Conveniências

buque

“Pela lei os declaro marido e mulher”.

Nem mesmo se entreolharam. Ele fingiu ocupar-se da caneta. Ela levou a mão à fronte numa alusão febril. Do mesmo modo que entraram saíram e ainda que o peso do estado civil tivesse sido alterado, a vida do lado de fora parecia clara e comum como antes. Apertaram-se as mãos e sorriram aliviados. Afinal então as obrigações com um mundo que não era deles não causaria tanto estrago assim.

Na fila do caixa

Com uma cesta cheia de mercadorias, eu me detinha analisando qual era a menor fila para pagar. Por fim escolhi uma em que havia apenas uma mulher à frente. E que não estava comprando nada, apenas fazendo recarga no celular – aparentemente no celular de toda a família. Acabei desistindo e procurando outra fila, onde, por sorte, não demorei a ser atendido. A caixa era uma jovem bonita com os seus 21, 22 anos. Pareceu-me bastante simpática e esforçada. Teve muito trabalho com o leitor de código de barras, que não lia o produto direito. Sem querer, passou duas vezes o meu iogurte. Isso causa um problemão, porque não é qualquer um que pode cancelar um produto. É preciso chamar alguém com senhas, chaves e segredos. A caixa pediu desculpas pela demora e eu tentei mostrar que não estava aborrecido. Resolvido o problema, consegui finalizar minhas compras. Ou quase. Porque ela não tinha duas notas de dois que precisava me dar como troco. E lá foi a caixa chamar alguém para trocar o dinheiro.

Se ela fosse uma pessoa grosseira, como de vez em quando encontro nos supermercados, provavelmente eu já estaria irritado. Mas eu havia gostado daquela moça, em quem passei a reparar melhor enquanto esperava. Vi um anel de compromisso em seu dedo. Será que um caixa de supermercado ganha o suficiente para casar? Perguntei-me o que significava para ela estar nesse emprego. Não imagino que seja o sonho de alguém. O que será que ela espera fazer durante a vida? Ela deve saber fazer alguma coisa muito bem, só que ainda não deram uma oportunidade. Eu próprio, cansado por não encontrar emprego algum na minha área, já pensei em largar tudo e ir trabalhar no mercado da esquina. Caso isso acontecesse, é possível que eu fosse exatamente um desses caixas grosseiros de quem hoje reclamo. E, no entanto, aquela moça em especial era a simpatia em pessoa.

Recebi, enfim, o dinheiro, mas depois achei que devia ter ido embora sem ele. Há caixas que bem merecem uma gorjeta.

COMENDO FOGO

A gente engole cobras e lagartos, faz boca de sapo, come cru ou come quente, queima a língua, finge gostar do paladar, degusta até arrepiar e por cima ainda tem que sorrir.
Estamos sujeitos a tudo isso, por incrível que pareça e, queiramos ou não, interpretamos alguns desses papéis indigestos. Por escolha, por obrigação ou educação? Por conveniência ou interesse mesmo? Um pouco de cada no equilíbrio do cardápio diário.
Outro dia, em um dos cruzamentos urbanos, na parada do sinal vermelho, um rapaz bastante novo simplesmente comia fogo, além de fazer malabarismos com bastões incandescentes. Nos poucos segundos daquela parada fiquei a olhar a criatura que, para sobreviver optara por essa tarefa tão singular, tal qual um circense , fazendo seu show para ganhar uns trocados.
Esse sim era um prato misturado a querosene, pronto para derrubar qualquer cristão e capaz de deixar qualquer insensível com um aperto na garganta ou com vontade de regurgitar.
Pode ser por culpa do desemprego que está levando a esses caminhos árduos. Logo poderemos ter outras “profissões”, como o faquir, o atirador de facas e sua modelo, o domador de leões, todos saindo das arenas do circo para o palco do dia a dia.
Para o comedor de fogo não pude deixar de mostrar minha solidariedade, entregando-lhe algumas notas. Reconheço que muito pouco para um risco tão deprimente, enquanto alguns conterrâneos, sem nenhum esforço, usam bocas muito grandes para abocanhar muitos milhões, se empapuçam e depois se fartam nas orgias de gabinetes.

… Do que poderíamos ter sido

flickr

O pensamento lá em você não me deixa esmorecer

Quando o inverno se assenta rigoroso

O sentimento teima em amanhecer

Na minha vida em oposição a tua

Não vou negar que penso no teu sorriso

Na tua essência, no teu brilho

Que minha luz pisca hesitante

Diante de toda a tua certeza

Não sou poeta, mas sinto

Não sei chorar, mas entristeço mesmo assim

Do vai e vem da lembrança tua

Me compadeço do que poderíamos ter sido

Pikachu, eu escolho você!

Adoro casamentos, sou romântica à moda antiga e gosto desse rito de passagem.

Gosto, em especial, de observar aquele que fica esperando no altar: sua tentativa de achar que, antes do casamento, está tudo certo, de esconder sua ansiedade e medo, de parecer ser a pessoa mais forte do mundo todo. A gente que está do lado de fora sabe que é tudo bobeira; os que já passaram por isso, sabem também que o melhor – e também o pior – ainda está por vir.

E a parte mais romântica de toda a festança é, claro, o momento das declarações.

Já vi de tudo: promessas infinitas, juras profundas, repetições, repetições e repetições. Mas fiquei surpresa com a última que escutei; foi de tamanha simplicidade que até me pareceu um jogo de pokémon, no momento ápice em que o melhor companheiro de luta é escolhido para seguir adiante em busca da vitória juntos.

pikachu

Pikachu, eu escolho você!

Mas era uma morena especial que estava ali, na frente da cara boba do noivo, que por sua vez estava feliz e confiante de que havia feito a escolha mais acertada da vida: amar  sua melhor companheira de luta.

Pena que com a praticidade do cotidiano esse sentimendo de doação e companheirismo se perca tão facilmente, que os olhos ceguem e não deixem que se perceba o que significa escolher alguém para dividir tudo aquilo que se pensa como vida e futuro.

Fato é que ninguém é obrigado a casar-se, já passamos dessa fase da sociedade e nessa escolha também há muita felicidade e satisfação, quer vocês queiram ou não acreditar.

Careta? Que seja!

Pensando bem, dá pra reparar que a dedicação em uma relação de casamento é praticamente uma questão da Física e também de matemática, tem raciocínio lógico e fácil entendimento: para cada ação, haverá uma reação. Agora, se a reação será positiva e benéfica, o caso muda o ponto de observação e passa a ser parte de outra questão: de escolha.

Tipo pokémon.

 

 

 

Livro, filho e árvore

Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho. Regiane cresceu sabendo que esses três marcos definiam uma vida completa. Ela virou a página dos vinte e poucos para os trinta e tantos e a pressão só aumentava.
O livro. Ela escreveu. Era a transcrição mais bem acabada do diário que redigiu durante a faculdade. Não havia autora brasileira com nada semelhante. Ela seria a Lena Durhan dos trópicos. Não fosse esse diário pra dar uma acochambrada, ela teria um romance histórico pela metade mais uma página, o que ainda configura uma clara maioria.
O filho. Ela tinha arrumado um namorado. Moravam juntos até. Os cunhados, irmãos de ambos, viviam procriando. Não, não eram beneficiários do Bolsa Família, apenas namoraram, casaram e filhos. Regiane e Ermano ainda nem conheciam o Azerbaijão e iam pensar em ter filhos? Para não ser lembrada disso todo instante, ela entuchou todas as roupinhas que ser futuro bebê herdou dos priminhos em uma mala em cima do guarda-roupa.
A Árvore. Até nisso a Regiane falhou. Ganhara um pé de Abacate em um vasinho para plantar na casa nova. Ela regou, colocou nos sol, depois tentou na sombra. Uma a uma as folhas ressecaram e morreram. A terra perdeu sua cobertura de húmus e craquelou. Só pra constar, até os abacates da fruteira Regiane perdeu aquele ano. Ela conversou com o abacateiro. Explicaria que muito mais do que a vida de estaria em jogo ali. Ela podia citar, assim de cabeça, a diminuição do efeito estuda e da poluição do ar, a oferta de sombra para sua cadela, Martinha, dar abrigo aos passarinhos, frutos que poderiam gerar outras árvores… Quantos já foram? Se nada funcionasse, Regiane estava preparada para abandonar o seu orgulho:  aquela arvorezinha teria que viver por ela, pra ela olhar pela janela e saber que algo que ela fez deu certo, mesmo que fosse graças a chantagem emocional.

A senhora está gripada?

Foi apenas isso, rigorosamente isso, que ele perguntou. E não tanto porque se preocupava com a saúde daquela senhora, mas simplesmente para ser simpático e não limitar aquele casual encontro de vizinhos aos cumprimentos apressados de todo dia. Como notasse que a voz dela saia meio anasalada, achou que seria oportuno perguntar se estava gripada. Tudo levava a crer que sim, de modo que a sequência daquela conversa era bastante previsível: ela confirmaria, reclamaria alguma coisa sobre a mudança de temperatura, ele concordaria, lembraria de outras pessoas que andam meio gripadas e talvez fizesse alguma pequena recomendação médica. E logo se despediriam e iriam cada um cuidar da sua vida.

O que ele não esperava era que a senhora saísse do roteiro, a começar por negar que estivesse gripada. E, como necessitava de uma explicação, acrescentou que aquilo era nervosismo. O homem não entendeu e ela precisou contar por que estava nervosa, mas seria melhor se não tivesse contado nada, porque logo nas primeiras palavras começou a chorar e soluçar.  Não se entendia muita coisa, mas ela falava sobre um carro que podia perder graças a má-fé de uma concessionária. E ela não podia ficar sem aquele carro, já não tinha mais idade nem saúde para ir a pé até os lugares – tudo isso ela ia confessando em meio as lágrimas.

Jogado no meio de uma aflição que não era a sua, o homem olhou ao redor para se certificar de que nem o porteiro nem algum vizinho percebiam a cena. Não sabia o que dizer e tudo o que lhe ocorreu foi um “vai dar tudo certo”, que no fundo queria dizer “pare de chorar e me deixe ir embora”. A senhora falou que iria pedir ajuda a uma filha, e ele aprovou a ideia, claro, claro, fale com a sua filha, ela vai saber resolver, vai dar tudo certo, você vai ver. Mas ainda demorou até que a senhora se acalmasse, pedisse desculpas e fosse embora.

Ele respirou aliviado, voltou a caminhar para o seu apartamento e, antes de abrir a porta, espirrou.

“EU QUERO SAIR BEM DA VIDA”

Esse título é uma expressão usada por uma senhora de 85 anos (preservo o seu nome), uma das adeptas do testamento vital, onde a pessoa aceita e deixa registrado em cartório o seu desejo de morrer, em caso de doença terminal e não ter mais possibilidade de cura. Ela acrescenta que se deve ter autonomia no final da vida e ter dignidade para morrer.
O assunto é dos mais polêmicos, por envolver família, religião e o emocional. Mas tem crescido o número daqueles que acreditam que seja uma saída honrosa da vida, até mesmo porque foi feliz, teve alegrias e não quer entrar na decadência, inclusive com o sofrimento dela e de todos ao redor.
Segundo dados do Colégio Notarial do Brasil, em 2010 eram 50 os testamentos vitais registrados nos cartórios. Em 2015 passou para 600 no ano. Ajudou nesse avanço a regulamentação em 2012 do Conselho Federal de Medicina, autorizando os médicos a aceitarem como legítimo o desejo do paciente. Só que isso ainda não garante que será respeitado devido ao arbítrio do judiciário, que pode acatar ou não.
Esse documento não é a família que deve elaborar, mas a própria pessoa, ainda quando lúcida e tê-lo entre seus pertences pessoais de importância, junto ao seu RG, para no caso de ser utilizado. Ē importante ressaltar que é diferente da doação de órgãos, em que a família é que autoriza.
A longevidade tem avançado e as pessoas vivem mais pelo progresso das ciências, mas não quer dizer que estão bem e saudáveis. É uma realidade que muitos não querem aceitar e os que têm mais discernimento sobre a morte são mais capazes de encarar.
De qualquer forma é um respeito pelo seu próprio corpo, quando ele não mais responde aos estímulos vitais e naturais. Afinal, quem quer se deteriorar e se consumir lentamente?
Assunto para altos debates, no momento em que está em discussão o poder e direito da mãe abortar, no caso de suspeita de microcefalia, causada pelo vírus zika. Assuntos diferentes, mas com o mesmo peso.

Como é ser Kanye West ou a inesperada virtude da ignorância

Kanye West

Gênio? Babaca? São muitas as faces do marido de Kim Kardashian que, sem ser um dos destaques do Grammy, que aconteceu no último domingo, arranjou um jeito de chamar mais atenção do que todos os concorrentes ao prêmio na última semana.

Na esteira do lançamento de seu novo álbum, “The Life of Pablo”, o rapper mais polêmico da América não poupou Taylor Swift, citada em uma das músicas do disco como “a vadia que ele fez”, em referência a um fatídico episódio em uma premiação em 2009.

Em um espaço de uma semana, West pediu dinheiro para Mark Zuckerberg, se vendendo como um investimento melhor do que escolas na África, e disse que “publicações brancas deveriam parar de falar sobre música negra”. Não faz muito tempo, convém lembrar, que o rapper lançou sua candidatura à corrida presidencial americana de 2020.

Kanye West, antes de qualquer coisa, é um produto de marketing. Ele sabe se promover e não se ressente de parecer um idiota ao fazê-lo. De certa forma, é mais agressivo do que sua alma gêmea, Kim. Ele também tem algo para amparar essa agressividade, além de sua imagem. Seu trabalho não é tão refinado quanto ele acredita ser, mas pouco importa. Kanye West tem grande estima por si próprio e o fato de todo o resto do mundo não compartilhar do mesmo gosto é problema nosso. Não dele.

Bela Paulista

Assim que botei meus pés na Paulista em um domingo, a pergunta se instaurou nitidamente: por que nenhum prefeito fez isso antes? Não é a toa que a apelidaram de Bela, porque esse é o adjetivo mais justo que poderiam ter dado a ela.

E ficou Bela não por expressões políticas, por partidarismo a X ou Y, não; ficou Bela pelo sentido que ela passou a representar, por tudo o que ela tem carregado e oferecido à população da cidade que não pára. Também não sinto que a sua beleza venha só do povo, mas vem principalmente de como ele tem se comportado.

paulista

Onde se poderia imaginar que gente de todo o tipo, todas as tribos, de tantas características tão diferentes pudessem estar juntas, num mesmo espaço, sem que ninguém implicasse com ninguém, sem ter que dar explicações, sem que fossem proibidas de se expressar ou impedidas de viver suas próprias vidas?

Não vi nem ouvi falar, até hoje, de brigaspor lá. E se alguém falar que só tem elite ali, é porque nunca colocou os olhos na Bela; o local onde medrava ser o estopim para problemas sociais eminentes está dando um show de pacificidade e educação que nem mesmo movimentos religiosos mostram em suas passeatas.

Cada vez que passo parte do meu domingo lá, sentada no asfalto no meio da rua, percebo algo novo e que, acreditem ou não, parece até mágico. Estive lá também no domingo de carnaval e foi de propósito, pois sabia que aquela avenida ficaria ainda mais Bela. Onde antes passavam chatos e velhos fazendeiros de cafés, naquele dia passavam animadas crianças fantasiadas, rodando, pulando, brincando. Também tinham velhos fantasiados e ninguém encrencou porque eles eram velhos e deveriam dar o exemplo – afinal, eles já estavam dando exemplo.

Por duas vezes fiquei lá até seis da tarde, quando a Paulista é devolvida ao seu status de Avenida e carros passam. E fiquei intrigada com algo que deveria realmente ser normal: a rua não estava coberta de sujeira, latinhas, copos, papéis, plásticos e toda sorte de lixo que as pessoas produzem. Se estava impecável? Não, ainda não chegamos nesse patamar de educação… Mas, se é que faz sentido dizer uma coisa dessas, estava no nível normal de sujeira, como se nada de mais tivesse acontecido por ali.

Porque, no fundo, nada de mais aconteceu ali.

O que tem de mais Belo na Paulista é esse clima de respeito que paira por ali. E é esse o sentido que ela representa, o clima que ela carrega e oferece à população da cidade que não pára: é o respeito. Ali todos são iguais, não há melhores ou piores, há pessoas e é isso que a torna tão Bela.

Magnólia

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Photo: LoloStock/Shutterstock

Sem motivo aparente desatou a soluçar. Parou a escrita e lançou-se porta a fora tapando com a mão a boca inquieta. Correu pelo corredor a fim de alcançar o bebedouro e a cada soluço novo expelia uma flor. Copo de leite, margarida, begônia, azaleia. As pessoas olhavam incompreendidas enquanto pelos olhos ela pedia muda ajuda. Sentindo uma opressão na garganta abriu a boca e observou aparvalhada crescer entre seus lábios um imenso girassol. Tamanho foi o susto que nem notou terem findados os soluços. Então percebeu, apavorada, que seus pés criavam raízes.

O meu sonho é ser mãe

O meu sonho é ser mãe, ela disse. E eu fiquei pensando no tipo de mãe que ela vai ser e achei aquele sonho muito acertado, porque ela é amorosa e leva jeito com as crianças. Ainda é uma moça jovem, mas já está casada há alguns anos, o que me fez perguntar se havia alguma previsão para que tivessem o primeiro filho. Ela ficou séria e disse que ainda não havia como. E explicou: “Vou fazer um concurso público agora. Preciso focar em passar para ter dinheiro e então poder ter um filho”. Admirei-me da resposta, porque ainda não havia me ocorrido o óbvio, ou seja, que para ter um filho é preciso antes ter algum dinheiro.

Mas eu ainda quis fazer uma objeção e brinquei que a nossa geração sequer teria nascido se nossos pais pensassem assim. Ela não riu e disse que eram outros tempos. E começou a contar a história da sua criação, a dura vida no interior que fez com que visse os seus pais menos do que gostaria,  mas que não impediu que fosse amada, cuidada e hoje estivesse onde está. Falou que a mãe tinha a ajuda das vizinhas para olhar os mais pequenos, lembrou que o custo de vida era mais barato, e comparou com a sua própria situação hoje: não conhece vizinhas, sua mãe mora longe, o custo de vida é mais caro e ela, provavelmente, ainda vai precisar pagar uma babá. Disse ainda que quer curtir o seu filho e ter dinheiro para dar uma boa educação e orientação para que ele saiba reconhecer as oportunidades da vida. E concluiu, gravemente: “Um filho hoje não se pode jogar no mundo sem ter como criá-lo”.

Quis saber como ela conseguirá, nesses tempos de correria, dedicar mais tempo ao seu filho, e ela me contou que os professores podem escolher a quantidade de horas que prestam serviço e que as assistentes sociais concursadas trabalham apenas 30 horas por semana – além, é claro, de terem estabilidade no emprego.  Como é difícil realizar um sonho, observei. E fiquei imaginando um mundo em que só poderão ter filhos aqueles que trabalharem para o governo.

QUE VENHA A CHUVA

A chuva que se esperava não veio. Deve ter mudado o rumo no meio do caminho. Talvez como muitas pessoas, eu já tinha me preparado para sair no meio dela e sorver todo o seu poder de refrescar e levar os dissabores que vêm a nos marcar por séculos. Um banho de cabeça e tudo, de braços abertos e recebendo como bem-vinda aquela força da natureza. Lavar tudo e banir o que não presta.
Pior do que acompanhar os fatos que nos colocam para baixo todos os dias em relação ao que estão fazendo com o nosso país, é ouvir de alguns de que isso é normal, que existe desde o descobrimento, que é da cultura brasileira, que sempre os governantes roubaram e nos fizeram de bobos, que não vai dar em nada, que vai continuar tudo do mesmo jeito. Não dá para ouvir mais.
Esse pensamento conformista, derrotista e de aceitação natural de que temos esse perfil, está no limite do suportável, mas será que não vamos conseguir mudá-lo e com ele transformar nossa nação?
O sentimento de onipotência dos homens públicos e a facilidade com que eles tramam seus ardis não mais na calada da noite, mas a céu aberto, precisa ser minado. E somos nós os únicos autores e atores dessa mudança, mas precisa haver convicção, força, desejo de virar o país de cabeça para baixo, deixando a água levar toda a podridão. São muitos eles, nas bordas e no centro do poder, em todos os órgãos das esferas de governo, no legislativo, até no judiciário e com a presença de empresários que se aproveitaram do vício político.
Vai ser difícil sim, pois teremos que cavar fundo para desentranhar os tentáculos presos a nos tirar o oxigênio, os alimentos, os recursos, a esperança. Mas chega. Não pegaremos em armas, como discursam o Movimento dos Sem Terra, nem colocaremos fogo no país como ameaça o filho do ex-presidente Lula, mas gritaremos com discursos ensaiados e bem fundamentados de que não mais deixaremos isso acontecer. As minorias que ainda apoiam os safados e se movimentam para não perderem as mordomias em prejuízo de muitos não vão conseguir mais arrastar adeptos com seus slogans. Um deles lançado recentemente de “Somos todos Lula”, vindo em defesa do homem que se tornou o símbolo maior das armadilhas em que nós caímos. Um homem que tenta de todas as formas se esconder de seus atos ilícitos em seu benefício próprio e ainda conta com esses otários que o defendem.
Está a se preparar um movimento no sentido contrário a esse para o dia 13 de março. O povo honesto, descontente, que paga seus impostos em dia, que trabalha, que luta por um Brasil melhor, que não aguenta mais o descaramento, tem que ir para as ruas nessa data, da mesma forma como foi para os blocos nesse Carnaval. Vai ser um extravasamento diferente, mas com o mesmo entusiasmo. Temos um mês para fazer eclodir esse grito, vamos nos organizar, de forma a suplantar todos os outros manifestos que aconteceram em 2013 e 2014.
Essa é nossa única chance e, talvez a última, sob risco de tirarem de nós até as nossas vozes. Se não agora, depois nem um temporal devastador ou um tsunami será capaz de arrastar tudo que está a nos prender e impedir nosso crescimento.

Tríade futurista

Um dia me perguntaram o que penso do futuro. Não aquele futuro inalcançável, que apenas os tataranetos dos meus tataranetos verão, mas aquele que está por vir para esta geração, para a geração na qual estou contida.

Respondi apenas que não sabia, que estava cansada demais para pensar em algo tão profundo. Mas era mentira: pois mediante uma pergunta tão séria, eu não poderia responder de qualquer jeito, precisava pensar de verdade.

Até agora não sei bem a que conclusão chegar, mas já consigo sentir algumas coisas e essas coisas são sensações muito particulares do que racionalmente, espiritualmente e emocionalmente eu consigo sentir.

futuro

Espiritualmente, tenho fé de que a mudança está por vir, muito próxima, nas mãos daqueles que hoje são minorias, oprimidos e rechaçados, que farão a reviravolta necessária, instaurando o respeito verdadeiro, a justiça, o amor. Tenho fé de que o mundo está mesmo mudando, que mais e mais pessoas estão engrandecendo a mente e limpando conceitos das pré-concepções que deterioram os direitos inatos. Tenho fé.

Racionalmente, vejo que a coisa está de mal a pior, que estamos perdendo o controle e que não há muita salvação que se esperar. As pessoas são maldosas mesmo, são egoístas mesmo e só importa o que girar a meu favor. É tanta coisa ruim, mas tanta coisa, que não se pode esperar, na real, algo muito diferente do que já temos…

Mas, emocionalmente eu sorrio por dentro ao encontrar pessoas que valem a pena, que lutam por algo que é bom para o coletivo, para si e também para o coletivo, que está disposta a abrir m]ao de uma coisa ou outra, que entende o limite como algo saudável e justo, pois é para todos; que entende a liberdade da mesma forma: e a utiliza sem ferir o amigo ao lado. Existe amor, ele está ao nosso redor, está sendo praticado, está sendo difundido.

O que virá? Não sei mesmo dizer, um mix de sensações que confundem o futuro, que me cegam para o que há de vir, mas me elucidam para o que está aí, que, convenhamos, é o que importa para hoje.

Carpe diem, não só para que possamos ter o que contar, mas para que mais pessoas também tenham o que contar.