Arquivo do autor:Aline Viana

Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

Felicidade absoluta

Ao lado do cartaz de “Silêncio”, na casa de repouso havia outro, “Não aceite sorvete em um primeiro encontro”. Para quem vinha visitar os parentes mais idosos, o anúncio parecia absurdo ou talvez, quem sabe, alguma brincadeira interna. Mais adiante, no corretor para a sala de pintura, havia outro que recomendava “Leve seu próprio café quando for à biblioteca”.

O diretor hesitou muito em autorizar aqueles avisos, mas ele havia recebido a visita de dois investigadores da polícia que haviam insistido sobre aquilo. A “viúva negra” havia cumprido sua última pena e estava solta novamente. Rumores de que ela voltara à ativa deixaram o departamento em estado de alerta. O delegado consultou a polícia federal que indicou a necessidade de um intenso trabalho preventivo.

Porém, os parentes não haviam sido avisados sobre os trabalhos. E acharam um absurdo. Uma filha se queixou que o pai não era nenhuma criança para ser proibido de aceitar doces de desconhecidos. E ela ainda disse que o pai poderia aceitar o que quisesse de quem quisesse porque ele era um homem lúcido e, no mais, poderia comprar o que quisesse com a mesada que ela lhe deixava todas as semanas.

O pai ria por dentro, sem disfarçar muito. Não disse nenhuma palavra pra defender o diretor ou apoiar a filha. Eles que eram brancos que se entendessem, de onde ele estava agora, ele era plateia do circo e queria mais era continuar vendo o fogo tomar conta.

Um filho advogado da dona Cléo, que ocupa um dormitório no segundo andar, achou que a história era um mero conto de policiais ineptos até para disfarçarem a própria incompetência. Não havia lido nada nos jornais sobre a fuga de nenhuma “viúva negra” e a mãe dele não era nenhuma ingênua. Ela que fizesse amizade e saísse com quem quisesse.

A neta do velho Heffner, aquele safado que havia criado uma revista pornô décadas atrás, foi das poucas que apoiou a iniciativa da direção do instituto. Não faltavam mulheres sem-vergonha querendo fazer o coitado do avô se desfazer do espólio, por isso a família o abrigou num lugar discreto, onde ele ficasse protegido da maldade do mundo. Aliás, justamente por proteção ao patrimônio, digo ao idoso, lá todos o conheciam por Jeremias. Por via das dúvidas, Jeremias passou a ser seguido em suas caminhadas no fim da tarde por dois seguranças à paisana.

Susanah, a viúva negra, porém, ainda tem algum dinheiro na poupança. E pode sondar o terreno antes de soltar seu charme no próximo solteirão. Ela sabe que a polícia está à espreita. O tempo é seu amigo, com 65 anos parecia ter dez a menos – era o que todos diziam. De consciência tranquila, justificava-se dizendo que amava seus ex-companheiros.  “Dou a pobres homens solitários seus últimos dias de felicidade absoluta. E eles querem me retribuir, que mal tem se eu aceito esse carinho deles? No fim, eles morrem disso, de felicidade, tadinhos”, disse ela toda cândida ao juiz de seu último caso.

 

Inspirado na notícia: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2016-03-21/uma-criminosa-esta-morando-na-comunidade-a-volta-da-viuva-negra-da-web.html


Homens ao mar

A economia campengava e era natural que cada um temesse pelo próprio emprego no escritório. Fazia anos que havia rodadas de demissão, quem ficava trabalhava em dobro ou ficava sem trabalho por dias a fio. Saltar para o desconhecido mundo de quem trabalha por conta própria, pra fazer um paralelo justo, era o equivalente a viajar pra descobrir o novo mundo em 1400 e guaraná com rolha. Um ou outro voltava contando maravilhas do além-mar, mas a maioria desaparecia vitimado por uma das bestas enviadas por Oceano.

Por isso ninguém entendeu porque Pedro propôs ao patrão trabalhar em regime de home-office. Ele viria à empresa uma ou duas vezes por semana, mas no restante do tempo, trabalharia em casa. Receberia por horas e não mais um salário fixo. Pensamos todos: coitado, está agindo por desespero… O patrão irá liberá-lo no próximo corte, afinal, não o verá nunca, lhe será mais fácil dispensá-lo sem nem mais essa nem aquela.

Mas quem não deu pela falta do Pedro não foi só o patrão, fomos todos. Ele aparecia um dia ou outro, ninguém se lembrava se era mesmo duas vezes por semana como o combinado. Até porque ele aparecia sim, todos o conheciam e no dia dos aniversariantes do mês lá estava ele trazendo o refrigerante para a turma.

Muitos cortes vieram e o Pedrão foi o único daqueles tempos que nunca era mencionado pela chefia. Sobreviveu a tudo, mudança de chefia, queda do dólar, retração da zona do euro, ascensão dos comunistas na Espanha, independência do Alasca…

E daí era mais que justo, quisemos fazer uma festa pelos vinte anos do cara na empresa e foi aí que quase caímos pra trás – fazia seis anos que o cara mal dava as caras e não tínhamos notado. Nesse meio tempo, ele foi cursar Espinoza. Um filósofo que dizia que a alegria aumentava a potência do agir, infeliz como todos nós naquele cubículo de poucas janelas e café frio, ele foi cuidar de si – já estava até se organizando pra dar aulas numa faculdade do interior. Ele iria até onde desse…

Foi multado em US$ 30 mil no dia em que faria 20 anos de casa.

Pedrão parcelou a dívida, mas não perdeu o emprego. O seu Zé até se riu, mas precisava dar uma lição no maroto pra não virar moda no escritório. E fizemos a festa, como não?

Vou levantar âncora também.


Confissão

 

A gente cresceu, não dá mais pra mãe obrigar a gente a pedir desculpas. Até porque a gente não briga mais como antes, com tanto escândalo e choro. Vai ver, ela nem notou ou, se percebeu, achou que a gente se entenderia como antes. Somos irmãs, né?

Mas mamãe e eu calculamos mal. A briga não passou.

Ainda acho que estou certa e você aí do seu lado também. Só que eu estou mesmo [certa].

Fui na dona Arminda, expliquei pra ela tudo. Quem a gente era, porque brigamos, as minhas preocupações contigo.

E daí ela me deu aquela bonequinha pra te dar. Era azul-esverdeada, e tinha o rosto todo manchado, parecendo um zumbi, sei lá, mas era fofa e você gostou tanto! Ela disse que ia te proteger por mim.

E eu tenho fé que vai dar certo. Quer dizer, já está funcionando, até voltamos a nos falar!


Livro, filho e árvore

Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho. Regiane cresceu sabendo que esses três marcos definiam uma vida completa. Ela virou a página dos vinte e poucos para os trinta e tantos e a pressão só aumentava.
O livro. Ela escreveu. Era a transcrição mais bem acabada do diário que redigiu durante a faculdade. Não havia autora brasileira com nada semelhante. Ela seria a Lena Durhan dos trópicos. Não fosse esse diário pra dar uma acochambrada, ela teria um romance histórico pela metade mais uma página, o que ainda configura uma clara maioria.
O filho. Ela tinha arrumado um namorado. Moravam juntos até. Os cunhados, irmãos de ambos, viviam procriando. Não, não eram beneficiários do Bolsa Família, apenas namoraram, casaram e filhos. Regiane e Ermano ainda nem conheciam o Azerbaijão e iam pensar em ter filhos? Para não ser lembrada disso todo instante, ela entuchou todas as roupinhas que ser futuro bebê herdou dos priminhos em uma mala em cima do guarda-roupa.
A Árvore. Até nisso a Regiane falhou. Ganhara um pé de Abacate em um vasinho para plantar na casa nova. Ela regou, colocou nos sol, depois tentou na sombra. Uma a uma as folhas ressecaram e morreram. A terra perdeu sua cobertura de húmus e craquelou. Só pra constar, até os abacates da fruteira Regiane perdeu aquele ano. Ela conversou com o abacateiro. Explicaria que muito mais do que a vida de estaria em jogo ali. Ela podia citar, assim de cabeça, a diminuição do efeito estuda e da poluição do ar, a oferta de sombra para sua cadela, Martinha, dar abrigo aos passarinhos, frutos que poderiam gerar outras árvores… Quantos já foram? Se nada funcionasse, Regiane estava preparada para abandonar o seu orgulho:  aquela arvorezinha teria que viver por ela, pra ela olhar pela janela e saber que algo que ela fez deu certo, mesmo que fosse graças a chantagem emocional.


Acho que já vi esse filme

OSCAR-LABEL

Eu já vi filmes e arranjei confusão suficiente na vida para saber que não se dá conselho para quem não pediu. A regra é válida exceto, é claro, se você for o personagem que exerce a função de coro grego e olhe para a câmera dando os pitacos não solicitados em absoluta segurança. Ou, se você for o vizinho ou a tia inconvenientes e der palpites assim porque a pessoa PRECISA ouvir.

Bem, a Academia não pediu a minha opinião mas eu vou falar de qualquer jeito. Faltam negros indicados na premiação. Faltam negros porque as pessoas “de cor” são coagidas pela sociedade a parar de graça e procurar um emprego que lhes sustente. Teatro, cinema, música, medicina são coisas para quem pode pagar por isso. Quem tem que receber para viver sabe que o seu ônibus não é esse.

Aumentar o número de eleitores negros, latinos e mulheres tão pouco irá corrigir a distorção entre a maioria branca e as minorias entre os indicados. Sim, porque basta olhar a América Latina e ver quantos homens brancos são eleitos; quantas mulheres brancas conseguem furar esse bloqueio. E quantos homens negros estão no topo, quantas mulheres negras ou índias estão ditando as regras de suas áreas? Talvez, aliás, você possa dar de bate pronto quem são as mulheres, indígenas e negros nesse caso porque são tão poucos que periga o leitor saber de cor.

Negros, mulheres e índios votam em brancos. São condicionados a isso pelo meio em que vivem, mesmo tendo um ou outro membro de minoria aqui e ali pra escolher.

É válido o auê porque tira a discussão do gueto, porém… Enquanto não houver mais negros escrevendo roteiros, livros, peças, compondo e educando, esqueçam, não vai ser na caneta que isso vai mudar. Aliás, senhora presidente da Academia, um certo conterrâneo meu, José Sarney é seu nome,  tem lhe oferecido esses conselhos? Porque parece todinha ideia dele essa sua proposta, só acho.


O caso da argentina

Imagem: María Pachón - https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Imagem: María Pachón – https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Ele não viu quando saí do carro. Me enfiei no banheiro feminino e fiquei lá tempo suficiente para ele abastecer uns três daquele jipe estúpido dele.  Mal notei o cheiro carregado daquele cubículo mal ventilado, com papel higiênico que brotava do lixo, das paredes, do chão…

Escapei, pensei.

Não, mas foi por tão pouco!

– Dona, o seu marido acabou de sair!

Eu ainda tentei disfarçar, fingir que não entendia o idioma do sujeito.

– Yo no hablo portugues. No te entiendo.

E o frentista desesperou. Chamou o gerente. Contou também pra mocinha da loja de conveniência.

O gerente arriscou um portunhol.

– Señor, lo siento, no te entiendo. No te preocupes, voy a encontrar una parada de taxis y ya me voy. No necesita preocuparse.

– Tu marito se fué, senhora. Tienes um celular? Se não, podemos ligar da minha sala, no te avexes.

Fez a mímica universal com dedos, simulando um telefone.

Como dizer que eu não sabia o número de Ezequiel?

– Es una conexión internacional, es caro, señor, no te preocupes. Yo lo llamo un taxi y en la próxima me detengo acuerdo, señor.

Ele já ia 100 km adiante, quase chegando no Espírito Santos, me explicou o frentista desenhando números e rabiscos numa caderneta e apontando um mapa na parede da sala do tal gerente .

Ezequiel fez a parte dele, é justo que eu admita. Disse que não entendia o que diziam ao telefone, que não perdera nada, que o menino estava a brincar com o tablet bem ao lado dele. Até uma foto minha mandaram pro celular do maldito.

Não teve jeito.

Ele voltou. Seguimos juntos.


Há cinco anos

Imagem: Stefano Corso - https://www.flickr.com/photos/pensiero/

Imagem: Stefano Corso – https://www.flickr.com/photos/pensiero/

O Facebook exibe uma foto de cinco anos atrás e pergunta se eu quero compartilhar a lembrança com os outros. É aniversário de um amigo, a turminha do antigo trabalho está toda reunida. E, pela primeira vez nos últimos anos, eu não me ressinto de ter perdido o meu cabelo comprido, mas por não estar mais com a minha mochila.
Eu ainda poderia me lamentar pelos quilos ganhos desde então e pela esperança que eu tinha de sobra. Mas o que realmente me faz falta era a pequena mochila, azul e cinza com zíper cor de rosa. Rosa não, pink.
Uma mochila que me custou, se não me engano, R$ 48 quando eu estava no meu último ano de faculdade e estagiava na campanha política de uma senadora hoje muito mais loira do que naqueles anos. Comprei a mochila porque queria começar a malhar e dentro dela cabia tranquilamente o meu tênis, a roupa do treino e os produtos de higiene.
Andamos juntas no ônibus, nas viagens, durante a mudança para outra cidade ela também me acompanhou e por muitos dias depois que voltei. Até que um sujeito, talvez um morador de rua, invadiu a minha casa para roubar. Deixou um fedor incrível, talvez por isso ignorou os meus perfumes importados (a serem pagos em 10x sem juros no cartão), mas levou uma jaqueta minha, outra do meu irmão, a câmera digital da minha mãe, o celular dela (sempre esquecido sobre os móveis da casa), a tv da sala, ainda espalhou os meus novelos de lã pelo chão do meu quarto – não sou dessas que têm tesouros na parte de cima do guarda-roupa, sorry – e levou as nossas mochilas. Não creio que o meu irmão ainda esteja viúvo da mochila dele, mas a minha, pôxa, que desnecessário!
Era tão pequenina e tão grande! Acomodava ainda, sem dificuldades, o livro que eu estivesse lendo. E uma garrafinha d’água num bolso externo. Talvez tenha sido a bolsa mais perfeita que já tive.
Você imagina que se ela estivesse aqui, hoje, eu não lhe daria valor. Aí você se engana leitor, essa cronista sempre soube valorizar os sapatos e as mochilas – as calças gastam-se, apertam, mas sapatos e mochilas permanecem firmes. Quando partem ou se acabam, fico de luto. Não é consumismo. São histórias, que começam pelos pés e guardam-se – por que não? – na mochila.