Arquivo do mês: maio 2016

Quando acontecer

São muitos os assuntos que viram polêmica em nosso cotidiano; começam e terminam em um tempo cada vez menor, como se disputassem o recorde de menor duração. Também parecem brigar pelo pódium de qual é mais absurdo, qual é prioridade, qual merece mais mensagens e repercussão. Como se fosse isso mesmo que importasse, no final das contas. E logo depois são esquecidos.

Temos inumeráveis filósofos internéticos soltos por aí, todos eles estão sempre transbordando de razão, todos dominam a arte da crítica maior – a Maiêutica -, a arte dominada pelos sábios da antiguidade, como se fossem o próprio Sócrates: falam, falam e falam pelos cotovelos, cobertos de razões facebookianas, disparam memes como se fossem curas instantâneas, mas esquecem que falam pela boca de outrem.

Esquecem que há quem fale primeiro, há quem esconda a fala e há quem esconda a si mesmo na fala dos outros. O que faz dessas filosofias vãs e, na verdade, apenas brigas de ego. Essas brigas, na verdade, nos fazem esquecer do que realmente é o pior, daquilo que, sobretudo, é o mais importante: que não damos valor a quase nada. Pior: de que damos valor às coisas erradas.

Quando esses tais filósofos contemporâneos realmente estiverem dispostos a qualquer mudança, a primeira será de suas próprias mentalidades, de suas próprias ações. Pensar antes de falar; investigar para pensar; observar para investigar.

Quando isso acontecer… Ah… quando acontecer… Será a revolução!

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Bruxa Madrinha

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Olhou vestido. Ajudou na escolha do anel. Provou os docinhos, aprovou o jantar, testou os espumantes e os vinhos. Dispensou a cachaça com canela. Correu para buscar o fraque e colocar o lírio na lapela. No dia marcado, abraçou com força a amiga, que se debulhava em lágrimas em uma dúvida atroz. Não tinha certeza. Tinha medo de não ser ele o homem da sua vida. De estar fazendo burrada. De se divorciar em breve e ser a solteirona mal amada. Decidiu. Não ia subir no altar. Podiam fugir, as duas, fazer aquele mochilão na Indonésia. Foi aí que ela estrebuchou. Gritou e xingou a noiva aparvalhada. “Escuta aqui – dizia enlouquecida – qualquer noivo vai ser o errado, qualquer sim será sem certeza e não importa quão francês o champagne seja por vezes você vai pensar que era melhor ter comido merda. Agora cala a boca, deixa eu arrumar esse rímel borrado e casa. Não me dá essa trabalheira por nada”. Assustada, a menina de branco aquiesceu. Anos depois, ria sem freios daquele esculacho. Sim, já estava na terceira união. Sim, vez ou outra ela comia merda.  Mas então convocava a madrinha, falava e ouvia asneiras e no final das contas concluía que o melhor do casamento eram elas.


QUANDO A COR DIVERSIFICA

No fim do século passado e começo deste, uma tendência ampla e sem antagonismos emergia das várias áreas do pensamento. Pela nova linha, buscava-se o meio das discussões, não as pontas, saindo do oito ou oitenta, do sim ou do não. Começava um processo de mudança para que se atingisse mais objetivos sem as retóricas rígidas. Confesso que isso muito me entusiasmou, por perceber que os fanáticos iam perder espaços, por não conseguirem ver além de suas visões de mundo.
Passadas algumas décadas, notamos que não foi bem fundamentada essa teoria e que lá nas profundezas de seus âmagos, a humanidade tinha ficado com um ranço que agora vem aflorado em várias atividades – políticas, religiosas, culturais, mas muito também por interesses pessoais não revelados.
Bem, não preciso escrever muito sobre isso, pois todos vêm assistindo o que acontece nas esferas do poder de nossas instituições. Nunca se viu tanta controvérsia sobre as questões de gênero, de raça e das tendências políticas, como se não fosse possível uma convivência harmoniosa com todas as categorias sociais.
Saindo dessa fala dos estertores do poder, a publicidade, que sempre trouxe para suas campanhas os momentos mais atuais e suscitando discussões nas suas imagens, também recentemente sofreu severas críticas. Vou dar nome aos bois – a Adidas lançou uma coleção praia, onde colocou modelos negros, para a devida divulgação das peças. Foi uma grita, porque acharam apelativa a campanha, por estarem fazendo uso desses modelos seguindo regras criadas pelas leis de consumo. Ora, a sociedade brasileira é diversificada e a moda é para uso de brancos, negros e pardos, sem entender que há uma tendência racial. Os que respondem pela outra ponta contestariam no caso dos modelos serem todos brancos, pois aí estariam deixando de lado outras representações de raças.
E veio a lembrança da famosa marca italiana United Colors of Benetton, criada em 1965, na região de Veneto, que sempre trabalhou em cima da trilogia cor, qualidade e moda, usando a cor não apenas como sinônimo do colorido de suas roupas, mas universalizando o consumo de seus modelos. A sua polêmica atingiu altos decibeis pela ousadia, irreverência da sua publicidade, mesclando em suas imagens fatos ligados ao racismo, à fome, à Aids, entre outros temas.
Os antropologistas e estudiosos do comportamento humano têm um vasto material a ser analisado, no que se refere às cabeças travadas e que só conseguem ver um ângulo da questão.
Não se trata de ser Benetton, mas vamos colorir o mundo com as várias tendências, desde que sejam éticas e façam bem para a humanidade!


Assume, que dói menos

Se tem uma coisa que as mídias sociais fizeram para o século XXI é a criação de novos ditos populares. E um deles, talvez o que eu goste mais, é aquele que diz “assume, que dói menos”. Ele se faz tão inclusivo que deixa de fora até mesmo conceitos de hipocrisia praticado por seus falantes por que, como todo bom ditado, ele serve para qualquer pessoa em qualquer situação, boa ou ruim, contrária ou a favor.

Mais do que isso, é uma ferramenta psicológica libertadora, que tira as amarras que nos impedem de ser quem somos de verdade, de sentir o que sentimos de verdade. Veja só, se uma pessoa tem preguiça, será melhor para ela mesma se aceitar que é preguiça, tocar o “dane-se” para os julgamentos que vierem e ser feliz com a própria preguiça. Ou então uma pessoa que não entende nada de política e que não quer se dar ao trabalho de pensar, que não faz o mínimo esforço para observar, é então melhor assumir que não liga pra nada e ser feliz com isso.

Quantos desentendimentos bestas seriam evitados, quanto stress desnecessário deixaria de impactar a vida das pessoas e fariam do mundo um lugar mais… mais… aceitável. As pessoas se entenderiam melhor, não teria tanto mimimi, ainda que fosse válido. Talvez até menos separações conjugais, brigas feias nas ruas entre torcedores, discussões políticas infindáveis seriam quase extinguidas se ambos os lados aceitassem o seu próprio defeito. Ah, que difícil…

E se me permitem filosofar um pouco mais, a aceitação nos leva a patamares ainda maiores no âmbito psicológico se entendermos que ela, a aceitação, é o primeiro passo para a transformação em busca do desenvolvimento pessoal, da libertação emocional das travas de um passado remoto que aparecem em nossas ações como, por exemplo, a preguiça.

Errrr, bom… a menos que o seu caso de aceitação seja a preguiça.

Aí esquece.

 


Apartida

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Acordou assustada do pesadelo na madrugada alta. Estava só, como veio ao mundo, em um quarto branco e sem porta. Assim que abriu os olhos enxergou na penumbra o teto, as unhas curtas dos pés e o virol listrado de azul. Suspirou e levou a mão ao coração. Tateou sem encontrar o que buscava. Silêncio e frio reinavam em seu peito. Quando de manhã o sol subiu, já não havia riso. Os lábios colados, o peito tentando arfar e nos braços o desalento de quem não tem o que esperar. O céu ainda era azul, pássaros algazarravam e o vento ventava o ar matinal. Mas nos olhos dela a alegria se afogara em lágrimas, o querer escorreu pelo chão e um sono profundo e sem sonhos chegou para ficar.


TRABALHANDO AS EMOÇÕES

Que tal imaginar que uma criança de escola pública do ensino fundamental comece as suas atividades escolares, todos os dias, com meditação? Isso não é impossível e já vem acontecendo em algumas escolas da capital paulista. É pouco, mas faz parte de um projeto de mudar o patamar da educação, que não concentra seus esforços apenas nessa ação inicial da jornada. É só um começo de mexer com a inteligência emocional e conseguir o desempenho acadêmico com mais eficiência e prazer.
Esse trabalho de exercício de emoções, com várias atividades que transcendem as disciplinas rígidas, vem conseguindo bons resultados nas escolas que implantaram e que vão além das habilidades cognitivas. São convivências em grupo, onde as crianças têm oportunidade de se manifestar e demonstrar suas emoções.
Mas para esse processo ser realizado, o docente precisou também ser introduzido nesse novo paradigma de educação. Foi criado um curso de pós-graduação voltado para inovação educacional, cujo comando está por conta do Instituto Península, que conta hoje com 51 alunos que se preparam melhor para assumirem o papel de educadores com vontade de mudar o mundo, a partir de sua tarefa de desenvolver habilidades socioemocionais com crianças e jovens.
Como seria bom que inovações como essa prosperassem e não ficassem apenas em alguns pontos isolados. Sabemos que a área da educação no Brasil, de fato, precisa de muita atenção e de reformas. Os governos precisam olhar para esse setor, pois ele é a base de tudo e faz a diferença mais à frente na formação de qualquer pessoa.
Pensando também em dar uma sacudida no ensino formal, a Casa do Saber, em São Paulo, está lançando um curso dirigido a jovens de 13 a 18 anos, sob o título de “A arte de pensar”, onde será aberto um espaço de diálogo ao apresentar novas formas de um legítimo pensar filosófico, trazendo outras visões de mundo, que aproximem os participantes das discussões propostas por grandes pensadores, de forma leve e divertida. O curso, pelo custo, não é acessível a maiorias, mas pode muito bem ser utilizado em outros espaços.
Aqui os alunos terão como expressar suas opiniões a respeito de formulações, tais como: o que você espera da vida, que fatores nos fazem ser quem somos, quais as escolhas possíveis a serem feitas, a gente não quer só comida, o que é cultura, o que faço com meus sentimentos, como é possível explicar o mundo. São essas perguntas lançadas sobre eles e a gama das respostas que vão ajudar o jovem a ser uma criatura mais pensante e menos passiva.
Temos que concordar que essas experiências são esporádicas e pequenas, mas servem para cutucar e mostrar que o padrão educacional do nosso país está a merecer reformas globais, pois vem repetindo modelo ultrapassado por longas décadas.


Deus, o romântico

Deus

Deus estava com vontade de desafios naquele dia. Resolveu fazer com que a prática e o romântico se apaixonassem. No primeiro mês a prática tentou ser romântica. No mês seguinte, o romântico tentou ser prático.

O amor padeceu e Deus decepcionou-se. Decidiu então fazer com que a romântica e o prático se apaixonassem. No primeiro mês, o prático terminou a relação e Deus inquietou-se com a praticidade masculina. Resolveu que homens práticos só se apaixonariam por mulheres românticas até que aceitassem que a prática, na teoria era outra. Sujeito romântico esse Deus.