Arquivo do mês: julho 2016

Solo

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Créditos da imagem: http://www.larrypatten.com

De mãos dadas e olhos nos olhos te peço calada para ficar. Sem me enxergar e a sorrir insiste em partir. Ao virar as costas deixo a lágrima rolar. Sentindo o vazio que se impõe você derrete e escorre, só.

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(A)corda

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Do alto do arranha-céu, a equilibrista estala seus pequenos dedinhos do pé. Ela dança no fio da navalha, entre perder tudo e ganhar alguma coisa, e vai fazendo faceira as experimentações caminhantes, meio sem rumo certo, meio com o destino traçado. Um passo, para. Um passo, para. Um passo, para. Muda de ideia, salta. Senta na corda bamba e olha la para baixo, pro abismo do medo. Cai ou pula? Se segura. Acorda com a corda que vão se entender. Já no meio do caminho, não sabe se vai ou se volta. Tem medo que se arrebente a linha, tem medo que ela continue inteira. Caminhando descalço, sentindo a planta do pé dolorida, cortada, queimada, as pernas cansadas, a mente a milhão. Quer curar os calos e fazer a dor passar, mas só há descanso depois da caminhada completa. Então se estica toda e faz algumas estripulias no fio, desequilibrada da vida, mas estável no movimentar. Tenta um salto arriscado, um movimento de braço, uma caminhadinha na ponta dos pés, uma pequena dança na corda esticada. Cada balanço é uma fisgada no coração, uma dose de adrenalina. Não sabe se ri ou se chora, não sabe se passa. E nas incertezas vai indo, que uma hora chega. Um passo, para. Um passo, para. Um passo, para. Continua.


A VIDA EXTRAÍDA DA TERRA

Há muito vinha pensando em chamar um jardineiro para dar uma renovada nas plantas do meu terraço. O tempo passava e ia ficando, até que um dia, andando por uma rua vi um homem cuidando do jardim de uma escola e gostei do jeito dele. Parei e, sem muita cerimônia, perguntei se ele fazia serviços em casas particulares e coisa pequena. Ele disse que em alguns intervalos entre um trabalho e outro daria para resolver, mas antes era preciso ver o que seria e fazer uma avaliação. Peguei o telefone dele e fiquei de ligar para agendarmos um horário.
Passados uns dias, liguei e acertamos uma visita. Ele compareceu e deu umas ideias que ficariam bem interessantes, como colocar um lambris no terraço para depois pendurar vários vasos com flores e trepadeiras. Gostei da proposta, mas isso poderia ficar para uma outra data, porque o que eu queria de imediato era mesmo substituir algumas plantas, trocar de vasos, colocar terra nova com adubos e reduzir a quantidade em nome da qualidade.
Aceitou e marcamos a data dos serviços. Chegou munido de sacos de terra, seus utensílios de jardinagem, forro para cobrir o piso e as plantas combinadas. Enquanto ele preparava o terreno para começar, falei que sempre achei a profissão de jardineiro uma combinação muito interessante de trabalho com terapia e que alguns filmes e livros que li exaltavam que esses profissionais eram pessoas especiais.
Ele me ouviu e após completou que ele tinha um sentimento de que sua matéria prima era viva e, por isso, ele tratava com todo o carinho, tal qual um médico cuidando de um paciente doente. Gostei da sua interpretação sobre o que fazia e veio ao encontro do que eu pensava. Deixei-o em paz realizando seu ofício e fui para dentro de casa. De repente, passei a ouvi-lo cantarolar baixinho como ninando uma criança.
Em pouco tempo, ele realizou a transformação do meu terraço e, ao me chamar para pedir que eu olhasse, fiquei encantada. Tudo limpo, verdinho, algumas flores e aquela boa energia resplandeceu por todos os espaços. Era como se as plantas me dessem boas vindas na minha própria casa.
O homem e a natureza quando estão em equilíbrio são capazes de realizar milagres. Bendito homem que semeia a terra!


Mais e mais amor

Hoje foi dia de visitar pessoas importantes na minha vida e dedicar a elas um milésimo da atenção e carinho que, na verdade, elas merecem.

E no final das contas, não foi apenas um dia de visita, mas de dedicação, de  muitas histórias de antigamente e de uma conversa incrível cheia de aprendizado que eu vou levar para a vida toda.

Por que, de tudo o que, no fundo, importa mesmo esse é o caso: estar inteiro para fazer parte da construção de uma vida melhor, seja a de alguém ou a minha mesmo (e a relevância dessa escolha é, claro, a mesma).

Então não foi apenas uma tarde que compartilhei, mas foi amor que nasceu, foram pensamentos que surgiram e borbulharam, todos procurando mais e mais amor.

E no que se depender de tardes como essas, só vai haver amor no mundo.


Regalo

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Longe, em cima do rochedo mais alto do vilarejo, onde anos passados erigiram um cruzeiro, ergueu-se em pau a pique uma casinha caiada de branco. De costas para o sol que se põe, uma janela e uma portinha protegidas do mundo por frouxas tramelas guardam um fogo lento e um silêncio criador. Ambos, cada um em seu canto, folheiam o que mais interessa na vida que querem enxergar. Ele busca nos sábios o entendimento do difícil. Ela vê nas dores outras a estranha beleza de que o humano é feito. Vez ou outra suspiram, seus olhos se encontram e juntos refletem um calmo sorriso. De mãos dadas vão até a janela e observam, embriagados, o sol dourar o mundo lá embaixo. O entardecer encerra outro dia mais importante de suas vidas.


Eu te entendo

Era um recém casal, fazia pouco que se tornara isto, ainda naquele momento de tentando entender as entrelinhas, os tempos corporais, os ritmos de vida um do outro.

Em uma manhã qualquer, ele recebera um convite para uma festa de gala, em que  estariam todos os seus velhos amigos: aqueles com quem não tem contato há muito tempo, aqueles que estão próximos sempre, e aqueles que, mesmo distante há anos, sempre estiveram próximos.

No dia do evento, ele a ajudara a escolher o melhor vestido, o melhor sapato possivel para aquela ocasião. Afinal, ele ainda estava inseguro com o relacionamento, e com o reencontro com todos, na perspectiva de “Como será que aquela pessoa está?”, ele queria aparentar bem, e que ela também assim estivesse.

Ao sair do apartamento, ela, elegante com um vestido lindo e de salto alto, caminhava ao lado dele. Para agilizar as coisas, ele foi caminhando um pouco mais rápido, para chamar o elevador, pois no prédio onde moravam havia uma pequena caminhada e alguns degraus de escada.

Ele chamou o elevador, e ao olhar para trás, viu aquela linda mulher que vinha ao seu encontro, naquele momento descendo as escadas. Ela terminou o caminhar e o abraçou. Ele, sem muito pensar o porquê, pediu desculpas por não a ter ajudado a descer as escadas com o salto. Ela sem entender bem, respondeu okay.

Mal sabia ela que aquelas desculpas eram por todo o conjunto de pensamentos machistas e sexistas que, ainda que bem fugazes, lhe estavam preocupando – e não realmente por não ter lhe ajudado a descer as escadas.


Lidar com o fim (para mim)

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É um trabalho ainda em construção.

É tanta coisa que eu queria fazer, dizer, que me embaralho e fico nessa coisa meio estagnada dando leves toques no freio e ao mesmo tempo, no acelerador. Não sei pra quem escrevo, não sei o que exatamente dizer. Então, falarei pra mim (dentro de todo esse eucentrismo que tem rondado esses últimos textos, destes últimos tempos). Vou me dar um carinho, entre um soluço e outro, pra dizer “você ama muito, eu sei, mas se ama também”.  E aí se olha, se gosta, e para. Para de tentar carregar o mundo nas costas, para de se culpar pelas falhas dos outros, para de remoer pra sempre as suas. É preciso deixar ir. Aquilo que você queria, mas não vai dar pra ser, e aqueles que não querem ficar mais, que não sabem como lidar com você e toda a sua energia. Não se mata, nem se arranha, nem se rasga. Olha pra dentro e se acalenta, se segura, se nina. Deixa a dor vir, e entorpecer todos os outros sentidos. Pode chorar gritado, pode deitar no chão, pode chorar mais um pouco. Pode, porque não tem mais nada; agora é isso, e só. O mundo está ao contrário e você reparou. Só que depois, de talvez ter sido demais. Nem tarde nem cedo, só… Demais. Mas pega todo esse carinho, pega todo esse amor, esse esforço, essa garra, essa força, essa energia e não dá pro primeiro que passar, ou pro segundo, nem pro terceiro. Não joga em cima das pessoas que não aguentam segurar, não persegue na rua feito distribuidor de panfleto. Embrulha pra presente e dá pra você, criatura. Deixa pra trás essa pena de si mesma, essa amargura, essa sensação de mal-amada. Ame-se bem. E sei bem que quem vos fala (sendo eu mesma) ainda não aprendeu a fazer nada disso. Mas se escuta, escreve e lê, outra vez, repete feito um mantra. E aprende que o teu santo é forte, mas precisa de espaço pra te proteger por fora e por dentro. Fortalece teu chão, lava sua casa, inunda por dentro com firmeza pra fora. Sente a força daquelas que vieram antes de você, e que te seguram perseverantes, pra não cair. Joias são belas, mas dão trabalho pra moldar. É muito aquece-esfria-aquece, muita martelada, e ainda assim não há garantia de que vai sair como planejado. Mas, não se abulete tanto, e se enxergue, confie. Tua guia é de ouro menina, e teus caminhos também.