Arquivo do mês: setembro 2016

Meu partido é um coração partido

Não tenho mais rótulos.

Não torço mais pra nenhum time, não prego nenhuma religião ou partido político, parei de citar nomes e endereços. Por conta disso, tenho em mim, agora, todos os sonhos do mundo* e já sei que isso ainda é pouco, muito pouco. Parei de brigar, parei de berrar.

Mas está enganado se pensa que, por causa do meu silêncio, eu desisti; se por deixar de bradar motivos e observações aos quatro cantos do mundo é que eu perdi as esperanças. Não, não desisti e tampouco perdi as esperanças; ao contrário: apenas quebrei o coração para deixar a razão no comando, mutei minha voz para potencializar a escuta, calei os dizeres para ampliar os horizontes.

Nunca fui de frente de batalha – aliás, pobre do exército que dependesse mim. Por que sou inútil, menos capaz? Não, mas porque sirvo para pensar, para elaborar, para planejar o ataque. Não sirvo para papel principal ou coadjuvante; meu lugar é na coxia.  Por que não sirvo para isso? Não, é por que sirvo melhor para montar figurino, para dirigir a cena, para avaliar a iluminação.

Aprendi muitas coisas nessa minha passagem pela vida e uma delas é que a minha luta não é conta o sangue e a carne, mas contra os dominadores desde mundo**; então não brigarei mais com você que pensa diferente, ou com você que insiste em não enxergar um palmo a frente, nem mesmo contra você que apenas repete feito papagaio da vizinha. Preferi ser como a águia, que pouco canta, mas que muito observa.

Então não vou gastar minhas forças tentando te convencer de que seu raciocínio está priorizando o lado errado; não vou perder meus dias e minha paciência pra provar que seus argumentos são falhos e assim me decepcionar a cada vez que você usá-los. Chega de embates, eu vou pra tática: vou deixar que você caia em suas próprias hipocrisias, que cometa os erros que você mesmo tanto critica, que seja o judas contra o qual você atira pedras.

Por mais bela que a  vida possa lhe parecer, não há como escapar de colher o que se plantou, de pagar por aquilo que fez.

Tudo é uma questão de tempo.

Por isso eu me recolho: para que o tempo faça o seu papel e lhe entregue tudo aquilo que um dia pediu, ainda que sob o poder da ignorância. Eu também receberei, esteja certo; afinal, todos nós estamos no sol, buscando a sombra.

* “Tabacaria”, Alvaro de Campos

** Carta a Efésios, Capítulo 6

 


O pior da geração Coca Cola

Os filhos da revolução hoje são pais do comodismo.

O que antes era uma forma de liberdade, agora é uma limitação de pensamento, pessoas que só querem sombra e água fresca, sem  stress de ficar brigando aqui e ali por mudanças éticas, como se aquilo que não fora transformado naquela época já não tivesse mais jeito e precisasse ser engolido a seco. Não somos mais os mesmos e nem queremos viver como nossos pais e eles precisam entender isso.

Essa tal geração coca-cola hoje está choca e sem gelo, perdeu a noção de que não se pára de lutar, de que o passado é a visão de um futuro próximo e, quem sabe, um futuro ainda doente. A decepção de não ter conquistado cada um dos objetivos traçados à época rechaça toda e qualquer nova tentativa de transformação rumo a um futuro melhor, destrói a expectativa criada pelo exemplo dado justamente por eles, que eram heróis, que não queriam dinheiro e só queriam amar – mas que agora não estão nessa e só querem sossego.

Talvez por medo é que decidiram tolher as armas ideológicas dessa nova safra, armas aquelas capazes de mover o mundo, de mover montanhas ou de mover pessoas de um lugar para nenhum outro – ou ainda para onde for necessário para o momento. Para eles, esse mesmo momento – o agora – não é mais para pensar e lutar, o tempo bom já se foi e não volta mais, isso é tudo o que temos para hoje e ponto. O detalhe é que a galera, que antes era cheia de gás e gosto, não percebe que esse tal ponto não é um ponto final, mas que ele vem acompanhado da vírgula, que ele é um ponto e vírgula, apenas uma pausa para pensar sim!, para lutar sim!, um momento de preparação para a nova revolução. Por isso é que a gente continua, que vai à luta e conhece a dor.

O pior da geração coca-cola é que ela deixou, sem perceber, resquícios de uma esperança que queima como fogo em mato seco, que se alastra rápido. E aí não tem o que argumentar, não tem justificativa que nos pare, ninguém vai nos segurar com a bunda exposta na janela, porque deu pane no sistema e alguém nos desconfigurou: segura as pontas seu Zé, que a vida agora vai melhorar.

 


Semeadura

pen

Visto que as horas voam, os dias correm, vida vem e vida vai, estamos temporariamente suspendendo nossa escrita (quase) diária para uma reformulação iminente e necessária. De gentes, de momentos, de penas. A todos que até aqui vieram, aos que chegam, aos que não se vão, que as histórias já escritas possam, mesmo que em “vale a pena ler de novo”, dar um tom de poesia ao comum de todo dia.


SEGUIR EXEMPLOS

Estava eu ontem no cinema, já comodamente sentada, esperando a sessão começar, quando vi passar duas senhoras, procurando lugares vagos.
Em frações de segundos as reconheci, embora o tempo passado era muito longínquo. E me veio a lembrança das suas imagens, quando mulheres maduras jovens. Eram irmãs, professoras e viviam com a mãe. Sabe-se lá porquê não casaram. Mas me chamava a atenção a elegância de ambas ao passarem pela porta da minha casa. Além de muito bem arrumadas sempre, tudo era de bom gosto e na medida certa.
Naqueles idos, eu tinha cerca de 13 anos e elas representavam para mim um modelo a ser seguido e sempre pensava – um dia quero ser como elas. Os tempos passaram, mudamos de casa e não as vi mais. Agora ao reencontrá-las, por incrível que pareça, mais de 50 anos depois, elas tinham a mesma aparência e não perderam em nada os gestos finos e o belo trajar, apesar de alguns poucos quilos a mais e das faces marcadas. Fiquei a pensar que não se pode deixar os cuidados com a aparência, por mais que se tenha envelhecido. Lógico que a saúde é fundamental e, pelo jeito, elas também foram agraciadas com esse quesito.
Mas de toda essa visão ficou a certeza que a elegância se carrega pelo resto da vida e não é uma roupa cara, simplesmente, que marca essa característica. É a postura, o modo de andar, de falar e de se colocar perante os fatos.
Como é bom quando encontramos esses exemplos marcantes em um mundo que nos engana, com falso glamour, mas que não tem sustentação. Desaparece em pouco tempo. Vive-se de aparências…