Me deram uma flor no dia da mulher*

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E fiquei muito mal humorada. Me deram também sorrisinhos, elogios, ensaiaram abraços, quiseram ressaltar minha ternura, me comparar com a tal da flor. Bem carrancuda, fiquei a me lembrar das argentinas mortas na semana passada como bichos (ou pior do que bichos) e criticadas por viajarem “sozinhas” (mesmo estando juntas). Me lembrei também de certa notícia que li sobre a “brasileira símbolo LGBT em Portugal” (palavras midiáticas) que a isso se elevou após ser brutalmente torturada e morta por adolescentes. Me passou pela cabeça os homens que mexem comigo na rua como se estivessem gracejando com um amigo de fundo de quintal. Pensei nas brincadeiras que certos meninos fazem a outros meninos se chamando de “maria”, “mulherzinha”, na intenção de se igualando a uma mulher rebaixar a masculinidade que creem possuir e da qual a sociedade os faz tanto se orgulhar. Por pensamentos como esses que os sorrisos dos outros me traziam rugas na testa. Fiquei pensando como pode essa data ser comemorada com rosas e bombons. Pior, como podemos nós mulheres sermos obrigadas, ainda que de forma inconsciente, a sorrir em agradecimento a tal “parabéns”. Eu quero sim um dia da mulher. Quero para mostrar que a grande maioria de nós continua preterida no trabalho, ainda é tratada como símbolo aprisionado do forno e fogão, fadada à instituição do casamento para que a sociedade não nos julgue peso que homem nenhum quis carregar. Quero esse dia para mostrar que continuamos sendo criticadas por viajar sozinha, por beber com as amigas, por usar roupas curtas sem que para isso deem justificativas melhores do que “não é costume de moça”, “mulher direita não faz”, “é perigoso não ter homem por perto”. Eu quero um dia da mulher para todo mundo enfiar goela abaixo os índices de estupro, de violência doméstica, de assédio sexual e esperar que tal indigestão mostre o absurdo dessa celebração oitomarciana enquanto filmes, novelas, jornais e ditos profissionais de muitas áreas continuam ressaltando nossa fragilidade imaginada. O dia 08 de março, caros amigos floridos, é para mostrar que não dá para parar de cobrar um lugar que já era para ser meu. Da sua irmã. Da sua mãe, da sua esposa, da sua amante, da sua namorada, da sua companheira, de suas amigas, avós, tias e primas. Segue meu conselho: ao invés de comprar uma flor, nos ajude a levantar a bandeira da real igualdade entre mulheres, homens, trans, gays, lésbicas e todas as expressões que ser um humano abarca. E não é porque sozinha não damos conta não. É porque pessoa não escolhe gênero. Só que tem gente ainda sem entender que é justamente por isso que não deve escolher pelos outros.

* Crônica originalmente publicada em 08/03/2016.

Sobre Marina Costa

Vegetariana, sagitariana, feminista e humana, emanando energias para que nossa vida nesse cosmo infinito tenha um sentido no fim. Mesmo que seja o de produzir ecos de bons sentimentos e só... Ver todos os artigos de Marina Costa

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