Arquivo do autor:David Maxsuel Lima

Um tanto mais distraído

As Horas

O vazio sobre a mesa de desprezos, frio e trivial. O vento sopra sábio e alheio, como que fútil, como que fraco. Não fossem os necessários rótulos, pondera o ínfimo, entre bocejos, seria a noite questão de caos, seguiriam comoventes os sensos de obviedade. Fragmentos de equívoco vulcanizam os detalhes furtados já em inocente madrugada, conspiram os corpos, beijam as flores. Sussurros vão envernizando os telhados, rostos e distantes olhares conduzem o vil do instante. Nasce o impacto, colore a manhã. O espelho alheio, extraviado, arranca da timidez um grito. Seguem intraduzíveis dois poços de receios, ecoa no interior do que já foi vulto um súbito arbítrio – não mais que insanos em selva de esquizofrênicos, verbaliza, então, a impossibilidade enquanto dor, e não existia liberdade, só essência. Um esboço de dúvida, um aceno, um sorriso, forjados silêncios e bordéis de pranto – tudo adormece sob a sombra da aurora.

As Fúrias

Lábios secos, dedos trêmulos a tecer adjetivos, os cômodos a refletir uma neblina cor angústia. Sobre a cama, a cegueira em estado de impasse, um contorcer-se vil e meia lágrima. Ao chão, o amargo das entrelinhas, o tempo, o avesso, também o nítido. Arrisca-se, ali, muda e sem métrica, quase lua, quase furtiva, quase una entre os alardes do sopro, a bússola da desrazão. Incrédulo o deserto em estado de oásis, inconjugável o insistir do verbo, as letras e o líquido a abraçar as pedras. Dois silêncios bebericam o que não é grão nem areia, o que é curva e contramão. Sustenta o vício, ao longe, uma ausência de adeus. Sou aquilo que não ouso abstrair, sentenciou o acaso, ainda não aprendi a contemplar fugas, confessou a inocência, por que não amar as vírgulas, indagou, bêbado, o receio, há um medo, um medo que cultivo, um medo do que não é amanhã, rabiscou, enfim, os cactos que regam o hoje.

Os Amanhãs

Um desejo de afogar-se numa gaveta sem chaves, sem fundos, ganha vida com a paisagem vinho e verniz. Discursos escutam o céu que há na paisagem, inúteis os trilhos que mendigam destinos, desesperado o embaraço que abriga a vaidade, como se fosse possível se habituar às promessas que a insegurança nos faz, desabafa o sedento, rubro sobre o jardim, em cacos. De louro, de louro, exclama o enigma, basta uma coroa de folhas, uma única, e voltou-se para conversar com Narciso. O que o ontem cegou, implora o verso preso à poesia modernista, e segue o diálogo sobre muros que não conservam vozes. Envolve-se a juventude, embriagada em eus, um tanto mais distraída, em pratas e pó, furta-se a tinta das penas, impõem-se uns limites, cala-se o fôlego – há, contudo, na janela do doce instinto, um amanhã que não envelhecerá.

Anúncios

Vazio cor cinza

Nefasto o cálice, o afinco, mais do breve, mais do ínfimo. Das expressões perdidas no beco sem aroma, só a culpa respira nítida, só o prometido caminha desonesto. Não desperte em dias de fuga, aconselha o dissabor. O que há sob a sombra da falsa impressão: ecos ou amanhãs? Vazio cor cinza, gritou a neblina, sem alarde, apenas receio – o caco em propenso desatino, vil convicção, ainda ríspido, então se perde entre vultos de fúria.


Falta de Adeus

Não tão brancas as árvores que nascem das asas do acaso, nem tão branda a insanidade que jorra dos olhos do escárnio.E o vento sopra, sopra inamorável. Um cacto cresce calado no quarto degrau da escada. Até amo a falta de adeus, confessa o inseto que carrega a paisagem – o tempo é de fuga, não de sussurros. A indiferença caminha por estradas de desatenção, feliz. Por instantes, detido, contemplei o abraço de dois uivos, forjei reflexos, apenas, constatou o devaneio. Se eu não ressuscitasse toda manhã, hesitou algumas horas um simpático narcisista, depois desenhou um circulo muito aquém do perfeito. A noite anêmica e aos trapos, a mente anêmica e aos trapos, o tempo anêmico e aos trapos, disputavam um imaginário pincel.


O óbvio, a resposta, o sal

O sal responde ao óbvio:

Não. Nãos. Nãos. Não

Não canta o que aspira encanto?

Não semeia o que aspira pranto?

Não ilumina o que incendeia o manto?

Não cisma o que alimenta o verbo?

Não fala o que amarga o cego?

Não tenta o que reinventa esmeros?

Não cega o que enterra o elo?

Não seduz o que traduz o lúcido?

Não induz o que produz o sulco?

Não vive o que tece declives?

Não caça o que vive?

Não implora o que sonha?

Não abandona o que envergonha?

Não deseja o que caminha, festeja?

Não saboreia o que descaracteriza a mesa?

Não buscam a semelhança, o impulso?

Não esquece o que distrai o susto?

Não dança o que esquece e avança?

Não celebra o que chora?

Não ousa o que pousa?

Não peca o que uiva?

Não movimenta o que enlouquece?

Não quebra o que entristece?

Não bebe o que amanhece?

Não furta o que questiona?

Não prende o que abandona?

Não cria o que sorri?

Não doa o que duvida?

Não finda o que rotula?

Não percebe o que ama, engana?

Não perece o que enobrece?

Não tece o que domina?

Não foge o que ilumina?

Não cobra o que desconhece?

Não escuta o que aquece?

Não sente o que embeleza?

Não julga o que abriga?

Não despreza o que ensina?

Não desce o que finda?

Não robustece o que assina?

Não ferve o que escreve?

Não devaneia o que silencia?

Não bombardeia o que grita?

Não arruma o que fita?

Não sentencia o que lê?

Não musicaliza o que pensa?

Não prevê o que abraça?

Não odeia o que ensaia?

Não vagueia o que embaça?

Não brinca o que teme?

Não beija o que oculta?

Não morde o que vende?

Não age o que adormece?

Não habita o que desfalece?

Não pergunta o que estremece?

Não bate o que ornamenta?

Não encontra o que vagueia?

Não descreve o que chateia?

Não concebe o que acaricia?

Não finge o que evolui?

Não vicia o que oferece?

Não cerceia o que confunde?

O sal responde ao óbvio:

Nãos. Não. Não. Nãos. 


Cavernas do meu submundo I

caverna1

I

Segredo

Os primatas compuseram seu olhar numa das cavernas do meu submundo, escreveu. O grego das tragédias formavam a mancha dos homens vencidos, a janela fechada lembrava jovens bondades a mergulhar nas águas de um copo, amarelos olhos saboreavam os sais do pobre inverno, marés de bom senso corroíam a maneira boba de entristecer o coração. Nomes não se eternizam nos troncos das árvores, disse uma sexta de julho, caminham sorrateiramente pelos bosques de erro, ironizou. Instrumentais lições apavoraram a inocência dos surtos, passaram as facas de prata pela fechadura da desarrazoada poética. Nos lugares-comuns, alimentou-se o etílico da existência. Os séculos enterraram algumas batalhas num baldio terreno, esquecidos heróis ilustraram os vergonhosos pêsames da humanidade, foram férteis os lares que ensandeceram e cicatrizaram. Sentados ao meio-fio, lampejos de cobre pregaram-me a um rústico estado de mágoa, anotou repetidas vezes num catálogo de vultos um selvagem escultor de fins do mundo.

II

Ócio

Machucado o amargo do ócio, também as respostas que não convenceram. Escândalos vandalizam troféus e luxúrias, a porta ainda aberta reclama das marcas que o deserto deixou. Engasgados os pequenos insetos sob o tapete, as mínimas perdas em meio ao entulho, extintos os carnavais e átimos. Ocultas pelas folhagens, as bússolas realçam a sinfonia dos sonhos. Variadas são as tonalidades a fotografar, as esperanças aniquiladas em fortes ao norte, os pés sobre os desarmes que afrontam ninhos de projéteis perdidos. Os princípios amarrotam a fórmula única de algemar o preto e branco, dizimados os calendários que orientavam os sacrifícios à acidez. Não quero a doçura que distrai a manhã, não quero o amigo que escuta o segredo, não quero as cartas que me farão ganhar os próximos dias, quero o poço, a cama, o enjoo, rabisca o que atordoa, o que ama. O todo cava e não encontra o melhor de si, esquece os cigarros sobre um banco de praça, aponta para o começo de uma guerra.

III

Barreiras

Eras, feras, ervas, canções, encontros, o que são? Talvez a terça parte de um pântano. Não há poeira e o sol se põe, não existe crepúsculo, a voz aceita o cárcere – as pausas não se emocionam. Assim que os vidros embaçaram, as alucinações voltaram a dormir, o menino frágil, um tanto intransitivo, procurava rastros – mas chovera. Nas esquinas, cortes engatilham o vácuo. Um pormenor contempla minhas overdoses, outro, mapeia meus rótulos, observa o infinito entre aspas. Varrem-se distúrbios, montanhas farejam destros bálsamos. Uma negra fumaça, ao longe, enobrece encruzilhadas, no oposto do cálice, pendura-se um desengano, as certezas estão livres e já se escondem sob as pedras. Encurralados, os acontecimentos apreciam os voos, as garças. Hipóteses namoram regras nunca seguidas, cantam os possessos, dançam os labirintos. Vi-a, nessas matas sem preço, a sentir o calor que reinventa a água, também à janela, a estranhar um céu sem nuvens, era uma rosa (ainda sem cor) – veio a tinta, desfez a confissão, restou a parede, branca, branca.

IV

Risos

Gaguejam preciosismos incinerados, a pólvora úmida, inútil. Estremecem os favores, encena-se um entardecer. Os desenhos, talvez secretos, acumulam-se na gaveta, sem asas – são pequenos os espinhos, a laranjeira à beira do riacho, os peixes numa fonte, os casebres de madeira, as crianças. Foi-se o tempo, não se sabe a consistência da areia, o que é atômico, o que é bomba. Gastos riscos encontram umas lembranças, páginas e páginas de convenientes risos, passa a semana, o ano, as notícias se espalham. Amor é palavra sem fôlego, alertava a frase pichada aos fundos de uma igrejinha, Ódio é palavra sem eco, escreveu-se logo abaixo, No mais, tudo existe, comentou um leitor, triunfante, e os ninhos não caíram do telhado. Sem asilo, no semblante vazio, esquecido do remédios que recompõe a essência, um espelho desilude a simplicidade dos dias que chegam. Digas que o hoje quedou inexpressivo e eu rirei, desafiou, Ainda sabes contar estrelas, perguntou ela, tímida, Do infinito, aceite apenas um sim, aconselhou logo, O vento é o que te apaga, afirmou ele – era mais que diálogo.

V

Egos

Liberdade é asilo onde aprisionas tua existência, é, na essência, uma farsa – começava a peça teatral. Acampados num celeiro de dispersões, os contornos da cinza timidez comercializavam tempestades, propagavam histórias sem nãos. A mão sem dedos que compunha a noite tinha um corte, chamaram-no de fuga. Os trilhos e trens que rasgavam a até então virgem paisagem não enferrujam e o que temos é um ponteiro a movimentar-se sem porquê. Nas aldeias do eu, umas ideias confortam a tolice, nos becos do caos, já não respira o infortúnio.

(continua…)


Silêncio dos Desencontros

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

I

Sais

O derradeiro gozo dos ermos acasos empalidece a liberdade. Furtam-se sagrados livros, deuses de confusos credos, deságuam apurados vícios num bueiro de exatidões. Limbos ocultam o mel que jorra dos olhos de devassos absolutismos, a canção que vivifica córregos de horrores melindra calmas fortalezas. Lúdicas salivas avançam sobre uma montanha de nódoas. Caminha a estupidez entre teses e forcas. Dilúvios lutam contra as consequências de uma nefasta partida, perdidos soluços aquecem um mausoléu de orgias. Contínuos verbos alagam a beleza que reveste frágeis gritos. Nos ombros de um lago de vírgulas, se embriagam travessas modéstias. Incomunicável o sábado, incomunicável as poucas migalhas que a tarde teimou em aproveitar. Dezesseis horas, denuncia o relógio, vultos pulsam, aleatórios gestos, então, compõem o atraso, um circulo de finidades ameniza despóticas lembranças, inóspitas crateras surgem, sem chamados, sem recados, sem insistências.

II

Entraves

O asfalto fulmina os fragmentos do equinócio, a ausência vocifera, vocifera. No verso do espelho, mordazes certezas, porções de asneira. Tiros habitam os seios de um dom, escolhas monopolizam míseras ternuras, as poças d’água seguem límpidas, formidáveis, desumanas. Expectativas me enferrujam, confessa uma amena alma, Ensina-me a dizer que te amo, implora outra, Diga-me sempre que o mundo acabou ontem que me comprometo a lhe dizer uma mentira toda manhã – são as últimas linhas de um inédito romance. Passeia, entre fósseis, um modo neutro de maltratar o arco-íris, a boca pede um não, o corpo pede um verso, os tolos abominam o que é fôlego, caem umas cadentes estrelas, borra-se a noite – vontades gesticulam inércias. Na mansa debilidade dos latidos, doces essências temem o profano. O silêncio desmaia nos lábios do impasse, bobos ódios envernizam falaciosos juízos, uma garota está perdida no século XIX – sem pincéis, hesita em descer as escadas.

III

Névoa

Súbito, o aprendido esquece o porquê das mãos dadas. Recolhem-se lenços numa perdida desigualdade, o dissabor segue calado em seus ritmos, grifam-se as fases de um nome, sinônimos machucam adoráveis sarcasmos, borboletas de um vivo amarelo esquecem o riso dos quartos, finalmente encontram uma janela, fogem. Na órbita das promessas, menosprezíveis respostas oferecem o ouro jamais extraído, teatrais compressas de perfeição mantêm entretidos o barro oriundo da última taça de vinho. Sozinho, um universo de histerias subestima a poética dos compêndios de afago. Semeia-se egoísmo num canteiro de escolhas, semeiam-se fissuras num jardim de fluorescências, frágeis amizades definham em meio ao discurso dos loucos. Lá fora, novidades, vapor de maçã, os dias já não leem a mente da névoa. Detectável o ir e vir dos reinos, dos sínicos. Abandona os rumores de um prédio de agouros os sentidos que habitam a linha aquém do horizonte.

IV

Abstrações

Estonteantes doses de usura distorcem a compaixão quieta ao longe. Feito os cumprimentos aos punhados de confusão, ganha espaço a aversão ao que tem endereço, ao que provém da exilada satisfação. Traços do incerto traduzem os dejetos do dia, pílulas de alívio voltam-se, maquinam meios perigos. Reflexivo, estrangeiros perdões toleram o que é relâmpago. Forçosos abatimentos, sob o domínio de um pavor quase divino, observam o semblante da chuva. Coloquiais paixões ferem o que a atenção cerceia, neologismos, aos poucos, aprendem a lidar com a faísca que vivifica a censura. Preciosas volúpias rascunham os próximos trilhos na companhia do ilusório. Já não se fala mais, afastado os tropeços, afastado os pontos de vista, afastado o quase oculto. O livre alimenta o dito, o detalhe, o esquecimento. Não se asfaltam mais os mundanos temporais de inúteis alegações, apenas os datam, os aprisionam num intervalo de validades – persiste o aroma que a terra oferece às águas de outubro.

V

Tempo

A partir da décima quinta linha, a página de um abandonado diário recebe apenas leviandades. Tranquilidades incendeiam envenenados pretéritos, talvez as lágrimas que abrilhantam os olhos da chama tragam consigo a forma inexata de dizer que se ama. A cada recomeço, um parabenizar o breve, sublimes empecilhos fantasiam um leque de mentiras, véus saúdam o denso aspecto das grades que impedem a conquista. Extirpado o arame que envolvia os olhos de inquietas criaturas, são muitos os hálitos inventados. Guarnecem sujos areais uns irrisórios abraços, brota uma flor que logo se cala, logo se assombra. Precipícios soam inatingíveis, idolatráveis. Um sopro não apaga o mundo, explica um mendigo, mas o ridiculariza, e isso é bom, conclui. Lobos e luas concretizam saudades enquanto os pássaros espantam a desvirtude, subsiste os nexos, os versos, um caminho.

VI

Origens

Havia motivos para atravessar a rua, motivos para transpirar, motivo para responder perguntas, motivo para apreciar manias, motivo para ler desconhecidos escritos, motivo para ouvir novas canções, havia, sobretudo, sedentas razões para deixar-se. Levas de vaidade aos poucos quedaram cansadas, anedóticas, seguidas de um imprescindível jogo de análises. Havia, também, alegóricas frações de mudez, de um lado, a leveza do ártico, do outro, o apuro das ondas. Esquivava-se o desinteresse, as tortas letras sobre a mesa, tortos diálogos sobre indefinições, transitava o razoável no ápice de uma turva sentença. Num auge, um sem-fim de mimetismos, quase duas décadas de destrezas e a boca ainda seca. Dos minutos não contados, nasceu o nefasto, alimentou-se tardios instintos, fez-se um parque de contraditos.

VII

Resquícios

Omissões apagam as luzes do caos, pregam sonetos à porta do amanhã, regam o ainda não rotulável. O brilho das coisas vãs, aos poucos, cega narcisismos, também a crise que adoenta a existência. Pequenas malícias bebericam as lágrimas que a fuga deixou sob a poeira dos vales, dilapidam os amarelos sorrisos deixados na gaveta de mesmices. A distância brinca, alheia às vestes abandonadas no chão, figura, dentre tantas redundâncias, um esboço de fascinante desejo. As ideias, o fictício, contornam cismas, iletrados receios bagunçam um cômodo de excentricidades. Nativas indagações caem em desuso, constantes intuições rompem a barreira da rotina, aliciam-na. Ostentam militantes enjoos a necessidade de fixar audácias no interior dos pasmos espíritos, fica a vida entre a agulha e o lodo.

VIII

Encanto

A lembrança de um repetido convite assola cicatrizados impulsos – as negativas ferveram clichês. Ninguém cansou os chamados, ninguém corrompeu os avanços, e o fim é tão igual. Uma semana de exclamações, depois, uma justificativa, uma tentativa, duas – as mãos hesitaram, a insegurança fez promessas demais. Desde então, o caminho é de poucas histórias, de poucos sinais. Minha garota está perdida no século XIX, sussurrou o fantástico, Espera-me, só preciso descer as escadas, dizia uma mensagem que atravessou os séculos – estava formado um sobrenome, estava selado o silêncio dos desencontros.


Lábios de um Hálito

angustia

I

Lanças

Lábios de um hálito musicalizam os contornos de um perfil, há fuzis inertes sob o armário de um sol; tortas esquinas arborizam precipitados atropelos, a densa neblina se entristece, a censurar a ausência de desculpas. Os insetos, sem forças, sem extremos, se aproximam de um adulterado painel, se apoderam da descrença. Sobras de pessimismo ocupam um indelicado espaço no pátio da ociosidade, risos mergulham nas sombras de uma fotografia. Faz-se do pântano herança, da poeira vertigem, do céu dogma, da garganta mera cova. O desperdício envaidece cúmplices de um progresso. Suspiros amedrontam o verde do hortelã, as nuvens se escondem dos pássaros, lençóis de surdez dançam entre chuvas e choques elétricos. Não há lanças que satisfaçam as próximas horas.

II

Alvos

Velhas fobias brincam na calçada, presságios domesticam a infância. Alvos adiam um indigno espetáculo, correm os mimos, as friezas. A primavera desconhece as flores que a compõe, as demais estações analisam os poros do incômodo, o insucesso e a nostalgia inundam os fogos de artifício. Placas e expectativas enferrujam desgastados escritos. Apaixonados por cadentes arcabouços experimentam aplausos, estão sós, suas rosadas asas soluçam. Brasas em greve desacatam os sais espalhados pelo rodapé da vida. Os índices, frutos do pulso de pedra que ainda sangra, trilham os mesmos caminhos da classe, da classe muda que late. Rumos e rumos purificam segredos, enlouquecem dádivas. Um vazio que enaltece a vida cospe a exatidão encarcerada no adjetivo de uma língua estranha.

III

Uivos

Cegos em seus dentes azuis, os jovens, palpáveis qual tédio em noite de cinzas, ornamentam o lodo, ainda são o falso inicio – valem, ao certo, o tempo que não possuem. Os solitários se desfazem de seus cacos de vidro, no alto de um morro, logo ao sul, e esperam ressuscitar no próximo pôr do sol. No inverno dos desatentos, os fios de alguma consternação reinventam o mundo, resta então a cegueira, um prêmio, um elogio universal. Agora, os fatos uivam, os fatos divinizam acusações, adormecem sonhos, os prendem. Persistem alguns objetos pontiagudos na sala de estar, também pontiagudos desprazeres na faixada dos orgulhos. Existe, sobretudo, mornos lamentos, indizíveis delongas, trinta e quatro páginas avulsas, repletas de planos de fuga, repletas de sentimentais ruínas.

IV

Rumos

Estranhos pares de lábios dizimam os prantos, agarram-se a uma ignorância. As paredes se cansam de velar o sono dos rítmicos contrassensos. Uma mensagem sem nexo desestabiliza os préstimos do silêncio, subsistem garras de névoa. Dentre os rumos, um estado de improviso, um lapso de quase esquecimento, de incompleta entrega. À boca se leva um anil perecimento, ao vento se doa uma equivocada companhia. Circulam as convulsões, dedos de mármore. Forjam-se trovoadas, monótonos abrigos para os confrontos que ecoam, débeis percalços duelam diante das contrastantes quimeras. Antes do sorriso, muros; antes do desejo, angústia. Ao lado das reticências, repousa uma vã chama, de mãos dadas com os inertes habitantes de uma ilha de brumas. Sopros ensaiam estonteantes garoas.

V

Agulhas

Os infernos conspiram sem força, sem pulmões. Tolas algazarras figuram ao canto de uma fresca pintura, bebidas e alardes ganham certa notoriedade. Irresponsáveis sussurros alçam suaves voos. Úmidas folhagens preenchem as lacunas de uma cesta sem forma. Ao leve movimento da agulha, os trépidos cenários se contorcem. Distante a razão, distante as fábulas, alheia a vontade. Eu insisto, vocifera o êxtase, e convém, indaga o lírico, apenas avance, opina a inexperiência – e o diálogo se encerra. Ardem umas finas lágrimas, ardem uns obsoletos jornais, de amarelas notícias, lidos por amarelos transeuntes. Súbito, um sereno acorde veste a paisagem, observa-se, então, a nudez do absurdo. Abre-se passagem para o marasmo, soletram-se letras, forma-se um nome, a noite cai.

VI

Surtos

Sente uma impossível criatura que seu passos e abalos são furtados, lançados a um enredo de abutres – desenham-na. Imagina, ainda, que uma figura – dessas que buscam se definir quando chega a aurora – a traduz em grosseiras linhas. Assusta-se ao se enxergar na imensidão das palavras, confunde-se com títulos, personagens e cenas – não a convidam para montar um quebra-cabeça. Eis que permanece invulgar. São belas as lutas, são memoráveis os surtos – não cabem numa simples conversa. Inexistem empréstimos, faltam fórmulas e estereótipos. Não há pinceis nos próximos cem metros de angústia, necessário apenas respirá-la. Assim, embarcam os dissabores num tempo sem dígitos, sem rótulo, sem endereço – do noticiado, alimenta-se a poesia dos ingênuos.