Onde vai dá tanto desimbêste?

Quem se achega ao Santuário dos Pajés logo vê cobaíba, aroeira, ipê, jatobá, um festejo de árvores nativas do cerrado, passarim de enchê de luz as vista – os Fulniô batucando, e quem vai se achegando também vai se inteirando da vida com a terra, planta-se um ipê aqui, uma goiabêra ali, um pequizêro acolá; uns mais achegados arriscam uma pandeiração nas batucadas, se apruma nos pife, bate triângulo e quizumba na zabumba.

 

Até certo tempo atrás – dizem – nada perturbava o canto do juriti – o diabo é que há menos de uma légua, bem perto dali, estridente grita, esperneia com uma fome desesperada de destruição os tratores da Emplavi. Esses tratores, diferente dos passarinhos, não cantam nem avoam; só fazem zoada e desmatação. Chegam derrubando tudo, sem um pingo de dó arrastam árvores ancestrais plantadas pelos índios há anos: caem por terra umbaúbas, guarirobas, pau d’balsa, ipês, copaíbas, cai tudo, e num sobra nada por onde essas peste passa, só a poeira vermelha nas vista… E a gente simples que se sente rica com tanto passarinho, bicho e planta, em desalento se pergunta: pra quê isso, meu Deus, pra quem serve tanta destruição, onde vai dá tanto desimbêste?

 

O verde que eles roubaram da gente – II

II

Então meu amigo Dunguinha que também seguia calado e contemplativo se sentou do meu lado na Pedra do cerrado e murmurou estas palavras: “Bolinha, pense num parque…”.

Então, como num passe de mágica, naquele lugar cheio de árvores esturricadas e contorcidas eu vi um monte de meninos correndo entre paineiras alegres e gigantescos guapuruvus, eu vi meninos se metendo entre galhos dum pé-de-manga, crianças desbaratinando nos parquinhos, descendo apressados da goiabeira e apontando deslumbrados um beija-flor com rabo de tesoura sobrevoando os ipês amarelos; eu vi, eu vi, como num passe de mágica, meninos descobrindo o cerrado que não tivemos em nossa infância de asfalto e concreto, eu vi meninos espertos, com uma infância mais verde que a nossa, dando ouvido aos passarinhos, ao sabiá-laranjeira e ao bem-te-vi, meninos imitando gansos e patos na beira de um enorme lago azul…

E aqueles meninos sombrios que engraxavam sapato nas estações e nos terminais de ônibus de Ceilândia e de Taguatinga por míseras moedinhas, agora não estavam mais sentados aos pés de senhores frios ou apressados, nem gastando suas moedinhas com jogos de guerra; não, esses meninos agora estavam sentados a segurar o braço de uma viola, entre violeiros astutos, a ouvir repentistas, aprendendo com os cantadores a improvisar um verso, a puxar a viola com aprumo e graça, descobrindo a magia de cantar, de dar voz ao próprio mundo numa outra forma de expressão!

Eu vi os casaizinhos entardecendo na beira dos lagos, nas pracinhas, nos parques, eu vi outros Léos e outras Bias descobrindo o amor numa cidade que antes era feia e cinza, eu vi outros Eduardos e Mônicas se apaixonando ali sobre meus olhos, vi outros Joõoes e outras Marias, vi Árinas e Vanessas, eu vi os velhinhos e as velhinhas bebendo a nostalgia bela de crepúsculos mais felizes, não mais se queixando da violência, não mais trancado em suas pobres casas, entre mil cadeados fechados, com medo do mundo, do vizinho do lado!

Eu vi belíssimas meninas dançando enluaradas sob o luar do cerrado e me apaixonei por uma delas; essa era de sorriso meigo e sapeca, os cabelos soltos e o longo vestido rodavam no ritmo dos ventos e eu pensara com convicção que vivera uma vida inteira unicamente para aquele lírico momento, para aquele alumbramento quase místico que é contemplar uma mulher dançando entre coisas da natureza!

Foi então que eu acordei do meu sonho, foi aí então que eu pousei desse salto incrível que é imaginar coisas. E vi, árdua e cruelmente a realidade concreta! A realidade era monstruosa, a realidade envolvia interesses, a realidade era um aglomerado de casas e edifícios acuando cada vez mais o cerrado, esse recanto verde que resistia escondido da gente. Mas ao mesmo tempo eu vi, eu vi, ah, eu vi o parque que o Dunguinha com seus olhinhos de poeta vislumbrou – eu vi!

E juntos, mais uma vez, onde menos esperávamos encontrar, descobrimos o verde que os homens de terno e gravata queriam roubar da gente. E mais que isso, testemunhamos o despertar de um novo sonho brotando na gente. As pessoas precisam tomar consciência da existência dele! Era preciso então levar fotografias, divulgar a idéia! Começar – quem sabe – um movimento pela criação de um parque que permitisse a nós o reencontro com o verde! Pois a partir daquele momento aquele verde passou a ser nosso, das gerações de meninos que estavam vindo e dos que já estavam crescendo nessas cidades, esse verde deveria ser de todo aquele que o amasse, esse verde agora deveria ser nosso; sim, era nosso e os homens de terno e gravata não poderiam mais roubá-lo da gente!

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O verde que eles roubaram da gente – I

I

A tarde era uma ensolarada tarde de agosto em Ceilândia, dessas bem secas que há no cerrado, dessas que contorcem árvores, devoram sombras e cegam se miradas de frente. Eu saíra com o Sangue e o Dunguinha embaixo de muito sol. Nós havíamos deixado nosso triste subúrbio com suas esquinas e suas ruas para trás e acabávamos de penetrar uma das poucas áreas verdes que ainda resistia em nossa cidade.

A idéia fora do Sangue – Vamos tocar violão na Pedra!

E lá fomos tocar violão nessa tal de Pedra. E que lugar fabuloso não se descortinara ante os nossos olhos sobressaltados! O verde, mesmo oprimido pelo aglomerado de casas e edifícios que se acumulavam monstruosamente ao redor, era imenso, belo, surpreendente. Era o cerrado e sua esplêndida vegetação ali, acuada e escondida entre três cidades ameaçadoras. O sentimento de surpresa que nos assaltou naquele momento veio talvez acompanhado com um certo despeito pelos homens, um despeito pelo mundo sombrio e brutal que eles legaram a todos que fomos lançados aqui no subúrbio. Era impossível para nossos olhos deslumbrados com aquela beleza não se perguntar magoados – “Quer dizer que isso sempre esteve aqui?”.

Sim, sempre estivera ali. Era uma espécie de beleza escondida, acuada por três grandes cidades. Era como se os homens a houvessem escondido todo esse tempo de nós. Mais grave, era como se eles houvessem roubado da gente uma infância que poderia ter sido mais verde. Uma infância entre árvores, uma infância com cheiro de ipê e de terra molhada. Mas a nós, os ceilandenses, os suburbanos, a massa torpe e violenta de Brasília, eles destinaram o asfalto e o concreto. A nós, os vira-latas da capital do Brasil, eles destinaram uma das maiores usinas de lixo da América Latina e estavam pouco se fodendo se essa mesma usina empestava de doenças o nosso ar, se poluía ou não os nossos pequenos rios.

Eles nos extorquiram o verde, a pureza, a delicadeza e nos lançaram numa vida de penosos trabalhos, um mundo de medíocres preocupações domésticas, de fobias urbanas, de humilhações raciais, de terror, tiro, sangue e noticiário policial. E, apesar de tudo, continuam a especular, a pedir votos, a especular. Ah, a especulação imobiliária cresce como um monstro sobre o cerrado e o que fazemos? Indústrias, comércio, edifícios – “um show de morar!” – bradam orgulhosos os empreiteiros!  E a corja de grileiros expropria impunemente o verde e ergue sobre ele sua riqueza, sua arrogância predatória, destruidora, insensível.

Sentado naquela Pedra, com meus amigos, tendo aquela paisagem deslumbrante do cerrado a minha frente, eu pensava, revoltado eu pensava, eu pensava numa infância que poderia ter sido mais verde se não fora a sombria maldade dos homens!

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Ser Calango

Ser calango, sinhoros e sinhoras, creiam-me, não é apenas ter uma calda cumprida que cresce indefinidamente quando cortada, tampouco ter quatro patinhas e se mover ligeiramente por entre pedras, paus e muros: é mais, muito mais!

Ser calango é isso: amar sobremaneira o sol. É ficar horas e horas sentado sobre uma pedra ou trepado nos galhos de uma goiabeira – ou mesmo estirado no quintal de casa ou na varanda – e se deixar ir ficando, assim, fazendo nada, pensando em nada, tranquilo como um grilo, tostando a pele sobre o sol danado de quente da tarde. Ser calango é amar sobretudo o sol catingueiro do cerrado; esse sol catingueiro que arde nos meses de julho, agosto e setembro e enche de mormaço as casas e faz todo mundo ficar doido pra tomar um banho alegre de mangueira.

Ser calango é aquele menino, é aquele pobre menino da Ceilândia que muitas e tantas vezes num tem grana nem pra comprar um mísero baré de 50 centavos na padaria mais fuleira da cidade e que quando joga bola fica lá, sentado no meio do asfalto, variando uma sombrinha na calçada, sentindo a brisa no suor do rosto, descobrindo o que há de mais puro no meio do concreto e das mentiras da cidade.

Ser calango é aquela menina, aquela pobre menina de marré-marré deci lá do Gama que diz gírias maloqueiras e que fala com toda a gente e todo bicho que topa pelo caminho e que num tem essas frescuragem de ficar reclamando do tempo seco. Ser calango, é ser de Taguatinga, Samambaia e Planaltina – ou de qualquer cidade marginal de Brasília, ou de qualquer lugar remoto do cerrado, ou mesmo de qualquer lugar do mundo, que ama e aprecia, sobre todas as coisas, um demorado banho de sol.

Ser calango é assim, é ficar estirado no chão do quintal e ficar sentindo o sol catingueiro bater na pele que nem chicotada no lombo do boi. É sentir que o sol tá batendo na derme, entrando por todos os poros, aquecendo até os ossos mais entranhados da alma. Ser calango é, além do mais, sentir-se profundamente abençoado por tudo isso num permanente estado de meditação.

Ser calango é aquele sujeito, é aquele pobre sujeito que, por não ter acesso aos circuitos de lazer oferecidos pela cidade – shopping, boate, show, e essas outras modernagem besta – se envereda pelas trilhas alegres do cerrado e lá vai fazendo sem pressa nenhuma de nada as suas longuíssimas tardes, apreciando o declinar do sol no horizonte, o desabrochar luminoso dos ipês amarelos e das paineiras – a trepidação das mangueiras e dos guapuruvus sob o vento vago, o som diluído dos carros ao longe, a melodia esperta e divina dos passarinhos.

Ser calango é amar sobremaneira passarinhos e borboletas. Principalmente as borboletas amarelas. Ser calango é muitas vezes saber atinar o nome do passarinho só pelo som de sua cantoria. “Aquele histérico e estridente assim é do joão-de-barro, aquele assim é do bentivi e aquele bem melodioso desse jeito assim é do sabiá-laranjeira…”, assim diz o calango quando escuta passarinho.

Ser calango é amar o sol e a chuva e não reclamar nem de um nem do outro. É aceitar o sol mais violento à tempestade mais torrencial. Ser calango é aceitar, com a resignação abençoada dos santos, as confluências e as intempéries mais aterradoras da natureza, e considerar, lá no fundo de si considerar que essa nossa vida de cada dia, em cada pequeno e imperceptível segundo, só pode mesmo ser um verdadeiro milagre.

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Alex Canuto de Melo

 

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Alex Canuto de Melo

Receita para casa de avó

A casa da avó, para ser uma digna casa de avó, deve ostentar, antes de tudo, amplas janelas abertas para o mundo, de maneira que possa correr livremente pelos seus cômodos e corredores a luminosa manhã com seu alarido de pássaros e ventanias.

As cortinas, por sua vez, deverão estar meticulosamente escancaradas, mas sempre dispostas a servir de esconderijo para as crianças em suas possíveis brincadeiras de pique e esconde. Na casa da avó, a própria brincadeira das crianças, deverá ser tomada com grave seriedade pelos adultos, como um sagrado ritual de passagem, o qual não podemos, sob pretexto algum, violar.

Convém deixa-los soltos, animando os longos corredores da casa como se fosse um rio, como sopro novo enchendo de vida os pulmões da casa, a comer biscoitos aos montes, sem culpa ou pecado, a subir e descer da mangueira como macacos, e comer manga verde com sal até que fiquem tristes de não ter mais jeito. Deixemos, portanto, que brinquem, que ralem os joelhos, que brinquem até não poderem mais de tamanha exaustão; quando, enfim, se sentarão, ofegantes e mais velhos, à sombra da mangueira, a contar suas vantagens e peripécias. Não convém, portanto, impor limites, tudo isso não durará mais que dois meses, tempo em que definitivamente se esgotam as férias na casa da avó.

Mas recomenda-se que na casa da avó exista entre as tias, uma tia chata, uma tia chata é sempre necessário. Essa tia deve se achar a dona da casa. Deverá reclamar constantemente do barulho das crianças e da bagunça que elas estão aprontando pela casa toda. Além de chata a tia tem que ser exagerada. Não importa se as crianças fizeram bagunça apenas no quarto ou na cozinha, ela tem que dizer que foi na casa toda. E mais: deve dizer que as crianças “estão deixando a casa inteira de pernas para o ar”.

Convém à tia chata, sob a pena de perder o cargo, jamais deixar de usar essa frase, e repeti-la com um ar de quem a profere pela primeira vez. E que, entre essas crianças, exista uma que se ponha de repente a sorrir da graça dessa frase, descobrindo através da sua aparente antipatia, uma insuspeitada razão para sorrir: afinal, uma casa com pernas para o ar é realmente muito engraçada. Mas a tia não acha, nem deve achar engraçada. E, antes, muito aborrecida, deve perguntar à sobrinha o motivo para tanto riso, pois ela mesma não vê graça nenhuma.

A casa da avó deve abrigar nos seus poucos metros quadrados a infinitude de todo o universo. Deve abrigar desde as menores fofocas até os maiores dramas humanos. Embora os dramas sejam sempre vividos nela com aquela parcimoniosa disposição dos que tiram férias de si mesmo. A casa da avó deve bastar por si: nada no mundo pode existir que não seja encontrado dentro dela.

Não pode faltar, sob hipótese alguma, a lírica existência de uma prima mais moça, anunciando, pela sinuosidade do seu pijama, os primeiros rumores de sua adolescência.  Essa prima deverá ser vaidosa, tomar vários banhos num só dia, pentear vagarosamente seus longos cabelos negros, trocar de roupa sozinha num quarto trancado.  Mas deverá existir também um buraco de fechadura, por onde estarão três ou quatro meninos espiando, estudando, compenetrados, o desabrochar da beleza feminina.

E em cada canto sombrio da casa deve se abrigar algum mistério. À noite, quando todas as luzes se apagam, os cômodos e corredores devem ficar povoados de fantasmas, lamentáveis almas penadas, ridículas em suas roupas de velório, que toparão com algum menino no longo corredor escuro.

A casa da avó deve ostentar nas paredes da sala de estar antigas molduras, velhas fotografias de família. E não pode faltar, de maneira alguma, aquela foto da época que os avós se casaram: o avô de terno, gravata e bigode; a avó com cara de noiva recém-casada. Não pode ser outra cara: tem que ser cara de noiva recém-casada. A foto deve estar um tanto quanto amarelada e meio corroída pelas traças. E com ser tão velha, deverá infundir em todos que a contemplam um inexplicável friozinho na barriga. Ou qualquer sensação que não se explica com palavras.

Mas a casa da avó, assim como a própria vida, deve ter também suas pequenas dores de cabeça: como a briga das crianças pela latinha de ervilha, as goteiras na hora da chuva, as antipatias da tia chata, a quebra de alguns copos e tigelas, os pernilongos na madrugada, a disputas pelo ventilador, pela rede, pela cadeira do vovô, a demora absurda no banheiro e outros graves problemas que ameaçam a harmonia geral.

Até porque, embora muitas vezes pareça, a casa da avó ainda não é o Paraíso que Deus prometeu.

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Alex Canuto de Melo

Vida, curiosa vida!

Às vezes me desconcertam certas coisas da vida. No caso, me refiro às certas coincidências que, por vezes, parecem tudo, menos coincidência. É curioso.

Dia desses lá estava eu, triste como uma besta, no ônibus, indo pra Universidade. Pensava, por alguma razão, na crise econômica que hoje afeta os Estados Unidos. Enquanto o ônibus balançava, ia pensando na arrogância histórica dos norte-americanos, na sua relação desleal com os outros povos. Com certa aflição, fiquei como que antevendo uma reação agressiva dos ianques, como um cão que teme perder o osso, depois de tê-lo durante tanto tempo bem preso aos dentes. Acontece que na mesma hora irrompe pela porta e passa pela roleta um sujeito, caboclo, moreno como eu, trajando uma camiseta estampada com um enorme desenho da bandeira norte-americana e uma águia – um dos símbolos característicos desse orgulho americano. Não pude ter outra reação além do espanto e da sóbria constatação de que ainda somos, os brasileiros, um povo colonizado.

Outro dia, isso deve passar de um ano, estava no carro com um amigo – o Raulzim – e filosofávamos sobre o que seria a “felicidade”. O som do carro estava sintonizado numa rádio de músicas nacionais. Num determinado momento, comecei a lhe falar de uma música do Vinícius que muito aprecio, o Samba da Bênção, em que o poeta versa sobre a felicidade. Cuidei de recitar alguns versos da música ao qual ele ouvia com atenção. Nessa mesma hora, o locutor da rádio anuncia “Samba da Bênção, Vinícius de Moraes e Baden Powell” e a música – para nosso espanto – começa a ser tocada na rádio.

Nunca li um livro sequer do psiquiatra Carl Jung – mas foi exatamente ele quem classificou essa série de acontecimentos como “sincronicidades”.

No dia 16 de agosto – numa terça-feira – tirei uma tarde para visitar pela primeira vez, desde quando foi fundado, o Beijódromo – Memorial Darcy Ribeiro, no campus da Universidade de Brasília. Chegando lá, passeio pela galeria onde se encontram documentos, diários, imagens, e penetro no universo que o antropólogo Darcy nos legou. Sua profunda contribuição nos estudos etnográficos, o indígena muitas vezes no centro de suas preocupações, seu amor por esse povo ultrajado pela brutalidade do colonizador. Aos poucos vou desvelando seu universo e me sentido parte dele. Afinal, lá nas minhas origens, sei que também sou índio.

 Lembro que minha avó Júlia é neta direta de indígenas – isso explicaria, talvez, sua mediunidade. Mas acontece que, no mesmo dia, sou informado, por amigos na internet, que as construtoras Brasal, Emplavi e Terracap, com apoio da Polícia Militar, estavam invadindo as terras reservada aos índios Fulni-ô Tapuya, onde fica o Santuário dos Pajés na região. Além do apoio da Polícia Militar, as empreiteiras chegaram, segundo o Pajé Santxiê Tapuya, com nove tratores, derrubando árvores como o araçá, o pequi, a macaúba e o pé de jatobá.

Mais uma vez sou tomado pelo espanto de uma improvável coincidência, pensando abestalhado o qual essa nossa vida é curiosa!

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Alex Canuto de Melo

O barqueiro

E eu que tantas vezes naveguei nesse mundão de meu Deus à deriva de tudo e de todos, tantos rios por onde me enveredei, tantos rios por onde tive que me perder para finalmente me encontrar e me perder de novo, sem rumo, sem norte, sem o sête-estrelo, sem as três-marias! Cabra ariado vivo por aí, entregue a esses rios…

Ah mais cê veja, eu aqui mais uma vez, nesse agosto, na beira dum outro rio, com pelos a me saltar do rosto como alegres peixes vadios, descansando firme, recém-chegado duma pelejada, cumprida, tortuosa viagem de deixar qualquer homem mais forte!

Meu destino é navegar assim, não como quem procura vida para além das veredas, mas como quem procura vida no labor necessário do velejar. Isso carece. Disso preciso. Assim vou extraindo com meu pequeno barco e meu remo algumas pequenas verdades, algumas humildes verdades do rio – verdade minha, verdade pequena – isso falo – nada grave, nada demais. Assim aprendo com os ventos, com as águas, com o tempo, sua música, essa música que os homens de cabeça seca ignoram, e toco meu barco pra frente, sem pressa! Assim… devagar.

E por mais que algumas vezes eu me canse nessa peleja de velejar, essa peleja que tantas vezes parece desnecessária, sem porque nem pra quê, há sempre uma voz que me clama: “Rema!”. E uma nova descoberta, uma nova margem inesperada me salta sobre os olhos cansados e me encanta, renova tudo, me dá fôlego novo, alento, outro tamanho de mim no mundo! E eu começo tudo do começo de novo como se fosse um menino que acabou de rebentar, aos berros, doido pra se encharcar de mundo! Assim: desaprendendo e aprendendo, tropeçando e se erguendo de novo, sem saber até quando, mas é assim, é sempre assim…

Aqui me vou, remando na companhia doutros barqueiros ou sozinho, remando, tocando rumo lá pra onde de tão longe os olhos não divisam mais. Pois – por alguma razão maior – não me é dado saber o que me aguarda do outro lado do rio. Se o mar, se o derradeiro encontro com a morte, se uma mulher, um bem-me-quer, um mal-me-quer… Não me cabe saber o que me aguarda do outro lado do rio. Não me cabe, seu moço, não me cabe.

Sabe lá Deus o que me aguarda do outro lado! Basta-me cruzá-lo, ouvir em mim essa música que me vem de não-sei-de-onde: “Rema! Rema! Rema!…”. E aprender, humildemente aprender a misteriosa melodia destas águas e partir sem medo pro indefinido, quem sabe pro espanto necessário duma outra margem…

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Alex Canuto de Melo