Arquivo do mês: novembro 2015

Aqui não dá mais

desonestidade

A vontade de sair de onde se está é latente e permanente em qualquer animal vivente e dotado de liberdade de movimento. Aqueles paralisados também a  sentem, desejam se mexer mas são obrigados a engolir em seco o ímpeto de se locomover. Andar, que seja para frente, para o lado, para trás por vezes, faz parte da natureza cíclica das coisas que vão. Mas há alguns que teimam em complementar o movimento, ou vontade dele, com disparates. Acontece em algumas  listas de “Brasileiros em algum lugar”, cuja ideia inicial é ajudar aqueles que vão sair do país. Vez ou outra, muitas reconheço infeliz, os olhos são obrigados a ouvir que se sai daqui porque todo o mal reside neste país verde amarelo. É a cultura, são os políticos, a pobreza, a fome, a maldade. A corrupção, a miséria, os coxinhas, os esquerdopatas. O bolsa família, o natal que chega mais cedo, a minha mãe que não quer me deixar fumar um. E tudo vira justificativa para jogar lama no país que se vive e dizer que qualquer lugar é melhor e aqui não dá mais.

Meus caros…
Aqui não dá mais. A corrupção dilacera o país e nossos esforços de boa gente são jogados pelo ralo. Colocando a mão na consciência, somos todos culpados. Pois esse mal, herdado ou criado, está entranhado nas nossas mais pequenas atitudes do dia a dia. No troco errado para mais que recebemos, silenciosos e sorrateiros, na padaria. Na gasolina adulterada que vendemos para lucrar centavos a mais. No seguro agregado ao empréstimo para alguém que precisa de um teto para morar. Na cópia alterada do artigo alheio para titular em uma universidade que o governo vai pagar. E aqui e ali vão-se abrindo buracos na dignidade do brasileiro, na concepção distorcida do que somos enquanto nação. Podre. Azedada pelas nossas próprias mãos. Porque reina entre nós, canarinhos, a cultura de que o outro é sempre o ladrão, o mal elemento, quem devemos evitar. Somos cada um, a honestidade e pureza em pessoa. Nossa grama é mais verde e o esgoto do vizinho é que cheira mal. Por isso, cortar esse mal pela raiz e sair logo deste país de eterno carnaval. Eu digo que fico. E espero para assistir vosso embarque. Vão com Deus ou sem ele, por favor. Mas limpem o país dessa mediocridade de pensamento. Ou ficaremos todos, para sempre, sujos em berço esplêndido.


Feliz Black Friday

Diz a Revista Forbes – a fonte preferida dos jornalistas sem pauta – que a tradição do Black Friday é tão estranha aos brasileiros quanto a lua. Discordo, discordo da comparação – não é porque um país fincou uma bandeira em cima da lua que ela passou a ser mais íntima dos seus habitantes. Além do mais, é como diz o Campos de Carvalho: para a lua tanto faz ser Londres ou São Bento do Sapucaí.

Mas concordo com o mérito, evidentemente. É certamente sintomático de alguma coisa que no Brasil se parta para o consumo adoidado do Black Friday sem passar antes pela Ação de Graças. Também ao contrário dos americanos, nós não passamos a madrugada na fila esperando as lojas abrirem, por vezes perdendo o dia de trabalho – por aí se vê que talvez seja até bom ser estranho às tradições americanas. Mas é justamente em defesa desse tipo de comportamento que a Forbes se posiciona. Parece que há uma maneira correta de passar o dia gastando e que não veio importada junto – a própria economia dos preços parece não ter vindo.

Na origem do dia, está a inauguração da temporada de compras do Natal – pois não é de se imaginar, tanto nos Estados Unidos como aqui, que alguém consiga passar um Natal sem fazer compras de Natal. Mas essa justificativa é desnecessária: o que se comemora no Black Friday é o próprio Natal. Ele é o Natal sem máscaras do comércio, sem aquela necessidade de encaixar Jesus ou sentimentos cristãos em meio aos anúncios. Finalmente, assume-se que aquilo que se celebra é unicamente o nascimento da sociedade de consumo. Satisfazem-se plenamente, em bonita concordância, os desejos de vender e de consumir, sem os quais não existe Natal. E tudo isso sem precisar de reuniões familiares, de preparativos desgastantes, ou de obrigações religiosas. Tiremos os presentes, a ceia e todas as compras que fazem o nosso Natal e observemos se os nossos olhos brilham com a mesma excitação de quem descobre uma oferta imperdível durante o Black Friday.

Boas festas.


RENOVAR EMOÇÕES

 

Olhamos para um lado, uma casa, uma loja comercial, e começamos a perceber novas cores saindo dos armários e sendo reaproveitadas dos anos anteriores, misturando vermelho, verde, dourado e prata. Laços, sinos, borboletas, folhas e os sapatinhos à espera de um pedido e de um sonho a ser realizado.
Olhamos para outro lado, o mundo está a nos derrubar para baixo, os ecos trágicos ainda ecoam, lá fora e aqui mesmo debaixo de nosso olhos. Dezembro prestes a surgir e não arrumamos coragem para entrar no mês da magia. Algo nos tira as forças, com tanto peso no corpo e na cabeça.
E os brilhos vão aumentando, os pisca-piscas logo vão nos envolver por completo, mas será que dessa vez vamos entrar também com o coração? Difícil arrumar ânimo em mais um ano, para abraçar o corre-corre. O comércio espera avidamente pela entrada de todos no frenesi das compras, mas o desemprego na função de Papai Noel também está acima do esperado e os bons velhinhos penduraram seus sapatinhos, também querendo um presente.
Ē cedo, é verdade, e somente a propaganda tenta criar o desejo de compra no consumidor. O que o marketing não consegue criar é a confiança de que teremos paz e tranquilidade para preparar o clima que se pede. Pelo oposto, talvez só o Natal e todo o seu sentido espiritual possam trazer a harmonia que se impõe em meio ao caos.


Cabe um diplomata aí?

celeb

O aeroporto internacional de Los Angeles anunciou que vai construir um terminal especial e exclusivo para celebridades. E diplomatas. O projeto já foi aprovado por todas as autoridades aeroportuárias dos EUA e já recebeu o sinal verde para sair do papel.

O aspecto folclórico da notícia parece se sobrepor à inflexão segregacionista desta, mas só parece. Convido, todavia, o leitor a divagar.

Ponha-se no lugar de uma celebridade. O ir e vir tornou-se um ônus real, cuja opressão social se faz sentir pelas lentes dos paparazzi nos terminais de aeroportos mundo afora. Procurei a estatística e não achei. Saídas de bares e confusões no trânsito continuam sendo as campeãs de incidentes entre paparazzi e celebridades. Mas é legítimo e justificável a iniciativa de proteger a celebridade do assédio indesejado – e que se assédio é desejado não é mesmo sua subcelebridade de esquerda, digo, de direita – dos paparazzi e fãs desatinados.

Por outro lado, abre-se um precedente perigoso. E aquele famoso 1%, que na falta de um adjetivo melhor, caga dinheiro, mas não recebeu a benção da fama? Tudo bem que eles não precisam pastar em um terminal, mas poxa, a ideia de um terminal exclusivo me parece mais adequada a eles, não é mesmo? Afinal, eles também fizeram por onde. Pode dar confusão aí.

Mas não quero perder o leitor desta minha digressão tão avoada. E os diplomatas? Por que diplomatas ganham a oportunidade de compartilhar de tão exclusivo espaço com figuras como Miley Cyrus e Angelina Jolie?

Talvez porque a diplomacia, como bem sabemos, seja a causa social das celebridades. Nada mais justo do que dá um passaporte de celebridade para os emissários da boa vontade do planeta.

Não que alguém vá deixar de querer ser celebridade para perseguir a carreira na diplomacia. Mas na dúvida, cabe um diplomata aí?


Favas

bomb

E se, ao invés de dar bom dia, responder que sim, colocar tudo nos devidos lugares, apoiar e estar presente, a gente simplesmente lançasse um bomba de hidrogênio em tudo para ver se, depois de eras passadas em silêncio e inércia, a grama iria nascer mais verde e nos fazer assim mais felizes…


Momento crítico


“Você vai encontrar alguém como eu”, ele disse para a consolar.
E aí, o sangue ferveu. Quem disse que ela queria encontrar alguém como ele? Juliana queria ele, não alguém “como ele”. Pra que ela iria querer um outro escroto convencido como Theo? O escroto convencido e baixinho que a Juliana amava era aquele, não outro.
Ela não amaria outro pulha como o Theo. Nunca mais. E ela soube disso tão logo ele concluiu a frase.
A sobrancelha de Juliana fez um esforço sobre-humano para permanecer no lugar dela. E como o amor não exclui o ódio, naquele momento ela odiou o sujeito.  O mesmo cara imperfeito, de sorriso torto, mezzo cool mezzo cafa, e barbado que ela saiu de casa querendo chamar de seu.
Mas ela não iria compor uma canção só porque ele estava ali lhe oferecendo todos os elementos para uma fossa particularmente longa e intensa. Nem uma carta, não mais.  Juliana apenas engoliu o amor, sem gelo mesmo.
Theo era um escroto. Ponto. Juliana não lhe daria o prazer de ser lembrado, nem por uma canção, nem por uma página de diário, que fosse. Lágrimas não contavam, ainda mais aquelas que ela verteu na volta pra casa – com gelo e limão, elas iriam secar.

De noites infantis

Uma noite eu acordei, olhei para o relógio e ainda era o meio da madrugada. Virei para o outro lado e tentei continuar a dormir, mas não consegui. Já cansado de todo aquele esforço, desisti: coloquei as mãos por baixo da cabeça e me dispus a pensar, pensar em alguma coisa que estivesse me afligindo a ponto de tirar o sono. E não sei exatamente por qual associação de ideias, mas o fato é que me ocorreu a lembrança de outras noites, de noites infantis, em que eu também estava acordado e por algum motivo precisava chamar a minha mãe. Não lembro, para ser sincero, de nenhum motivo que tenha me levado a chamar a minha mãe de madrugada, mas lembro que eu chamei algumas vezes, e lembro que, antes de chamar, eu pensava bem se aquele era mesmo um caso de se chamar a mãe da gente, ou se eu podia esperar que amanhecesse.

E de repente saia: “Mãããe”. Eu mesmo me espantava com o som que havia saído da minha boca, no meio daquele silêncio. Fosse como fosse, estava feito, eu havia chamado a mãe e isso me aliviava. A mãe escutava já da primeira vez. Ela dormia no quarto em frente e, se não por isso, também tinha o sono fraco. Eu podia ouvir o barulho que ela fazia ao se levantar. Não demorava e a porta do quarto abria: a mãe vinha ver o que acontecia.

Isso faz muito tempo, é claro, e eu nem ao menos moro com a minha mãe agora. O diabo é que, mesmo assim, continuaram acontecendo coisas na minha vida, e coisas que, olha, vou falar a verdade, a gente não sabe o que fazer. E nessas horas eu gostaria de ainda poder gritar do meu quarto, de ser ouvido e de saber que alguém viria para resolver o meu problema. Porque mãe sempre resolve o problema (é como diz aquela tirinha do Calvin: eles não deixam você ser mãe se não souber o que fazer).

Mas a mãe não vem, não mais, não vem ninguém – permaneço só, no meu quarto. E então eu me dou conta de que não tem mais volta, que eu cresci mesmo, para sempre. E, o que é pior, sem saber tudo o que era preciso que eu soubesse.