Obra surreal

Remexendo na estante da casa da minha filha, com o objetivo de selecionar alguns livros em português, entre a grande quantidade de títulos em inglês e francês, deparo-me com o livro “Errâncias”, de Décio Pignatari e, qual não foi minha surpresa, quando abro, vejo que existe uma dedicatória a mim feita pelo autor, no ano de 2000. Uma obra editada pelo Senac, com ilustrações, fotos e exaltação a algumas das grandes paixões de Pignatari, na área das artes e do conhecimento, como Volpi, Pound, Peirce, Mallarmé, Borges, Duprat e tantos outros. Os textos selecionados são emblemáticos, mas fruto do pensamento do século XX.

Continuando na garimpagem, encontro o livro de Campos de Carvalho, cujo título “A Lua Vem da Ásia”. Abro e começo a leitura e esta prende atenção, pois nunca se sabe se o protagonista é louco, morando em um asilo ou um terrorista preso em um campo de concentração, tal os desequilíbrios de raciocínio e de mistura de situações e assuntos. Tenho que revelar que não conhecia esse escritor mineiro, que morreu em 1998 e que produziu nada mais do que seis obras.

Li em tempo recorde, nos espaços que sobravam entre uma brincadeira ou choro de criança e em alguns trechos era obrigada a parar e fazer comparações com outros temas. A coisa é tão insandecida que não sabemos se o real é imaginário ou vice-versa. Se é um sonho e se as épocas são objeto de várias vidas, países, idiomas e com muitas figuras históricas e também criadas.

Numa dessas paradas de reflexão, pude entrar na nossa própria história e fazer comparações das grandes cabeças que aludiram o mundo para a frente, num passado recente, com o presente pobre e material. Tenho lido e ouvido alguns vídeos que me chegam pelos meios digitais, e nunca vi tanta bobagem e tanta discussão desprovida de inteligência e de nexo, retóricas verborrágicas, apegos a ideologias que nos tempos atuais nem fazem mais parte da filosofia da nossa política, tal o estado em que tudo se desvirtuou.

E fica aquela pergunta – entre os teóricos mobilizadores e o conteúdo que nos oferece Campos de Carvalho, será que o que vivemos hoje não se assemelharia a uma ficção daquelas inimagináveis?

O material que temos agora favorece a elucubrações e dá chance a descrever um país onde todos os poderes se locupletam num emaranhado intestinal e onde das cabeças saem sujeiras de mau aspecto e cheiro, para não dizer o termo correto.

Poderia ser um país imaginário e, mesmo assim, nos parece um filme real de terror.

Eunice Tomé 


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