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Sobre LaraPassos

Pequeno girassol. Negra, feminista, taurina até a raiz. Filha de Inkisis e graduanda em Antropologia com habilitação em Arqueologia na UFMG.

Nós

yellow-knot.jpgSabe aquela vontade de falar aquela coisa indiscreta, aquela confissão, aquele xingamento, aquela declaração? Tudo aquilo entalado na garganta que você já precisou engolir por causa de diversos motivos? Poisé, essas coisas me pegam de jeito. Me arrastam (não pelo braço, mas pela boca e pelos ouvidos)pra um mundo dentro da minha cabeça, onde uma realidade paralela apresenta tudo que eu realmente queria que estivesse a acontecer. Dentro os nós somem, e posso pensar o que quiser. Mas por fora ainda ficam impulsos quase incontroláveis de dizer, de fazer, de ouvir. É aquele nó nas tripas que dá de vontade de fazer as coisas, se movimentar pra alguma direção, mas que também de deixa amarrada pra não fazer nada. São laços esses bem presentes que condicionam uma vida inteira, que me fazer ficar sentada quando queria estar dançando feito uma louca, e em silêncio quando queria muito dizer alguma coisa. Enrolada em meio a tantas cordas vou criando um novelo de instala-se dentro de mim como se eu fosse sua moradia, me obrigando a lembrar cada fio de história não vivida. Mas, já consciente de minhas amarras, vou tentando me desvencilhar volta por volta, e toda vez que sinto apertar o laço, tento sair da mira e não deixar que se formem os nós, pra permitir a criação de outra coisa menos embolada, menos não-dita-e-não-feita. Algo que seja mais próximo do que eu quero viver. Respiro fundo e tento alguma coisa, talvez não uma performance ao ar livre, nas ao menos uma dancinha, um milímetro mais livre que seja. Escuto um pouco mais a voz de dentro que diz “atue”, e, por um mundo menos amarrado suplico a todos nós:

Desatem

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As voltas que o mundo deu, as voltas que o mundo dá

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É curioso como tudo pode se revirar, se desdobrar. Pessoas que você via todos os dias se tornam desconhecidas, pessoas que você não gosta de repente se mostram legais, pessoas que você não esperava te estendem a mão quando poderiam simplesmente desviar da pedra e seguir o caminho. É curioso também ver como a gente se desdobra, se redobra, se origamiza. Como conforme o tempo vai passando, a nossa cabeça (levando todo o resto) passeia por tantas situações, tantos lugares, alguns que a gente sequer imaginava. Abrem-se possibilidades, descortinam-se opções e, por mais clichê que soe, o mundo dá voltas. Às vezes voltas tão compridas, que por um tempo dá a impressão de que está tudo parado, ou que pra sempre continuará. Outras voltas tão rápidas e abruptas que é preciso segurar o chapéu pra que ele não saia voando com o vendaval. Algumas voltas são mansinhas, num outro compasso mais gostoso de acompanhar. Tem umas que viram pra longe, tem umas que voltam pro mesmo lugar. E nesses giros arrítmicos de percorrer do mundo muda-se os chãos e também os viajantes, e ah, como o esperado! Como as coisas vão se desenhando e se deformando de tão sutil maneira, que com um piscar – ou um marejar -de olhos, fica tudo, tudinho, em um outro lugar. Gostos mudam, jeitos mudam, companhias mudam, lealdades mudam, contratos mudam, eu mudei. Troquei até os móveis de lugar na casa, pra combinar com o novo andar da carruagem. Alguns reparos ainda precisam ser feitos pra seguir viagem, algumas bagagens, deixadas pra trás. Uma pitada de coragem na mistura é necessária pra olhar pros lugares feios de dentro, os monstros que vivem na gente (e caminham conosco algumas vezes, também em nossa volta) e escolher atirá-los pela janela, seguir sem com que eles te freiem demais. Pra mim ás vezes é dificílimo, acompanhar as voltas que o mundo deu, as voltas que o mundo dá. Me perco no giro. Me surpreendo com a próxima rodada. Conheço outros outros, e outros eus. As vezes dá um frio na barriga, de pensar o que se tem adiante. Ás vezes esqueço que não ando só, e tenho medo de aonde chegar. Mas não há como negar a beleza que há numa espiral constante, pra frente e avante, traçada no surpreender mais do que no esperar.


Coragem – substantivo feminino

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E já dizia Guimarães que o que a vida quer da gente é coragem. Mas é que é tanta coisa embaralhada… De um lado histórias de amor, de outro, histórias de perda, de dor. É muito de uma vez só, estar leve e pesada ao mesmo tempo. Mas que isso é verdade, disso nunca duvidei: requer coragem pra tudo; pra dizer o que pensa, pra ficar calada, pra seguir em frente, pra permanecer no lugar, pra existir e se movimentar. A coragem cobra da gente uma posição sem delonga, sem atraso, sem meias palavras. Quando se é mulher, a coragem tem que estar em tudo, no existir e no resistir. O feminino, retratado tantas vezes como sexo frágil, é o detentor das maiores forças de sobrevivência. Da gente brota de um tudo, muitas vezes regado à lágrimas de sofrimento. Tudo de nós pode nascer. A sorte que eu tenho é ser muito bem amparada por aquelas que me inspiram a me manter de pé. Mas ainda assim, como cansa.

E ás vezes é mais fácil mesmo tirar o corpo fora, do que ficar na jaula com o leão, enfrentando um diferente por dia, por vezes até toda uma alcateia. Pois bem, pelo sim, pelo não, fiquei ao invés de correr. Tomei os banhos de ervas, abri o Orí e fechei o corpo pro que viesse de mal. E o rugido foi alto, me fez tremer até o último fio de cabelo de minha própria juba. Depois de algumas mordidas e patadas, saí vitoriosa, porém não sem cicatrizes. Se hoje não dói, amanhã aparecem outras. Mas o bom de vencer é o respiro de alívio, o sorriso farto, o rosto suado pelo esforço que passou, o conforto da companhia de quem ajudou na batalha. O interlúdio entre uma luta e outra traz um descanso tão curto, mas sempre muito intenso em sua leveza. Não dá pra vencer todas, mas é bom passar por cada uma, uma de cada vez. Quando a gente se fere também é quando nos sentimos vivas, marcadas até os ossos das batalhas do trajeto. Tem dia que sou covarde e corro, fujo pra longe. Tem dias que a covardia está no ferir os outros também. Ainda sou filhote, e aprendo com aquelas felinas ágeis que vieram antes de mim, que me circulam, que me dão o prazer da companhia e o privilégio do ensinamento. Quando caio na arena, não sou engolida pelas feras. Eu mesma me mastigo, pra me absorver. O esforço é sempre pra manter firme a cabeça erguida e olhar de frente, me inspirando em leoas mais fortes que eu, pra quem sabe depois de tudo ser também uma das rainhas da selva (de pedra), usando a coroa que aprendi com elas a construir.


Luminescer

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Foram-se os castelos

mas ficou no peito

a lembrança da realeza.

Pra voar alto ás vezes

são precisas quedas

de grandes altitudes.

.

Sacudi então a poeira

tirei a terra seca

plantei sementes no meu jardim.

E quando eu menos esperava

nasceram flores em mim.


(A)corda

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Do alto do arranha-céu, a equilibrista estala seus pequenos dedinhos do pé. Ela dança no fio da navalha, entre perder tudo e ganhar alguma coisa, e vai fazendo faceira as experimentações caminhantes, meio sem rumo certo, meio com o destino traçado. Um passo, para. Um passo, para. Um passo, para. Muda de ideia, salta. Senta na corda bamba e olha la para baixo, pro abismo do medo. Cai ou pula? Se segura. Acorda com a corda que vão se entender. Já no meio do caminho, não sabe se vai ou se volta. Tem medo que se arrebente a linha, tem medo que ela continue inteira. Caminhando descalço, sentindo a planta do pé dolorida, cortada, queimada, as pernas cansadas, a mente a milhão. Quer curar os calos e fazer a dor passar, mas só há descanso depois da caminhada completa. Então se estica toda e faz algumas estripulias no fio, desequilibrada da vida, mas estável no movimentar. Tenta um salto arriscado, um movimento de braço, uma caminhadinha na ponta dos pés, uma pequena dança na corda esticada. Cada balanço é uma fisgada no coração, uma dose de adrenalina. Não sabe se ri ou se chora, não sabe se passa. E nas incertezas vai indo, que uma hora chega. Um passo, para. Um passo, para. Um passo, para. Continua.


Lidar com o fim (para mim)

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É um trabalho ainda em construção.

É tanta coisa que eu queria fazer, dizer, que me embaralho e fico nessa coisa meio estagnada dando leves toques no freio e ao mesmo tempo, no acelerador. Não sei pra quem escrevo, não sei o que exatamente dizer. Então, falarei pra mim (dentro de todo esse eucentrismo que tem rondado esses últimos textos, destes últimos tempos). Vou me dar um carinho, entre um soluço e outro, pra dizer “você ama muito, eu sei, mas se ama também”.  E aí se olha, se gosta, e para. Para de tentar carregar o mundo nas costas, para de se culpar pelas falhas dos outros, para de remoer pra sempre as suas. É preciso deixar ir. Aquilo que você queria, mas não vai dar pra ser, e aqueles que não querem ficar mais, que não sabem como lidar com você e toda a sua energia. Não se mata, nem se arranha, nem se rasga. Olha pra dentro e se acalenta, se segura, se nina. Deixa a dor vir, e entorpecer todos os outros sentidos. Pode chorar gritado, pode deitar no chão, pode chorar mais um pouco. Pode, porque não tem mais nada; agora é isso, e só. O mundo está ao contrário e você reparou. Só que depois, de talvez ter sido demais. Nem tarde nem cedo, só… Demais. Mas pega todo esse carinho, pega todo esse amor, esse esforço, essa garra, essa força, essa energia e não dá pro primeiro que passar, ou pro segundo, nem pro terceiro. Não joga em cima das pessoas que não aguentam segurar, não persegue na rua feito distribuidor de panfleto. Embrulha pra presente e dá pra você, criatura. Deixa pra trás essa pena de si mesma, essa amargura, essa sensação de mal-amada. Ame-se bem. E sei bem que quem vos fala (sendo eu mesma) ainda não aprendeu a fazer nada disso. Mas se escuta, escreve e lê, outra vez, repete feito um mantra. E aprende que o teu santo é forte, mas precisa de espaço pra te proteger por fora e por dentro. Fortalece teu chão, lava sua casa, inunda por dentro com firmeza pra fora. Sente a força daquelas que vieram antes de você, e que te seguram perseverantes, pra não cair. Joias são belas, mas dão trabalho pra moldar. É muito aquece-esfria-aquece, muita martelada, e ainda assim não há garantia de que vai sair como planejado. Mas, não se abulete tanto, e se enxergue, confie. Tua guia é de ouro menina, e teus caminhos também.


No olho do furacão tinha uma vaca mascando grama

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Ainda não consegui me livrar do tornado, o que deixa tudo ainda bem bagunçado; o meu quarto e as minhas escritas. Nesses tempos os duendes andam soltos: perde celular, o cartão de banco, vai ao endereço errado, derruba tudo no chão, é abandonada pelo taxi. Desorientada, a bruxa conclui “tem que benzer urgente”.  O caminho ainda não está muito óbvio, mas dá pra se imaginar ao longe ao menos uma estrada de tijolos amarelos. Continuo correndo de um lado pro outro, mas ás vezes paro pra tomar sorvete. É o clássico “Titanic afundando e músicos tocando violino”.

Mas aí no meio do adubo nascem alguns pequenos brotinhos, que dão alegria de ver. Mais do que uma marcha fúnebre no naufrágio, um som alegre de rabeca na canoa. É uma dancinha engraçada aqui, uma tradução capenga de música acolá, um hambúrguer de tarde ou uma pizza de noite. É uma coçadinha na orelha de um gato gordo, ou pirulitos mentirosos, uma cena engraçada na rua, funk no quarto com a janela aberta. Uma pétala amarela no caminho. Parece um respiro entre um mergulho e outro. Mas talvez sejam os mergulhos que intercalem os suspiros, e não o contrário. Então do alto de sua bruxesa, lança-se o feitiço com sua varinha de palito de picolé: ó procê um cadinho de alegria, pra gente continuar a viver.