Coragem – substantivo feminino

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E já dizia Guimarães que o que a vida quer da gente é coragem. Mas é que é tanta coisa embaralhada… De um lado histórias de amor, de outro, histórias de perda, de dor. É muito de uma vez só, estar leve e pesada ao mesmo tempo. Mas que isso é verdade, disso nunca duvidei: requer coragem pra tudo; pra dizer o que pensa, pra ficar calada, pra seguir em frente, pra permanecer no lugar, pra existir e se movimentar. A coragem cobra da gente uma posição sem delonga, sem atraso, sem meias palavras. Quando se é mulher, a coragem tem que estar em tudo, no existir e no resistir. O feminino, retratado tantas vezes como sexo frágil, é o detentor das maiores forças de sobrevivência. Da gente brota de um tudo, muitas vezes regado à lágrimas de sofrimento. Tudo de nós pode nascer. A sorte que eu tenho é ser muito bem amparada por aquelas que me inspiram a me manter de pé. Mas ainda assim, como cansa.

E ás vezes é mais fácil mesmo tirar o corpo fora, do que ficar na jaula com o leão, enfrentando um diferente por dia, por vezes até toda uma alcateia. Pois bem, pelo sim, pelo não, fiquei ao invés de correr. Tomei os banhos de ervas, abri o Orí e fechei o corpo pro que viesse de mal. E o rugido foi alto, me fez tremer até o último fio de cabelo de minha própria juba. Depois de algumas mordidas e patadas, saí vitoriosa, porém não sem cicatrizes. Se hoje não dói, amanhã aparecem outras. Mas o bom de vencer é o respiro de alívio, o sorriso farto, o rosto suado pelo esforço que passou, o conforto da companhia de quem ajudou na batalha. O interlúdio entre uma luta e outra traz um descanso tão curto, mas sempre muito intenso em sua leveza. Não dá pra vencer todas, mas é bom passar por cada uma, uma de cada vez. Quando a gente se fere também é quando nos sentimos vivas, marcadas até os ossos das batalhas do trajeto. Tem dia que sou covarde e corro, fujo pra longe. Tem dias que a covardia está no ferir os outros também. Ainda sou filhote, e aprendo com aquelas felinas ágeis que vieram antes de mim, que me circulam, que me dão o prazer da companhia e o privilégio do ensinamento. Quando caio na arena, não sou engolida pelas feras. Eu mesma me mastigo, pra me absorver. O esforço é sempre pra manter firme a cabeça erguida e olhar de frente, me inspirando em leoas mais fortes que eu, pra quem sabe depois de tudo ser também uma das rainhas da selva (de pedra), usando a coroa que aprendi com elas a construir.

Sobre LaraPassos

Pequeno girassol. Negra, feminista, taurina até a raiz. Filha de Inkisis e graduanda em Antropologia com habilitação em Arqueologia na UFMG. Ver todos os artigos de LaraPassos

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