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                                Imagem

 

 

BALA, O BISCOITO E A FLOR DE LÓTUS

Eu me lembro de um tempo em que as formas, as cores e os sabores dos produtos não estavam desvanecidos na entropia promovida pela sociedade de consumo. Dentro desse tempo, minha memória recorta um momento particular em que pedi a minha mãe uma bala; enquanto ela pegava essa bala numa prateleira que, para mim, era alta, eu me sentei a um canto, fruindo o instante de espera; e recordo o sorriso de minha mãe ao me ver ali, quieto, concentrado para o simples e pleno desfrute de uma bala.
Eu não estava sentado na posição de lótus, mas a imagem dessa postura, própria à prática da meditação, sempre me ocorre junto com a memória dessa cena. Tanto a postura quanto a cena me reconduzem a Thich Nhat Hanh.
A postura de lótus me reconduz a Thich Nhat Hanh, pois ele é um monge budista vietnamita que conheci através do livro “Vietnã, flor de lótus em mar de fogo”, da Editora Paz e Terra. Entre permanecer meditando no mosteiro ou ajudar seu povo que sofria sob o bombardeio e outras devastações perpetradas pelo exército norte-americano, Nhat Hanh foi um daqueles que escolheram fazer as duas coisas, ajudando a fundar o movimento de “budismo engajado”. No Vietnã ele criou uma organização assistencial de base popular que reconstruiu vilarejos bombardeados, fundou escolas e centros médicos, restabeleceu famílias sem lar e organizou cooperativas agrícolas. No exterior, Thich persuadiu Martin Luther King a se opor publicamente à Guerra do Vietnã, ajudando, dessa forma, a reanimar o movimento pela paz. No ano seguinte, Luther King o indicou para o Prêmio Nobel da Paz e, depois disso, Nhat Hanh liderou a Comissão Budista nas Conferências pela Paz em Paris.
A cena da bala me permite a intertextualidade com esse texto de Thich Nhat Hanh que encontro agora em seu livro “Paz a cada passo”, da Editora Rocco:
“Quando eu tinha quatro anos de idade, minha mãe costumava me trazer um biscoito cada vez que voltava do mercado para casa. Eu ia então para a frente de casa e levava um bom tempo para comê-lo, às vezes meia hora ou quarenta e cinco minutos para um biscoito. Eu dava uma mordidinha e olhava para o céu. Depois, roçava o cachorro com meus pés e dava mais uma mordidinha, Eu simplesmente gostava de estar ali, com o céu, a terra, os bambuzais, o gato, o cachorro, as flores. Conseguia agir assim porque não tinha muito com que me preocupar. Não pensava no futuro, nem lamentava o passado. Estava inteiramente no momento presente, com meu biscoito, o cachorro, os bambuzais, o gato e tudo o mais.”          
E Thich conclui: “Talvez você tenha a impressão de ter perdido o biscoito da sua infância, mas eu tenho certeza de que ele ainda está aí em algum canto do seu coração. Tudo ainda está aí.”        
                                                        

                                                                         Afonso Guerra-Baião                                           

A DÁDIVA E A DÍVIDA

 

 

 

 

A DÁDIVA E A DÍVIDA

“Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.” A primeira frase do romance A ESCRAVA ISAURA, de Bernardo Guimarães, já nos situa no contexto histórico: um Brasil que vivia ainda o clima da Independência , com todo o entusiasmo nacionalista do Romantismo em plena voga e com o movimento abolicionista ganhando cada vez mais terreno. Nesse contexto, Bernardo Guimarães, como outros autores românticos, propõe-se atuar junto à sociedade como formador de opiniões. O público a que ele se dirige é a minoria burguesa ( pois a maior parte da população não sabe ler) e , particularmente, a mulher burguesa que, segundo M. Cavalcanti Proença, “só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos”. O objetivo do autor é, além de proporcionar aos leitores uma fuga da realidade medíocre, contribuir para que as idéias iluministas de liberdade e igualdade prosperem na sociedade. Mas o autor está marcado por seu tempo e seu espaço, ele incorpora a seu texto mitos e valores da classe dominante. Marilena Chauí diz que “a ideologia é uma ilusão necessária à dominação de classe”. Mas como poderemos afirmar que um romance libertário, que condena a desigualdade e a escravidão, pode conter elementos ideológicos a serviço da dominação de classe? Como veremos, a liberdade da escrava Isaura é fruto de transação comercial: Isaura ( a mulher, a escrava) não deixa de ser objeto, não deixa de ser propriedade.
O destino das principais personagens de “A ESCRAVA ISAURA” é definido pela relação econômica: Álvaro compra Isaura, juntamente com todas as propriedades e bens de Leôncio. O fracasso econômico de Leôncio associa-se ao seu fracasso como sedutor e sua morte (por suicídio) simboliza a impossibilidade de sobrevivência das idéias ultrapassadas dos escravocratas. O sucesso econômico de Álvaro associa-se ao seu êxito amoroso (conquista o coração de Isaura) e sua vitória econômico-amorosa simboliza a vitória do ideário político liberal e abolicionista.
A liberdade de Isaura  ( e dos escravos) não é uma conquista dos negros, mas é uma dádiva do branco Álvaro, que simboliza o novo poder liberal emergente. Dádiva que logo se constitui em dívida: os negros devendo trabalhar para “indenizar Álvaro do sacrifício que fizera com a sua emancipação”( Cap.XI ); dádiva que transforma Isaura em senhora e Leôncio em escravo – “Isaura, tu és hoje a senhora e ele o escravo”( Cap.XXII ) – numa mudança de papéis que não altera a relação de desigualdade e de dominação, mas a restabelece sob novas formas.
É interessante notar ainda que a escrava que se torna senhora é branca e , como diz Maria Nazareth S. Fonseca, a sociedade brasileira do século XIX  “aceitou-a porque ela era branca e educada” e até em seu nome ressoa  a  palavra  áurea ( de ouro ) ;  a cor branca do herói libertador é reforçada em seu nome , Álvaro, que vem do latim albis (branco) e o nome do vilão que afinal é reduzido à condição de escravo, Leôncio, traz a palavra latina leo (leão), animal da África, terra de onde vieram os negros escravizados.
O romance de Bernardo Guimarães, destinado ao público burguês e conservador, realiza de forma bastante elaborada a função ilusória da ideologia: acenando com a perspectiva de mudança da ordem estabelecida, acaba por confirmá-la e por restabelecê-la sob novas formas. O jogo da trama e os artifícios literários de que o autor se vale (até inconscientemente) para construir a mensagem conservadora subliminar, subjacente á sua declarada intenção reformista, é o que Umberto Eco chama de “estruturas de consolação”: para consolo dos leitores conservadores e do seu próprio conservadorismo não superado, o artista acaba por confirmar o status quo que tentara denunciar e modificar. Em Bernardo Guimarães isso se dá de forma bem “light”, já que seu romance tem como personagem central uma escrava que é branca e que é exemplarmente submissa, cônscia de seu papel e de seu lugar.

Afonso Guerra-Baião

AS ESPUMAS DA FALA

AS ESPUMAS DA FALA

A leitura de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, sempre suscita uma polêmica não resolvida: afinal, Capitu traiu ou não Bentinho? Poderá esse enigma ser resolvido? Ou toda leitura que fizermos apenas jogará mais lenha à fogueira?
A grande dificuldade é a ambigüidade que envolve toda a linguagem dessa narrativa, feita em primeira pessoa, de densa subjetividade, onde o subjetivismo chega a um  clímax de rara intensidade. Esse subjetivismo do narrador faz com que tenhamos  uma visão parcial dos fatos, apenas o ponto de vista do narrador, que funciona como uma espécie de advogado de acusação, enquanto que o ponto de vista da defesa, o depoimento da acusada ( Capitu ) não aparece. Como, aliás, Capitu morre antes que a narrativa seja concluída, o enigma parece estar cristalizado, já que não teremos a oportunidade de ouvir a sua versão dos fatos. No entanto , é na própria ambigüidade da fala de Bentinho que encontramos as pistas que nos permitem , ao menos, formular uma hipótese fundada no texto.
Assim como os olhos de Capitu ganharam uma metáfora marítima ( “olhos de ressaca”), também o discurso narrativo de Bentinho merece duas imagens da mesma natureza: primeiro a imagem de um navio que segue uma rota pré-estabelecida . Na sua narração, Bentinho não se desvia do objetivo do convencer os leitores ( ou de convencer-se) do adultério de Capitu e das razões que teve para repudiar a ela e ao filho. O ponto forte desse libelo, o grande argumento com que Bentinho firma sua convicção, é a semelhança de Ezequiel com Escobar, semelhança que, com o passar dos ano só aumenta , a ponto de que, quando Ezequial volta da Europa , já moço, Bentinho vê nele “o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar.” ( Cap. CXLV )  Essa certeza , vazada em modo hiperbólico, conduz-nos , no entanto, à segunda imagem marítima com que podemos caracterizar a fala de Bentinho : na esteira do navio ficam as espumas flutuantes, que vão e vêm, imagens da incerteza produzida pelo próprio discurso do narrador. Bentinho forma sua convicção do adultério de Capitu com base em suas observações e lembranças. No entanto ele mesmo se queixa de sua memória e se mostra vacilante em algumas lembranças: “Creio antes…sim…sim, creio isto.”(Cap. XXII)  Na cena do velório de Escobar, quando o acusador procura mostrar o que lhe pareceu um flagrante da traição de Capitu ( o olhar supostamente apaixonado que dirigia ao morto), o narrador usa duas vezes o verbo parecer: “Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma.” ; “…mas o cadáver parece que a retinha também.”( Cap. CXXIII)  Pouco depois do enterro, Bentinho confessa  sua insegurança e sua incerteza: “Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu…?” (Cap.CXXVI)  E o mesmo Bentinho que, mais tarde, vê em Ezequiel “o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar”, acreditava que, “se fosse vivo José Dias, acharia nele a minha própria pessoa.”(Cap.CXLV)  Num episódio muito anterior, quando Bentinho ainda era jovem, Gurgel lhe pergunta se acha o retrato de sua mulher, quando moça, parecido com Capitu. Bentinho diz: “Antes de examinar se Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim.”( Cap. LXXXIII) Esse episódio introduz o discurso sobre as semelhanças indiscutíveis entre pessoas num jogo que relativiza a certeza e banaliza o fenômeno, como algo fácil de acontecer e de se afirmar. Bentinho, que procura afirmar uma acusação contra Capitu, começa sua narrativa com uma citação de Goethe: “Aí vindes outra vez, inquietas sombras…?” (Cap.II)  Até que ponto suas memórias recuperam a realidade dos fatos e das pessoas, até que ponto o que lhe vem à lembrança são inquietas sombras, cujas faces e cujos olhares o narrador – sem poder vê-los bem – reconstrói ao modo que melhor serve à sua imaginação obsessiva?
O discurso de Bentinho, longe de mostrar-se uma reconstituição objetiva dos fatos e um argumento racional de acusação , mostra-se eivado de subjetivismo e em sua linguagem podemos perceber a fragmentação da realidade. Assim é que o primeiro motivo da suspeita é um olhar de Capitu: uma parte de seus gestos compromete toda sua conduta. Desde cedo , os olhos de Capitu são a parte que definem o todo: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, segundo José Dias, “olhos de ressaca”, segundo Bentinho. Essa imagens dos olhos mostram o discurso masculino sobre a mulher, fragmentando-a, reduzindo-a a um aspecto e caracterizando todo o seu ser  por aquele aspecto. Os olhos de Capitu, com seu “fluido misterioso e enérgico” (Cap.XXXII) são lidos como sinais da dissimulação feminina e como imagem do perigo que arrasta e mata. Mais tarde, ao ver Otelo, Bentinho observa “as grandes raivas do mouro por causa de um lenço – um simples lenço!” ( Cap.CXXXV) Irônicamente , Machado coloca na boca do seu personagem-narrador, a observação sobre essa fragmentação do real, em que, tomando-se a parte com sendo já o todo, deforma-se esse real e chega-se a conclusões forçadas e falsas sobre a realidade. Citando Helen Caldwell, que chamou Bentinho de “o Otelo brasileiro”, Antônio Cândido acha bastante viável a hipótese levantada por ela de que na verdade Capitu não traiu o marido: “…como o livro é narrado na primeira pessoa, só conhecemos sua visão das coisas, e que para a furiosa cristalização negativa de um ciumento, é possível até encontrar semelhanças inexistentes ou que são produtos do acaso…” E assim podemos concluir, com base no próprio discurso do narrador, pela hipótese “bem machadiana”(Antônio Cândido) de que Capitu não traiu Bentinho e que suas suspeitas são fruto de sua insegurança e de sua visão machista, que fragmenta e reduz o ser feminino a apenas um aspecto, para poder definí-lo e dominá-lo.

Afonso Guerra-Baião

À MARGEM DAS ÁGUAS

À MARGEM DAS ÁGUAS

As águas de janeiro são diferentes das águas de março. Estas fecham o verão e trazem promessas de vida aos nossos corações. Aquelas têm deixado destruição e morte em seu rastro violento. Se é inevitável associar as águas de março à poesia de Tom Jobim, é possível refletir sobre as águas de janeiro a partir de uma estrofe de Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem”.

Quais são as margens que oprimem essas águas, a ponto de elas reagirem com a força de uma tromba-d´água, a fúria de um tsunami? As respostas jorram como enxurrada:

– as gananciosas barreiras da especulação imobiliária que empurram a população mais pobre para favelas construídas em beiras de córregos e encostas;

– os insensíveis diques do sistema financeiro que impedem o acesso de setenta por cento dos brasileiros ao financiamento habitacional (barreira que só começou a ser rompida com o programa “Minha casa, minha vida”);

– os irracionais barrancos que travam o planejamento da ocupação do solo urbano;

– as altas beiras da omissão dos poderes públicos na formulação de projetos de saneamento básico adequados;

– os limites extremos de impermeabilização do solo pela malha de asfalto e de concreto;

– as levianas ribanceiras do consumo exacerbado e da irresponsabilidade ambiental, geradores do excesso de detritos;

– as burocráticas bordas que dificultam o desenvolvimento de sistemas de informação e prevenção, bem como o treinamento das equipes de defesa civil.

Diante das catástrofes anunciadas e dos (agora) evidentes sinais de imprevidência, alguém exclama: “Não posso acreditar que isso seja verdade!”. Acontece que a água nos conduz á dialética do reflexo e da profundeza: nesta nos perdemos para nos sonharmos renascidos em um mundo novo; naquele nos encontramos, como Narciso, face a face com a nossa realidade atual. Ora, diz Bachelard, “o real não é nunca aquilo em que se poderia acreditar, mas é sempre aquilo em que deveríamos ter pensado”.

Afonso Guerra-Baião

DIÁLOGO DE NATAL

 

 

Programei essa crônica pro dia 24. Não sei por que não entrou.

Então aqui vai ela, pro Ano Novo.

DIÁLOGO DE NATAL

            Carlos Drummond nunca gostou de Academias, mas agora vive na eterna happy-hour da Sociedade dos Poetas Mortos, onde eu, como sócio-leitor, o encontro sempre. E, como aprendiz de feiticeiro, busco a sabedoria tão bela desse mago. Para puxar conversa, lembro um verso de outro bruxo, o de Cosme Velho: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. E acrescento: – O Natal não é algo do passado, silenciado pelo nosso ruidoso comércio, ofuscado pelo brilho de nossas festas? O poeta me diz: – O Cristo é sempre novo, e na fraqueza desse menino há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Mas meu coração de estudante quer saber mais. Pergunto: – Como pode o Cristo nascer entre pessoas que se movem pela competição, que se guiam pelo egoísmo, que buscam mais o ter que o ser? Calmamente, o mestre me explica que o Cristo “nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos. Temos de pesquisá-lo até na gruta de nossos defeitos”.

            Meu coração, que não se cansa de ter esperança, banca o advogado do diabo: – Em meio à mediocridade, à corrupção, à demagogia, ao nepotismo, à desonestidade, ao corporativismo, pode o Cristo nascer e sobreviver? Sem piscar Drummond responde: – “Ministros, deputados, presidentes de sindicatos prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos”.

Meu coração é teimoso: – Como poderá o Cristo falar a todos, nas nossas sociedades hierarquizadas, formalmente democráticas, de fato autoritárias, fechadas em círculos excludentes de classes e de castas? Na resposta tão serena quanto rápida, o poeta disse que o Cristo “preside (mal) as assembléias de todas as sociedades anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades de sua pobritude”.

Meu coração vagabundo não dá trégua: – Como pode o Cristo sobreviver se nasce pobre, sem terra, sem teto, condenado à marginalidade? E ouço a voz de Carlos: – “Ele tenta renascer a cada hora em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora sem jardineiro apendoa, e sem húmus, no espaço restaura o dinamismo das nuvens”.

Meu coração, que quer guardar o mundo, insiste: – Como a mensagem de amor do Cristo vai florescer num mundo de acirrados radicalismos? O mestre não vacila : – “Sua pureza arma um laço à astúcia terrestre com que todos nos defendemos da outra face do amor, a face dos extremos”.

Represento, por fim, o inquisidor moralista: – Como o Cristo pode nascer em corações mundanos, materialistas, devotos de bezerros de ouro e do prazer? Antes de desaparecer com o portal que se fecha, o poeta responde: – “O Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece”.

Enquanto eu desço do Tabor, meu coração bate um pouco mais feliz.

                                                    Afonso Guerra-Baião

LUMENS

 

 

 

LUMENS

Segundo o primeiro livro da bíblia, Deus fez a luz no primeiro instante da criação do mundo, pois as trevas já existiam e era necessário criar seu contrário. O motivo de criação da luz foi a existência da escuridão; da mesma forma, quando Deus criou o homem percebeu que ele também precisava ser binário, não só para fazer-lhe companhia, mas para que também pudesse perpetuar a espécie, garantindo continuidade à vida. São questionamentos importantes da história da criação humana, que explicam a existência binária (homem/mulher, treva/luz, bondade/maldade, etc.), desde o primeiro sopro de luz.
O sol também havia sido criado junto com o universo, segundo Gênesis, mas as nuvens o impediam de irradiar sua luz à superfície do planeta. A primeira fagulha era difusa e não permitia que, da terra, se visse o sol. Eram necessários mais focos luminosos que em uníssonos, iluminariam toda a superfície do planeta.
A estória contada pela bíblia nos dá uma ideia de que, várias unidades de fluxos luminosos irradiam luz em diversos pontos da terra. Segundo o dicionário Lello Universal – “lúmen, do latim, lumen: luz – é unidade do fluxo luminoso no sistema. O lúmen é o fluxo luminoso emanado de uma origem uniforme de dimensões infinitamente pequenas e de intensidade igual a uma vela decimal”… (LELLO, s/d, p. 118). Para se ter uma ideia melhor do significado da palavra lúmen, uma vela gera 14 lumens para iluminar um ambiente e o pôr-do-sol 400 lumens.
Desse modo, a Academia de Letras do Brasil de Mariana-MG (criada e fundada em abril de 2009), a Aldrava Letras e Artes (criada e fundada em outubro de 2000) e o Instituto Brasileiro de Culturais Internacionais de Minas Gerais (criado em setembro de 2007) uniram-se para editar a primeira antologia dessas três renomadas instituições culturais, que têm em seus quadros, poetas, cronistas, ensaístas, artistas visuais e cronistas, para fazer nascer, de diversas vozes iluminadas, o livro LUMENS.
Foram necessários 38 fluxos luminosos, oriundos dos estados de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, para fazer irradiar a produção literária eclética e criativa desses nobres escritores brasileiros, capazes de perpetuar uma das mais iluminadas e apaixonantes manifestações culturais criada pelo ser humano: a arte de escrever.
E assim, irradiam-se Lumens!

(Andréia Donadon, Academia de Letras do Brasil , seção de Mariana)

A escrita da anomia

Rubem Fonseca publicou “Feliz Ano Novo” em 1975, em plena ditadura militar. Nesse ano o general Geisel fechou o Congresso Nacional, editou o “pacote de abril” e sancionou a “lei Falcão”, tentando impedir a vitória da oposição nas eleições parlamentares. Esse ano também ficou marcado pelos assassinatos do jornalista Wladimir Herzog e do líder operário Manuel Fiel Filho nas dependências do departamento de investigação do Exército em S. Paulo. O país vivia um momento de crise econômica e de violência política , que a propaganda oficial e a censura procuravam mascarar.

O livro de Rubem Fonseca, ironicamente intitulado “Feliz Ano Novo”, retrata um período dos mais difíceis da vida brasileira e nele aparecem retratadas a alienação e a insensibilidade dos setores privilegiados da sociedade, a marginalização da camadas populares , a ausência de senso ético nas relações sociais e a violência generalizada. E por denunciar a realidade que a propaganda oficial mascarava, não é de admirar que o livro fosse proibido pela censura e recolhido das livrarias onde já estava à venda, sob alegação de que se tratava de obra pornográfica, que desrespeitava a moral e os bons costumes.

O fio condutor, o elemento principal que estabelece a unidade do conjunto de contos que compõem o volume “Feliz Ano Novo” é o tema da anomia (a ausência de princípios éticos, de regras e de limites) que os personagens exprimem através da prática de variadas formas de violência e de perversão. A escrita da anomia e da violência é feita em três registros: um que procura realizar a reprodução da língua falada de setores marginalizados da sociedade, com uso de gírias , de vocabulário chulo e construções próprias da oralidade ( como nos contos “Feliz Ano Novo”, “Botando pra quebrar”, “Abril, no Rio, em 1970”, “Entrevista”), outro que em que a narração é feita dentro dos padrões da norma culta (“Passeio noturno”, “Agruras de um jovem escritor”, “Intestino grosso”, “O outro”, “Nau Catrineta”, “74 degraus”, “O pedido”) e um terceiro em que os dois padrões de linguagem se misturam ( “Corações solitários”, “Dia dos namorados”, “O campeonato”). Se na maioria dos contos a divisão da sociedade em classes é percebida através do padrão linguístico, os diferentes padrões de linguagem registram um comportamento semelhante nos segmentos sociais : a violência e a perversão como marcas de uma anomia generalizada. Por motivos diferentes, os marginais de “Feliz Ano Novo” e o empresário de “Passeio noturno” encaram a violência com naturalidade e a incorporam em suas práticas cotidianas. Problemas como o desemprego aparecem claramente como causas de conduta agressiva em personagens populares ( “Botando pra quebrar” ) e a pura perversão, nascida de uma vida alienada, marcam o comportamento criminoso de pessoas da classe dominante (“Passeio Noturno”, “Nau Catrineta”, “74 degraus” ). Em dois contos os personagens não praticam a violência, mas são envolvidos na teia de frustrações gerada pelo modelo competitivo da sociedade e que os empurra para a marginalidade e, talvez , para a violência: em “Abril, no Rio, em 1970” o jovem de classe popular, vendo as dificuldades de vencer no único espaço em que poderia competir – o futebol – termina sua narrativa dizendo estar “sem saber para onde ir”. O jovem de classe média de “Agruras de um jovem escritor”, é traído pela própria atividade com que pretendia conquistar a glória, vencer na vida : a escrita. A dura luta pela sobrevivência no mundo cão da sociedade competitiva marca com a neurose vidas tão diferentes como as do travesti de “Dia dos namorados” e do executivo de “O outro”. A competição, o senso de propriedade ( inclusive a propriedade de outro ser humano), caracterizam a sociedade capitalista , acabando por gerar a alienação, a neurose, a marginalidade, a violência e a perversão. Rubem Fonseca capta esse quadro num momento em que ele é agravado pela marginalização da sociedade como um todo, em que a heteronomia radical da ditadura faz brotar por todo lado a anomia e sua expressão violenta.

“Feliz Ano Novo” foi proibido pela censura, sob alegação de pornografia. O senador Duarte Mariz disse : “Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia e quem lhe deu guarida também”. O ministro Armando Falcão disse, por sua vez: “Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isto bastou.” Além de expressarem todo o autoritarismo do regime militar, essas declarações mostram como os governantes da época procuravam, sob uma fachada de moralidade, evitar a discussão do que seria realmente imoral: a condição miserável de vida ( gerada por uma política promotora de desigualdade e de injustiça social), levando os excluídos para a marginalidade, e a alienação da minoria privilegiada, levando-a à insensibilidade e à desumanização. O livro de Rubem Fonseca , escrito em diferentes registros de linguagem, denuncia a separação entre os homens e a fragilização cada vez maior de suas possibilidades de entendimento, de compreensão , de amor: a fragilização que pode levar à destruição do Humano.

(Afonso Guerra-Baião)