Morro Azul e o Rio Doce

foto: fabiana fonsaca
foto: fabiana fonsaca

Há algum tempo fiz uma promessa de produzir um texto a uma amiga sobre uma bela foto que ela fez. A imagem apresenta uma frondosa e imponente árvore num caminho que dá acesso a um local chamado Morro Azul. Acho que já disse isso aqui, sempre tive curiosidade em querer saber qual o motivo dos nomes dados aos lugares. Minha dúvida, sem trocadilhos, pairou sobre o Morro Azul. Infelizmente, minha amiga tinha apenas uma indicação possível sobre a escolha do nome. Ela dizia (e diz) que visto de longe o morro ficava azul. Não justifica, mas é deveras poético. Um morro a marcar o horizonte e a imaginação das pessoas.

Hoje, essa formação serve não apenas para alertar que chegou à cidade, mas também para fazer com que a cidade esteja conectada com o mundo. A pequena formação, numa cidade quase plana, serve para instalação de antenas das rádios, de emissoras de Tvs e celulares. O morro antes azul na imaginação de crianças e adultos, agora comporta a interferência da modernidade.

Essa modernidade que mudou a visão do azul do morro, e minha amiga vai entender a relação, é a mesma ligada a ambição que transformou em fel o Rio Doce, nas Minas Gerais. O rio sagrado para as tribos indígenas, sangra em dor pelas milhares que pessoas que já mais poderão sentir o seu frescor e doçura novamente. Em nome da modernidade, mataram o rio que era doce em sua capacidade de alimentar os sonhos das pessoas. Agora, morto pela ambição e interferência da mão humana.

Tempos atrás, vou dar crédito a Milton Nascimento, mas não tenho certeza, peço perdão pelo sacrilégio, disse que o morros de Belo Horizonte eram “casquinhas” ao longe, pois sua essência fora retirada pela exploração desenfreada. O aviso foi dado. Não aconteceu em BH, mas as lindas paisagens de Minas agonizam em “casquinhas” prestes a causarem tragédias à mão humana e à natureza. Essa sim indefesa e maternal, pois sofre, mas com o passar de décadas e séculos tende a recuperar. Não com a mesma forma, mas com a mesma eficiência.

O Papa Francisco, Leonardo Boff, Greenpeace, Virgílio Farias, entre tantos outros, já alertaram para que passemos a compreender que não um organismo independente de tudo que ocorre no Planeta Terra. Somos Terra. Não podemos fazer outra escolha, por isso temos que cuidar desse nosso corpo. Devemos, sem escolha, manter o azul do morro, o doce do rio, as linhas belas do horizonte e todas as vidas que compõe o que somos.

O Vale do Rio Doce deverá ser maior que a Vale. Mas o que vale, minha amiga, é resgate e recorte no tempo e espaço que o clicar de uma foto nos transporta. A beleza e a força dessa imagem se deve ao mérito do olhar sensível que de quem a fez. Digo que foi uma olhar de criança. Aguçado, esperto e esperançoso, como deveriam olhar os adultos.

Somos Terra

Terra

imagem da Internet

O título não tem nenhuma conotação bíblica. Pelo contrário tem por objetivo dar um sacode em quem não percebeu isso ainda. Somos Terra. Não é preciso gritar. Não é preciso mais defender o Planeta é preciso defender o que somos. Eu não tenho que cuidar da casa, tenho de cuidar daquilo que complemento, daquilo sou, daquilo que me é.

Não estamos numa viagem no espaço. Não estamos a navegar. Estamos a viver, fazer viver e a deixar viver. Somos mais um numa galáxia, mas não temos o direito de acreditar que estamos a passeio.

Somos Terra. Abra a janela e olhe para si mesmo. Não estará olhando para fora, mas para dentro. Ao caminhar olhe ao redor, é você. É você Terra. Cuide-se, ame-se.

Coisas do tempo

A vida tem muita coisa boa, mas quando nos deparamos com o encantamento somos transportados para outra dimensão. Há poucos dias entramos na estação do ano que mais causa essa sensação: o outono. Todo final de tarde, basta olhar para o horizonte e se encantar. O sol, justificando sua condição de astro rei, toma a linha do horizonte para seu palco a caetanear alguns segundos de nossa existência.

Esse encantamento para o tempo, para podermos observar aquilo que talvez seja a última vez a acontecer. Como uma foto, segue diretamente para a memória o recorte no tempo e espaço que jamais se repetirá. Como uma dose extra de adrenalina, o coração dispara e nos arrebata. Como se a vontade de viver para sempre aquele momento fosse prioridade de uma vida toda. E a vida o que é? Tenha encantamentos diários e terá sua resposta.

Cala-te boca

O silêncio pode representar muita sabedoria. Como pode representar totalmente o contrário. Quem silencia em geral consente. Mas ficar quieto zera o risco de dizer besteira ou engolir algum inseto intruso. Pois bem, é chegada a hora da razão. A razão não tem umbigo preso nem com o silêncio e muito menos com o barulho. A razão não está nem para o carro de som, como a publicidade, e nem para leitura, com a biblioteca. Ela está para ser usada.

Pois bem! Vejo que o Brasil vive um momento único em sua história. Aqui cabe uma ressalva: claro que na minha única e exclusiva, até agora, opinião. Sim, o país pela primeira vez, em sua história, não precisa que seja exigido de seu povo educação, mas sim razão. Razão na medida certa para cada um. Em cada momento, agir com razão. Praticamente uma ética coletiva.

Como tenho ouvido muita gente expressar seu ódio, de direita ou de esquerda, a fim de silenciar a opiniões alheias, me resta dizer: cala-te boca! Deixe a educação de lado e aja com razão. É isso!

Alma caipira

Resolvo retomar os textos das crônicas. Não foram muitos os pedidos. Os poucos que aconteceram acredito que tenham sido sinceros. Não houve nenhuma hecatombe por conta da minha ausência. Também não estive ausente por conta da necessidade de pedidos para meu retorno, mas sim, e tenho como justa a minha justificativa, por conta das muitas mudanças ocorridas em minha vida nos últimos dias.

Também não foi por falta de assunto e fatos que estive ausente. O Brasil, que “ferveu” todo o ano de 2014 com o forte calor em todas as regiões, gerando crise hídrica no Sudeste, entra em 2015 fumegando as emoções do processo eleitoral e uma saraivada de denúncias contra a classe política. Diga-se de passagem, e tenho isso como ruim, em todos os níveis da política brasileira. Alguém pode ler essas poucas palavras e dizer: – Em todas as classes da sociedade tupiniquim! Sim, vivemos um momento crítico.

Não faltando notícias nada animadoras. Eis que março entra com mais duas baixas consideráveis. A música popular caipira perde dois de seus maiores ícones. A festa no andar de cima passa a conta com a voz volumosa de José Rico e com a sabedoria da maior conhecedora da alma caipira, Inezita Barroso.

Já disse em outra oportunidade que cresci ouvindo rádio. Não foram poucas as manhãs, quando criança e adolescente, que acordei ao som de Milionário e José Rico. Seus discos, LPs mesmos, rodavam na vitrola e marcavam as domingueiras em que parentes importantes vinham nos visitar. Vinis de duplas caipiras, refrigerante tubaína, frango inteiro eram os motivos da felicidade e dos pedidos que os parentes voltassem logo. Essa memória gustativa fez fortalecer a memorização das letras das músicas e o referencial sobre a qualidade da voz e importância em relação ao que se produz atualmente.

Inezita Barroso aparece nas reuniões de família com os parentes de longe, e fica na memória, quando ouvíamos as músicas caipiras com duplo sentido. Inocentes, hilárias e cotidianas, as letras tinham muito dos personagens que trabalham nas lavouras por onde meus pais passaram. Personagens reproduzidos por mim nas letras e que passavam a ter nomes e vida, quando ouvia a Marvada Pinga. Essa “diva caipira” tem para mim outra importância quando passo a assistir Viola Minha Viola e sua capacidade de manter a música popular caipira. Ao descobrir a pesquisadora por trás daquela voz forte e do violão, eis que surge uma nova pessoa. O mundo pode caber em apenas uma pessoa. Era assim que via Inezita.

Sigamos os contratempos da vida. Sigamos com as novidades e os caminhos a serem descobertos em outros campos. Mas como é bom saber que as lembranças que essas pessoas nos deixam não representam um cemitério, mas sim um museu de grandes e boas novidades. Esse passado é uma roupa que não quero jogar fora, mesmo que minha alma não seja tão caipira. É isso!

Depois e depois

imagem da internet
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Resolveu não sair do quarto naquela manhã. À noite foi daquelas que ela poderia chamar de tranquila. Então, deveria prolongar esse momento de satisfação. Nem sempre fora assim. Houve tempo em que ficar na cama era tempo perdido. A vida corria solta, leve e fácil. Não passou para pensar se esse pensamento significava saudade. De que valeria? Nada mudaria aquilo que já sabia.  Há muito falava consigo mesma: “o tempo não volta e nem tem dó de ninguém”. Por isso, naquela manhã resolver atender a uma necessidade sua e ficar no quarto. Sem relógio, sem ver o sol, sem imaginar que a vida continuava lá fora. Era uma tentativa egoísta de comandar o tempo. A idade mudara sua forma de observar as coisas. Agora, esperaria a vida falar mais alto e mais forte para tomar a decisão em sair do quarto. Poderia não demorar, mas o corpo nessa hora comanda o cérebro. Então, só restava aguardar. Antes de cair no sono, ainda memorizou um último pensamento: só me resta esperar para servir o vencedor.

Busca da certeza

extraído na internet
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Que a verdade tem sido a meta de várias pessoas isso é verdade. Num momento em que o que mais queremos é a verdade para desmascarar parte da classe política nacional, passo a imaginar que seria melhor termos certeza das coisas. Pensando nisso, resolvi fazer as minha lista de certeza. Você, que por ventura, dispensou um pouco do seu tempo com essas palavras, faça sua lista de certeza. Pode ser da vida, pode ser dos sonhos, pode ser até sem muita certeza. Um dica, fuja do chavão: a certeza da vida é a morte.

Esse chavão, ditado popular, dica para vida é tão démodé quanto a palavra que acabei de usar. Inspire-se nas crianças para buscar suas certezas. Para elas não há limite de tempo e espaço. Na há distância entre a Lua e a Terra. Na há o calor maligno do Sol. Não há limite de certeza.

Então, comece fazendo a sua lista como se fosse preciso que essa fosse entregue agora no Natal. Todos os seus desejos e sonhos para o próximo ano vão depender que você faça a entrega dessa lista de certezas.

Para facilitar sua vida, divida a lista em categorias. Depois coloque as categorias em ordem alfabética. Após fazer essa arrumação, tente estabelecer as suas certezas em grau de importância. Sim, toda certeza na vida tem grau de importância. Se não, não seriam certezas. Pois bem, estando organizadas com esses critérios faça o seguinte: defina por ordem começará a tirar a prova dos nove. Como assim, prova dos nove? Oras, toda certeza depende de comprovação. O que pode ser certeza para mim, não o será para outro.

Pois bem, feito isso. Pare de ler este texto. Esqueça-o por alguns dias. Organize tudo que foi e como foi pedido acima. Sim, antes do Natal! Depois retorne para ler o final do texto. Nem pense em seguir uma linha a mais sequer.

Se você conseguiu cumprir o que foi pedido no parágrafo anterior, pode ter certeza de uma coisa: você faz o seu destino. Então, bote um Vandré na vitrola e repita mil vezes: “quem sabe faz hora não espera acontecer”. Agora, se você não fez e resolveu ler o texto sem fazer a parada solicitada, saiba que a melhor pedida é Legião Urbana: “ninguém senhor do meu destino”. Nem mesmo eu.

Vamos para o Natal com a certeza do Cristo renascido. Ao mesmo tempo, esse renascimento será trocado pelo bom velhinho que ajuda a vender brinquedo. Renovaremos nossas certezas sobre a vida e construiremos a saudade do que já fomos. Mas, tenha certeza, já dizia Belchior: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Então, bom Natal! É isso.lista-de-desejos

Então…

Imagem da Internet
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Quem sou eu para proibir a natureza de alguém? Eu poderia me perguntar isso todos os dias, mas somente às segundas-feiras é que a indagação mais me incomoda. Não penso, inconsciente, em ser maior do que posso, mas sei, consciente, de que tento ser além do que devo.

Por isso, as palavras me faltam. Não sei se elas fugiram. Não sei se elas se negam a me ajudar. Como um rio seco, culpo o rio por secar e não as causas da sua dor. Mesmo com sua falta, corre os sons de suas águas. Não percebe?

Santa euforia! Devia ser ela a solução para tudo. Assim, o remédio já estaria pronto. Não reconheço as minhas margens. Gosto de ser folha em branco, sem linhas, possível de transbordar com limites. Seria bom ser o céu.

Dias difíceis

Quase sempre me pergunto: quando é mais fácil escreve, nos momentos ruins ou nos bons momentos? Já fizeram essa pergunta algumas vezes. Por vezes respondi as mesmas coisas, algo tão vago quanto a pergunta. “Olhas às vezes é mais fácil escrever quando as coisas estão complicadas, mas quando estão fáceis também é bom”. Nunca me preocupei em saber do meu interlocutor se aquilo o convencia ou não. De nada valeria sua resposta, pois eu jamais acreditaria numa afirmação da qual provinha de uma tese confusa.

Pois bem. Paro defronte essa máquina e me faço essa pergunta. Oras, hoje está um dia difícil, dentro de um mês difícil, que é agraciado com horas difíceis e não está fácil para discorrer sobre um tema, por quê? Esse pergunta me induz ao veredito de que os dias difíceis são mais complicados para se escrever.

Não deveria ser. Pois tudo o que nos angustia também nos faz refletir sobre os caminhos que devemos tomar. Essa afirmação parte de alguém que tenta ser otimista por mais que a situação indique ao pessimismo completo. Tudo pode parecer um auto-ajuda de feira religiosa em rodoviária, mas se olharmos par ao mundo não será difícil buscar esse tipo de auto-pé-na-bunda para dar um passo à frente.

Hoje, logo pela manhã, visito os sites de notícias e vejo novas manifestações pedindo a anulação das eleições. Essas teorias golpistas tendem a ganhar força ao término dos processos eleitorais, sempre alimentadas pelos derrotados. Já ofereci banquetes em outros tempos. E, me parece, que quanto mais tempo e maior o número de derrotas de um grupo político, mais a sua incapacidade de admitir a derrota. Porém, além “chororo derrotista”, vemos nas ruas pessoas levantando faixas pedindo uma nova intervenção militar no Brasil para que ocorra a derrubada do Governo democrático. Pior que as faixas, são os discursos e as declarações em redes sociais das pessoas que fazem a defesa dessas medidas.

São tempos difíceis. Eu que achava que a geração que está no meio da formação do ensino médio, ou aqueles que somam a massa do ensino fundamental, seriam os integrantes do que chamo de “geração perdido” do ensino escolar, vejo nos defensores do regime militar pessoas das gerações anteriores. Como pode? Quem são esses professores que deixaram de falar das barbáries ocorridas no período militar? Ou será que as essas pessoas, ensandecidas pelo ódio da derrota, buscam uma virada de mesa a dar inveja à CBF?

Não queria enveredar por essa possibilidade da crônica. Meu senso de humor deve estar de folga. Também não pretendo estender sobre esse assunto, pois quanto mais se falar dele, mas os “i-responsáveis” que organizam vão contar vitória da mobilização que ganha corpo, e forma, e conteúdo, e espaço nas ruas como proposta de mudança e conscientização. Não, não quero isso! Pois não estamos enfrentando o debate, estamos enfrentando a cegueira. No pior estilo da Revolução dos Bichos, de George Orwell.

Dias ruins não são bons para crônicas. Nosso fígado falar mais alto e perturba a organização do conteúdo. Pelo menos para mim. Pretendo retornar ao bom da vida nas próximas semanas. Sei que há coisas para compartilhar que nos remete a reflexão e que serve de combustível. É por isso que vou atrás dessa fórmula. No melhor estilo me auto-ajudo. É isso!

Travessia

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Atravessaremos o mar da história. Haveremos de navegar em saveiros ao sabor do vento. Nunca seremos marinheiros de reputações ilibadas. Nunca cruzaremos os mares sem sentir nossa pequenez.

Sabemos que o horizonte não finda em si mesmo. Saberemos não findar em nós mesmos. Buscaremos o fim e quando chegarmos haveremos de querer o regresso. Para quê? Alguns hão de se perguntar. Há de ser. Os inquietos vão pedir. Ninguém em sã razão da emoção deixará de querer.

São travessias que buscamos. Travessias de mares navegados por outros. Nunca os mesmos mares serão para nós os nossos mares. Mas, travessias que são buscas hão de ser caminhos. Construiremos? Alguns hão de se perguntar. Há de ser. Os poetas vão pedir. Ninguém em sã emoção racional perderá o ir e vir das ondas.

A vida é para ser viajada. De que valeria a travessia sem o gosto do caminho? As tempestades balançam. Clareiam. Conduzem. Levam a outros pontos. Nós além da marca atroz. Nós atrozes a serem desfeitos. Nós atravessados pela languida e espessa incapacidade da voraz compreensão.

E a vida. Há vida? Ávida travessia para composição do Eu.

Sobrevivemos

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Pode parecer estranho, mas sobrevivemos ao processo eleitoral que se encerrou ontem. Morte mesmo, pelo menos que tenho notícia, infelizmente, aconteceu num Palmeiras e Corinthians no sábado. Um cardíaco, palmeirense, sucumbiu à emoção de ver o Verdão ganhando do rival. Não sei, e não fui atrás para saber, se ele ficou sabendo que o time do Parque São Jorge arrancou o empate no final do jogo.

Voltemos ao processo eleitoral. Foram três meses de um pega pra capar há muito tempo não visto nas terras tupiniquins. O clima foi tão intenso e tenso, que o segundo turno deflorou de vez como uma nova eleição dentro da mesma eleição. O que se anunciava no primeiro turno como uma campanha muito baixa, na pior concepção da expressão, deu provas no segundo tempo que era mesmo a demonstração explícita da baixaria. Mas sobrevivemos ao primeiro turno e elegemos dois gladiadores para o turno seguinte.

Os combatentes foram para o ringue e se utilizaram de suas armas. Claro que discordo da maioria delas, o jogo político não deveria ser visto como vale-tudo. Mas em tempos de MMA, UFC, na tv aberta, em qualquer horário, quem vai observar isso? Tem muito gente incentivada a querer e outras querendo mesmo é ver sangue. Felizmente, sobrevivemos, e até onde sei não houve sangue, mas muitas lágrimas.

Sobrevivemos ao processo eleitoral que há de transformar o país. Sobre vencedores e vencidos ficou um legado enorme de compromissos e comprometimentos de realmente fazer dessa nação uma nação melhor. O comprometimento e compromisso recaem não apenas aos candidatos, mas a todos que manifestaram nas ruas, nas praças, nos carros e, sobretudo, na tão elogiada rede social. Sim, estão todos convocados a cobrarem dos vencedores a execução das promessas e dos vencidos o controle das ações. Como vivemos numa democracia representativa, essa atitude de acompanhamento e envolvimento passa por manter seu representante eleito ativo, participativo, atuante nos temas que foram pautados durante o processo eleitoral. Saíremos realmente fortalecidos, engrandecidos e com o gigante acordado, ser durante o próximo mandato, a ser iniciado hoje, exigirmos e acompanharmos as decisões daqueles que lutamos ao lado.

As aberrações declaradas contra quem, alguém, fulano, sicrano, bertano, são idiotices do fervor do momento. Se perdurarem são passíveis de punições exemplares. Sem parecer e nem querendo ser ingênuo, não acredito na divisão da nação pelo resultado das eleições. Até porque ficou demonstrado que quem acreditou nisso não esperou o jogo acabar. Não leu os números e foi para rua ou internet esbravejar sua mágoa. O que ficou realmente dividido foi o nosso compromisso real e intransferível para com o Brasil.

Hoje começa um novo dia, um novo ano, do novo tempo do nosso país. Mesmo que alguns abandonem a causa maior e resolvam morar em outras fronteiras, a maioria, eleitor ou não dos vencedores, não terá como sair ou motivos par ir. Esses, por vontade própria ou pela imposição do destino, serão os “filhos que não fogem a luta”. Se alguém for, que possamos mostrar que o que realmente esse nosso Brasil tem de melhor é coragem.

Sobrevivemos e haveremos de sobreviver aos novos tempos. Não acabou, estamos apenas começando. É isso.

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No cemitério

33Outro dia vi uma cena em frente a um cemitério que me deixou intrigado. Quem por ventura vir a ler esse texto pode condenar esse que vos escreve sem medo de ser processado. Sim, estou ciente de que pensamentos nada corretos politicamente passaram pela minha cabeça. Como o juízo da gente é mais cruel do que a justiça dos homens, em determinado momento estive a beira de me por algemas e ver minha cara exposta na “globo” ou na internet. Feitas as ressalvas, vamos aos fatos.

Passava eu de carro, numa via expressa, na frente de um cemitério. A velocidade de 60km permitida no local, por isso não tive tempo de contar quantos eram. Na entrada da “última morada” tem uma imagem de santo, o qual desconhece o nome. Alguns vão pensar: oras deve ser o nome do cemitério! Não, não é! O local leva o nome da via expressa. Pois bem, ao pé dessa imagem tem uma mureta e nela estavam sentados, acredito, cerca de 10 homens. Outros dois estavam próximos, mas sentados à sombra. Eles vestiam calças, sou péssimo para definir cor, ocre e camisetas brancas. Aquelas roupas típicas de presidiários.

Sei que há muito “reeducandos”, politicamente correto, que integram programas de trabalho fora das penitenciárias. Eles saem para trabalhar e ganham redução na pena e uns trocados para ser enviado à família. Mas, nos cerca de cinco quilômetros que ainda percorri da via, fiquei pensando o que poderia passar na cabeça daqueles homens sentados à frente do cemitério. Que crimes cometeram? Será que alguma vítima estaria sepultada ali? Será que refletiam sobre o fato de estarem ali? Será que não passava apenas de um será da minha cabeça?

Segui meu caminho. Muitas outras perguntas passaram pela minha mente, mas essas contemplam e dão significado ao que expressava minha reflexão. Para cada tipo de crime que associava a um daqueles homens, mas imaginava era injusta a situação. Não faço a mínima ideia de quantas pessoas repousam na eternidade naquele cemitério. É certo, que dezenas sepultadas ali tiveram suas vidas ceifas por uma ação criminosa. Famílias derramaram muitas lágrimas naquelas salas de velório sobre corpos de jovens e pais de família. Mas, que culpa tinha aqueles homens sobre isso?

Vivo o caos das grandes cidades. Essa pressão nos faz condenar pessoas e situações sem antes parar para pensar. Não fugi ao roteiro da sociedade que antes condena e depois de arrepende. Tenho conflitos com o que realmente significa direitos humanos. Conflitos esses ampliados após ser vítima de uma ação criminosa. Por outro lado, nada disso me dá o direito em julgar aqueles que o Estado diz reeducar. Há humanos, como o criminoso preso em Goiás, acusado de dezenas de crimes bárbaros, que não merecem viver em sociedade. Mesmo assim não podemos viver no olho por olho dente por dente.

Ao retornar para casa fiz o mesmo caminho. Ao passar em frente o cemitério os presos já não estavam mais lá. Não havia ninguém sentado ao pé da estátua, apenas jovens estudantes num ponto de ônibus perto. Daí me encorajei, e passei a pensar no profeta Gentileza. José Datrino, nome de batismo do profeta, nós deixou o grande ensinamento: “Gentileza gera gentileza”. E, como dizia um professor José Antonio, que conheci em Guarulhos, “não devemos jogar o bebê com a água do banho”. Até!

Casa na árvore

foto: fabiana fonsaca ruy /casa árvore
                                             Foto: fabiana fonsaca ruy

O canto da família de joão de barro, diante da porta da casa que construíram no ipê no meu quintal, é sempre interrogatório. Me considero com boa audição, mas por vezes já confundi se quando cantam estão em dupla ou solo. Seo joão e dona joana parecem anunciar que chegaram em casa e que não os perturbem.

Vivemos um momento de muita incerteza no Estado de São Paulo. Apesar de que a maioria dos eleitores tenha definido o comando do governo estadual por mais quatro anos, o mesmo comandante vive a perder os poucos fios de cabelos por conta da crise hídrica. Não pretendo destilar nesse espaço minhas rusgas políticas com o grupo do governador, farei noutro espaço na net, mas não posso deixar de relatar que a família barro tem a sabedoria que a natureza aperfeiçoou nas aves. Sabedores da falta d’água na região, a dupla de construtores deve ter ido passar umas férias na praia. Sim, todos os anos no período de seca eles desaparecem e retornam quando as chuvas estão próximas.

Não sou homem do campo, quero me tornar um, por isso não tenho a sapiência de quem observa, respeita e compartilha da alegria da natureza todos os dias. Antes que pensamentos maldosos transitem entre as sinapses, tenho apenas uma dessas qualidades de cada vez. Gostaria de desfrutar de todas ao mesmo tempo.  Pois bem, justificado. Penso que a família barro esteve fora da região prevendo a falta d´água e o forte calor. E, agora, retornaram, pois o clima está mais ameno e começa a dar sinal da volta das chuvas.

Como a humanidade passou a viver em grandes grupos, que chamamos de cidade, não podemos mais nos dar ao luxo da movimentação de milhões de pessoas, mas podemos desfrutar da construção e casas nas árvores. Um site de arquitetura apresentava opções luxuosas, outras simples, outras funcionais, de casas construídas nas árvores. Muito além do sonho infantil e que gerações desfrutam a décadas.

Aprendemos com a evolução utilizar a madeira para fazer casas. Conseguimos produzir em larga escala as árvores para dar conta das muitas fases de uma obra que tem a madeira como peça chave. Não apenas o telhado deve ser lembrado, mas desde o gabarito fazemos uso da madeira. Mas, confesso, nada me deixa mais feliz quando vejo uma casa construída envolta da árvore. Tenho sempre a sensação que ali vive alguém mais sublime, mais feliz. Um joão de barro humanoide. Sem ecologismos piegas, um canto enigmático de joão para quem é feliz por morar assim.

Memória curta

Papirus

Em busca de um número de telefone, encontrei um velho caderno de anotações. Lá estavam números de telefones que poucas vezes consultei, pois os mais utilizados estavam em minha memória. Daí me ocorreu um pensamento. Quando eu não sabia o tamanho da minha memória lembrava de vários números de telefone, nomes de ruas, datas de aniversário, número da conta do banco e tinha apenas uma senha. Fase boa mesmo era quando nem tinha senha.

Alguém deve estar se perguntando, se alguém estiver lendo, como sei o tamanho da minha memória. Basta somar os kbites do celular, mais o SD Card, o HD externo, mais o Memory Card da máquina fotográfica e a capacidade do computador que consigo o tamanho dela. Somei e descobri que não cheguei a um tera ainda. Não sei se isso é bom ou ruim, mas as imagens recentes e antigas, os amigos recentes e antigos, os números de telefone necessários ou não estão todos arquivados nesses locais. Menos um. Em buscas rápidas, quando estão organizados, consigo encontrá-los.

Uma amiga certa vez me disse que não sabia números de telefones, pois vivia nas nuvens. Não a encontro há tempos, e nem tenho o número de seu telefone nas minhas memórias, mas tenho certeza que é mais feliz, pois hoje tudo vai para as “nuvens digitais”. Sim, podemos guardar nossas memórias em nuvens. Cabe alertar, que como as nuvens nas ventanias dos dias secos de outonos, essas informações tendem a se dissipar com um vírus ou a queda do sistema. Já não dá mais para guardar segredos em nuvens, mas dá para viver nelas.

Seguindo na linha dos amigos que não memorizei o contato. Certa vez um deles me disse que o grande impasse para a informática é conseguir uma saída para a forma binária de programação. Nem me atrevo a tentar explicar o que é isso, mas seria com dizer que tudo o que temos de avanço na tecnologia está preso a sua pré-história. É o passado construindo o presente. Confesso que isso não me assusta. O que me assusta foi saber que os cientistas estão prestes a conseguir colocar num único chip, muito pequeno, tudo o que se produziu de conhecimento ao longo humanidade. Não joguem os livros fora, ainda, vai que alguém esquece de fazer uma cópia ou backup!


Estamos a passos largos para que os arquivos digitais sejam transferidos para o DNA. Dizem que esse espaço será muito maior do que a capacidade dos celulares e computadores pessoais, juntos. Espero que essa nova tecnologia retorne para dentro a minha capacidade de memória. Aí não terei mais a preocupação de ficar sem bateria e nem pane no equipamento. Até que isso aconteça, o número do telefone de casa ficará gravado num papel dentro da carteira. Para as emergências, é claro!