Arquivo do mês: março 2016

QUE HISTÓRIA É ESSA?

Não bastasse a polêmica sobre o fechamento de escolas do estado de São Paulo na capital e relocação dos alunos para unidades de outros bairros e, ato contínuo, em represália, a ocupação dessas escolas por alunos e familiares, eis que o Ministério da Educação e Cultura vem acenando para modificar a base nacional curricular, com foco no ensino de história.
A educação anda combalida, de há muito, e chovem acertos a serem feitos em todas as áreas, desde melhor formação dos professores, melhores condições físicas por espaço, bibliotecas, incentivo à pesquisa e respeito pelos alunos. Nesse particular, há que se concordar que os alunos das escolas públicas estaduais tenham razão, quando lutam para não serem removidos para outros prédios, pois não foram nem sequer consultados. Talvez aí, tivessem chegado a um consenso e todos sairiam ganhando.
Por outro lado, a disciplina de história no ensino médio está para sofrer uma mudança. Discussões vêm sendo travadas, o que devem se estender até o primeiro semestre de 2016, antes de entrar em vigor. O que pretendem é inverter a ordem das prioridades em história, começando no primeiro ano com estudos sobre a África, Américas e relações África-Brasil do século XVI até a atualidade; no segundo, com história das Américas e história indígena; e, no terceiro ano, com a história contemporânea do século XX à atualidade (grandes guerras, imperialismo, movimentos migratórios e formação da sociedade brasileira).
Essas propostas, que deverão ainda ser encaminhadas para o Conselho Nacional de Educação, invertem a forma de se estudar a disciplina até então, que começa pela Antiguidade clássica (Grécia e Roma), no ano inicial, depois no segundo ano com a história contemporânea do século XVIII à atualidade (revolução industrial, grandes guerras, conflitos étnicos atuais; para no fim abordar a história da América (culturas indígenas, revoluções latino-americanas e militarismo).
Há grandes controvérsias em cima dessas propostas, que irão afetar cerca de 190 mil escolas públicas e particulares e 2 milhões de professores, os quais consideram que o modelo pode bater de frente com as provas do Enem e os exames de vestibular e da Fuvest, que sempre aparecem com questões visando os períodos que agora estão sendo deixados de lado, como Renascimento, Idade Média, Idade Moderna.
Entendo que querem valorizar primeiro o lugar em que habitamos, de onde viemos e se situando no mundo, a partir dessa eclipse que vai ampliando, mas também não se pode esquecer que as civilizações de todos os tempos e suas conquistas e marcas exercem um papel forte para entender o que somos hoje.
Uma vez ouvi em um curso que fiz (e nem era de história), que uma das disciplinas mais importantes era a de história, pois nela estão contidos todos os registros, experimentos, causas das divisões do mundo, poderio econômico, político e toda a cultura dos povos. Nada fica de fora de seu ângulo de ação. Acredito piamente nessa afirmação.

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Entre a desilusão e a negação

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Fotos Públicas

Acho que o Brasil está naquele ponto entre a desilusão e a negação. Para onde vai daí, para um lado ou para o outro, vai definir como serão os próximos anos da vida política do país. A desilusão pode ser pedagógica. Já o foi em outros carnavais da política brasileira. A negação, por seu turno, é perigosa. Ainda que faça parte do processo de luto que, de uma forma naturalmente tempestuosa, acomete a visão de mundo de muitos brasileiros.

Uma médica que se recusou a atender a filha de “uma petista” e pessoas que votaram em Michel Temer, que compunha chapa com Dilma Rousseff, o atacando e chamando-o de “golpista” são dois extremos de um destempero crescente no país que reiteradamente dá sinais de imaturidade democrática, ainda que as instituições pareçam seguras e sólidas o suficiente.

Percebo uma guerra de desinformação articulada com tanto esmero nos corredores do poder – e esses corredores compreendem também a mídia – que sobrepuja o impulso de informar. Mas essa responsabilidade recai, majoritariamente, sobre o governo que, instado a se defender, lançou mão de uma retórica socialmente convulsiva e que afronta as instituições democráticas brasileiras.

Não pretendo discutir a legalidade desse ou daquele ato de quaisquer parte que seja. Fazê-lo seria me desvincular do objetivo deste artigo que é atentar para o obscurantismo que mergulhamos, todos, neste momento da conturbada agenda política do país. Exageros estão sendo cometido de todas as partes. O Brasil faz o brasileiro passar vergonha e vice-versa.


Útero

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Bateu a porta, sentou no chão, levou as mãos à cabeça e soltou um profundo suspiro retrucado pelo miado do pequenino siamês. Sorriu de leve em resposta. Sentia alívio ali dentro. O inferno ficara do lado de fora. Não quis nem mesmo levar o dedo ao interruptor. Deixou-se amolecer no escuro e no silêncio, sentindo contra si o afagar do bichano. Longos minutos de mente vazia em busca da quietude que o movimento desenfreado da vida perturba ao longo do dia. O mais calma possível levantou-se, buscou na geladeira um copo de leite e tomou um longo gole. Limpou o bigode que não podia ver no pano de prato que tateou. Certificou-se da tranca na porta, deixou pelo caminho bolsa, sapatos, cachecol, rg. Pegou por instinto o velho pijama púbere. Entrou na cama pelos pés, enrroscando-se no cobertor com uma sensação infinda de paz. Fechou os olhos, abraçou os joelhos, sentiu o sono, vieram os sonhos, escape confortador. Tempos ensolarados e risadas infantis em sua mente fundiam-se com flutuações vermelhas e quentes, num conforto protegido sem fim. Ali, em sua casa-ventre, era ninguém outra vez. Sensação serena e feliz de não ter o mundo nas costas mas fazer parte dele. E só.

Felicidade absoluta

Ao lado do cartaz de “Silêncio”, na casa de repouso havia outro, “Não aceite sorvete em um primeiro encontro”. Para quem vinha visitar os parentes mais idosos, o anúncio parecia absurdo ou talvez, quem sabe, alguma brincadeira interna. Mais adiante, no corretor para a sala de pintura, havia outro que recomendava “Leve seu próprio café quando for à biblioteca”.

O diretor hesitou muito em autorizar aqueles avisos, mas ele havia recebido a visita de dois investigadores da polícia que haviam insistido sobre aquilo. A “viúva negra” havia cumprido sua última pena e estava solta novamente. Rumores de que ela voltara à ativa deixaram o departamento em estado de alerta. O delegado consultou a polícia federal que indicou a necessidade de um intenso trabalho preventivo.

Porém, os parentes não haviam sido avisados sobre os trabalhos. E acharam um absurdo. Uma filha se queixou que o pai não era nenhuma criança para ser proibido de aceitar doces de desconhecidos. E ela ainda disse que o pai poderia aceitar o que quisesse de quem quisesse porque ele era um homem lúcido e, no mais, poderia comprar o que quisesse com a mesada que ela lhe deixava todas as semanas.

O pai ria por dentro, sem disfarçar muito. Não disse nenhuma palavra pra defender o diretor ou apoiar a filha. Eles que eram brancos que se entendessem, de onde ele estava agora, ele era plateia do circo e queria mais era continuar vendo o fogo tomar conta.

Um filho advogado da dona Cléo, que ocupa um dormitório no segundo andar, achou que a história era um mero conto de policiais ineptos até para disfarçarem a própria incompetência. Não havia lido nada nos jornais sobre a fuga de nenhuma “viúva negra” e a mãe dele não era nenhuma ingênua. Ela que fizesse amizade e saísse com quem quisesse.

A neta do velho Heffner, aquele safado que havia criado uma revista pornô décadas atrás, foi das poucas que apoiou a iniciativa da direção do instituto. Não faltavam mulheres sem-vergonha querendo fazer o coitado do avô se desfazer do espólio, por isso a família o abrigou num lugar discreto, onde ele ficasse protegido da maldade do mundo. Aliás, justamente por proteção ao patrimônio, digo ao idoso, lá todos o conheciam por Jeremias. Por via das dúvidas, Jeremias passou a ser seguido em suas caminhadas no fim da tarde por dois seguranças à paisana.

Susanah, a viúva negra, porém, ainda tem algum dinheiro na poupança. E pode sondar o terreno antes de soltar seu charme no próximo solteirão. Ela sabe que a polícia está à espreita. O tempo é seu amigo, com 65 anos parecia ter dez a menos – era o que todos diziam. De consciência tranquila, justificava-se dizendo que amava seus ex-companheiros.  “Dou a pobres homens solitários seus últimos dias de felicidade absoluta. E eles querem me retribuir, que mal tem se eu aceito esse carinho deles? No fim, eles morrem disso, de felicidade, tadinhos”, disse ela toda cândida ao juiz de seu último caso.

 

Inspirado na notícia: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2016-03-21/uma-criminosa-esta-morando-na-comunidade-a-volta-da-viuva-negra-da-web.html


UM NOVO TEMPO

Nas noites mais longas, onde o espírito se desprende para outros espaços, encontro você nos caminhos do equinócio e voltamos ao tempo do austral, quando nossas epidermes trocavam carícias e nos envolvíamos em mesclar desejos.
Forças da natureza e que, assim como as árvores, simbolizam que nos despimos de folhas que amarelecem e ganhamos novos contornos para anunciar outras investidas. Renovamos energias para seguir adiante, como se eterno fosse esse estado, mas sabíamos que não duraria mais que algumas temporadas. Hoje, nesse átimo de reviver esse passado, a certeza de que minha árvore frondosa gerou muitos amores – intensos e curtos.
Da noite veio o dia, e o sol, mesmo com menos intensidade, atingiu as linhas do Equador. Meu hemisfério, assim como o Sul, estava integrado e pronto para abraçar e entender os mistérios que nos movem levados por essa eterna metamorfose.
No primeiro olhar pelas frestas da janela, o sonho me trouxe para a realidade e divisei que algumas folhas dançavam nas calçadas, indo e vindo. Entendi que estava no outono, me solidarizando com as lembranças e ganhando espaço para, mais adiante, chegar ao solstício do inverno.


Sem textão porque o Brasil não merece

Não vou escrever textão. Ando, inclusive, meio desgostoso até mesmo de escrever textinhos. O Brasil já não era para principiantes nos tempos de Tom Jobim. Mesmo veteranos hão de se inquietar com os rumos que o país experimenta. Neste momento, e vou ficar nesta provocação simplesmente porque me falta a disposição para elaborar, percebo estar em curso um movimento para pôr fim à Operação Lava Jato. Ou esvaziá-la de seu impacto.

O Brasil, tanto quanto democracia quanto como sociedade, parece se recusar a crescer. A sina de conflagrar tudo em um conflito ideológico mais raso do que a concepção de ideologias políticas clássicas permitem ao brasileiro contemporâneo filtrar me parece tergiversar complemente o debate moral que deveria estar instruindo todos os outros.

Mas paro por aqui, a internet anda um tanto arredia a pensamentos complexos que não se encaixem à simplicidade das oposições.


Os porcos rejeitam pérolas

Com essa coisa toda de cada um dizer o que quer, fica difícil alguém querer ouvir. A briga nasce no âmbito de quem tem mais razão, cresce no ego e morre no silêncio. É tanto certo-errado que as pessoas acabam optando pela política do achismo, na qual todo mundo professa qualquer coisa por que todo mundo aceita qualquer coisa, além do quê, é bem mais fácil do que pensar.

Pensar exige esforço, pesquisa, determinação e raciocínio e as pessoas estão cansadas, enfadadas por conta de tanta informação e pensar também cansa e cansado por cansado, a escolha é sempre ficar onde se está. Morrer encostado é sempre menos traumático e mais confortável…

Então quando a gente – que não se encosta – quer desencostar os encostados, acontece quase que uma hecatombe: fazem cara feia, gritam, esperneiam, desacreditam das nossas palavras e até se sentem ofendidos pela proposta.

Trazer o novo a quem não enxerga o novo é uma tentativa de transformação do futuro, ousada e pretenciosa. Porém, trazer o novo a quem não quer enxergar o novo é a mesma coisa que oferecer carne a um vegetariano: não faz o mínimo sentido, parece contradição, é patético.

Porcos não querem pérolas, não adianta oferecer. Melhor guarda-las para quem seja capaz da mudança, enxergando um tijolo e não uma pérola.

perola porco