A senhora está gripada?

Foi apenas isso, rigorosamente isso, que ele perguntou. E não tanto porque se preocupava com a saúde daquela senhora, mas simplesmente para ser simpático e não limitar aquele casual encontro de vizinhos aos cumprimentos apressados de todo dia. Como notasse que a voz dela saia meio anasalada, achou que seria oportuno perguntar se estava gripada. Tudo levava a crer que sim, de modo que a sequência daquela conversa era bastante previsível: ela confirmaria, reclamaria alguma coisa sobre a mudança de temperatura, ele concordaria, lembraria de outras pessoas que andam meio gripadas e talvez fizesse alguma pequena recomendação médica. E logo se despediriam e iriam cada um cuidar da sua vida.

O que ele não esperava era que a senhora saísse do roteiro, a começar por negar que estivesse gripada. E, como necessitava de uma explicação, acrescentou que aquilo era nervosismo. O homem não entendeu e ela precisou contar por que estava nervosa, mas seria melhor se não tivesse contado nada, porque logo nas primeiras palavras começou a chorar e soluçar.  Não se entendia muita coisa, mas ela falava sobre um carro que podia perder graças a má-fé de uma concessionária. E ela não podia ficar sem aquele carro, já não tinha mais idade nem saúde para ir a pé até os lugares – tudo isso ela ia confessando em meio as lágrimas.

Jogado no meio de uma aflição que não era a sua, o homem olhou ao redor para se certificar de que nem o porteiro nem algum vizinho percebiam a cena. Não sabia o que dizer e tudo o que lhe ocorreu foi um “vai dar tudo certo”, que no fundo queria dizer “pare de chorar e me deixe ir embora”. A senhora falou que iria pedir ajuda a uma filha, e ele aprovou a ideia, claro, claro, fale com a sua filha, ela vai saber resolver, vai dar tudo certo, você vai ver. Mas ainda demorou até que a senhora se acalmasse, pedisse desculpas e fosse embora.

Ele respirou aliviado, voltou a caminhar para o seu apartamento e, antes de abrir a porta, espirrou.

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