Mário e o gênio

Mário sempre achava que o seu dia a dia era meio mágico. Enxergava beleza na simplicidade das coisas. Em como elas se resolviam por si mesmas. A vida era boa.

E Mário era um cara muito esperto. Os amigos o consideravam um gênio e ele mesmo já acreditava naquela história.

Acontece que Mário não era um gênio. Ele tinha um gênio. Esse gênio se chamava dona Rosa. Dona Rosa era a mãe do Mário. Era ela quem fazia a magia de tirar a roupa que o rapaz largava pelo quarto, acumular no cesto, separar depois as brancas das coloridas para lavar na máquina, e por fim estender, passar e guardar novamente no armário.

Dona Rosa também era quem preparava a marmita rica em alimentos com ômega 3 para o Mário arrasar nos brainstorms da agência. Era suco de abacaxi com ginseng no café da manhã, arroz com lentilha e salmão no papelote no almoço, castanhas e iogurte para os lanches da manhã e da tarde, e salada verde com amêndoas e não sei mais o que no jantar.

Aquele Mário era o orgulho dela. Mas, a dona Rosa passou a se ressentir da falta de reconhecimento. Gênio ele? Gênia era ela, a grande mulher por trás do grande homem. Ele, sem ela, seria o quê? Mais um rapazola bem intencionado, mas sem meios de chegar ao topo.

E acontece que o Mário não percebia isso. Nem ele, nem a namorada folgada dele, que se dividia entre as horas na academia, as fotos dessa jornada estafante para o instagram e o tempo que ocupava a paciência da dona Rosa esperando no quarto do rapaz pela volta dele para casa.

Então, o Mário tinha um gênio e não fazia a menor ideia. Mas o gênio, aliás, a gênia (vamos nos atentar para a linguagem que esses tempos estão bicudos de tanto empoderamento, patrulhamento pelas minorias dos meios de comunicação, etc. etc. e não somos nós que vamos nos jogar no olho do furacão, mas voltemos à nossa história), a gênia, como dizíamos, se cansou daquela vida de gênia anônima. Uma gênia invisível, absolutamente invisível. Nem um porteiro, nem um gari era tão invisível para aquele filho, sempre tão cioso de parecer sintonizado com a classe média esclarecida.

O filho mal balbuciava um ‘obrigada mãe’ ao deixar a marmita sobre a mesa para que ela desfizesse e a recheasse novamente de comidinha caseira nutricionalmente equilibrada para o dia seguinte. E logo corria para se trancar no quarto com aquela inútil da Marcelinha.

Os tempos eram outros. Dona Rosa cansou de ser gênia. Não ia fazer disso uma estampa de camiseta, é claro. Aliás, pode ser que fizesse, tinha uma caligrafia linda e toda uma experiência de vida que poderia inspirar outras mulheres. Mas isso podia esperar um pouco.

Fez as malas. Comprou pela internet uma passagem só de ida pra Santiago, no Chile. Viajaria pelo deserto de sal, se acabaria nas vinícolas, iria ao estreito de Beagle e de lá pensaria no futuro.

Lavou o resto da louça, guardou o leite na geladeira e pegou uma foto do filho, ainda menino, que ficava no móvel da sala. Não disse nem tchau, o rapaz lamentaria dias depois.

Conseguiu o último voo da noite.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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