Homens ao mar

A economia campengava e era natural que cada um temesse pelo próprio emprego no escritório. Fazia anos que havia rodadas de demissão, quem ficava trabalhava em dobro ou ficava sem trabalho por dias a fio. Saltar para o desconhecido mundo de quem trabalha por conta própria, pra fazer um paralelo justo, era o equivalente a viajar pra descobrir o novo mundo em 1400 e guaraná com rolha. Um ou outro voltava contando maravilhas do além-mar, mas a maioria desaparecia vitimado por uma das bestas enviadas por Oceano.

Por isso ninguém entendeu porque Pedro propôs ao patrão trabalhar em regime de home-office. Ele viria à empresa uma ou duas vezes por semana, mas no restante do tempo, trabalharia em casa. Receberia por horas e não mais um salário fixo. Pensamos todos: coitado, está agindo por desespero… O patrão irá liberá-lo no próximo corte, afinal, não o verá nunca, lhe será mais fácil dispensá-lo sem nem mais essa nem aquela.

Mas quem não deu pela falta do Pedro não foi só o patrão, fomos todos. Ele aparecia um dia ou outro, ninguém se lembrava se era mesmo duas vezes por semana como o combinado. Até porque ele aparecia sim, todos o conheciam e no dia dos aniversariantes do mês lá estava ele trazendo o refrigerante para a turma.

Muitos cortes vieram e o Pedrão foi o único daqueles tempos que nunca era mencionado pela chefia. Sobreviveu a tudo, mudança de chefia, queda do dólar, retração da zona do euro, ascensão dos comunistas na Espanha, independência do Alasca…

E daí era mais que justo, quisemos fazer uma festa pelos vinte anos do cara na empresa e foi aí que quase caímos pra trás – fazia seis anos que o cara mal dava as caras e não tínhamos notado. Nesse meio tempo, ele foi cursar Espinoza. Um filósofo que dizia que a alegria aumentava a potência do agir, infeliz como todos nós naquele cubículo de poucas janelas e café frio, ele foi cuidar de si – já estava até se organizando pra dar aulas numa faculdade do interior. Ele iria até onde desse…

Foi multado em US$ 30 mil no dia em que faria 20 anos de casa.

Pedrão parcelou a dívida, mas não perdeu o emprego. O seu Zé até se riu, mas precisava dar uma lição no maroto pra não virar moda no escritório. E fizemos a festa, como não?

Vou levantar âncora também.

Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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