Morro Azul e o Rio Doce

foto: fabiana fonsaca

foto: fabiana fonsaca

Há algum tempo fiz uma promessa de produzir um texto a uma amiga sobre uma bela foto que ela fez. A imagem apresenta uma frondosa e imponente árvore num caminho que dá acesso a um local chamado Morro Azul. Acho que já disse isso aqui, sempre tive curiosidade em querer saber qual o motivo dos nomes dados aos lugares. Minha dúvida, sem trocadilhos, pairou sobre o Morro Azul. Infelizmente, minha amiga tinha apenas uma indicação possível sobre a escolha do nome. Ela dizia (e diz) que visto de longe o morro ficava azul. Não justifica, mas é deveras poético. Um morro a marcar o horizonte e a imaginação das pessoas.

Hoje, essa formação serve não apenas para alertar que chegou à cidade, mas também para fazer com que a cidade esteja conectada com o mundo. A pequena formação, numa cidade quase plana, serve para instalação de antenas das rádios, de emissoras de Tvs e celulares. O morro antes azul na imaginação de crianças e adultos, agora comporta a interferência da modernidade.

Essa modernidade que mudou a visão do azul do morro, e minha amiga vai entender a relação, é a mesma ligada a ambição que transformou em fel o Rio Doce, nas Minas Gerais. O rio sagrado para as tribos indígenas, sangra em dor pelas milhares que pessoas que já mais poderão sentir o seu frescor e doçura novamente. Em nome da modernidade, mataram o rio que era doce em sua capacidade de alimentar os sonhos das pessoas. Agora, morto pela ambição e interferência da mão humana.

Tempos atrás, vou dar crédito a Milton Nascimento, mas não tenho certeza, peço perdão pelo sacrilégio, disse que o morros de Belo Horizonte eram “casquinhas” ao longe, pois sua essência fora retirada pela exploração desenfreada. O aviso foi dado. Não aconteceu em BH, mas as lindas paisagens de Minas agonizam em “casquinhas” prestes a causarem tragédias à mão humana e à natureza. Essa sim indefesa e maternal, pois sofre, mas com o passar de décadas e séculos tende a recuperar. Não com a mesma forma, mas com a mesma eficiência.

O Papa Francisco, Leonardo Boff, Greenpeace, Virgílio Farias, entre tantos outros, já alertaram para que passemos a compreender que não um organismo independente de tudo que ocorre no Planeta Terra. Somos Terra. Não podemos fazer outra escolha, por isso temos que cuidar desse nosso corpo. Devemos, sem escolha, manter o azul do morro, o doce do rio, as linhas belas do horizonte e todas as vidas que compõe o que somos.

O Vale do Rio Doce deverá ser maior que a Vale. Mas o que vale, minha amiga, é resgate e recorte no tempo e espaço que o clicar de uma foto nos transporta. A beleza e a força dessa imagem se deve ao mérito do olhar sensível que de quem a fez. Digo que foi uma olhar de criança. Aguçado, esperto e esperançoso, como deveriam olhar os adultos.

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Sobre Celso Oliveira

Jornalista e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/ USP. Ver todos os artigos de Celso Oliveira

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