Arquivo do mês: agosto 2016

Quando nasce uma mãe

Quem nunca duvidou de uma grávida, que atire a primeira pedra.

Essa coisa de que a mulher “se transforma assim que descobre a gravidez” sempre me deixou com a pulga atrás da orelha, do tipo: pô, mas a vida nem mudou tanto assim, só enjoo, fome e sono não te faz rever a vida por esse nível de grandeza. Achava que era meio clichê de mãe recém-descoberta, que está deslumbrada – ou mesmo assustada – com o futuro. Tinha que ter algo mais do que isso.

Até que eu engravidei.

A formatação atual da sociedade incute na mulher uma cobrança intensa e patética de obrigações únicas de mãe e ai de quem não sucumbir a elas para, assim, “padecer no paraíso”. Então, infelizmente, ainda é comum que junto com os enjoos, a fome e o sono venham também o tal futuro, o medo, a insegurança e as expectativas.

Não, não é coisa de mãe deslumbrada. Pensar em como executar o plano “ser a melhor mãe possível” é o que faz a cabeça mudar; pensar em dar o que há de bom e de melhor para o filho, de ser tudo o que ele vier a precisar na vida nos leva a pensamentos longínquos e profundos, nos faz rever nossos próprios conceitos e ver, enfim, a necessidade imediata da mudança.

Felizmente existem aquelas mães que caem na real rápido e entendem que “conto de fadas não existe”; para elas vem logo a primeira decepção: saber que não serão perfeitas, que errarão, errarão muito e errarão feio. Algumas se culpam logo de cara; outras, como eu, fazem escolhas; essas, se forem observadoras escolherão, sobretudo, dar liberdade para seus rebentos fazerem as próprias escolhas no momento em que estiverem inteiros para escolher, de decidirem ser o que quiserem, de escolher o que quiserem. Não criar expectativas é a maior liberdade que podemos dar aos nossos herdeiros.

Hoje o que eu mais almejo para a filha é uma paráfrase que faço de Sérgio Reis: “querer bem a um filho não significa ajudá-lo a crescer com nossas verdades; mas querer bem a um filho significa ajudá-lo a crescer sem nossas mentiras”.

 

P.S.: Tudo isso também vale 100% para os homens pais, sem tirar nem reparar nenhuma parte da crônica. É mais fácil, para uma mulher, falar no feminino; por isso, saiu assim, meio com cara de excludente. Mas não é.

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Preceito

girl

As doces palavras saem da garganta cortando como vidro. O rosto antes de luz fica sombrio mediante a verdade do que foi preciso dizer. Do outro lado um sorriso escuta condescendente o que não podia mais ser escondido. Ainda que o coração desfaleça frente ao que virá, a pureza desse estranho bem-querer conforta a tristeza que acaba de entrar, de mãos dadas com a solidão do ir.


Nós

yellow-knot.jpgSabe aquela vontade de falar aquela coisa indiscreta, aquela confissão, aquele xingamento, aquela declaração? Tudo aquilo entalado na garganta que você já precisou engolir por causa de diversos motivos? Poisé, essas coisas me pegam de jeito. Me arrastam (não pelo braço, mas pela boca e pelos ouvidos)pra um mundo dentro da minha cabeça, onde uma realidade paralela apresenta tudo que eu realmente queria que estivesse a acontecer. Dentro os nós somem, e posso pensar o que quiser. Mas por fora ainda ficam impulsos quase incontroláveis de dizer, de fazer, de ouvir. É aquele nó nas tripas que dá de vontade de fazer as coisas, se movimentar pra alguma direção, mas que também de deixa amarrada pra não fazer nada. São laços esses bem presentes que condicionam uma vida inteira, que me fazer ficar sentada quando queria estar dançando feito uma louca, e em silêncio quando queria muito dizer alguma coisa. Enrolada em meio a tantas cordas vou criando um novelo de instala-se dentro de mim como se eu fosse sua moradia, me obrigando a lembrar cada fio de história não vivida. Mas, já consciente de minhas amarras, vou tentando me desvencilhar volta por volta, e toda vez que sinto apertar o laço, tento sair da mira e não deixar que se formem os nós, pra permitir a criação de outra coisa menos embolada, menos não-dita-e-não-feita. Algo que seja mais próximo do que eu quero viver. Respiro fundo e tento alguma coisa, talvez não uma performance ao ar livre, nas ao menos uma dancinha, um milímetro mais livre que seja. Escuto um pouco mais a voz de dentro que diz “atue”, e, por um mundo menos amarrado suplico a todos nós:

Desatem


OS CORPOS EM ALTA

Dias atrás tivemos a notícia de que o médico cirurgião plástico Ivo Pitangui deixou este mundo, aos 93 anos. No dia anterior ele fez questão de empunhar a tocha olímpica em um trecho da Gávea, sendo levado por uma cadeira de rodas, misturando-se ao espírito do esporte.
Fazendo uma relação do que esse símbolo da medicina na área que trata da estética ou da reparação com o momento das Olimpíadas, há uma analogia muito grande – atletas e esportistas que desfilaram em quadras, arenas e em todos os espaços onde se realizaram os jogos exibiram corpos musculosos e quase perfeitos, chegando a comparações com Apolo, símbolo da mitologia greco-romana, um dos deuses olímpicos.
A beleza dos corpos, a melhor performance, o desempenho, o desfile de músculos e bom rendimento foram a tônica da Rio 2016, como acontece em provas do gênero. A presença desses gênios da superação e que preparam seus corpos por anos a fio até o momento de exibir suas qualidades, vem nos lembrar o quanto eles dependem de seus suportes físicos.
Voltando a Pitangui, que foi uma referência mundial quando o assunto era plástica, e que mudou a vida de famosos e anônimos, fazendo-os mais felizes na correção de suas deformidades ou feiuras, a beleza para ele era uma forma de harmonizar corpo e espírito, emoção e razão. Ele dizia que buscava a autoestima de seus pacientes e que não era capaz de definir o conceito de beleza, mas sempre que a encontrou soube percebê-la.
Usando a delicadeza da citação de Pitangui, entende-se plenamente que a correção de imperfeições, fazendo as pessoas mais felizes e integradas à sociedade, supera e muito o padrão costumeiro da estética. Seu trabalho de recuperar deformidades causadas por acidentes e de queimaduras, o fez subir mais ainda os degraus do Monte Olimpo.
Logo teremos os Jogos Paraolímpicos, onde uma infinidade de atletas chegaram a essa condição, na superação extrema de dificuldades. Isso é beleza plena e que nos agride com suas perfeições. Acredito que essa deveria ser a visão do nosso grande cirurgião plástico.


Eu não sou todo mundo

Quem é que nunca teve problemas por “estar fora do padrão”?

Estar acima do peso, abaixo da altura, fora daquela faculdade ou não compartilhar do mesmo gosto e atitudes. Existem, na real, muitas outras características que determinam se estamos ou não dentro do que dizem ser o “normal”. Mas o que é que define o que é normal? A maioria das pessoas? Uma pesquisa com resultados elaborada por médicos? Uma média parametrizada de uma parte da população?

Vejamos um exemplo clássico de parametrização médica.

Uma pessoa que sempre teve seus índices de pressão arterial em níveis “mais baixos que o normal”, mas que nunca teve nenhum problema de saúde em decorrência disso. Um médico comum, acostumado aos padrões, faria o quê? Dá remédio pra essa pessoa, tem que subir a pressão para os níveis normais! Dá-lhe pílula disso e daquilo, até que os índices arteriais sobem e sobem mais do que o necessário; “Pára o remédio!”, e a pressão volta a baixar; “Volta o remédio!”, e a pressão torna a aumentar; “Pára o remédio!” e… vá pros quintos dos infernos! Antes tivesse acompanhado para entender qual é o normal daquela pessoa para depois dar um diagnóstico mais assertivo.

Quando eu queria fazer algo que todos os meus amigos faziam – e esse era justamente o meu argumento -, eu recebia de resposta o sonoro e conhecido “você não é todo mundo!”. Então eu aprendi que para mim as coisas seriam sempre muito específicas; quando cresci me dei conta de que seria assim não por ser comigo, mas porque seria assim (ou deveria ser) com todo mundo!

Entendi, assim, que o padrão é algo criado para discriminar, por mais que não pareça. É só pensar que tudo aquilo que estiver fora das características definidas por esse tal padrão será visto com grande diferença, muitas vezes até com preconceito – caso clássico: dizer que “não é normal” ser gay. Pensemos, então: se “ser heterossexual” não estivesse dentro dos padrões da tal normalidade, não seria necessário dizer que ele “ele é hetero” ou “ele é homo”, bastaria dizer ele é. O que ele é? O que quiser, oras! Afinal, a vida é da pessoa, ela escolhe o que der na telha para ser.

“Ser” é, portanto, um empoderamento que poucos têm, poucos conseguem exercer. E este é mais um exemplo de Jesus foi um homem de muitos ensinamentos (considerando, claro, a hipótese dele realmente ter existido): na época, apenas os faraós – e com muitas limitações – usavam a expressão “eu sou”; e diz a história que Jesus, quando interrogado sobre ser o filho de Deus, a resposta dele foi  simples simples e arrebatadora: “eu sou”. Jesus, segundo o livro, sabia o que era, estava empoderado de sua natureza e se fazia valer por ela.

Ou seja: minha mãe estava mesmo certa e isso serve para todo mundo; e quando alguém vier com cara feia me recriminando por qualquer coisa da qual eu não esteja dentro dos ridículos padrões, vou dizer em alto e bom som: eu não sou todo mundo.

 


Tempo

time

Frente ao espelho embasado, impedida de me mover, aguardo os 3 minutos que faltam para ganhar a liberdade da rua. Não há nada que me impeça de sair antes da hora. Apenas a moral. Não há nada que me obrigue a estar. Apenas a ganância pseudo necessária do viver. O dilema de todo dia, quando meus olhos despertam, é saber como vou fingir o que pretendo ser. Encarno a personagem grata, cubro os olhos com a venda do comodismo e saio de casa rumo ao cadafalso antecipado. Em mente tento levar para longe meu espírito enquanto meu corpo aprisionado resiste, inflexível, disciplinado, semi vivo. Olho outra vez o relógio , carrasco. Faltam 2 minutos. Todos os segundos riem de mim.


As voltas que o mundo deu, as voltas que o mundo dá

piao

É curioso como tudo pode se revirar, se desdobrar. Pessoas que você via todos os dias se tornam desconhecidas, pessoas que você não gosta de repente se mostram legais, pessoas que você não esperava te estendem a mão quando poderiam simplesmente desviar da pedra e seguir o caminho. É curioso também ver como a gente se desdobra, se redobra, se origamiza. Como conforme o tempo vai passando, a nossa cabeça (levando todo o resto) passeia por tantas situações, tantos lugares, alguns que a gente sequer imaginava. Abrem-se possibilidades, descortinam-se opções e, por mais clichê que soe, o mundo dá voltas. Às vezes voltas tão compridas, que por um tempo dá a impressão de que está tudo parado, ou que pra sempre continuará. Outras voltas tão rápidas e abruptas que é preciso segurar o chapéu pra que ele não saia voando com o vendaval. Algumas voltas são mansinhas, num outro compasso mais gostoso de acompanhar. Tem umas que viram pra longe, tem umas que voltam pro mesmo lugar. E nesses giros arrítmicos de percorrer do mundo muda-se os chãos e também os viajantes, e ah, como o esperado! Como as coisas vão se desenhando e se deformando de tão sutil maneira, que com um piscar – ou um marejar -de olhos, fica tudo, tudinho, em um outro lugar. Gostos mudam, jeitos mudam, companhias mudam, lealdades mudam, contratos mudam, eu mudei. Troquei até os móveis de lugar na casa, pra combinar com o novo andar da carruagem. Alguns reparos ainda precisam ser feitos pra seguir viagem, algumas bagagens, deixadas pra trás. Uma pitada de coragem na mistura é necessária pra olhar pros lugares feios de dentro, os monstros que vivem na gente (e caminham conosco algumas vezes, também em nossa volta) e escolher atirá-los pela janela, seguir sem com que eles te freiem demais. Pra mim ás vezes é dificílimo, acompanhar as voltas que o mundo deu, as voltas que o mundo dá. Me perco no giro. Me surpreendo com a próxima rodada. Conheço outros outros, e outros eus. As vezes dá um frio na barriga, de pensar o que se tem adiante. Ás vezes esqueço que não ando só, e tenho medo de aonde chegar. Mas não há como negar a beleza que há numa espiral constante, pra frente e avante, traçada no surpreender mais do que no esperar.