Arquivo do autor:Marina Costa

Sobre Marina Costa

Vegetariana, sagitariana, feminista e humana, emanando energias para que nossa vida nesse cosmo infinito tenha um sentido no fim. Mesmo que seja o de produzir ecos de bons sentimentos e só...

Semeadura

pen

Visto que as horas voam, os dias correm, vida vem e vida vai, estamos temporariamente suspendendo nossa escrita (quase) diária para uma reformulação iminente e necessária. De gentes, de momentos, de penas. A todos que até aqui vieram, aos que chegam, aos que não se vão, que as histórias já escritas possam, mesmo que em “vale a pena ler de novo”, dar um tom de poesia ao comum de todo dia.


Preceito

girl

As doces palavras saem da garganta cortando como vidro. O rosto antes de luz fica sombrio mediante a verdade do que foi preciso dizer. Do outro lado um sorriso escuta condescendente o que não podia mais ser escondido. Ainda que o coração desfaleça frente ao que virá, a pureza desse estranho bem-querer conforta a tristeza que acaba de entrar, de mãos dadas com a solidão do ir.


Tempo

time

Frente ao espelho embasado, impedida de me mover, aguardo os 3 minutos que faltam para ganhar a liberdade da rua. Não há nada que me impeça de sair antes da hora. Apenas a moral. Não há nada que me obrigue a estar. Apenas a ganância pseudo necessária do viver. O dilema de todo dia, quando meus olhos despertam, é saber como vou fingir o que pretendo ser. Encarno a personagem grata, cubro os olhos com a venda do comodismo e saio de casa rumo ao cadafalso antecipado. Em mente tento levar para longe meu espírito enquanto meu corpo aprisionado resiste, inflexível, disciplinado, semi vivo. Olho outra vez o relógio , carrasco. Faltam 2 minutos. Todos os segundos riem de mim.


Ele de preto, Ele de Rosa

eles

Crédito imagem: Tom Privitere e Brian Edwards em www.nj.com

Mais um dia comum raiou na casa dos Silva. Pouco menos comum que os demais, já que era domingo, dia da diversão do João. Cedo ele já pulou na cama dos pais pedindo com olhos de cãozinho faminto o que tinha a certeza de conseguir. Um sorriu para o outro e juntos levantaram. Entre copos de leite com chocolate, bolo com geleia de ameixa, pão dormido com queijo e banana amassada com aveia todos riam das travessuras alimentares do pequeno João. Olhavam-se satisfeitos. Apressados pelo pequeno, foram se aprontar para a aventura fora das quatro paredes. Saíram os três. João corria na frente, saltitante em sua fantasia de princesa, a custo conseguida como presente dos pais. Estes caminhavam um pouco atrás, de mãos dadas. Ele de preto e ele de rosa. Era outro dia feliz para uma família que se permitia.


Arrulho

arrulho

Crédito imagem: Autogiro Illustration

Ela sentou-se em frente à mesa da gerente. Muito  branca, muito loira, muito tímida, pedia implorando quase, que lhe dessem um empréstimo para fazer seu futuro. Entre uma e outra palavra, soltava um arrulho. A gerente, intrigada, tentava entender de onde vinha aquele barulho. Ouvia. A moça, clara como o dia, começou a contar seu plano de vida. E a medida que o sonho fazia-se em orações, ela ia abrindo os braços e enchendo o peito. Era claramente um sonho impossível, pensava a gerente, lembrando dos padrões negros e cinzas do capital… mas a menina falava tão cheia de vida que a mulher do dinheiro não soube dizer não. E quando a pequena compreendeu que conseguira, soltou um pio de alegria, subiu na mesa, bateu as asas e saltou janela a fora, arrulhando de emoção.


Solo

Angel-tears-medium2

Créditos da imagem: http://www.larrypatten.com

De mãos dadas e olhos nos olhos te peço calada para ficar. Sem me enxergar e a sorrir insiste em partir. Ao virar as costas deixo a lágrima rolar. Sentindo o vazio que se impõe você derrete e escorre, só.


Regalo

casinha

Longe, em cima do rochedo mais alto do vilarejo, onde anos passados erigiram um cruzeiro, ergueu-se em pau a pique uma casinha caiada de branco. De costas para o sol que se põe, uma janela e uma portinha protegidas do mundo por frouxas tramelas guardam um fogo lento e um silêncio criador. Ambos, cada um em seu canto, folheiam o que mais interessa na vida que querem enxergar. Ele busca nos sábios o entendimento do difícil. Ela vê nas dores outras a estranha beleza de que o humano é feito. Vez ou outra suspiram, seus olhos se encontram e juntos refletem um calmo sorriso. De mãos dadas vão até a janela e observam, embriagados, o sol dourar o mundo lá embaixo. O entardecer encerra outro dia mais importante de suas vidas.