a crônica faz – revela. Esse trecho está na pequena crônica (12 linhas)- Fernando Pessoa me ajudando Noto uma coisa extremamente desagradável. Estas coisas que ando escrevendo aqui não são, creio, propriamente crônicas (…) Sim, como todos nós, cronistas do RL, ela também tem dúvidas. Não sabe exatamente o que é uma crônica. Por que isso a desagrada? Porque ela sente que nas crônicas o escritor se revela tanto que se torna íntimo do leitor. Eu concordo, de certa forma acabamos todos sendo vizinhos uns dos outros. Ela também teme a popularidade, que devassa a intimidade. Desfaz o mistério. Mas como Pessoa a ajudou? Dizendo: Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos.

Estou lendo Clarice e gostando. Algumas vezes eu até deixo de gostar.  Desgosto. Alguns textos, para o meu gosto, são até bem ruinzinhos. Mas é a minoria. Pelo menos, do pouco que já li. Clarice passou muitas dificuldades financeiras em sua vida, principalmente depois do fim de seu casamento. Para complementar sua renda trabalhou como tradutora, jornalista e cronista. Muitas vezes usou pseudônimo – Teresa Quadros (Comicio), Helena Palmer (Senhor). Ghost Writer, escrevia a coluna da atriz Ilka Soares no Diário da Noite. Ajudou Alzira Vargas a escrever a biografia do pai, Getúlio. De origem judia, foi despedida do Jornal do Brasil quando Ernesto Geisel foi eleito.

Quanto mais se lê Clarice, mais se percebe o seu mistério e maior se torna o desejo de decifrá-lo. Mas os grandes mistérios nunca se revelam por completo. Ficam no lusco-fusco. No limiar de qualquer coisa. Da descoberta que tudo clareia, da sombra do obscurecimento. Nasceu na Ucrânia e veio para o Brasil com pouco mais de um ano. Chegando aqui, seu pai mudou os nomes de quase todos os membros da família – Clarice, tornou-se Haia, que em idiche significa Vida. Em seu túmulo está escrito – Chaia bat Pinkhas – Haia ou Chaia não consegui descobrir. Bat, filha de PinKhas, que no Brasil chamou-se Pedro. Que também é o nome de seu primeiro filho, esquizofrênico. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e se apaixonou por dois outros homens, que influenciaram bastante sua escrita – O escritor Lucio Cardoso, homossexual assumido. O cronista mineiro, Paulo Mendes Campos, casado. Mas tudo indica que também fosse lésbica. Seu cão Ulisses, companheiro inseparável, mordeu-lhe o rosto. Fumante inveterada provocou um incêndio em seu próprio quarto, com queimadura séria no rosto.

Clarice era uma bruxa. Daquelas bruxas cuja magia nunca acaba. Mesmo depois de morta, continua encantando. E nós, os encantados, buscando com sofreguidão o entendimento que nos livrará desse feitiço.

 

 Maria Olimpia Alves de Melo

Catando Coquinhos

Catando coquinhos.
 

Na  verdade os coquinhos não passam de nozes de macadamia, originárias da Austrália, mas quando os encontrei sendo vendidos na rua achei-os tão bonitinhos que decidi comprar. Antes, experimentei um e gostei. De macadâmia eu só conhecia sorvetes e bombons sempre deliciosos.

Os tais coquinhos são vendidos tendo por medida o litro, no caso uma lata vazia de óleo de cozinha, como eram vendidas as jabuticabas antigamente. Acho até que foi por isso que os comprei – pela nostálgica lembrança.
 
Os vendedores carregam as nozes em um carrinho de mão e junto uma pedra bem sólida onde as colocam para firmar. Depois pegam um martelo e dão uma martelada bem forte em cada noz e as distribuem as pessoas na rua, até aos desdentados, o que é uma crueldade.
 
Perguntei-lhe como eu iria fazer em casa para abrir a noz e ele respondeu: Pegue uma bacia um martelo e sente-se na calçada com seu marido e peça a ele para ir quebrando para você. Não tendo marido nem braço forte e nem pedra solida, nem calçada  sentável, seria uma temeridade comprar, mas arrisquei. Se não conseguir, deixo-as enfeitando uma fruteira qualquer, pensei.
 
Colocados dentro de um saco plástico fui fazer o que tinha que fazer, carregando-os. E volta e meia um e outros despencavam pela borda do saco indo ao chão: e lá ia eu catar coquinhos, equilibrando minha bolsa, minha pasta executiva e o resto dos coquinhos.

Acho que fiz uma boa compra porque segundo informações seríssimas da Folha de São Paulo, elas retardam o envelhecimento, protegem o sistema cardiovascular além de reduzir os níveis de colesterol no sangue. Já é produzida no Brasil, sétimo produtor mundial desde a Bahia e estende seus galhos até o Uruguai. Chegou por aqui vinda da Califórnia. Não dá muito trabalho para colher porque os frutos caem sozinhos da árvore, o que torna uma chuva de macadâmia muito perigosa. Apesar de que a árvore é linda e enfeita com classe e elegância qualquer bom quintal – O grande problema é que demora demais para produzir, mas depois que começa não para mais. São conhecidos espécimes com mais de um século de idade e ainda em alta produtividade.
 
Mas catar coquinhos mesmo acabei catando foi em casa: peguei o martelo, uma mão cheia de coquinhos e fui para o quintal. Resolvi firmá-los na escada de cimento que liga as duas partes do quintal e não deu outra: a cada martelada um coquinho voava longe. Depois de catá-los todos, resolvi devolver para a fruteira e esperar um braço forte aparecer para eu tomar a minha poção mágica contra o envelhecimento

Laços de Família

 

 

         Minha irmã fala coisas que eu não entendo. Minha irmã trabalha com terapias alternativas e diz que eu tenho uma ligação especial com minha avó Olímpia. Eu reajo. Queria ter uma ligação especial com minha avó Maria, com quem convivi e a quem muito amei. Se eu nem conheci a minha avó Olímpia, como posso ter uma ligação especial com ela?  Quando morreu, eu tinha pouco mais de dois anos. Havia uma foto minúscula,ela no caixão, a família em torno,mas nem dava para ver seu rosto. O retrato sumiu e nenhuma lembrança restou e mesmo as histórias se perderam. Sei dela que fazia colchões. De capim. Antes, sinhazinha, herdeira de terras lá para os lados da Serra de Ibitipoca. Quando se casou, ganhou uma fazenda de presente. Meu pai, caçula entre inúmeros, quando nasceu já era um sem terra. O meu avô, o Capitão Lybnitz, maestro, professor de música e boêmio, conseguiu se desfazer de tudo. Das terras dela e das terras que ele também herdou. Conta a lenda que um dia minha avó, desconfiada que meu avô se metera em uma certa casa suspeita, em busca de pecados ocultos, foi atrás. Quando a viram chegando, para escondê-lo, o enrolaram em um colchão. Que talvez ela mesma tivesse feito. Tenho que lembrar que o colchão era de capim e portanto, enrolável. Mas…Mas meu avô, por conta das muitas artes que praticava, levara um belo tombo, caindo sei lá de onde. Ficara com  uma das pernas endurecidas. Bem, ele não pode encolher essa perna e então, com ela esticada, o seu pé ficou de fora do embrulho. Minha avó não teve dúvidas. Pegou uma vassoura e deu uma surra no colchão.  Minha avó Maria não faria isso. Era uma mulher submissa. Mas, eu faria. Acho que minha irmã tem razão…

 

            Aqui, enquanto escrevo, lembro de outros detalhes da vida de minha avó Olímpia. Cresci ouvindo a história de que éramos herdeiros de uma grande fortuna, a do Barão de Cocais. Depois de adulta descobri que essa suposta herança tinha a ver com a família dela, os Nogueira da Cunha, de alta linhagem. Escrevi um poema sobre o assunto, e esse poema retrata tudo o que penso a respeito dessa pseudo herança. Este é o nome do poema: Herança. É também o nome do meu  primeiro livro de poesias. Inédito, é claro. Mas talvez explique essa ligação que minha irmã diz que eu tenho e que vai além, muito além do tempo físico.

 

 

 

                                       HERANÇA

 Dizem que a família de minha avó paterna

 tinha uma mina de ouro

que lhe foi tomada um tanto quanto fraudulentamente.

Eu não sei bem como é a história

pois só a conheço de ouvir dizer,

e, nesse passar de um pra outro há tanto tempo

corro o risco de incorrer em falsidades.

Mas, como ela é boa de contar

pra se fazer de importante!

E eu vou contando e aumentando

conforme quem estiver escutando.

Se isso foi verdade,

deve ter sido há muitas gerações,

antes que o ouro sofresse degradações

e seu valor, graduações,

antes que o ouro fosse ouro

ou fosse apenas áureo.

Pois o que sobrou pra mim,

além deste caso pra contar,

foi um sapato de couro,

umas calças de brim,

umas blusas de malha

e um lenço de cetim.

Um cheiro de pêssego

e uma cor de carmim,

uma caixa de livros,

um espelho de prata

e uns brincos de marfim.

Se a família de minha avó paterna

de nobrezas discutíveis

me tivesse deixado ouro em penca

como um cacho de banana prata

-será que eu ia gostar mais

do que gosto desta história

que herdei para contar?.

Lilith

Lilith

 

Assim como Eva, Lilith é uma figura mitológica. Encontramos sinais de sua existência nas histórias contadas por vários povos: sumérios, hebreus, gregos, mesopotâmios, judeus. Na Bíblia se faz uma rápida menção a ela e os mais ousados costumam dizer que ela foi suprimida da Bíblia porque não interessava a ninguém divulgar a existência de uma mulher rebelde e independente, de forma nenhuma submissa ao homem.

Deus criou Adão, o primeiro Homem, do barro. Sabendo o quanto era solitário viver sem uma companhia que o completasse, teve pena de Adão e criou uma companheira para ele – a mulher. E chamou a primeira mulher de Lilith. Criou-a da mesma forma que criou Adão : do barro. Mas deu-lhes liberdade para viver da melhor forma que conseguissem. Eles simplesmente não conseguiram. Mal se viram frente a frente e começaram a brincar e a brigar.  É que a brincadeira preferida de Adão era, através de sua força física que era maior, jogar Lilith no chão e deitar-se sobre ela. Lilith logo estrilou e gritou: assim não vale. Fui criada da mesma forma que você e não estou gostando nada dessa brincadeira. Somos iguais, dizia, mas Adão retrucava: de modo nenhum, você é inferior, essa é sua aptidão, não a minha. Eu fui criado para dominar. Lilith até que tentou, mas não conseguiu convencer Adão e então achou melhor se mandar. Adão foi choroso procurar o seu Criador dizendo-lhe que a mulher que lhe dera como companheira fugira. Deus mandou três de seus anjos buscá-la e trazê-la de volta imediatamente. Ela não voltou nem recebendo terríveis ameaças. Alguns dizem que ela se casou com Samael, um dos anjos caídos e talvez seja por isso que é vista como um demônio.

Deus não teve outro jeito para fazer Adão parar de choramingar.  Como o barro próprio para fazer bonecos tinha acabado, tirou uma costela do Adão e dela fez uma mulher, aparentemente inferior e submissa a Adão, que ficou todo feliz e empolgado,

Lilith, embora não quisesse nada com Adão, ficou irada. Então o seu marido, conforme a vontade de Deus, agora se conformava com um arremedo de mulher? Encontrou em Samael um bom parceiro e os dois juntos ficaram por ali, beirando o Paraíso e tentando Adão e Eva. Não foi difícil fazê-los cair em tentação. Foi aí que se inventou a história da serpente e da maçã porque não ficaria bom para a humanidade crescer e se multiplicar sabendo que adultério era uma coisa corriqueira  desde os primórdios.

Lilith era um personagem pouco divulgado, desconhecido até. Tornou-se mais presente na mídia depois que as mulheres resolveram lutar por direitos iguais – desde então passou a ser considerada a verdadeira precursora do feminismo.

Sempre gostei dessa marota subversiva. É por isso que, nesse mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a minha homenagem vai todinha para ela.

 

 

 

Melancolia

 

Melancolia 

 

Bem cedo, de manhã ainda, fui atacada por uma onda de tristeza, algo assim repentino, mas de causa aparente declarada. Tinha saído para colocar o lixo reciclável no portão, porque segunda feira é o dia que o caminhão deveria passar recolhendo em minha rua. Mal tinha colocado o saco branco pendurado na grade (era pouco lixo) e parei estática, atacada por uma tristeza súbita – seria isso a tal de melancolia? Fiquei ali, parada, encostada no pilar que separa as duas garages, os olhos fixos no chão. Uma, duas pessoas passaram por mim e me olharam de forma exclamativa e interrogativa – o que será que esta dona está fazendo encostada nessa parede com esse jeito assim esquisito !? Foram buscar a resposta seguindo meu olhar que se alternara deles para um ponto fixo no chão onde uma pomba estava parada, encolhidinha, sem a menor menção de sair dali, andando ou voando e certamente a ninguém a resposta agradou porque continuaram a subir a rua negaceando a cabeça, pra lá e prá cá e nem duvido, mas não afirmo porque não vi, fazendo o indicador girarrodopiar na própria têmpora. 

 

A pomba estava ali, parada, sozinha no mundo, sem saber o que fazer da própria vida. Era uma ave suja e feia, dava até para perceber que era bastante idosa e estava com medo. Com dificuldade eu me aproximei e seu corpo inteiro se contraiu. Eu não sabia o que fazer, não queria deixá-la ali a mercê dos moleques de rua que tiram sarro de tudo sem nem mesmo saber a razão, nem a disposição dos cachorros da rua esfomeados que a atacariam sem um pingo de piedade. Também não podia levá-la para casa, conheço bem meus dois pequenos, o Pongo e o Joca e, a menos que ficasse vigiando os três, certamente uma tragédia ocorreria. Mesmo assim peguei-a cuidadosamente e coloquei-a para dentro do portão de entrada, sabendo que ali, pelo menos, estaria protegida e a danadinha, talvez por tanto medo, logo me sujou o chão, como se estivesse de piriri. 

 

Droga, eu nem mesmo gosto de pomba, as que vivem por aqui só sabem fazer sujeira, nosso corredor anda sempre sujo, tivemos que colocar tela ao redor de todas as entradas do telhado para impedir que ali fizessem ninho e farreassem a noite inteira, então por que essa tristeza continua e eu continuo pensando na pomba lá fora? 

 

Fui até a cozinha para tomar o meu café e preparar uma comidinha para os pequenos, mas a tal pomba velha e solitária não saia de minha cabeça. Juntei miolo de pão em pedaços bem pequeninos e levei até lá, colocando no chão. Como ela não se interessou coloquei em minha mão e tentei colocar um pedacinho em seu bico. Nada. Eu precisava ir embora, cuidar da minha vida e fui, mas mesmo indo, levei comigo a tal tristeza aparentemente de causa declarada. 

 

Voltei trazendo comigo a tristeza e ela continuava lá, os farelinhos do miolo de pão também, intactos, e os cocozinhos duplicados, triplicados, sei lá. Danadinha pensei, não tem força nem para comer, mas não para de fazer sujeira. Fiz o que tinha que fazer e antes de voltar para o segundo turno do trabalho recomendei a Fran, que antes de ir embora a levasse dali, eu não queria mais vê-la no pressuposto de que o que os olhos não vêem o coração não sente. Que a levasse dali, mas a colocassem em um lugar seguro, em um canto protegido da pracinha da rua logo abaixo. 

 

Nem deu para pensar na pomba tão atribulado foi a minha tarde, mas chegando em casa ela não estava mais lá e a escada limpinha, limpinha.  Olhei o lixo ainda pendurado na grade da minha garagem, olhei os sacos de lixo de toda rua colocados junto a um muro em frente, afinal o lixeiro que deveria passar todas as segundas feiras mais uma vez falhou. Logo que entrei perguntei a Fran: Levou a pombinha e a colocou em lugar protegido? Bem que tentei, respondeu ela, mas assim que cheguei perto dela, saiu andando ligeirinha e foi para o outro lado da rua. Soube que ficara na pontinha da calçada, correndo o risco de ser atropelada pelos carros raspantes e resolvi dar uma olhada: não havia corpo nenhum ali, nem sinal de penas ou sangue. 

 

E se vocês que me lêem pensam que a tristeza acabou só porque a pomba sumiu? Estou aqui fazendo minha última tentativa para me esquecer dessa Paloma triste e seu destino .Escrever talvez seja a melhor forma de catarse.

 

 

 

 

 

Coisas que fazem meu coração bater diferente (em ordem alfabética)

Amor – qualquer forma de amor me emociona. O amor que sinto, não importa por quem nem pelo que. O amor que observo. O amor que recebo. O amor verdadeiro, incondicional. Não aquele que se transforma em ódio se não for correspondido. O amor do amigo, o amor fraterno. O amor transcendente e o imanente. O amor pelos pais e pelos filhos. O amor admirativo. O amor consciente e até o inconsciente quando se reflete em atos. O amor pelos iguais e pelos desiguais. O amor que doa e o que recebe. O amor pelo criado e pelo incriado. O amor pela vida. O amor doído e o mais doido amor. Haja coração quando atacado pelo amor.

 Brasil – Meu país me emociona. Sua gente e o jeito de sua gente. O som da sua língua em qualquer espaço. As cores. As flores e os frutos. Sabores e sons. As danças e as histórias que os avós contavam. Suas conquistas. As águas de muitas cores. Sem ufanismo, mas com orgulho. As raízes que fizeram de mim o que sou. Seu hino e a bandeira trêmula ao vento. Suas cidades. Meu país me irrita. Suas misérias e desigualdades. Sua preguiça de gigante adormecido dormindo em berço esplêndido. Seu descaso para com a vida. A natureza. A corrupção que gruda em tudo como um carrapato. Seu conformismo.

 Cozinhar – cozinhar é fascínio puro. Transformar o alimento. Combinar cheiros, cores e sabores. Criar. Inventar. Copiar. Reunir a família em volta da mesa. Os amigos. Ver a satisfação dos que comem o alimento preparado com amor. Descobrir. Ter que jogar tudo no lixo quando não dá certo. Jogar escondido para ninguém ver.

 Dor – A dor faz o coração bater mais forte. Mais rápido. Mas também faz o coração quase parar. A dor quase enlouquece. Mas precisa ser sentida. Quase explodir o coração. E depois se confortar. A dor significa que se perdeu algo que amou. Muitas vezes a dor acaba outras, nunca. Mas se acomoda. E o coração volta ao normal. Só disparando de quando de em vez quando a memória vai buscá-la. Mas aí, vem mais vagarosa. Suportável.

 Expectativas –A espera de algo que vai acontecer. Vai chegar. O fim de uma saudade. Um prêmio. Uma conquista. Um sonho realizado. Um adeus anunciado.

 Felicidade – A felicidade quando é percebida em sua totalidade. Um momento de puro êxtase. A certeza de que é possível voar, se quiser. Se reintegrar ao todo.

 Grosseria –Fazer me tira o sono. Faz doer o coração que se acelera. Receber acorda a ira. A raiva, às vezes surda, às vezes não.

 Humor – O bom e o mau. Os dois modificam meus batimentos cardíacos. Gente mal humorada me irrita. Gente bem humorada me põe pra frente. Eleva o astral. Faz com que eu ria.

 Irmãos – É a melhor coisa que existe. Não saberia viver sem eles. Por eles meu coração bate mais rápido. Nas vitórias e nas derrotas. Na preocupação. Nos reencontros. Nos conflitos.

Jogos – Torcer. Gritar. Aplaudir. Qualquer jogo. A expectativa de ganhar o prêmio acumulado. A disputa em volta de uma mesa de baralho. A decepção.

 Kilograma – Quando subo na balança o coração dispara. Deus me livre dessa praga que me persegue. Com K ou com Q

 Ler – Meu vício. Quando aprendo. Quando descubro alguma coisa. Quando me identifico. Quando fico completamente absorta. É como se o coração parasse.

 Música Às vezes me alegra e eu danço do meu jeito desajeitado. Ou canto com minha voz desafinada. Ou penso que vou morrer de tanto que dói. Tampo os ouvidos, de tanta dor.

Natal – É o dia mais triste do ano, mesmo que as pessoas não percebam isso em mim. É o dia em que uso máscaras. O dia em que as ausências são mais sentidas.

 Olímpia – Meu nome. Ouvir meu nome. Ler meu nome escrito. Saber que ele me identifica, mesmo que as pessoas o usem de maneira diferente. Reconhecer esse uso. Maria. Maria Olímpia. Olímpia. Merô. Pia. A irritação quando me chamam de Olímpica.

 Pais – Tantos anos e a saudade ainda aperta. O medo de ficar sem o que me resta. A vontade de fazer o tempo parar. Ou voltar. Ser criança para sempre.

 Quedas– Não existe ninguém que caia mais do que eu. Um pé virado. Um escorregão. Uma topada e lá vou eu para o chão.

 Rir – É bom demais. Sorrir. Gargalhar. Quando dou risada perco o ar. O pulmão enche e eu mal consigo respirar. Alergia. É isso aí, sou alérgica a gargalhadas, mas não estou nem aí. Rio de fazer os outros rirem de mim. Ou morrerem de vergonha.

 Sonhos – Quando é bom acalma o coração. O Pesadelo me atormenta.

 Tristezas – Existem. Tiram a vontade de viver. De fazer qualquer coisa. O coração aperta. Parece que vai sumir.

 Urros – Me assustam. Ensurdecem.

 Viagens – Quase tão bom quanto ler. Recupera a alma cansada.

 Xamã – Experiências místicas. A certeza de que há algo mais que minha razão não atinge.

 Y– Letra nova no alfabeto. O que modifica meus batimentos cardíacos com esta letra? Nada em português. Mas em Inglês: you.

 W Outra pestinha. O que fazer com essa letra nova? Well, nothing. Esperar para ver.

 Zênite – Quer coisa mais aceleradora dos batimentos dos batimentos cardíacos do que caminhar sob esse sol tropical no momento de seu zênite?

As boas qualidades

As boas qualidades

 
 
Conheça-te a ti mesmo, já dizia Sócrates. Nunca antes essa máxima filosófica esteve tão em evidência como agora, nos tempos modernos. É à base da auto-ajuda. De que vale ter todos os conhecimentos do mundo se não conseguimos conhecer não só o nosso interior e por que não, também o nosso exterior?

 

 
 
As pessoas começam a pensar e pensar e aí encontram mil e um defeitos descobrindo a necessidade de combatê-los, transformá-los em boas qualidades. São tantos os defeitos que ela desiste. Larga pra lá. Reunem-se às vezes para falar dele e dizem eu sou isso e sou aquilo preciso parar com isso e com aquilo outro.

 

 
 
Certa vez fiz um desses cursos místicos para aprender a me conhecer e a melhorar. Entre as coisas das quais me lembro está a questão de preconceito. Pediram que listássemos nossos preconceitos, mas tão logo apresentávamos a nossa lista por escrito éramos instados a voltar e a pensar melhor. Todos recebemos esse convite desde quem alegava não ter preconceito nenhum aos bem assumidos. Tem mais, procura que acha. Como doença. Se você sai procurando acaba achando. Eu me lembro de ter ganhado a competição (porque no fundo era uma competição). Listei trezentos preconceitos conferidos para eliminar os repetidos. Achei uma bobagem sem tamanho, mas se era para fazer, fiz.

 

 
 
É algo que me deixa desconcertada – quando reunimos para enumerar nossas características só falamos das ruins. Por que será? Acho que temos vergonha de falar sobre nossas boas características. O que vão pensar de mim, deve ser o que pensamos. Onde está a modéstia, o recato? Quem quer saber das coisas boas que tenho em meu interior e que gostaria de compartilhar? Ninguém. Temos vergonha de dizer para nós mesmos quais as boas qualidades que temos e estamos sempre justificando o fato de sermos virtuosos. E é aí onde acho que mora o erro. Vou explicar.

 

 
 
Se eu quero realmente me conhecer por que não começar listando para mim mesma o que de bom eu tenho, que trago como característica de minha individualidade? Eu sei que tenho boas qualidades e uma amplidão de defeitos. Mas as qualidades é que deveriam ser valorizadas, não os defeitos. Não estou com isso querendo dizer que devemos ficar nos pavoneando por aí, mas devemos olhar bem o nosso eu interior e descobrir as coisas boas que temos, pois será a partir delas que poderemos combater as más inclinações. E quando tivermos conversando com amigos, ou fazendo work shops de autoconhecimento ou se tratando com um médico, falar de nossas boas qualidades.

 

 
 
Por que eu deveria realçar os meus defeitos, torná-los mais fortes ainda, transformá-los em cicatrizes de meu caráter que só sairão com uma cirurgia plástica espiritual e não realçar as minhas qualidades?

 

 
 
Eu tenho algumas qualidades das quais gosto. Minha tia/madrinha um dia me disse: Você é boa como seu pai. Seu pai era um homem muito bom e você herdou isso dele. Fiquei feliz. Por ver a bondade de meu pai reconhecida e por ter herdado isso dele. A partir daí passei a analisar as minhas atitudes sob a luz da bondade. Não fiquei muito convencida. Muitas vezes a minha bondade não passava de preguiça. Comodismo. Mas a partir de uma característica positiva tentei pelo menos eliminar os meus atos supostamente bons, mas que na verdade não passavam de comodismo, falta de pulso. Valeu mais do que se eu estivesse combatendo o meu comodismo.

 

Minha mãe me disse: você não se parece nada comigo, nem fisicamente nem na maneira de enfrentar a vida. Mas tem uma coisa que você herdou de mim. Você é confiável porque não mente e é honesta. Aí a coisa complicou. Ser honesta nunca foi difícil porque acredito piamente nessa afirmativa: o que é seu é seu, o que é meu é meu. Mas não mentir? Será que eu não minto mesmo, hora nenhuma? Pode ser que sim, pode ser que não. Mas realmente para mim é difícil mentir. Não consigo fazer isso na cara dura. Minhas amigas perguntam: por que não veio a reunião? Eu respondo: porque estava com sono e queria dormir. Por que não fez o exercício de Inglês (eu estudo, mas não saio da base)? Eu respondo: preguiça.
 
O motivo? Por que estou falando sobre isso aqui? Porque resolvi desafiar a cada um de meus leitores a listar pelo menos cinco boas qualidades que possuem e se concentrar nelas, conhecê-las bem para poder utilizá-las como arma no combate às próprias deficiências. Aqueles que forem modestos (eu não sou) podem ficar com elas dentro de si próprio, mas quem for um pouquinho mais ousado, que ponha para fora contando a todos nós.