Semeadura

pen

Visto que as horas voam, os dias correm, vida vem e vida vai, estamos temporariamente suspendendo nossa escrita (quase) diária para uma reformulação iminente e necessária. De gentes, de momentos, de penas. A todos que até aqui vieram, aos que chegam, aos que não se vão, que as histórias já escritas possam, mesmo que em “vale a pena ler de novo”, dar um tom de poesia ao comum de todo dia.

Preceito

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As doces palavras saem da garganta cortando como vidro. O rosto antes de luz fica sombrio mediante a verdade do que foi preciso dizer. Do outro lado um sorriso escuta condescendente o que não podia mais ser escondido. Ainda que o coração desfaleça frente ao que virá, a pureza desse estranho bem-querer conforta a tristeza que acaba de entrar, de mãos dadas com a solidão do ir.

Tempo

time

Frente ao espelho embasado, impedida de me mover, aguardo os 3 minutos que faltam para ganhar a liberdade da rua. Não há nada que me impeça de sair antes da hora. Apenas a moral. Não há nada que me obrigue a estar. Apenas a ganância pseudo necessária do viver. O dilema de todo dia, quando meus olhos despertam, é saber como vou fingir o que pretendo ser. Encarno a personagem grata, cubro os olhos com a venda do comodismo e saio de casa rumo ao cadafalso antecipado. Em mente tento levar para longe meu espírito enquanto meu corpo aprisionado resiste, inflexível, disciplinado, semi vivo. Olho outra vez o relógio , carrasco. Faltam 2 minutos. Todos os segundos riem de mim.

Ele de preto, Ele de Rosa

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Crédito imagem: Tom Privitere e Brian Edwards em www.nj.com

Mais um dia comum raiou na casa dos Silva. Pouco menos comum que os demais, já que era domingo, dia da diversão do João. Cedo ele já pulou na cama dos pais pedindo com olhos de cãozinho faminto o que tinha a certeza de conseguir. Um sorriu para o outro e juntos levantaram. Entre copos de leite com chocolate, bolo com geleia de ameixa, pão dormido com queijo e banana amassada com aveia todos riam das travessuras alimentares do pequeno João. Olhavam-se satisfeitos. Apressados pelo pequeno, foram se aprontar para a aventura fora das quatro paredes. Saíram os três. João corria na frente, saltitante em sua fantasia de princesa, a custo conseguida como presente dos pais. Estes caminhavam um pouco atrás, de mãos dadas. Ele de preto e ele de rosa. Era outro dia feliz para uma família que se permitia.

Arrulho

arrulho
Crédito imagem: Autogiro Illustration

Ela sentou-se em frente à mesa da gerente. Muito  branca, muito loira, muito tímida, pedia implorando quase, que lhe dessem um empréstimo para fazer seu futuro. Entre uma e outra palavra, soltava um arrulho. A gerente, intrigada, tentava entender de onde vinha aquele barulho. Ouvia. A moça, clara como o dia, começou a contar seu plano de vida. E a medida que o sonho fazia-se em orações, ela ia abrindo os braços e enchendo o peito. Era claramente um sonho impossível, pensava a gerente, lembrando dos padrões negros e cinzas do capital… mas a menina falava tão cheia de vida que a mulher do dinheiro não soube dizer não. E quando a pequena compreendeu que conseguira, soltou um pio de alegria, subiu na mesa, bateu as asas e saltou janela a fora, arrulhando de emoção.

Regalo

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Longe, em cima do rochedo mais alto do vilarejo, onde anos passados erigiram um cruzeiro, ergueu-se em pau a pique uma casinha caiada de branco. De costas para o sol que se põe, uma janela e uma portinha protegidas do mundo por frouxas tramelas guardam um fogo lento e um silêncio criador. Ambos, cada um em seu canto, folheiam o que mais interessa na vida que querem enxergar. Ele busca nos sábios o entendimento do difícil. Ela vê nas dores outras a estranha beleza de que o humano é feito. Vez ou outra suspiram, seus olhos se encontram e juntos refletem um calmo sorriso. De mãos dadas vão até a janela e observam, embriagados, o sol dourar o mundo lá embaixo. O entardecer encerra outro dia mais importante de suas vidas.

Ramerrão

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Começa com o bom dia resmungado, o pão com manteiga amanhecido e o cafezinho de pouco coado. Banho quente, roupa limpa, gás carbônico e o sorriso sempre igual de tudo bem. Vem o meio dia, mais salada menos fritura, um cigarro e  outro para relaxar do stress diário. Soa o apito, afrouxa a gravata e não se sabe se foi mais ou menos um dia. O sol nascendo e se pondo ninguém viu pois afinal isso acontece sempre, faça chuva ou faça ele, todo dia.

Extro

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Escreveu de novo a mesma frase de outro dia. Largou a caneta, lavou o rosto e pensou extasiada em um período já redigido. Assustada e inquieta vasculhou a cabeça mas só encontrou memória velha. Antes do desespero pensou na personagem do vestido vermelho e temeu pela sorte de ambas. Lançou mão à vassoura e fez-se Amélia. O vizinho pela janela via assombrado uma mulher descabelada e sorridente a levitar…

Bichos

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Espalhados pela mesa, dezenas de pedaços de papel colorido. Amarelo, verde, uma profusão de brancos em diferentes tons. Para cada um deles uma data, um telefone, um lembrete, uma cobrança qualquer. Ao final do dia, exausta, ela respirou fundo para conter o choro que outra vez lhe inundava a garganta. Era viva demais para exercer tarefas tão mortas – pensava. Foi quando passou correndo, pelo chão do escritório vazio, um rato de porte considerável. Ela ficou abismada. Surpresa e surpreendida, observou a criatura pegar no chão um pedaço amanhecido de rosquinha, se deliciar ao roê-la com seus grandes dentes tortos para em seguida guinchar de alegria. Jura ainda que a viu lamber dedos e beiços antes de correr de volta para o buraco onde provavelmente correria para os esgotos ganhando enfim a liberdade da barriga cheia. 20 minutos depois, ela sorriu, lúcida. Pegou a caixa de clipes, organizou os papéis por cores, desligou o computador e saiu. Não passou mais nem na porta do escritório, dizem. A cadeira que ocupo ganhou a saudável alcunha de ratazana. Só sei que todos os dias me pergunto quem são os ratos, afinal.

Disfemismo

woman

Jovens. Sorridentes. Sem maldades ou demônios. Rodopiam enquanto esperam um destino qualquer no ponto de ônibus. Ele belisca suas costelas. Ela puxa seu capuz. Unem seus rostos e cantam um som sem sentido que faz rir. O mau humor dos velhos, a pressa dos engravatados, nada parece atingir. Ele, anuviado em sentimentos, atento a cada piscadela dela, não quer ver o tempo passar. Não corre da chuva que chega, não pede mais nada da vida, só respirar o olhar. Um dia, soube de chofre, que ela foi passear em outros jardins. Saborear outro mel, conhecer sonhos mais soltos. Ele não compreendeu. Não aceitou, não arrefeceu. Noite alta, no quarto em silêncio, com travesseiro e olhos chorosos, aquela vida tirou. A moça fechou para sempre os cílios, calou para sempre os lábios e todos concordaram que foi amor. Tempos depois seu coração sombrio se acostumou com a tragédia e arrumou outro alguém. Ela virou estatística, a engrossar o caldo das meninas avoadas que não conseguem cuidar de si. O que ninguém percebeu é que a vida que ele ceifou não foi por querer, não foi por amar, nem foi por sofrer. Foi porque acreditou como muitos que assim podia ser. O homem outra vez vingou. Saiu outra vez ileso e vivo dessa trágica história de horror.

 

Finanças

finanças

– Escutou isso aqui João?
(Silêncio).
– 77 milhões. E hoje não arruma nem uma mulher para dar uma banho nele, doente e sozinho do jeito que vive…
(Desinteresse).
– Vê se pode, 77 milhões…
– Dinheiro não é de Deus não, José.
– Que que foi João?
– Dinheiro. É coisa de Satanás.
– Que coisa de Satanás o quê. O homem que é um descontrolado. Coisa de Satanás é ser pobre, ficar rico e ficar pobre de novo!
– Né coisa de Deus não. Jogo. Imagina quanto dinheiro de pão pai deixou ali… filho com fome…
– Deixa de ser besta homem. Não é cassino, nada disso não sô. Jogo é jogo horas!
– Eu ganhei muito no bicho. E agora tô aqui. E tô feliz. É de Satanás. Dinheiro de suor é que é de Deus.
– De Satanás né? Mas pega 77 milhões e leva lá pro seu pastor pra ver se ele não aceita…
– Mas aí tá abençoado. É diferente.

No banco da praça, Satanás maltrapilho pedia esmolas. Seu chapéu furado e vazio poucas vezes era notado pelos passantes que entravam na igreja. No Banco do lado, Deus contabilizava os lucros e repassava mais aos mais ricos. Enquanto os querubins, donos de pequenos botecos, tentavam equilibrar impostos e sonegação para não quebrar.

A Bordo

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Crédito da imagem: http://favim.com/image/2276394/

Um dia, calada e sonhadora como sempre se deixava ficar, ouvi sua risada,  de boca fechada. Em silêncio, ela sussurrava. Eu mais sentia que escutava. Parecia haver no espaço pouco que ocupávamos uma imensidão sem limites onde sua mão nos dedos meus era elástica, fazendo o coração ir no outro mundo e voltar. Suspenso em tais absurdos lúcidos ouvi por fim ela me chamar. “Meu infinito aumenta com você”. Sorrimos pelo rosto e pelos poros. Ela expandia meu tudo. Todo dia.

Andarilhar

barquinho

Vou tomar de assalto aquele velho navio. Não é justo que ele se ancore por todos esses anos enquanto há tanto no mundo para ver. Vou tomá-lo à força para que na perda você perceba a necessidade gritante de se mover. Tanta tempestade por desabar, tanto sol por nascer, tanta terra verde para pousar. Suba a âncora dos seus pés, ice as velas que você prende com tanto medo e lança-se ao mar do desconhecido. A montanha não vem e não vai sair de lá. São as suas pernas, guiadas pelos seus sonhos, que vão te fazer subir mais alto, acima das nuvens, do lado da amplidão de tudo que é.