Arquivo do mês: fevereiro 2016

Conveniências

buque

“Pela lei os declaro marido e mulher”.

Nem mesmo se entreolharam. Ele fingiu ocupar-se da caneta. Ela levou a mão à fronte numa alusão febril. Do mesmo modo que entraram saíram e ainda que o peso do estado civil tivesse sido alterado, a vida do lado de fora parecia clara e comum como antes. Apertaram-se as mãos e sorriram aliviados. Afinal então as obrigações com um mundo que não era deles não causaria tanto estrago assim.


Na fila do caixa

Com uma cesta cheia de mercadorias, eu me detinha analisando qual era a menor fila para pagar. Por fim escolhi uma em que havia apenas uma mulher à frente. E que não estava comprando nada, apenas fazendo recarga no celular – aparentemente no celular de toda a família. Acabei desistindo e procurando outra fila, onde, por sorte, não demorei a ser atendido. A caixa era uma jovem bonita com os seus 21, 22 anos. Pareceu-me bastante simpática e esforçada. Teve muito trabalho com o leitor de código de barras, que não lia o produto direito. Sem querer, passou duas vezes o meu iogurte. Isso causa um problemão, porque não é qualquer um que pode cancelar um produto. É preciso chamar alguém com senhas, chaves e segredos. A caixa pediu desculpas pela demora e eu tentei mostrar que não estava aborrecido. Resolvido o problema, consegui finalizar minhas compras. Ou quase. Porque ela não tinha duas notas de dois que precisava me dar como troco. E lá foi a caixa chamar alguém para trocar o dinheiro.

Se ela fosse uma pessoa grosseira, como de vez em quando encontro nos supermercados, provavelmente eu já estaria irritado. Mas eu havia gostado daquela moça, em quem passei a reparar melhor enquanto esperava. Vi um anel de compromisso em seu dedo. Será que um caixa de supermercado ganha o suficiente para casar? Perguntei-me o que significava para ela estar nesse emprego. Não imagino que seja o sonho de alguém. O que será que ela espera fazer durante a vida? Ela deve saber fazer alguma coisa muito bem, só que ainda não deram uma oportunidade. Eu próprio, cansado por não encontrar emprego algum na minha área, já pensei em largar tudo e ir trabalhar no mercado da esquina. Caso isso acontecesse, é possível que eu fosse exatamente um desses caixas grosseiros de quem hoje reclamo. E, no entanto, aquela moça em especial era a simpatia em pessoa.

Recebi, enfim, o dinheiro, mas depois achei que devia ter ido embora sem ele. Há caixas que bem merecem uma gorjeta.


COMENDO FOGO

A gente engole cobras e lagartos, faz boca de sapo, come cru ou come quente, queima a língua, finge gostar do paladar, degusta até arrepiar e por cima ainda tem que sorrir.
Estamos sujeitos a tudo isso, por incrível que pareça e, queiramos ou não, interpretamos alguns desses papéis indigestos. Por escolha, por obrigação ou educação? Por conveniência ou interesse mesmo? Um pouco de cada no equilíbrio do cardápio diário.
Outro dia, em um dos cruzamentos urbanos, na parada do sinal vermelho, um rapaz bastante novo simplesmente comia fogo, além de fazer malabarismos com bastões incandescentes. Nos poucos segundos daquela parada fiquei a olhar a criatura que, para sobreviver optara por essa tarefa tão singular, tal qual um circense , fazendo seu show para ganhar uns trocados.
Esse sim era um prato misturado a querosene, pronto para derrubar qualquer cristão e capaz de deixar qualquer insensível com um aperto na garganta ou com vontade de regurgitar.
Pode ser por culpa do desemprego que está levando a esses caminhos árduos. Logo poderemos ter outras “profissões”, como o faquir, o atirador de facas e sua modelo, o domador de leões, todos saindo das arenas do circo para o palco do dia a dia.
Para o comedor de fogo não pude deixar de mostrar minha solidariedade, entregando-lhe algumas notas. Reconheço que muito pouco para um risco tão deprimente, enquanto alguns conterrâneos, sem nenhum esforço, usam bocas muito grandes para abocanhar muitos milhões, se empapuçam e depois se fartam nas orgias de gabinetes.


… Do que poderíamos ter sido

flickr

O pensamento lá em você não me deixa esmorecer

Quando o inverno se assenta rigoroso

O sentimento teima em amanhecer

Na minha vida em oposição a tua

Não vou negar que penso no teu sorriso

Na tua essência, no teu brilho

Que minha luz pisca hesitante

Diante de toda a tua certeza

Não sou poeta, mas sinto

Não sei chorar, mas entristeço mesmo assim

Do vai e vem da lembrança tua

Me compadeço do que poderíamos ter sido


Pikachu, eu escolho você!

Adoro casamentos, sou romântica à moda antiga e gosto desse rito de passagem.

Gosto, em especial, de observar aquele que fica esperando no altar: sua tentativa de achar que, antes do casamento, está tudo certo, de esconder sua ansiedade e medo, de parecer ser a pessoa mais forte do mundo todo. A gente que está do lado de fora sabe que é tudo bobeira; os que já passaram por isso, sabem também que o melhor – e também o pior – ainda está por vir.

E a parte mais romântica de toda a festança é, claro, o momento das declarações.

Já vi de tudo: promessas infinitas, juras profundas, repetições, repetições e repetições. Mas fiquei surpresa com a última que escutei; foi de tamanha simplicidade que até me pareceu um jogo de pokémon, no momento ápice em que o melhor companheiro de luta é escolhido para seguir adiante em busca da vitória juntos.

pikachu

Pikachu, eu escolho você!

Mas era uma morena especial que estava ali, na frente da cara boba do noivo, que por sua vez estava feliz e confiante de que havia feito a escolha mais acertada da vida: amar  sua melhor companheira de luta.

Pena que com a praticidade do cotidiano esse sentimendo de doação e companheirismo se perca tão facilmente, que os olhos ceguem e não deixem que se perceba o que significa escolher alguém para dividir tudo aquilo que se pensa como vida e futuro.

Fato é que ninguém é obrigado a casar-se, já passamos dessa fase da sociedade e nessa escolha também há muita felicidade e satisfação, quer vocês queiram ou não acreditar.

Careta? Que seja!

Pensando bem, dá pra reparar que a dedicação em uma relação de casamento é praticamente uma questão da Física e também de matemática, tem raciocínio lógico e fácil entendimento: para cada ação, haverá uma reação. Agora, se a reação será positiva e benéfica, o caso muda o ponto de observação e passa a ser parte de outra questão: de escolha.

Tipo pokémon.

 

 

 


Livro, filho e árvore

Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho. Regiane cresceu sabendo que esses três marcos definiam uma vida completa. Ela virou a página dos vinte e poucos para os trinta e tantos e a pressão só aumentava.
O livro. Ela escreveu. Era a transcrição mais bem acabada do diário que redigiu durante a faculdade. Não havia autora brasileira com nada semelhante. Ela seria a Lena Durhan dos trópicos. Não fosse esse diário pra dar uma acochambrada, ela teria um romance histórico pela metade mais uma página, o que ainda configura uma clara maioria.
O filho. Ela tinha arrumado um namorado. Moravam juntos até. Os cunhados, irmãos de ambos, viviam procriando. Não, não eram beneficiários do Bolsa Família, apenas namoraram, casaram e filhos. Regiane e Ermano ainda nem conheciam o Azerbaijão e iam pensar em ter filhos? Para não ser lembrada disso todo instante, ela entuchou todas as roupinhas que ser futuro bebê herdou dos priminhos em uma mala em cima do guarda-roupa.
A Árvore. Até nisso a Regiane falhou. Ganhara um pé de Abacate em um vasinho para plantar na casa nova. Ela regou, colocou nos sol, depois tentou na sombra. Uma a uma as folhas ressecaram e morreram. A terra perdeu sua cobertura de húmus e craquelou. Só pra constar, até os abacates da fruteira Regiane perdeu aquele ano. Ela conversou com o abacateiro. Explicaria que muito mais do que a vida de estaria em jogo ali. Ela podia citar, assim de cabeça, a diminuição do efeito estuda e da poluição do ar, a oferta de sombra para sua cadela, Martinha, dar abrigo aos passarinhos, frutos que poderiam gerar outras árvores… Quantos já foram? Se nada funcionasse, Regiane estava preparada para abandonar o seu orgulho:  aquela arvorezinha teria que viver por ela, pra ela olhar pela janela e saber que algo que ela fez deu certo, mesmo que fosse graças a chantagem emocional.


A senhora está gripada?

Foi apenas isso, rigorosamente isso, que ele perguntou. E não tanto porque se preocupava com a saúde daquela senhora, mas simplesmente para ser simpático e não limitar aquele casual encontro de vizinhos aos cumprimentos apressados de todo dia. Como notasse que a voz dela saia meio anasalada, achou que seria oportuno perguntar se estava gripada. Tudo levava a crer que sim, de modo que a sequência daquela conversa era bastante previsível: ela confirmaria, reclamaria alguma coisa sobre a mudança de temperatura, ele concordaria, lembraria de outras pessoas que andam meio gripadas e talvez fizesse alguma pequena recomendação médica. E logo se despediriam e iriam cada um cuidar da sua vida.

O que ele não esperava era que a senhora saísse do roteiro, a começar por negar que estivesse gripada. E, como necessitava de uma explicação, acrescentou que aquilo era nervosismo. O homem não entendeu e ela precisou contar por que estava nervosa, mas seria melhor se não tivesse contado nada, porque logo nas primeiras palavras começou a chorar e soluçar.  Não se entendia muita coisa, mas ela falava sobre um carro que podia perder graças a má-fé de uma concessionária. E ela não podia ficar sem aquele carro, já não tinha mais idade nem saúde para ir a pé até os lugares – tudo isso ela ia confessando em meio as lágrimas.

Jogado no meio de uma aflição que não era a sua, o homem olhou ao redor para se certificar de que nem o porteiro nem algum vizinho percebiam a cena. Não sabia o que dizer e tudo o que lhe ocorreu foi um “vai dar tudo certo”, que no fundo queria dizer “pare de chorar e me deixe ir embora”. A senhora falou que iria pedir ajuda a uma filha, e ele aprovou a ideia, claro, claro, fale com a sua filha, ela vai saber resolver, vai dar tudo certo, você vai ver. Mas ainda demorou até que a senhora se acalmasse, pedisse desculpas e fosse embora.

Ele respirou aliviado, voltou a caminhar para o seu apartamento e, antes de abrir a porta, espirrou.