Doze itens

Se há algum momento do dia em que eu realmente sinto a falta de um automóvel é quando faço as compras no supermercado. Sem alternativa que não ir a pé para casa, sou obrigado a controlar a quantidade de coisas que compro, pois, quanto mais eu comprar, mais sacolas terei que carregar. Disso resulta que eu esteja nos supermercados praticamente todos os dias. Normalmente na fila de um caixa-rápido, que, como o nome sugere, é um dos que mais demora. Em parte porque existem pessoas que levam mais do que os dez itens permitidos.

Ah, com que rancor nós, que estamos no fim da fila, olhamos para a cesta de compras das pessoas à nossa frente, calculando mentalmente se aquela quantidade de produtos ultrapassa ou não o limite permitido. Às vezes temos a impressão que sim, porém não falamos nada, esperamos que a pessoa se dê conta ou que o caixa avise, mas talvez fosse melhor extravasar, como aquela senhora que armou um escândalo porque a mulher à sua frente não levava dez, mas doze itens, um aumento de 20% em relação à quantidade permitida.

Reclamou a senhora que aquilo era uma falta de respeito, será que você não leu a plaquinha, onde já se viu, que vá para outro caixa e deixe esse para quem precisa. Mas, para o azar da senhora, a mulher dos doze itens não era de levar desaforo para casa e decidiu responder à altura, ou seja, com a mesma gritaria. Disse que poderia até tirar dois itens da sua compra, mas ir para outro caixa ela não iria, porque na minha frente a senhora não vai passar não, era só o que faltava, quem você pensa que é? A senhora se assustou um pouco com a reação, mas nem por isso baixou o tom e lá ficaram as duas discutindo e trocando ofensas pessoais, uma acusando a outra de estar alterada – enquanto isso, a fila atrás delas só aumentava.

Àquela altura eu já havia levado meus dez itens ou menos para um caixa normal. Gosto bastante quando as normas são respeitadas, mas gosto mais ainda quando consigo me livrar de uma fila sem esperar muito.

Sem obstáculos

Eunice Tomé

Já de há muito tenho percebido que nos países mais desenvolvidos os idosos têm maior mobilização e andam com muita frequência sozinhos pela cidade, até com suas cadeiras de rodas motorizadas e que acionam sem maiores dificuldades. Também pudera, as áreas urbanas são preparadas para oferecer essas facilidades, com meio fio rebaixado em qualquer local de cruzamento, espaços até nos ônibus para acesso com esses pequenos veículos, rampas em todos os lugares e o comércio também preparado para a recepção aos deficientes físicos e aos que não andam com as próprias pernas.

É interessante de se ver essa liberdade e, sem nenhum constrangimento, eles fazem parte do movimento entre os transeuntes. Nesta semana, enquanto eu estava parada em um ponto de ônibus em Londres, pude presenciar uma cena que muito me emocionou. Um casal, cada qual em sua cadeira motorizada, caminhava lado a lado e conversando. Pude ver a expressão de seus olhares e pareciam ter em torno de uns 80 anos. Mas, em uma fração de segundos, consegui imaginar aquela cena retrocedendo quarenta anos, e senti que o mesmo amor permanecia naquela relação, apesar das rugas, dos cabelos brancos, das deficiências pelos tempos decorridos. Eles ainda transmitiam uma leveza e uma juventude.

Lá das alturas

Ainda estamos no chão, mas em movimento, vivendo aqueles demorados instantes em que o avião se dirige à pista de decolagem. Distraímos-nos assistindo a televisão, pois também aqui elas já chegaram, e já não há muito lugar onde uma pessoa se obrigue a pensar na própria vida. O comandante avisa que a decolagem foi autorizada e nós aceleramos loucamente. Sinto o exato momento em que deixamos o solo. Hesito, mas por fim olho para fora e vejo a cidade se afastar. Súbito, o piloto faz uma curva, coloca o avião na direção correta. Não é nada agradável voar inclinado e, para compensar o desconforto, eu inclino o meu próprio corpo para o lado oposto, manobra que exige certo cuidado, pois não me agradaria cair em cima do meu vizinho de poltrona.

Há um canal na TV que mostra o mapa de vôo. Os números assustam: 800 km/h, 11 km de altura. Vejo uma cidade lá embaixo e tento identificá-la, mas é tudo pequeno demais. Quando aparece algo realmente grande, eu nem preciso olhar no mapa para saber que é São Paulo. Ali de cima essa grandeza é tão insignificante que eu fiquei a imaginar qual é a visão que Deus tem de nós lá do céu. Como somos minúsculos! Vivemos correndo para lá e para cá, cheios de problemas fundamentais, sedentos por competição, ansiosos para que as nossas vontades triunfem, e no fim das contas não passamos de um rastro lá embaixo, que Deus só consegue enxergar porque realmente é Deus. E no meio dessa insignificância toda, no irrisório quadradinho que nos coube viver, em uma pequena e rara porção de terra, ousamos reivindicar coisas a este Deus, apresentar nossas complicadas questões, e por vezes, oh glória, chegamos até a ser atendidos.

Muita coisa boa eu não entendo. Não sei como esse negócio voa (tinha tudo para não voar). Isso daqui é loucura, é muita pretensão para ser humano e, no entanto, na imensa maioria das vezes, dá certo! Tenho sempre a sensação de milagre – a condescendência, a tolerância divina, que permite uma experiência tão inusitada como voar.

Obra surreal

Remexendo na estante da casa da minha filha, com o objetivo de selecionar alguns livros em português, entre a grande quantidade de títulos em inglês e francês, deparo-me com o livro “Errâncias”, de Décio Pignatari e, qual não foi minha surpresa, quando abro, vejo que existe uma dedicatória a mim feita pelo autor, no ano de 2000. Uma obra editada pelo Senac, com ilustrações, fotos e exaltação a algumas das grandes paixões de Pignatari, na área das artes e do conhecimento, como Volpi, Pound, Peirce, Mallarmé, Borges, Duprat e tantos outros. Os textos selecionados são emblemáticos, mas fruto do pensamento do século XX.

Continuando na garimpagem, encontro o livro de Campos de Carvalho, cujo título “A Lua Vem da Ásia”. Abro e começo a leitura e esta prende atenção, pois nunca se sabe se o protagonista é louco, morando em um asilo ou um terrorista preso em um campo de concentração, tal os desequilíbrios de raciocínio e de mistura de situações e assuntos. Tenho que revelar que não conhecia esse escritor mineiro, que morreu em 1998 e que produziu nada mais do que seis obras.

Li em tempo recorde, nos espaços que sobravam entre uma brincadeira ou choro de criança e em alguns trechos era obrigada a parar e fazer comparações com outros temas. A coisa é tão insandecida que não sabemos se o real é imaginário ou vice-versa. Se é um sonho e se as épocas são objeto de várias vidas, países, idiomas e com muitas figuras históricas e também criadas.

Numa dessas paradas de reflexão, pude entrar na nossa própria história e fazer comparações das grandes cabeças que aludiram o mundo para a frente, num passado recente, com o presente pobre e material. Tenho lido e ouvido alguns vídeos que me chegam pelos meios digitais, e nunca vi tanta bobagem e tanta discussão desprovida de inteligência e de nexo, retóricas verborrágicas, apegos a ideologias que nos tempos atuais nem fazem mais parte da filosofia da nossa política, tal o estado em que tudo se desvirtuou.

E fica aquela pergunta – entre os teóricos mobilizadores e o conteúdo que nos oferece Campos de Carvalho, será que o que vivemos hoje não se assemelharia a uma ficção daquelas inimagináveis?

O material que temos agora favorece a elucubrações e dá chance a descrever um país onde todos os poderes se locupletam num emaranhado intestinal e onde das cabeças saem sujeiras de mau aspecto e cheiro, para não dizer o termo correto.

Poderia ser um país imaginário e, mesmo assim, nos parece um filme real de terror.

Eunice Tomé 

Cachorro vem correndo

Acontece com uma frequência admirável: estou eu caminhando pelas entrequadras de Brasília, às vezes voltando para casa, outras apenas passeando no fim de semana, quando avisto ao longe alguém dando uma volta com o seu cachorro. Não demora muito até que o cachorro também me aviste e, aproveitando que não há nenhuma coleira para lhe segurar, comece a correr desesperadamente na minha direção.

A primeira coisa que eu sinto é medo. Imagino que aquele cachorro não pode ter outro objetivo para correr daquela maneira que não o de me morder. Não confio que o fato de estar solto seja um sinal seguro da sua mansidão. Ele pode ter escapado, ou pode ter farejado em mim uma ameaça tão terrível que o levaria a agir como nunca antes. Não tenho tempo de observar se a raça dele é especialmente violenta. Apenas aguardo a sua chegada para saber se vai me morder.

Curiosamente, nunca me ocorreu fugir. Talvez eu intua que isso só o atiçará ainda mais, ou simplesmente não confie no meu preparo físico. Mas também é verdade que eu nunca continuo caminhando depois que vejo o animal se aproximando: fico paralisado à sua espera. Quero estar de frente no momento do ataque. Provavelmente eu acredito ser capaz de perceber o momento exato em que ele tentará me morder e então saberei como me defender. Darei chutes, desviarei a boca dele com a minha perna. Para tudo isso vou me preparando enquanto ele chega mais perto.

É claro que nada disso acontece. O cachorro me alcança e começa a saltar ao meu lado, até resolver pular também em cima de mim. Ainda não estou totalmente convencido de que não irá me atacar e pouco retribuo às suas brincadeiras. Na verdade, tento me desvencilhar. O dono vem correndo atrás, dando ordens para que ele não pule. Chega a apelar à razão do cachorro: “Ele não quer brincar com você!”. Por fim, toma o controle do animal e pede desculpas a mim pelo constrangimento causado. Respondo que não foi nada.

E só então é que o sangue volta a circular.

Tarde no interior

É uma daquelas estradinhas de chão nas laterais de uma rodovia pouco movimentada. Rua sem saída – às vezes nos confundimos e falamos “sem fim”. Mas vai longe a ruazinha, e perto do fim existe até mesmo uma porteira, como aquelas das estradas de Ouro Fino. São poucos os carros que passam pela rua e, sempre que surge um, todos se voltam para ver de quem se trata. Geralmente é alguém que conhecemos, alguém que nos vê e dá uma buzinada para nos cumprimentar. Por vezes isso acontece no meio da tarde, quando estamos sentados à sombra das árvores, colocando a conversa em dia. Passa uma pessoa, cumprimenta-se, graceja-se e, depois que ela vai embora, conversa-se ainda sobre ela, sem maldade, revendo os seus dramas familiares, discutindo os galhos da sua árvore genealógica.

Assim a tarde passa, eventualmente exigindo que mudemos nossas cadeiras de lugar para escapar do sol. Ali mesmo fazemos um lanche agradável, cheio de doces que a gente não pode comer todos os dias. Os cachorros ficam zanzando entre nós, de vez em quando se deitando aos nossos pés, às vezes abusando da nossa boa vontade. Também eles não têm nenhum grande objetivo para o dia de hoje. O aparelho de som está na garagem e toca aquelas músicas sertanejas de hoje em dia, as únicas que se ouve por aqui.

Chegam os primos, homens que mal saíram da puberdade, mas já estão casados, alguns até com filhos. E eles contam um pouco sobre a batalha das suas vidas, a luta diária que é o trabalho em uma fábrica. Mas não podem conversar muito tempo, já não têm o mesmo tempo livre de quando eram crianças, e precisam aproveitar os dias de folga para sair com as suas mulheres. O tio que nunca se casou também vem se despedir, diz que vai dar uma passada na festa de igreja que está acontecendo hoje.

Olhamos para o céu, vemos nuvens escurecidas e compreendemos que em breve começará a chover. Em breve precisaremos entrar em casa e, então, toda a nossa distração se resumirá a uma velha televisão…