Útero

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Bateu a porta, sentou no chão, levou as mãos à cabeça e soltou um profundo suspiro retrucado pelo miado do pequenino siamês. Sorriu de leve em resposta. Sentia alívio ali dentro. O inferno ficara do lado de fora. Não quis nem mesmo levar o dedo ao interruptor. Deixou-se amolecer no escuro e no silêncio, sentindo contra si o afagar do bichano. Longos minutos de mente vazia em busca da quietude que o movimento desenfreado da vida perturba ao longo do dia. O mais calma possível levantou-se, buscou na geladeira um copo de leite e tomou um longo gole. Limpou o bigode que não podia ver no pano de prato que tateou. Certificou-se da tranca na porta, deixou pelo caminho bolsa, sapatos, cachecol, rg. Pegou por instinto o velho pijama púbere. Entrou na cama pelos pés, enrroscando-se no cobertor com uma sensação infinda de paz. Fechou os olhos, abraçou os joelhos, sentiu o sono, vieram os sonhos, escape confortador. Tempos ensolarados e risadas infantis em sua mente fundiam-se com flutuações vermelhas e quentes, num conforto protegido sem fim. Ali, em sua casa-ventre, era ninguém outra vez. Sensação serena e feliz de não ter o mundo nas costas mas fazer parte dele. E só.

Sobre Marina Costa

Vegetariana, sagitariana, feminista e humana, emanando energias para que nossa vida nesse cosmo infinito tenha um sentido no fim. Mesmo que seja o de produzir ecos de bons sentimentos e só... Ver todos os artigos de Marina Costa

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