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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

Meu partido é um coração partido

Não tenho mais rótulos.

Não torço mais pra nenhum time, não prego nenhuma religião ou partido político, parei de citar nomes e endereços. Por conta disso, tenho em mim, agora, todos os sonhos do mundo* e já sei que isso ainda é pouco, muito pouco. Parei de brigar, parei de berrar.

Mas está enganado se pensa que, por causa do meu silêncio, eu desisti; se por deixar de bradar motivos e observações aos quatro cantos do mundo é que eu perdi as esperanças. Não, não desisti e tampouco perdi as esperanças; ao contrário: apenas quebrei o coração para deixar a razão no comando, mutei minha voz para potencializar a escuta, calei os dizeres para ampliar os horizontes.

Nunca fui de frente de batalha – aliás, pobre do exército que dependesse mim. Por que sou inútil, menos capaz? Não, mas porque sirvo para pensar, para elaborar, para planejar o ataque. Não sirvo para papel principal ou coadjuvante; meu lugar é na coxia.  Por que não sirvo para isso? Não, é por que sirvo melhor para montar figurino, para dirigir a cena, para avaliar a iluminação.

Aprendi muitas coisas nessa minha passagem pela vida e uma delas é que a minha luta não é conta o sangue e a carne, mas contra os dominadores desde mundo**; então não brigarei mais com você que pensa diferente, ou com você que insiste em não enxergar um palmo a frente, nem mesmo contra você que apenas repete feito papagaio da vizinha. Preferi ser como a águia, que pouco canta, mas que muito observa.

Então não vou gastar minhas forças tentando te convencer de que seu raciocínio está priorizando o lado errado; não vou perder meus dias e minha paciência pra provar que seus argumentos são falhos e assim me decepcionar a cada vez que você usá-los. Chega de embates, eu vou pra tática: vou deixar que você caia em suas próprias hipocrisias, que cometa os erros que você mesmo tanto critica, que seja o judas contra o qual você atira pedras.

Por mais bela que a  vida possa lhe parecer, não há como escapar de colher o que se plantou, de pagar por aquilo que fez.

Tudo é uma questão de tempo.

Por isso eu me recolho: para que o tempo faça o seu papel e lhe entregue tudo aquilo que um dia pediu, ainda que sob o poder da ignorância. Eu também receberei, esteja certo; afinal, todos nós estamos no sol, buscando a sombra.

* “Tabacaria”, Alvaro de Campos

** Carta a Efésios, Capítulo 6

 

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O pior da geração Coca Cola

Os filhos da revolução hoje são pais do comodismo.

O que antes era uma forma de liberdade, agora é uma limitação de pensamento, pessoas que só querem sombra e água fresca, sem  stress de ficar brigando aqui e ali por mudanças éticas, como se aquilo que não fora transformado naquela época já não tivesse mais jeito e precisasse ser engolido a seco. Não somos mais os mesmos e nem queremos viver como nossos pais e eles precisam entender isso.

Essa tal geração coca-cola hoje está choca e sem gelo, perdeu a noção de que não se pára de lutar, de que o passado é a visão de um futuro próximo e, quem sabe, um futuro ainda doente. A decepção de não ter conquistado cada um dos objetivos traçados à época rechaça toda e qualquer nova tentativa de transformação rumo a um futuro melhor, destrói a expectativa criada pelo exemplo dado justamente por eles, que eram heróis, que não queriam dinheiro e só queriam amar – mas que agora não estão nessa e só querem sossego.

Talvez por medo é que decidiram tolher as armas ideológicas dessa nova safra, armas aquelas capazes de mover o mundo, de mover montanhas ou de mover pessoas de um lugar para nenhum outro – ou ainda para onde for necessário para o momento. Para eles, esse mesmo momento – o agora – não é mais para pensar e lutar, o tempo bom já se foi e não volta mais, isso é tudo o que temos para hoje e ponto. O detalhe é que a galera, que antes era cheia de gás e gosto, não percebe que esse tal ponto não é um ponto final, mas que ele vem acompanhado da vírgula, que ele é um ponto e vírgula, apenas uma pausa para pensar sim!, para lutar sim!, um momento de preparação para a nova revolução. Por isso é que a gente continua, que vai à luta e conhece a dor.

O pior da geração coca-cola é que ela deixou, sem perceber, resquícios de uma esperança que queima como fogo em mato seco, que se alastra rápido. E aí não tem o que argumentar, não tem justificativa que nos pare, ninguém vai nos segurar com a bunda exposta na janela, porque deu pane no sistema e alguém nos desconfigurou: segura as pontas seu Zé, que a vida agora vai melhorar.

 


Quando nasce uma mãe

Quem nunca duvidou de uma grávida, que atire a primeira pedra.

Essa coisa de que a mulher “se transforma assim que descobre a gravidez” sempre me deixou com a pulga atrás da orelha, do tipo: pô, mas a vida nem mudou tanto assim, só enjoo, fome e sono não te faz rever a vida por esse nível de grandeza. Achava que era meio clichê de mãe recém-descoberta, que está deslumbrada – ou mesmo assustada – com o futuro. Tinha que ter algo mais do que isso.

Até que eu engravidei.

A formatação atual da sociedade incute na mulher uma cobrança intensa e patética de obrigações únicas de mãe e ai de quem não sucumbir a elas para, assim, “padecer no paraíso”. Então, infelizmente, ainda é comum que junto com os enjoos, a fome e o sono venham também o tal futuro, o medo, a insegurança e as expectativas.

Não, não é coisa de mãe deslumbrada. Pensar em como executar o plano “ser a melhor mãe possível” é o que faz a cabeça mudar; pensar em dar o que há de bom e de melhor para o filho, de ser tudo o que ele vier a precisar na vida nos leva a pensamentos longínquos e profundos, nos faz rever nossos próprios conceitos e ver, enfim, a necessidade imediata da mudança.

Felizmente existem aquelas mães que caem na real rápido e entendem que “conto de fadas não existe”; para elas vem logo a primeira decepção: saber que não serão perfeitas, que errarão, errarão muito e errarão feio. Algumas se culpam logo de cara; outras, como eu, fazem escolhas; essas, se forem observadoras escolherão, sobretudo, dar liberdade para seus rebentos fazerem as próprias escolhas no momento em que estiverem inteiros para escolher, de decidirem ser o que quiserem, de escolher o que quiserem. Não criar expectativas é a maior liberdade que podemos dar aos nossos herdeiros.

Hoje o que eu mais almejo para a filha é uma paráfrase que faço de Sérgio Reis: “querer bem a um filho não significa ajudá-lo a crescer com nossas verdades; mas querer bem a um filho significa ajudá-lo a crescer sem nossas mentiras”.

 

P.S.: Tudo isso também vale 100% para os homens pais, sem tirar nem reparar nenhuma parte da crônica. É mais fácil, para uma mulher, falar no feminino; por isso, saiu assim, meio com cara de excludente. Mas não é.


Eu não sou todo mundo

Quem é que nunca teve problemas por “estar fora do padrão”?

Estar acima do peso, abaixo da altura, fora daquela faculdade ou não compartilhar do mesmo gosto e atitudes. Existem, na real, muitas outras características que determinam se estamos ou não dentro do que dizem ser o “normal”. Mas o que é que define o que é normal? A maioria das pessoas? Uma pesquisa com resultados elaborada por médicos? Uma média parametrizada de uma parte da população?

Vejamos um exemplo clássico de parametrização médica.

Uma pessoa que sempre teve seus índices de pressão arterial em níveis “mais baixos que o normal”, mas que nunca teve nenhum problema de saúde em decorrência disso. Um médico comum, acostumado aos padrões, faria o quê? Dá remédio pra essa pessoa, tem que subir a pressão para os níveis normais! Dá-lhe pílula disso e daquilo, até que os índices arteriais sobem e sobem mais do que o necessário; “Pára o remédio!”, e a pressão volta a baixar; “Volta o remédio!”, e a pressão torna a aumentar; “Pára o remédio!” e… vá pros quintos dos infernos! Antes tivesse acompanhado para entender qual é o normal daquela pessoa para depois dar um diagnóstico mais assertivo.

Quando eu queria fazer algo que todos os meus amigos faziam – e esse era justamente o meu argumento -, eu recebia de resposta o sonoro e conhecido “você não é todo mundo!”. Então eu aprendi que para mim as coisas seriam sempre muito específicas; quando cresci me dei conta de que seria assim não por ser comigo, mas porque seria assim (ou deveria ser) com todo mundo!

Entendi, assim, que o padrão é algo criado para discriminar, por mais que não pareça. É só pensar que tudo aquilo que estiver fora das características definidas por esse tal padrão será visto com grande diferença, muitas vezes até com preconceito – caso clássico: dizer que “não é normal” ser gay. Pensemos, então: se “ser heterossexual” não estivesse dentro dos padrões da tal normalidade, não seria necessário dizer que ele “ele é hetero” ou “ele é homo”, bastaria dizer ele é. O que ele é? O que quiser, oras! Afinal, a vida é da pessoa, ela escolhe o que der na telha para ser.

“Ser” é, portanto, um empoderamento que poucos têm, poucos conseguem exercer. E este é mais um exemplo de Jesus foi um homem de muitos ensinamentos (considerando, claro, a hipótese dele realmente ter existido): na época, apenas os faraós – e com muitas limitações – usavam a expressão “eu sou”; e diz a história que Jesus, quando interrogado sobre ser o filho de Deus, a resposta dele foi  simples simples e arrebatadora: “eu sou”. Jesus, segundo o livro, sabia o que era, estava empoderado de sua natureza e se fazia valer por ela.

Ou seja: minha mãe estava mesmo certa e isso serve para todo mundo; e quando alguém vier com cara feia me recriminando por qualquer coisa da qual eu não esteja dentro dos ridículos padrões, vou dizer em alto e bom som: eu não sou todo mundo.

 


Potencialmente

Sozinha na rua à noite, acredito ser potencialmente um alvo para qualquer homem que passar por mim, pois eles são, qualquer um e todos eles, nessa mesma lógica, potencialmente uma ameaça de assalto, de estupro e outras formas de violência em geral.

Toda mulher que pertence ao círculo de conhecidos do meu companheiro, acredito que seja, todas elas, até as casadas, potencialmente uma ameaça, que vai dar em cima dele, querendo algumas “cositas más”; meu companheiro, por sua vez, também é potencialmente um canalha que vai cair na lábia de qualquer uma, aproveitar a situação, dizer que foi fraqueza e pedir desculpas.

Por outro lado, eu, que sou de escorpião, e potencialmente sou raivosa e rancorosa, que planeja vingança antecipada, potencialmente posso traí-lo antes mesmo dele fazer alguma coisa, e com qualquer homem que esteja no meu círculo de conhecidos, para que ele aprenda e não me traia nunca.

 

Somos todos potencialmente imbecis. Ou podemos escolher ser potencialmente observadores.

Cabe a cada um a escolha de qual potencial quer ter, com as qualidades e potencialidades que lhe forem competentes.


As escolhas que nos são permitidas

Passei muitos anos da minha vida ouvindo que “nos foi dado o livre arbítrio”, mas isso é uma grande mentira. Não digo que é uma mentira religiosa, não, e nem quero entrar nesse mérito. Essa é uma mentira social.

Acontece que crescemos ouvindo que somos responsáveis pelas nossas escolhas e pelas consequências que elas geram, quando, na verdade, sequer temos escolha para certas situações. Muitas vezes somos impelidos a uma condição padrão, mas que apenas é padrão porque parte das pessoas a segue e essa e mais outra parte julga errado seguir qualquer outra coisa.

A própria questão da religião – e agora sim vou entrar nesse assunto; é como se todos nascêssemos católicos e fugíssemos à causa quando escolhemos budismo (ou qualquer outra), pior ainda quando decidimos não escolher nenhuma. “Como assim???” é o que nos perguntam os olhos invasivos e julgadores, como se estivéssemos destruindo com o bem, a moral e os bons costumes. Outro exemplo é a escolha de profissão: ai de quem não seguir os passos do pai ou da mãe por que sofrerá para sempre: será taxado de ovelha desgarrada, aquela que não saiu aos seus, que não se atentou aos ensinamentos dados com tanto amor e afinco.

Ué, eu penso que é muito simples a relação estabelecida para esses casos: minha vida, minhas escolhas.

Mas não, temos que dar satisfações por gostar de azul e não do amarelo, somos colocados em julgamento de crime hediondo, não podemos emitir nossas justificativas pois até elas serão usadas contra nós. Mas um fato é que situações como essas estão ficando cada vez menos frequentes, afinal o mundo está globalizado!

Mas e o que dizer da mulher que não quer casar?

Ou que não quer ter filhos?

Ou que não quer namorar homens?

Ou que não quer ser mulher??

O que pensam as pessoas que se acham no direito de dizer ao outro se a escolha feita é certa, errada, boa ou ruim? O que sabe essa pessoa, que saberes universais são esses que nos torna cópias em vez de indivíduos? O que garante a essa pessoa os “saberes certos”, quem garante o que é certo para quem? Quem define o que podemos ou não escolher?

Sobretudo, o que precisa ser entendido como imutável e lei geral é que cada qual merece ter seu espaço respeitado, seu direito à vida garantido. O que sair disso é, literalmente, problema meu (eu causo, logo, eu resolvo), não tem conversa.


Sobre a realidade e a beleza da vida

Dizem por aí que “a vida é uma caixinha de surpresas” e eu concordo, mesmo quando a surpresa não é, assim, tão positiva. Dizem por aí também que temos sempre que enxergar o lado cheio do copo – e se tem uma coisa que aprendi foi tirar leite de pedra e enxergar “lados bons” em tudo o que aparecia pela frente.

Positivismo desmedido? Não. Sonhadora? Menos ainda.

Parece discurso de livro de autoajuda – e no fundo até pode vir a ser -, mas a grande lição que ficou de tantas pauladas que levei na (e da) vida é que tudo tem um motivo para acontecer, quer a gente queira, quer não (e olha que eu reclamo de barriga cheia, porque as pauladas que levei parecem “mamão com açúcar” se comparadas a um único ano de tantas outras pessoas…).

Procurar flores no meio do lodo é um exercício de observação profundo, que exige paciência para esperar e entender aquilo que, por vezes, foge ao nosso controle. Sou do signo de escorpião – e mesmo que o leitor ache isso uma baboseira, eu sou controladora e isso combina com o horóscopo proposto para mim -, logo fico extremamente incomodada quando sinto que não estou com o joystick da minha vida, dizendo “vá para lá, Bia; venha para cá, Bia. Bia, pule! Bia, abaixe!”. Então das vezes em que a coisa se desfigurou do que eu havia imaginado ou planejado, foi um choque: como se eu tivesse ficado cega e perdida ao mesmo tempo, irritada, deprimida. Com o passar do tempo – e muitas lágrimas depois – a vida foi se ajeitando e tudo passou a dar “certo”. Ou seja: era uma questão de tempo.

E o tempo, caros leitores, é, sobretudo, uma questão de observação e paciência. Claro, eu acrescentaria uma boa dose de disposição, pois sem isso nenhuma das anteriores aconteceria de bom grado e, logo, não seria tão útil. O tempo tira a dor, tira o desespero, tira todas as vendas que nos impediam de ver outras saídas e oportunidades. E mais: o tempo nos traz soluções, nos ensina.

Não precisa ser bom cristão para saber que “com fé tudo se alcança”, porque a fé vai além de um dogma, ela trabalha no campo do impossível, seja no que for.

E, na minha opinião, tempo e fé são elementos que não podem se desgrudar.