Arquivo do mês: janeiro 2016

Quase Memória

tony

Começo a crônica com um pedido de desculpas aos colegas autores e aos leitores contínuos desse blog. Na semana passada fiquei impossibilitada de postar. Nada físico, problemas tecnológicos considerando que eu estava em uma cidade pequena sem muita estrutura para acesso a internet. Sim, isso acontece ainda em alguns rincões desse país.

Fato é que para além das desculpas que espero serem aceitas mas que isso não me repita, fui a um festival de cinema nacional. Dentre a pluralidade contemporânea de boas histórias e opiniões, de novidades antropológicas e diversidade social exposta na tela, um filme baseado na obra Quase Memória de Carlos Heitor Cony me chamou atenção. Tony Ramos, minha desavença pessoal por motivos de friboi, interpreta um velho que encontra a si mesmo e em uma noite se põe a relembrar o passado. Não tem aqui nenhum spoiler, pois esse é praticamente o início da obra cinematográfica, então não torçam o nariz e assim que sair no circuito assistam ao filme.

Quero registrar que o que me inebriou foram as palavras. A história, uma mistura de ficção, realidade e cacos do passado do próprio autor, mostra a trajetória de seu pai, também jornalista mas principalmente um sonhador. O trágico cômico dramático da vida é não apenas revelado através da grandeza de nossas ideias frustradas pela praticidade rotineira assim como pelas belas palavras que em sincronia vão mostrando como são frágeis nossa memória assim como é frágil cada momento que vivemos e que se esvaem tão rápido quanto o piscar. O filme me tocou por falar de um assunto que me custa tanto a entender, esse agora a virar pó. E Tony, na pele de Carlos, ganhou um pouco da minha afeição pois soube com maestria mostrar que seus dramas são também os meus, os nossos de todo dia.

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Acho que já vi esse filme

OSCAR-LABEL

Eu já vi filmes e arranjei confusão suficiente na vida para saber que não se dá conselho para quem não pediu. A regra é válida exceto, é claro, se você for o personagem que exerce a função de coro grego e olhe para a câmera dando os pitacos não solicitados em absoluta segurança. Ou, se você for o vizinho ou a tia inconvenientes e der palpites assim porque a pessoa PRECISA ouvir.

Bem, a Academia não pediu a minha opinião mas eu vou falar de qualquer jeito. Faltam negros indicados na premiação. Faltam negros porque as pessoas “de cor” são coagidas pela sociedade a parar de graça e procurar um emprego que lhes sustente. Teatro, cinema, música, medicina são coisas para quem pode pagar por isso. Quem tem que receber para viver sabe que o seu ônibus não é esse.

Aumentar o número de eleitores negros, latinos e mulheres tão pouco irá corrigir a distorção entre a maioria branca e as minorias entre os indicados. Sim, porque basta olhar a América Latina e ver quantos homens brancos são eleitos; quantas mulheres brancas conseguem furar esse bloqueio. E quantos homens negros estão no topo, quantas mulheres negras ou índias estão ditando as regras de suas áreas? Talvez, aliás, você possa dar de bate pronto quem são as mulheres, indígenas e negros nesse caso porque são tão poucos que periga o leitor saber de cor.

Negros, mulheres e índios votam em brancos. São condicionados a isso pelo meio em que vivem, mesmo tendo um ou outro membro de minoria aqui e ali pra escolher.

É válido o auê porque tira a discussão do gueto, porém… Enquanto não houver mais negros escrevendo roteiros, livros, peças, compondo e educando, esqueçam, não vai ser na caneta que isso vai mudar. Aliás, senhora presidente da Academia, um certo conterrâneo meu, José Sarney é seu nome,  tem lhe oferecido esses conselhos? Porque parece todinha ideia dele essa sua proposta, só acho.


A redenção da bicicleta

Não casei, mas também não comprei uma bicicleta, foi presente da minha mãe depois que me roubaram a antiga. Em cima dela, eu mato o sedentarismo, duas vezes ao ano. A bicicleta, afinal, não me acompanhou quando mudei de cidade, continuou na casa materna, acumulando pó. Toda vez que a vejo, encontro os pneus vazios. E geralmente tem alguma coisa estragada, o que me obriga a passar em uma oficina. Vou a um bicicleteiro que está no ramo há mais de 40 anos, o que prova que é possível sobreviver sem passar em um concurso público. Admiro esse homem, faz o que gosta, é o seu próprio chefe, assistiu o apogeu do automóvel e hoje acompanha a redenção da bicicleta, em tempos ecologicamente corretos. Nunca o encontro sem trabalho. Ele vem, olha a minha bicicleta, faz uns ajustes e geralmente não cobra nada. Em pouco tempo estou pronto para as pedaladas do semestre.

As férias são curtas, é preciso andar o máximo possível, tão longe quanto se puder, e assim eu percorro as ruas da cidade, dando preferência para aquelas por onde eu nunca passei. Sou sem dúvida um explorador, e não é prova de outra coisa o fato de, vez ou outra, entrar numa rua sem saída. Há em cada bairro um mundo a se descobrir, e é com curiosidade que olho os nativos que encontro pelas ruas, tentando imaginar como seria viver no meio deles. E dizer que é possível crescer, amar e morrer em tantos lugares onde eu nunca havia posto os olhos! Encontro praças, igrejas, escolas de que eu não suspeitava. Andar de bicicleta diminui a minha ignorância e ajuda a satisfazer o insaciável desejo de coisas nunca vistas.

Há talvez mais uma coisa que esse tipo de passeio é capaz de fazer. Um dia um sujeito apresentou ao velho Braga toda uma teoria sobre as vantagens de se andar de bicicleta quando se está sofrendo por obra de amores: “De bicicleta o sujeito vai pensando no seu caso, e ao mesmo tempo vai castigando um pouco o corpo, fazendo esforço, com o sol no crânio. Além disso, não pode dar inteira atenção à sua própria alma, porque deve prestar alguma ao trânsito”. Seria esta a forma mais tolerável de se locomover nessas condições! No momento, não carrego nenhum amor a me oprimir o peito, mas tenho cá as minhas questõezinhas, algumas lutas que já se estendem há muito tempo, pequenas melancolias de uma vida. E vou me lembrando delas enquanto pedalo, à medida que desvio de carros, pedestres, às vezes um cachorro. Não é improvável que a decisão que mudará a minha vida seja tomada enquanto coloco mais força nas pernas para percorrer uma subida que se mostrou íngreme. Muita coisa melhora só em soltar o guidão, durante uma descida.

De vez em quando a chuva me pega e preciso encontrar o abrigo de um ponto de ônibus. Ou então é o sol que se torna quente demais e acho melhor parar um pouco para me refrescar. Às vezes sou eu mesmo que exijo demais do meu corpo, pouco acostumado aos exercícios, e começo a sentir cãibras. Sou um sujeito que luta com as forças naturais e tem preocupações de homem, de ser humano. Andar de bicicleta também é uma forma de se saber vivo – mas vivo mesmo, e não isso que deixamos fazer com a gente na rotina das grandes cidades.


NASCI NUM PORTO DE MAR

O ano passado, uma declaração de amor a Santos, pontilhando minhas raízes de nativa e cruzando com os valores e ícones da nossa cidade. Parecia que tudo havia sido dito naquelas poucas palavras. Mas basta uma introspecção mais apurada e lá surgem novas imagens, aquelas que nos acompanham no dia a dia e que nem sempre tomamos atenção, porque passam como rotineiras.
Como ser da terra sem se apaixonar por ela, por esse mar presente e que nos dá bom dia, que vai e vem, que leva e traz lembranças desde os primeiros sopros de vida. O mar está para Santos como o oxigênio para a sobrevivência. Ele ē motivo de nossas andanças pela praia, da descontração típica de nossa personalidade, dos esportes ensaiadas nas manhãs e no final da tarde, dos navios que apitam a todo instante e que passam transportando não sei o quê nem para onde, mas que alavancam a economia.
Razão de um porto que abre seus braços para as embarcações pesadas e para os navios de cruzeiro, deixando em suas trilhas na água um pouco da história de onde vêm e levando outro tanto das nossas profundezas. Um porto que recebeu milhares de imigrantes, vindos de toda parte e que juntaram-se a nós, brasileiros e santistas, mesclando as culturas, fisionomias e jeitos de ser.
Sim, uma cidade berço que aninha, embala e prepara para a vida. Muitos saltaram daqui a percorrer outros universos, mas cada um deixou a sua marca registrada nas areias, levou um pouco do sal no sangue e nos ouvidos um leve soar do apito dos navios que singram o oceano. Essas referências estão como tatuagens, tanto naqueles que ficam, como nos que vão.
Santos – 470 anos.


Chega mais, meu!

Você já foi a São Paulo?

Foi ver as marginais, os parques, a Paulista, Pacaembu, Sé e a famosa 25 de Março? Ainda que lhe faltem praias e lhe sobrem muros, é desejada por todos por sua grandeza e variedade de coisas, pessoas, culturas.

Quem não viu, quer ver, com certeza. Chega mais, meu!

Mas será que você iria ver o Carumbé, a Heliópolis, a Divineia, Vila iara, Cracolândia, Buraco do Sapo, favela do Pó e tantas outras favelas e morros, esquecidos, rejeitados, entristecidos e abandonados pelas pessoas “do outro lado da ponte”?

Essa é a cidade que não dorme, com seus bares, restaurantes, cinemas, baladas e luzes que permenecem acesas durante madrugada adentro, ofertando alegria e entretenimento de todos os tipos, intensidades e gostos para pessoas também de todos os tipos, intensidades e jeitos.

Mas ela também não dorme por causa do barulho dos tiroteios, as sirenes de polícia e ambulância subindo as quebradas, pelas mães e pais desesperados em delegacias a procura de seus filhos, não dormem também os de olhos vermelhos e narizes de platina, não dormem.

Há que se comemorar! São 462 anos de história, de muito trabalho, suor de todos os lados do mundo que escorreram para cima, construindo arranha-céus, abrindo avenidas, desbravando estradas, reconstruindo leis.

Há que se repensar… São os mesmos 462 anos de muita desigualdade e injustiça, escravidão e preconceito, tapas e bofetões em rostos trabalhadores, de ondem escorreram muitas lágrimas para baixo, construindo barracos embaixo de pontes, atrás de morros, fora de qualquer realidade digna.

Quem não viu, precisa ver. Chega mais, meu…

Precisa ver que, de perto, ela não é tão bonita e que, de longe, ela não é tão ruim; que ela tem seus segredos e que ela tem suas desgraças; que ela recebe quem chega e rejeita quem tenta ficar.

A cidade que não para, está precisando parar: para de organizar, rever seus conceitos, suas ações e para pensar em se transformar em uma cidade melhor. Ou melhor: para se transformar.


O caso da argentina

Imagem: María Pachón - https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Imagem: María Pachón – https://www.flickr.com/photos/maipachon/

Ele não viu quando saí do carro. Me enfiei no banheiro feminino e fiquei lá tempo suficiente para ele abastecer uns três daquele jipe estúpido dele.  Mal notei o cheiro carregado daquele cubículo mal ventilado, com papel higiênico que brotava do lixo, das paredes, do chão…

Escapei, pensei.

Não, mas foi por tão pouco!

– Dona, o seu marido acabou de sair!

Eu ainda tentei disfarçar, fingir que não entendia o idioma do sujeito.

– Yo no hablo portugues. No te entiendo.

E o frentista desesperou. Chamou o gerente. Contou também pra mocinha da loja de conveniência.

O gerente arriscou um portunhol.

– Señor, lo siento, no te entiendo. No te preocupes, voy a encontrar una parada de taxis y ya me voy. No necesita preocuparse.

– Tu marito se fué, senhora. Tienes um celular? Se não, podemos ligar da minha sala, no te avexes.

Fez a mímica universal com dedos, simulando um telefone.

Como dizer que eu não sabia o número de Ezequiel?

– Es una conexión internacional, es caro, señor, no te preocupes. Yo lo llamo un taxi y en la próxima me detengo acuerdo, señor.

Ele já ia 100 km adiante, quase chegando no Espírito Santos, me explicou o frentista desenhando números e rabiscos numa caderneta e apontando um mapa na parede da sala do tal gerente .

Ezequiel fez a parte dele, é justo que eu admita. Disse que não entendia o que diziam ao telefone, que não perdera nada, que o menino estava a brincar com o tablet bem ao lado dele. Até uma foto minha mandaram pro celular do maldito.

Não teve jeito.

Ele voltou. Seguimos juntos.


Aos cuidados de Clarice Lispector

Rio de Janeiro, 21 de abril de 1968

Prezada Clarice,

Como você está? Espero que esteja bem e, caso continue a ter insônia, que seja ao menos aquela feliz, em que você só escuta as ondas do mar batendo na praia, toma um café com gosto e aproveita a solidão, sem ninguém para lhe interromper o nada (embora eu ainda prefira que você não tenha insônia nenhuma).

Sou mais um dos leitores semanais de sua coluna no Jornal do Brasil. Honestamente, eu jamais teria me animado a escrever para você se não percebesse, através de suas crônicas, que você parece gostar desse contato com os seus leitores. Embora eu não esteja mandando junto nenhum buquê de rosas e também não me ofereça para preparar polvo cozido com arroz, como chegaram a fazer, peço que receba essa pequena carta como prova do carinho que lhe guardo.

Mas preciso confessar uma coisa: antes, eu não gostava muito de você. A gente nunca gosta daquilo que não entende. Eu ainda me atrapalho bastante tentando entender algumas coisas que você diz, mas acho que depois que você começou a escrever em jornal eu a compreendi melhor. Você escreve crônicas tão bonitas!  Aliás, acho que você devia parar de se preocupar se isso que você escreve é crônica, coluna ou artigo. Fale com o Braga, aposto que ele vai concordar que são crônicas mesmo. Não precisa ser tão humilde a ponto de hesitar pertencer a um gênero que é a própria humildade da literatura.

Eu gostei tanto das crônicas que você escreveu sobre a sua infância no Recife! Fale mais sobre o Recife. Também gostei de conhecer mais sobre as suas empregadas. E os seus filhos? Aposto que tem muitas histórias com os seus filhos. Imagino que você talvez se preocupe um pouco com a exposição da sua intimidade na crônica. Mas poxa, isso a torna tão próxima de nós, tão viva, que é como se nós fizéssemos parte também da sua vida. Por isso tanto carinho dos leitores.

Desejo que seja feliz e  tenha de si a medida exata de quem você é – e então, mande brasa.

Com carinho,

H. F