Classificação: Inconveniente

Escutei que sou inconveniente quando falo de política.

Confesso: fiquei surpresa com a classificação recebida e então coisas começaram a passar pela minha cabeça, interrogações nasceram e por mais que eu tentasse entender a crítica – por que uma crítica, é sempre um momento de aprendizado sobre si próprio -, mais coisas surgiam e a nenhuma conclusão eu chegava. Depois de vários segundos de cara de paisagem, finalmente perguntei o que a pessoa queria dizer com aquilo.

E foi na resposta que eu tive a maior decepção da conversa, mas também a maior descoberta: “Por que você defende o indefensável e fala o que as pessoas não querem ouvir”.

WinXP

Nos vários segundos em que minha expressão refletia o papel de parede do Windows XP, fui recebendo mais e mais “características” do meu jeito inconveniente, por exemplo: de como eu falo o que incomoda, de como eu mostro as contradições de conceitos rasos, de como eu trago a crítica sensata que ninguém gosta de receber. Li até sobre como a minha imparcialidade política e a responsabilização de ambos os lados é mal compreendida justamente por que, para a massa, não interesa que o “outro lado” também seja sujo, apenas por que o que interessa é aquilo do qual se pode tirar proveito. “Melhor ficar quieta e desistir” foi a sugestão que, cretinamente, recebi.

Depois de mais alguns segundos no XP, esperando a ampulheta parar de girar, cheguei à primeira conclusão: que o indefensável é tido como o que não se quer ouvir, que o indefensável hoje é a não-comodidade, que é a verdadeira revolta com o sistema falido, que é o ímpeto de fazer diferente, de criar nas pessoas o hábito de questionar o que não está certo.

Assim, assumi o indefensável como meu objetivo, minha opção partidária, minha convicção.

Podem contar que continuarei discutindo no facebook, cobrando que se olhe para os dois lados, que levantem motim a favor de direitos e deveres verdadeiramente justos, que não aceitemos a indiferença social cruel; vou continuar puxando as máscaras de rostos bonitinhos, vou continuar elogiando ações em prol do coletivo – e não da maioria -, vou continuar cutucando mocinhos, sim!, por que cutucar bandido é fácil e qualquer um faz.

Pois foi assim que chegamos onde estamos: com milhares de pessoas que preferiram não ser inconvenientes e de fato se calaram e desistiram, deixarando as decisões mais importantes para depois, como se houvesse tempo e soluçã para o depois; delegaram o poder de fato para aqueles que apenas aparentam deter o poder, delegaram as próprias responsabilidades como se cada um não fosse responsável pela sociedade da qual faz parte.

Não vou desistir. Água mole em pedra dura, quem sabe os quadrados não se arredondam?, quem sabe aquela uma pessoa resolva dar um passo pra trás e observar melhor? Essa será a vitória verdadeira e eu prefiro tentar. Ainda bem que não sou só eu, somos muitos que não desistirão.

Que venha a inconveniência.

Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta. Ver todos os artigos de Bia Bernardi

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