Feliz dia de nada

Acordei hoje tendenciosa a não querer parabéns por ser o dia internacional das mulheres. Ainda não tinha me decidido se os aceitaria ou não, afinal a luta e as vitórias que já tivemos são merecedoras de congratulações; porém, ainda há muita mulher que sofre, há muito homem patético, há muito o que mudar.

Mesmo não tendo decidido que partido tomar, hoje foi terça – e eu não estou de férias -, então peguei o carro e fui cumprir um dos meus deveres. Mas algo parecia estranho na direção e quando consegui parar no acostamento, deparei-me com o pneu furado.

Sim, eu me vi numa propaganda de margarina.

Depois dos segundos de raiva pela situação em si, pensei em ligar para o seguro me socorrer. “Epa, tem macaco e chave de roda no porta mala, isso é tudo que se precisa pra trocar pneu. Não deve ser tão dificil assim”, e fui botar a mão na “massa”.

Habilidade eu tinha, mas faltava o conhecimento. Faltava saber como soltar o step, onde apoiar o macaco, como girar o macaco, como fazer o bendito macaco funcionar! E eu me vi, por essa minha ignorância, vítima de um conceito global de fragilização feminina, e percebi que por conta dele ninguém nunca me ensinou como trocar um simples pneu, que por conta dele eu mesma nunca quis aprender por que sempre haveria um homem para me “salvar” de sujar minhas mãos.

O problema é que por causa desse mesmo conceito, milhares de outras mulheres são realmente vítimas: de agressão, de violência sexual, de menosprezo, de ignorância de coisas que importam mais. Meu sofrimento é banal, minha situação é banal, mas foi útil o suficiente para que eu pudesse ter a nítida compreensão de quão sutis são as aceitações do dia a dia e quão mal elas podem vir a nos causar no futuro.

Eu não consegui trocar o pneu, acabei sendo ajudada por um rapaz que se “apiedou” da minha fragilidade, da minha ignorância, e tudo o que me restou foi esperar e ficar muito brava comigo mesma por ter parecido uma pata, parada e só observando como se troca um bendito pneu, como se usa o bendito macaco. Não fui vítima de nada senão de um conceito que ficou na cabeça do rapaz, mas fui conivente com sofrimentos bem, bem piores.

Passei o dia de hoje pensando em como dizer isso às pessoas ao redor, como empoderar mulheres e tirá-las do conceito ao qual foram submetidas e resolvo aproveitar meu espaço aqui para fazê-lo.

Fecho, então, meu texto de hoje sem dar feliz dia de nada a ninguém, pois muitas ainda não tem dias felizes em nenhum dia do ano: elas sofrem e muito, infinitamente muito mais do que eu.

“Não somos vítimas, não estamos fazendo um discurso vitimista.

Estamos apontando o que está errado e dizendo: não mais!”

Nikelen Witter

Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta. Ver todos os artigos de Bia Bernardi

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