Pense no País que somos antes de comemorar a prisão do senador

Delcidio

Agência Brasil

O dia 25 de novembro, quarta-feira passada, apresentou um dos capítulos mais surpreendentes e reverberantes da operação Lava Jato. A prisão de um senador da República em exercício. Muita gente comemorou e eu ouvi de um sem número de pessoas frases do tipo. “Nossa, o Brasil finalmente está mudando”; “Está acabando o reinado dos corruptos”;”Eu vivi para ver um senador ser preso no Brasil”. Calma lá. Na verdade, há muito pouco o que se comemorar na prisão de Delcídio do Amaral.

Ele que antes de consultar uma numeróloga se chamava Delcídio Amaral (mudou para dar sorte)– outra numeróloga disse (com Delcídio já preso) que ele acabou seguindo os conselhos de uma charlatona; mas isso é outra história.

Parece inegável que Delcídio merece estar preso. Ele, de fato, estava agindo para influenciar nas investigações. Quanto a este fato, não há argumentos. Mas existe uma questão jurídica a se obsevar. A Constituição prevê duas situações para a prisão de um parlamentar em exercício. Flagrante e crime inafiançável. Nenhuma dos dois requisitos é preenchido no caso de Delcídio.

O que aconteceu foi que o STF, admitindo interpretação criativa do Código de Processo Penal por parte do Ministério Público, entendeu que Delcídio participava de uma organização criminosa – portanto, com característica permanente, o que qualificaria o estado de flagrância. E irou o aspecto de ser inafiançável dessa discutível flagrância.

Trata-se de uma ilegalidade a prisão de Delcídio Amaral. Simples assim. Por mais que ele merecesse estar atrás das grades. O Supremo, ao olho de quem observa de longe a movimentação de bastidores e sabe uma ou outra coisinha de política, agiu apaixonadamente ao ver seus membros citados como moedas de influência na carteira de Delcídio em gravações feitas com autorização judicial.

É de se preocupar que a mais alta corte do país flexione a constituição com esse desimpedimento. Não foi a primeira vez, mas foi a primeira vez que isso foi feito de forma tão proeminente e taxativa. A ilegalidade da prisão de Delcídio é escandalosa. Ao Senado, cabia revertê-la. Mas o peso da opinião pública se fez sentir e Delcídio segue preso.

O Brasil pode estar mudando, mas muda mal. As leis são ruins e os responsáveis por elas – os legisladores em especial – não parecem talhados para o desafio de colocar o país no rumo. Olhe Eduardo Cunha que usa o impeachment de Dilma como moeda de troca para salvar o próprio pescoço enquanto o país assiste anestesiado e imerso em uma recessão econômica faminta.

É estranho comemorar o avanço de um país quando este avanço está caracterizado por uma ilegalidade. Uma resposta enviesada da mais alta corte do país ao achaque de ter sua honra questionada na mídia não deve e não pode ser parâmetro do sucesso de uma investigação. Enquanto isso, Sergio Moro continua pedindo leis mais rigorosas. O juiz que virou herói para alguns e carrasco para outros, segue pregando sozinho no deserto enquanto comemoramos algo que deveríamos nos envergonhar.

 

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Sobre Reinaldo Glioche


2 respostas para “Pense no País que somos antes de comemorar a prisão do senador

  • Lunna Guedes

    Não comemoro, mas também não louvo leis feitas para abrandar a condição de culpado. Por isso que o país vive seus dias de crise moral, as leis são falhas e facilitam a vida de quem comete um crime. Claro que, vale lembrar, que muitos já se beneficiaram dessas leis para fugir das punições. Quantos seres que roubaram ou mataram estão livres como se na tivessem feito?
    E, para mim, é apenas uma maneira de evitar que ele volte a tentar atrapalhar

  • Reinaldo Glioche

    Eu estava te devendo uma resposta Lunna. Peço desculpas pela demora em provê-la. É justamente sobre essa crise moral que assola o país de cabo a rabo que versa a minha crônica. Moro, e eu e você e tantos outros pedimos leis mais severas, mas elas não veem. Há pouca vontade de nossos legisladores em mexer nesse vespeiro.
    Estamos diante de um país que estica a interpretação da lei, e até da constituição, para atender interesses escusos e questionáveis.
    Estamos diante da necessidade urgente de reforma não só as leis, mas também nosso espírito público. É Cunha que chantageia institucionalmente a presidente e a presidente que sacrifica diversos empregos para manter-se no governo… É muito papo para pouco comentário… Continue conosco
    bjs

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