Canto de Prisioneiro

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Monika Umba, Cambrigde School of Art

Todos os dias, às 5 da tarde, o silêncio reinava ao iniciar um assoviar doce, melancólico como um pássaro aprisionado em uma jaula sem frestas. Os operários se entreolhavam, sem saber de onde vinha aquela melodia mas poucos minutos depois, ainda perdidos, retomavam sua produção. Ao saírem da fábrica, praticamente esqueciam o ocorrido até as 17 horas do dia seguinte, quando assumiam a mesma postura de dúvida sem ação.

Certo dia ela levantou-se de sua cadeira resolvida a seguir o som. Foi andando de mansinho, com medo de espantar o que quer que fosse que reverberava pelas paredes de fuligem cinza. Ao chegar a uma sala escura, lançou lá dentro seus olhos curiosos e deparou-se com o vigia noturno. Ele parecia ressonar, com o quepe abaixado sobre os olhos, apoiado no encosto do banco de descanso. Mas seus lábios se moviam, produzindo o tristonho assoviar. Ela teve vontade de lhe tocar, sorrir e quem sabe lhe oferecer os braços, em um sinal de compreensão. Mas segurou no ar sua mão e voltou, desolada, para seu lugar. Todos os dias continuou a ouvir o assovio do segurança, agora sem esperanças de que fosse algo mágico a chegar. Do lado de fora, um ipê florescia e secava sem cessar mostrando, invisível para olhos presos, o tempo a passar.

Sobre Marina Costa

Vegetariana, sagitariana, feminista e humana, emanando energias para que nossa vida nesse cosmo infinito tenha um sentido no fim. Mesmo que seja o de produzir ecos de bons sentimentos e só... Ver todos os artigos de Marina Costa

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