Arquivo do autor:Eunice Tomé

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Estava eu ontem no cinema, já comodamente sentada, esperando a sessão começar, quando vi passar duas senhoras, procurando lugares vagos.
Em frações de segundos as reconheci, embora o tempo passado era muito longínquo. E me veio a lembrança das suas imagens, quando mulheres maduras jovens. Eram irmãs, professoras e viviam com a mãe. Sabe-se lá porquê não casaram. Mas me chamava a atenção a elegância de ambas ao passarem pela porta da minha casa. Além de muito bem arrumadas sempre, tudo era de bom gosto e na medida certa.
Naqueles idos, eu tinha cerca de 13 anos e elas representavam para mim um modelo a ser seguido e sempre pensava – um dia quero ser como elas. Os tempos passaram, mudamos de casa e não as vi mais. Agora ao reencontrá-las, por incrível que pareça, mais de 50 anos depois, elas tinham a mesma aparência e não perderam em nada os gestos finos e o belo trajar, apesar de alguns poucos quilos a mais e das faces marcadas. Fiquei a pensar que não se pode deixar os cuidados com a aparência, por mais que se tenha envelhecido. Lógico que a saúde é fundamental e, pelo jeito, elas também foram agraciadas com esse quesito.
Mas de toda essa visão ficou a certeza que a elegância se carrega pelo resto da vida e não é uma roupa cara, simplesmente, que marca essa característica. É a postura, o modo de andar, de falar e de se colocar perante os fatos.
Como é bom quando encontramos esses exemplos marcantes em um mundo que nos engana, com falso glamour, mas que não tem sustentação. Desaparece em pouco tempo. Vive-se de aparências…


OS CORPOS EM ALTA

Dias atrás tivemos a notícia de que o médico cirurgião plástico Ivo Pitangui deixou este mundo, aos 93 anos. No dia anterior ele fez questão de empunhar a tocha olímpica em um trecho da Gávea, sendo levado por uma cadeira de rodas, misturando-se ao espírito do esporte.
Fazendo uma relação do que esse símbolo da medicina na área que trata da estética ou da reparação com o momento das Olimpíadas, há uma analogia muito grande – atletas e esportistas que desfilaram em quadras, arenas e em todos os espaços onde se realizaram os jogos exibiram corpos musculosos e quase perfeitos, chegando a comparações com Apolo, símbolo da mitologia greco-romana, um dos deuses olímpicos.
A beleza dos corpos, a melhor performance, o desempenho, o desfile de músculos e bom rendimento foram a tônica da Rio 2016, como acontece em provas do gênero. A presença desses gênios da superação e que preparam seus corpos por anos a fio até o momento de exibir suas qualidades, vem nos lembrar o quanto eles dependem de seus suportes físicos.
Voltando a Pitangui, que foi uma referência mundial quando o assunto era plástica, e que mudou a vida de famosos e anônimos, fazendo-os mais felizes na correção de suas deformidades ou feiuras, a beleza para ele era uma forma de harmonizar corpo e espírito, emoção e razão. Ele dizia que buscava a autoestima de seus pacientes e que não era capaz de definir o conceito de beleza, mas sempre que a encontrou soube percebê-la.
Usando a delicadeza da citação de Pitangui, entende-se plenamente que a correção de imperfeições, fazendo as pessoas mais felizes e integradas à sociedade, supera e muito o padrão costumeiro da estética. Seu trabalho de recuperar deformidades causadas por acidentes e de queimaduras, o fez subir mais ainda os degraus do Monte Olimpo.
Logo teremos os Jogos Paraolímpicos, onde uma infinidade de atletas chegaram a essa condição, na superação extrema de dificuldades. Isso é beleza plena e que nos agride com suas perfeições. Acredito que essa deveria ser a visão do nosso grande cirurgião plástico.


LEITURAS QUE MARCAM

Existem algumas máximas que englobam ideias e que quase sempre refletem a realidade. Mas, como nem tudo ē pau ou pedra, as exceções estão aí para desmentir algumas frases que são antológicas. Por exemplo, no que se refere a hábitos das pessoas e que explicam como elas são – Vocé é o que come, vocé é o que pensa, você é o que são seus amigos.
Temos algumas provas cabais de que essas citadas já se comprovaram por várias vezes, mas sempre fico preocupada em defender uma tese com unhas e dentes e, por isso, fujo das generalizações. Agora, um grupo de pessoas em São Paulo está debatendo um tema que tem a ver com isso que falamos. Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, foi lançado um projeto sobre literatura, onde se discute “Você é o que Lê” e o mesmo poderia ser ampliado para o que se busca de informação e de programas culturais.
Nossos gostos e escolhas definem bem as nossas personalidades – se somos aventureiros, românticos, estudiosos, investigadores, eruditos, populares, profundos ou banais. Ou se somos um pouquinho de algumas dessas coisas, já que considero que reunimos uma gama de tipos e transitamos numa multiplicidade deles.
Me parece bem interessante a ideia de incluir a literatura em um debate sobre comportamento e, indiretamente, buscar respostas para gêneros e estilos literários, assim como seus autores e gestores. Acredito que no cerne da questão esteja o interesse das editoras e livrarias para desvendarem obras e escritores e ampliarem vendas. De qualquer forma, coloca no centro o livro para se pensar sobre grandes obras que transformaram a humanidade ou a revelaram, influenciando gerações indicando rotas a serem seguidas ou que registraram momentos históricos do passado assim como da contemporaneidade.
Quem não tem um ou alguns desses livros que foram basilares na sua formação, desde a infância, a juventude e mesmo na idade adulta? São os que fizeram nossa cabeça, mesmo por isso chamados de livros de cabeceira. Você poderia lembrar, pelo menos, de uma dúzia deles?


PENDURAR SAIU DE MODA

Querendo abordar algum assunto que tivesses relação com o momento atual, como sempre gosto de fazer, lembrei que hoje, 11 de agosto, é ou foi considerado o “Dia da Pindura ou da Pendura”, instituído que foi pelos estudantes do curso de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, em comemoração ao aniversário da criação dos primeiros cursos superiores de Direito no Brasil, em 1827.
A princípio, os próprios donos de restaurantes das imediações da Universidade convidavam os alunos para almoçarem de graça nessa data. Depois, o costume passou a ser praticado não só lá, mas ganhou uma irreverência e todos os alunos de direito se viam na mesma condição de comerem e beberem e saírem sem pagar, verbalizando a seguinte frase – “pendure a conta e, quando estiver formado, volto para pagar”. Não precisa dizer que acabou virando caso de polícia e muitos eram presos, depois de discursos inflamados com a boa retórica dos advogados.
A coisa pegou de tal forma que os comerciantes de qualquer estabelecimento que trabalhavam com comida e bebida passaram a fechar suas instalações nessa data, para evitar prejuízos e problemas. Por tudo isso, a moda foi se amainando e acredito que hoje mais nenhum estudante de direito se arvora a dar um calote desse gênero.
Ainda quando estudante de comunicação, lá pelos idos dos anos 60, lembro bem da euforia que era acompanhar essas manifestações dos colegas de direito, principalmente nas noites dessa data, onde imperava um certo descompromisso e a bebedeira era grande. Muitos donos de bares, que recebiam essa clientela todo o ano, faziam mesmo questão de oferecer rodadas de bebidas e tinham esses estudantes como amigos, mas nem toda a conta era pendurada.
Vejo essas tradições como saudáveis, lógico que olhando pelo lado dos costumes sociais. Eram tempos românticos e muitos excelentes juristas saíram desse rol de rapazes e moças.
Passados alguns anos, a brincadeira está fora do calendário e a data passou também a ser lembrada como o Dia do Advogado, a quem reverenciamos e de quem dependemos muito no trato da vida cotidiana.


O QUE SE ESPERAR DE AGOSTO

Agosto começa e traz com ele uma aura de expectativas, tanto para aqueles que acreditam no mês cabalístico, considerando o que já aconteceu em anos anteriores, como pelas decisões que estão por vir aqui pelas nossas bandas brasileiras, em dias próximos.
Dois desdobramentos políticos rondam o cenário federal – a votação da cassação do deputado federal Eduardo Cunha e a confirmação do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. E ainda, de lambuja, a decisão pelo STF de não permitir a participação do candidato à prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, já condenado em 1a. Instância por utilizar verba pública para despesas de sua empresa.
Só isso já estaria de bom tamanho, mas nesta sexta (05/08) a grande abertura das Olimpíadas Rio 2016, o que era para ser um motivo de euforia e de esperanças de medalhas e bons desempenhos, passa por um receio de que algo pode acontecer e nos levar ao descrédito. Torcemos que não, pois além dos números destacados nos últimos dias do que foi gasto, das dimensões das obras, das quantidades de atletas e modalidades, o que poucos estão pensando é no lado esportivo e conceitual das provas. Os atletas veem vislumbrando essa oportunidade por anos a fio de se apresentar com boas performances e índices e superar o quadro de medalhas, onde o Brasil ocupa a 36a. posição no ranking global das Olimpíadas desde que começaram.
Já que estamos com esse desafio à porta vamos torcer para que todos se superem – atletas, organizadores, figurantes, técnicos, comerciantes e o povo em geral do próprio Rio de Janeiro, como de visitantes, que vão chegando para assistir a um espetáculo para ficar na memória.
Quem sabe, como por encanto e milagre, poderemos afastar o lado negro de agosto, como sendo o mês do desgosto e, como me passaram pelas redes sociais, seja o mês do gosto e a (gosto) de Deus, com muitas remadas, braçadas, pedaladas, corridas, cortadas, golpes, chutes, arremessos, tudo em nome do esporte.


A VIDA EXTRAÍDA DA TERRA

Há muito vinha pensando em chamar um jardineiro para dar uma renovada nas plantas do meu terraço. O tempo passava e ia ficando, até que um dia, andando por uma rua vi um homem cuidando do jardim de uma escola e gostei do jeito dele. Parei e, sem muita cerimônia, perguntei se ele fazia serviços em casas particulares e coisa pequena. Ele disse que em alguns intervalos entre um trabalho e outro daria para resolver, mas antes era preciso ver o que seria e fazer uma avaliação. Peguei o telefone dele e fiquei de ligar para agendarmos um horário.
Passados uns dias, liguei e acertamos uma visita. Ele compareceu e deu umas ideias que ficariam bem interessantes, como colocar um lambris no terraço para depois pendurar vários vasos com flores e trepadeiras. Gostei da proposta, mas isso poderia ficar para uma outra data, porque o que eu queria de imediato era mesmo substituir algumas plantas, trocar de vasos, colocar terra nova com adubos e reduzir a quantidade em nome da qualidade.
Aceitou e marcamos a data dos serviços. Chegou munido de sacos de terra, seus utensílios de jardinagem, forro para cobrir o piso e as plantas combinadas. Enquanto ele preparava o terreno para começar, falei que sempre achei a profissão de jardineiro uma combinação muito interessante de trabalho com terapia e que alguns filmes e livros que li exaltavam que esses profissionais eram pessoas especiais.
Ele me ouviu e após completou que ele tinha um sentimento de que sua matéria prima era viva e, por isso, ele tratava com todo o carinho, tal qual um médico cuidando de um paciente doente. Gostei da sua interpretação sobre o que fazia e veio ao encontro do que eu pensava. Deixei-o em paz realizando seu ofício e fui para dentro de casa. De repente, passei a ouvi-lo cantarolar baixinho como ninando uma criança.
Em pouco tempo, ele realizou a transformação do meu terraço e, ao me chamar para pedir que eu olhasse, fiquei encantada. Tudo limpo, verdinho, algumas flores e aquela boa energia resplandeceu por todos os espaços. Era como se as plantas me dessem boas vindas na minha própria casa.
O homem e a natureza quando estão em equilíbrio são capazes de realizar milagres. Bendito homem que semeia a terra!


HERANÇAS

Quanto mais maduros vamos ficando, não apodrecemos como uma fruta que cai do pé no seu sentido amplo de maturação. Pode parecer brincadeira, mas não é um prêmio de consolação chegar a entender melhor o que vamos sentindo ao longo do tempo e a mudança de valores que vai acontecendo. Lógico que o corpo vai se deformando, a rigidez vai dando lugar à flacidez, o frescor da juventude fica opaco, os cabelos embranquecem e os órgãos vão falhando surgindo problemas de saúde.
Tudo isso é uma verdade incontestável e, apesar de todos os cuidados que tenhamos com a nossa vida e hábitos saudáveis, os reparos acontecem, mas nunca mais seremos os mesmos. Ainda bem, pois a mente, por outro lado, vai também ganhando mais elasticidade, sabedoria e o que era tão importante antes deixa de sê-lo ou vice-versa.
Uma roupa nova, um sapato extraordinário de marca, uma bolsa, paixão de algumas mulheres, uma jóia ou um relógio no valor de dois salários mínimos ou mais, deixa de ser objeto de nosso desejo. E partimos para outras prioridades – uma viagem, mesmo que seja pelo Brasil, um programa musical, uma matinê de cinema, uma caminhada no fim da tarde com direito a um lindo por do sol e boas conversas com os amigos, aqueles que nos dizem respeito e com quem temos sempre a aprender. Sim, aprender sobre visões de mundo, estilo de vida, troca de informações, falar e ouvir sobre o que somos e nossas experiências. Sem cansar e se repetir, pois isso é outra chatice daqueles que não se tocam e querem sempre ser os protagonistas da roda das conversas. Isso sim é coisa de velho, de ultrapassado e maduro que falei lá acima, pronto a não prestar mais.
Nessa mudança de posturas e gostos, claro está que não mais nos interessamos por muito dinheiro, nem por bens e patrimônios, apenas o suficiente para a curtição gostosa de alguns programas de boas opções. As heranças que recebemos ou que amealhamos ao longo de anos de trabalho devem ser desfrutadas, mas sem ênfase para as mesmas. Agora é viver com simplicidade e as heranças que ficaram mesmo são as genéticas e as éticas, aquelas que foram passadas por nossos país e que deixam as suas marcas para o resto das nossas vidas.
Tentar passar isso para nossos filhos e netos, não com imposição, mas com gestos e jeitos de ser, seria uma forma de deixar uma grande riqueza para eles. O resto é pó.