(A)corda

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Do alto do arranha-céu, a equilibrista estala seus pequenos dedinhos do pé. Ela dança no fio da navalha, entre perder tudo e ganhar alguma coisa, e vai fazendo faceira as experimentações caminhantes, meio sem rumo certo, meio com o destino traçado. Um passo, para. Um passo, para. Um passo, para. Muda de ideia, salta. Senta na corda bamba e olha la para baixo, pro abismo do medo. Cai ou pula? Se segura. Acorda com a corda que vão se entender. Já no meio do caminho, não sabe se vai ou se volta. Tem medo que se arrebente a linha, tem medo que ela continue inteira. Caminhando descalço, sentindo a planta do pé dolorida, cortada, queimada, as pernas cansadas, a mente a milhão. Quer curar os calos e fazer a dor passar, mas só há descanso depois da caminhada completa. Então se estica toda e faz algumas estripulias no fio, desequilibrada da vida, mas estável no movimentar. Tenta um salto arriscado, um movimento de braço, uma caminhadinha na ponta dos pés, uma pequena dança na corda esticada. Cada balanço é uma fisgada no coração, uma dose de adrenalina. Não sabe se ri ou se chora, não sabe se passa. E nas incertezas vai indo, que uma hora chega. Um passo, para. Um passo, para. Um passo, para. Continua.

A VIDA EXTRAÍDA DA TERRA

Há muito vinha pensando em chamar um jardineiro para dar uma renovada nas plantas do meu terraço. O tempo passava e ia ficando, até que um dia, andando por uma rua vi um homem cuidando do jardim de uma escola e gostei do jeito dele. Parei e, sem muita cerimônia, perguntei se ele fazia serviços em casas particulares e coisa pequena. Ele disse que em alguns intervalos entre um trabalho e outro daria para resolver, mas antes era preciso ver o que seria e fazer uma avaliação. Peguei o telefone dele e fiquei de ligar para agendarmos um horário.
Passados uns dias, liguei e acertamos uma visita. Ele compareceu e deu umas ideias que ficariam bem interessantes, como colocar um lambris no terraço para depois pendurar vários vasos com flores e trepadeiras. Gostei da proposta, mas isso poderia ficar para uma outra data, porque o que eu queria de imediato era mesmo substituir algumas plantas, trocar de vasos, colocar terra nova com adubos e reduzir a quantidade em nome da qualidade.
Aceitou e marcamos a data dos serviços. Chegou munido de sacos de terra, seus utensílios de jardinagem, forro para cobrir o piso e as plantas combinadas. Enquanto ele preparava o terreno para começar, falei que sempre achei a profissão de jardineiro uma combinação muito interessante de trabalho com terapia e que alguns filmes e livros que li exaltavam que esses profissionais eram pessoas especiais.
Ele me ouviu e após completou que ele tinha um sentimento de que sua matéria prima era viva e, por isso, ele tratava com todo o carinho, tal qual um médico cuidando de um paciente doente. Gostei da sua interpretação sobre o que fazia e veio ao encontro do que eu pensava. Deixei-o em paz realizando seu ofício e fui para dentro de casa. De repente, passei a ouvi-lo cantarolar baixinho como ninando uma criança.
Em pouco tempo, ele realizou a transformação do meu terraço e, ao me chamar para pedir que eu olhasse, fiquei encantada. Tudo limpo, verdinho, algumas flores e aquela boa energia resplandeceu por todos os espaços. Era como se as plantas me dessem boas vindas na minha própria casa.
O homem e a natureza quando estão em equilíbrio são capazes de realizar milagres. Bendito homem que semeia a terra!

Mais e mais amor

Hoje foi dia de visitar pessoas importantes na minha vida e dedicar a elas um milésimo da atenção e carinho que, na verdade, elas merecem.

E no final das contas, não foi apenas um dia de visita, mas de dedicação, de  muitas histórias de antigamente e de uma conversa incrível cheia de aprendizado que eu vou levar para a vida toda.

Por que, de tudo o que, no fundo, importa mesmo esse é o caso: estar inteiro para fazer parte da construção de uma vida melhor, seja a de alguém ou a minha mesmo (e a relevância dessa escolha é, claro, a mesma).

Então não foi apenas uma tarde que compartilhei, mas foi amor que nasceu, foram pensamentos que surgiram e borbulharam, todos procurando mais e mais amor.

E no que se depender de tardes como essas, só vai haver amor no mundo.

Regalo

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Longe, em cima do rochedo mais alto do vilarejo, onde anos passados erigiram um cruzeiro, ergueu-se em pau a pique uma casinha caiada de branco. De costas para o sol que se põe, uma janela e uma portinha protegidas do mundo por frouxas tramelas guardam um fogo lento e um silêncio criador. Ambos, cada um em seu canto, folheiam o que mais interessa na vida que querem enxergar. Ele busca nos sábios o entendimento do difícil. Ela vê nas dores outras a estranha beleza de que o humano é feito. Vez ou outra suspiram, seus olhos se encontram e juntos refletem um calmo sorriso. De mãos dadas vão até a janela e observam, embriagados, o sol dourar o mundo lá embaixo. O entardecer encerra outro dia mais importante de suas vidas.

Eu te entendo

Era um recém casal, fazia pouco que se tornara isto, ainda naquele momento de tentando entender as entrelinhas, os tempos corporais, os ritmos de vida um do outro.

Em uma manhã qualquer, ele recebera um convite para uma festa de gala, em que  estariam todos os seus velhos amigos: aqueles com quem não tem contato há muito tempo, aqueles que estão próximos sempre, e aqueles que, mesmo distante há anos, sempre estiveram próximos.

No dia do evento, ele a ajudara a escolher o melhor vestido, o melhor sapato possivel para aquela ocasião. Afinal, ele ainda estava inseguro com o relacionamento, e com o reencontro com todos, na perspectiva de “Como será que aquela pessoa está?”, ele queria aparentar bem, e que ela também assim estivesse.

Ao sair do apartamento, ela, elegante com um vestido lindo e de salto alto, caminhava ao lado dele. Para agilizar as coisas, ele foi caminhando um pouco mais rápido, para chamar o elevador, pois no prédio onde moravam havia uma pequena caminhada e alguns degraus de escada.

Ele chamou o elevador, e ao olhar para trás, viu aquela linda mulher que vinha ao seu encontro, naquele momento descendo as escadas. Ela terminou o caminhar e o abraçou. Ele, sem muito pensar o porquê, pediu desculpas por não a ter ajudado a descer as escadas com o salto. Ela sem entender bem, respondeu okay.

Mal sabia ela que aquelas desculpas eram por todo o conjunto de pensamentos machistas e sexistas que, ainda que bem fugazes, lhe estavam preocupando – e não realmente por não ter lhe ajudado a descer as escadas.

Lidar com o fim (para mim)

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É um trabalho ainda em construção.

É tanta coisa que eu queria fazer, dizer, que me embaralho e fico nessa coisa meio estagnada dando leves toques no freio e ao mesmo tempo, no acelerador. Não sei pra quem escrevo, não sei o que exatamente dizer. Então, falarei pra mim (dentro de todo esse eucentrismo que tem rondado esses últimos textos, destes últimos tempos). Vou me dar um carinho, entre um soluço e outro, pra dizer “você ama muito, eu sei, mas se ama também”.  E aí se olha, se gosta, e para. Para de tentar carregar o mundo nas costas, para de se culpar pelas falhas dos outros, para de remoer pra sempre as suas. É preciso deixar ir. Aquilo que você queria, mas não vai dar pra ser, e aqueles que não querem ficar mais, que não sabem como lidar com você e toda a sua energia. Não se mata, nem se arranha, nem se rasga. Olha pra dentro e se acalenta, se segura, se nina. Deixa a dor vir, e entorpecer todos os outros sentidos. Pode chorar gritado, pode deitar no chão, pode chorar mais um pouco. Pode, porque não tem mais nada; agora é isso, e só. O mundo está ao contrário e você reparou. Só que depois, de talvez ter sido demais. Nem tarde nem cedo, só… Demais. Mas pega todo esse carinho, pega todo esse amor, esse esforço, essa garra, essa força, essa energia e não dá pro primeiro que passar, ou pro segundo, nem pro terceiro. Não joga em cima das pessoas que não aguentam segurar, não persegue na rua feito distribuidor de panfleto. Embrulha pra presente e dá pra você, criatura. Deixa pra trás essa pena de si mesma, essa amargura, essa sensação de mal-amada. Ame-se bem. E sei bem que quem vos fala (sendo eu mesma) ainda não aprendeu a fazer nada disso. Mas se escuta, escreve e lê, outra vez, repete feito um mantra. E aprende que o teu santo é forte, mas precisa de espaço pra te proteger por fora e por dentro. Fortalece teu chão, lava sua casa, inunda por dentro com firmeza pra fora. Sente a força daquelas que vieram antes de você, e que te seguram perseverantes, pra não cair. Joias são belas, mas dão trabalho pra moldar. É muito aquece-esfria-aquece, muita martelada, e ainda assim não há garantia de que vai sair como planejado. Mas, não se abulete tanto, e se enxergue, confie. Tua guia é de ouro menina, e teus caminhos também.

HERANÇAS

Quanto mais maduros vamos ficando, não apodrecemos como uma fruta que cai do pé no seu sentido amplo de maturação. Pode parecer brincadeira, mas não é um prêmio de consolação chegar a entender melhor o que vamos sentindo ao longo do tempo e a mudança de valores que vai acontecendo. Lógico que o corpo vai se deformando, a rigidez vai dando lugar à flacidez, o frescor da juventude fica opaco, os cabelos embranquecem e os órgãos vão falhando surgindo problemas de saúde.
Tudo isso é uma verdade incontestável e, apesar de todos os cuidados que tenhamos com a nossa vida e hábitos saudáveis, os reparos acontecem, mas nunca mais seremos os mesmos. Ainda bem, pois a mente, por outro lado, vai também ganhando mais elasticidade, sabedoria e o que era tão importante antes deixa de sê-lo ou vice-versa.
Uma roupa nova, um sapato extraordinário de marca, uma bolsa, paixão de algumas mulheres, uma jóia ou um relógio no valor de dois salários mínimos ou mais, deixa de ser objeto de nosso desejo. E partimos para outras prioridades – uma viagem, mesmo que seja pelo Brasil, um programa musical, uma matinê de cinema, uma caminhada no fim da tarde com direito a um lindo por do sol e boas conversas com os amigos, aqueles que nos dizem respeito e com quem temos sempre a aprender. Sim, aprender sobre visões de mundo, estilo de vida, troca de informações, falar e ouvir sobre o que somos e nossas experiências. Sem cansar e se repetir, pois isso é outra chatice daqueles que não se tocam e querem sempre ser os protagonistas da roda das conversas. Isso sim é coisa de velho, de ultrapassado e maduro que falei lá acima, pronto a não prestar mais.
Nessa mudança de posturas e gostos, claro está que não mais nos interessamos por muito dinheiro, nem por bens e patrimônios, apenas o suficiente para a curtição gostosa de alguns programas de boas opções. As heranças que recebemos ou que amealhamos ao longo de anos de trabalho devem ser desfrutadas, mas sem ênfase para as mesmas. Agora é viver com simplicidade e as heranças que ficaram mesmo são as genéticas e as éticas, aquelas que foram passadas por nossos país e que deixam as suas marcas para o resto das nossas vidas.
Tentar passar isso para nossos filhos e netos, não com imposição, mas com gestos e jeitos de ser, seria uma forma de deixar uma grande riqueza para eles. O resto é pó.

Criando porcos por um futuro que não chega

Esperamos por notas boas na escola, por amigos legais e companheiros, por um amor perfeito que nos complete. Mais alguns minutos para o próximo ônibus, algumas horas para ligar de volta, alguns dias para marcar aquela visita. Nunca é a hora, nunca é o momento, sempre para depois. Expectativas de um destino melhor, de um futuro promissor nos próximos segundos, entender a consequência como algo natural.

Não ter medo de escolhas. A hora é essa.

Ramerrão

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Começa com o bom dia resmungado, o pão com manteiga amanhecido e o cafezinho de pouco coado. Banho quente, roupa limpa, gás carbônico e o sorriso sempre igual de tudo bem. Vem o meio dia, mais salada menos fritura, um cigarro e  outro para relaxar do stress diário. Soa o apito, afrouxa a gravata e não se sabe se foi mais ou menos um dia. O sol nascendo e se pondo ninguém viu pois afinal isso acontece sempre, faça chuva ou faça ele, todo dia.

Os que tiveram a minha idade

Em nossa espécie, quando voltamos a viver neste planeta, a cada novo ano de vida, recebemos uma nova casca. Trata-se de algo como um exoesqueleto padronizado, de modo que somos todos exatamente iguais fisicamente daqueles que tem a mesma idade que nós. Para nos diferenciar, temos apenas a nossa voz, e nossa personalidade.

Este método nos trouxe alguns beneficios, não temos mais discriminção por qualquer diferença física entre nós – afinal somos todos destes tipos predefinidos, somos realmente tratados como iguais.

No começo, tivemos dificuldade para adaptar, o conceito de família acabou com o tempo e deixamos de ficar atraído fisicamente pelos outros. Tínhamos que conhecer para criar uma atração ou então nos relacionaríamos com qualquer um. Ao longo dos anos, aprendemos a lidar com isso.

Quando eu estava para chegar a fase adulta, aconteceu um assassinato, coisa que não acontecia a mais de 5 mil anos. Para deixar a coisa ainda mais confusa, descobriu-se que uma arma foi utilizada, e armas não existem mais desde que voltamos para este planeta.

Com aquele assassinato, não tivemos como de saber quem realmente tinha morrido, apenas que tinha a mesma idade que eu. Aquilo gerou toda uma mudança nas coisas: para os mais velhos, era como se toda a nossa idade tivesse morrido tambem; para os mais novos, era a idade que não existia.

No olho do furacão tinha uma vaca mascando grama

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Ainda não consegui me livrar do tornado, o que deixa tudo ainda bem bagunçado; o meu quarto e as minhas escritas. Nesses tempos os duendes andam soltos: perde celular, o cartão de banco, vai ao endereço errado, derruba tudo no chão, é abandonada pelo taxi. Desorientada, a bruxa conclui “tem que benzer urgente”.  O caminho ainda não está muito óbvio, mas dá pra se imaginar ao longe ao menos uma estrada de tijolos amarelos. Continuo correndo de um lado pro outro, mas ás vezes paro pra tomar sorvete. É o clássico “Titanic afundando e músicos tocando violino”.

Mas aí no meio do adubo nascem alguns pequenos brotinhos, que dão alegria de ver. Mais do que uma marcha fúnebre no naufrágio, um som alegre de rabeca na canoa. É uma dancinha engraçada aqui, uma tradução capenga de música acolá, um hambúrguer de tarde ou uma pizza de noite. É uma coçadinha na orelha de um gato gordo, ou pirulitos mentirosos, uma cena engraçada na rua, funk no quarto com a janela aberta. Uma pétala amarela no caminho. Parece um respiro entre um mergulho e outro. Mas talvez sejam os mergulhos que intercalem os suspiros, e não o contrário. Então do alto de sua bruxesa, lança-se o feitiço com sua varinha de palito de picolé: ó procê um cadinho de alegria, pra gente continuar a viver.

Brasa que abrasa

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O cansaço era flagrante em seu olhar. O adeus estava pronunciado em seu silêncio. O destino arredou-se de seu futuro e partiu consternado com seu passado. Foi. Veio. Voltou. Acabou. Aposentou-se a verdade, abraçou-se a mentira.

Ela fitou-o no buraco negro de seus olhos. Ele engoliu-a com a fome dos devassos. Dos indomáveis. Acordaram. Nada lembravam. Despediram-se. Nunca mais se viram. A memória fragmentou-se em elipses amorosas daquelas que regamos a uísque.