Arquivo do mês: abril 2016

Preguiça (Segundo Mario Quintana)

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AMOR QUE FLORESCE

Sensibilidade se demonstra com ações singelas, mas de muito significado. Ela não tinha conseguido estar no enterro de sua avó pela morte inesperada e pela distância que as separava. A ligação, porém, era muito grande e ficou aquela frustração de não fazer as últimas despedidas.
Ficou, no entanto, querendo fazer uma homenagem àquela que sempre amou muito e acabou escolhendo a ligação com a terra e com as forças da natureza. Em sua casa com quintal e muitas árvores e plantas, achou que seria bom ter uma que desse o nome de Maria, comprada e plantada em um local de destaque do jardim. Escolheu uma “Herbe Magic Summer”, que não cresceria mais de 60 cm , mas que ficaria robusta e cheia de flores e já em junho daria a primeira florada. Mas não só isso. Ela fez questão de junto colocar mensagens sob a terra numa caixinha delicada, e que dizia mais ou menos assim: “vovó, seu amor estará sempre em todos os cantos do mundo. Sua presença estará aqui também, em nossa casa e em nossos corações. Te amo”.
O filho dela participou do ritual, pequenino ainda, mas ajudando a retirar a terra e depois cobrir as suas raízes. A sua mãe, também presente, fez a primeira rega e todos se abraçaram ao final, numa cerimônia emocionante. Ela tinha agora a certeza de ter amainado o seu coração, apesar das saudades que sempre carregaria com ela. Pelas janelas de seu quarto e cozinha poderia contemplá-la quando quisesse.
Maria estava lá, corporificada em cores e cheia de vida.


Eu tenho sorte

Uma vez me disseram “você tem sorte”.

Falávamos de trabalho, de oportunidades, de desenvolvimento profissional e aí fiquei sem graça, pois meu colega tinha algumas dificuldades nesse âmbito – e talvez ralasse até mais que eu, no quesito “quantidade de trabalho”. Então fiquei um tanto quanto sem graça, por que sorte não é algo que a gente escolhe ou não ter, não depende da gente… Acho que tive sorte de ter sorte.

Mas aquela conversa ficou na minha cabeça, rondando os pensamentos, encomodando minha calma. Como assim sorte? Eu nunca ganhei um bingo sequer, nunca fui sorteada na escola e das vezes que joguei na loteria, nem trinca eu fiz. Não conheço pessoas influentes, não tenho QI de berço; fui conhecendo gente, fui fazendo e acontecendo, tentando, tentando e tentando.

Espera.

Não deve ter sido sorte não. Eu fui atrás, eu procurei, eu abri meus olhos, braços e ouvidos para o que as pessoas ao redor tinham pra me dizer. bati muito a cabeça, dei alguns murros em ponta de faca, fiz meus sacrifícios. Então não foi sorte, foi estar aberta aos que tinha pela frente, foi de dizer “sim” pra mais coisas, pra coisas diferentes, pra coisas que pareciam não dar em nada.

Então voltei para aquele meu colega, cheia de mim, sabida de que meu trabalho me enobrecia!

– Não tenho sorte! Eu fiz diferente do padrão, fiz por merecer, isso sim.

– Você tem sorte de ter opção pra poder merecer.

Na hora, fiquei sem entender o que aquilo significava, mas depois entendi tudo e mais do que toda a percepção que captei da minha própria história, mais do que aprender com meu passado e me posicionar melhor para o futuro, essa resposta foi a maior lição. Ao voltar para casa, passando pelas favelas do bairro onde moro, notei que muita gente não tem nenhuma chance de fazer diferente para ser merecedor, pois ninguém lhes dará a credibilidade de tentar, ninguém talvez olhe para eles ; muitos não tem sequer opção: é o que tem para hoje, amanhã e sempre.

Ao constatar essa verdade, não consegui sorrir, pois o meu sorriso significava o choro de tantos outros: eu tenho sorte.

 


As Rosas Falam

rosasedilma

 Há poucos dias atrás escrevi sobre como fiquei enraivecida por ter recebido uma flor no dia da mulher. Hoje me deparei com a imagem acima e entrei em conflito comigo mesma ao ser feliz. Eu sorri. E procurei esclarecer essa sensação paradoxal. Começando da conclusão, falam as rosas. Mudas a mostrar que sua delicadeza sustenta a força da esperança na verdade. Belas, pela simetria, a fortalecer nossa crença em alguma calmaria depois da tormenta. O que dita o tom é o contexto. E de onde parte tal mimo oferecido. Nesta segunda feira, 18 de abril de 2016, levantei-me pouco disposta, sentindo em mim a derrota e querendo entender, sem ser por deus ou por uma família, qual o motivo de tanta perseguição ao povo, que sempre teve, para além dele, tão pouco. O dia foi escorrendo e vi outros como eu. Outros que sempre sorriam de volta mas que neste 18 não tinham expressão para dar. Perdidos, absortos, errantes em caminhos que antes eram tão firmes pois os buracos não pareciam assim tão perto. Essa vertigem, depurando daqui e dali, conversando, abraçando, apoiando, foi virando vontade de não deixar só alguém que pode até não ser como nós, mas que está também sendo oprimido, subjugado, escarnecido. Agora, nessa quase quarta feira, eu me sinto com certeza feliz. É o meio da semana, minha labuta pensa em se encaminhar para o fim junto com o baque do primeiro soco que passou. Ando para o lado que escolhi, onde promessas vazias são trocadas pela ação de corações honestos. Em lugar de exaltar a violência, flores são entregues com oferta de abraços. A derrota irônica em lábaro estrelado abre a porta para a luta vermelha, como rosas, que impetuosa mais uma vez começa.

Doze itens

Se há algum momento do dia em que eu realmente sinto a falta de um automóvel é quando faço as compras no supermercado. Sem alternativa que não ir a pé para casa, sou obrigado a controlar a quantidade de coisas que compro, pois, quanto mais eu comprar, mais sacolas terei que carregar. Disso resulta que eu esteja nos supermercados praticamente todos os dias. Normalmente na fila de um caixa-rápido, que, como o nome sugere, é um dos que mais demora. Em parte porque existem pessoas que levam mais do que os dez itens permitidos.

Ah, com que rancor nós, que estamos no fim da fila, olhamos para a cesta de compras das pessoas à nossa frente, calculando mentalmente se aquela quantidade de produtos ultrapassa ou não o limite permitido. Às vezes temos a impressão que sim, porém não falamos nada, esperamos que a pessoa se dê conta ou que o caixa avise, mas talvez fosse melhor extravasar, como aquela senhora que armou um escândalo porque a mulher à sua frente não levava dez, mas doze itens, um aumento de 20% em relação à quantidade permitida.

Reclamou a senhora que aquilo era uma falta de respeito, será que você não leu a plaquinha, onde já se viu, que vá para outro caixa e deixe esse para quem precisa. Mas, para o azar da senhora, a mulher dos doze itens não era de levar desaforo para casa e decidiu responder à altura, ou seja, com a mesma gritaria. Disse que poderia até tirar dois itens da sua compra, mas ir para outro caixa ela não iria, porque na minha frente a senhora não vai passar não, era só o que faltava, quem você pensa que é? A senhora se assustou um pouco com a reação, mas nem por isso baixou o tom e lá ficaram as duas discutindo e trocando ofensas pessoais, uma acusando a outra de estar alterada – enquanto isso, a fila atrás delas só aumentava.

Àquela altura eu já havia levado meus dez itens ou menos para um caixa normal. Gosto bastante quando as normas são respeitadas, mas gosto mais ainda quando consigo me livrar de uma fila sem esperar muito.


Sem obstáculos

Eunice Tomé

Já de há muito tenho percebido que nos países mais desenvolvidos os idosos têm maior mobilização e andam com muita frequência sozinhos pela cidade, até com suas cadeiras de rodas motorizadas e que acionam sem maiores dificuldades. Também pudera, as áreas urbanas são preparadas para oferecer essas facilidades, com meio fio rebaixado em qualquer local de cruzamento, espaços até nos ônibus para acesso com esses pequenos veículos, rampas em todos os lugares e o comércio também preparado para a recepção aos deficientes físicos e aos que não andam com as próprias pernas.

É interessante de se ver essa liberdade e, sem nenhum constrangimento, eles fazem parte do movimento entre os transeuntes. Nesta semana, enquanto eu estava parada em um ponto de ônibus em Londres, pude presenciar uma cena que muito me emocionou. Um casal, cada qual em sua cadeira motorizada, caminhava lado a lado e conversando. Pude ver a expressão de seus olhares e pareciam ter em torno de uns 80 anos. Mas, em uma fração de segundos, consegui imaginar aquela cena retrocedendo quarenta anos, e senti que o mesmo amor permanecia naquela relação, apesar das rugas, dos cabelos brancos, das deficiências pelos tempos decorridos. Eles ainda transmitiam uma leveza e uma juventude.


Abscesso

fundo do poco

Olhava o céu translúcido e via na forma das nuvens o futuro que não tinha. Tal como este, era tudo distante, poroso, pronto a se desfazer perante a qualquer chuva pouca. Com olhos perdidos, garganta em nó, compreendeu que acabara sua fé na vida e que por mais que houvesse para onde olhar, perdera a vontade de ver. E assim o mundo ficou escuro, dia e noite se pareciam e os sonhos vazios não se diferenciavam do vivido. Tudo continuidade do nada. Dormir e acordar eram agora o mesmo lado da moeda.