O time da crônica

Diz que o Fernando Sabino andava tão mergulhado em literatura que começou a inventar times de futebol com os seus escritores prediletos. E formou um time de prosadores russos fabuloso, capaz de fazer frente ao dos poetas ingleses. Pois eu achei conveniente que também os cronistas deste país tivessem uma equipe que os representasse nos certames literários. E, como ninguém se opôs, resolvi fazer-me então técnico de um time de cronistas. Sendo novato, decidi me valer da experiência do José de Alencar como meu assistente.

De início, adotei o critério de só convocar cronista defunto. Seria, afinal, uma grande injustiça colocar para correr, lado a lado, mortos e vivos. Abri uma exceção apenas para o goleiro. E foi uma exceção tão grande que o goleiro sequer é cronista. Bolas, mas pouca gente defendeu melhor a crônica do que o Antônio Cândido. Se alguém dizia que a crônica era um gênero menor, lá vinha o Antônio Cândido: “Ainda bem, assim ela fica mais próxima de nós”. Estou certo que, colocando-o no gol, impedirei muitos ataques à crônica.

Para a lateral-direita, chamei o Nelson Rodrigues – e se chamei para a direita é porque não poderia chamá-lo para a esquerda. Nelson é um daqueles laterais que sobem pouco ao ataque, meio conservador, mas, em compensação, quando sobe, é capaz de muitas jogadas de efeito. Na lateral-esquerda, botei o Lima Barreto, rapaz de temperamento forte, volta e meia envolvido em polêmicas, mas extremamente ágil nas jogadas de ataque.

Na zaga eu botei o Rubem Braga. O Braga é aquele zagueiro mais raçudo do que habilidoso, e que por isso tem a simpatia da torcida. É daqueles jogadores que fazem gol contra e depois vão ao ataque e fazem um a favor. Também é o capitão. Ao seu lado, eu escalei o Drummond. O Drummond é aquele zagueiro classudo, que consegue desarmar o adversário e sair jogando.

Como cabeça de área, joga o Carlinhos Oliveira, aquele tipo de jogador que pouco aparece em campo, mas que é fundamental para o bom andamento do time. À frente dele está o Antônio Maria, e desse dá para dizer que coloca o coração em campo. É aquele volante que, quando menos se espera, aparece de surpresa para concluir. Botei o Stanislaw Ponte Preta para jogar na meia-esquerda, onde ele é mais agudo, vez ou outra dando dribles que empolgam a torcida.

O meia-direita, a quem dei a camisa 10, só podia ser o Machado de Assis. É aquele jogador que deixa os outros na cara do gol, e pode-se mesmo dizer que o time da crônica só joga o que joga por conta dele. Na frente, escalei o Fernando Sabino, que é aquele atacante ágil e veloz de quem sempre se pode esperar uma boa jogada, e, como referência, o Paulo Mendes Campos, a quem a gente sabe que pode mandar bola, porque certamente sairá uma boa finalização.

Fica então assim definida a escalação do time titular: Cândido; Nelson, Braga, Drummond e Barreto; Carlinhos, Maria, Ponte Preta e Machado; Sabino e Paulo Mendes.

No banco estão o veterano Olavo Bilac, o recém-promovido João Ubaldo Ribeiro, o polivalente Moacyr Scliar, o João do Rio, para atuar ali na intermediária, o Marques Rebelo, porque é preciso alguém bem rodado, o Ivan Lessa, que foi cedo para a Europa, o Roberto Drummond, queridinho do treinador, e o Lourenço Diaféria, porque sempre tem alguém do Corinthians.

Temos ainda o Henrique Pongetti, que teve os seus tempos áureos mas anda esquecido, e o Carlos Rafael Guimaraens como o famoso “quem?”. Cortei o Manuel Bandeira, que vive no departamento médico, e chamei às pressas o Otto Lara Resende.  Tive o cuidado até mesmo de deixar uma ausência, a do Vinicius de Moraes, porque toda seleção precisa ter alguém que não foi chamado.

Agora é treinar para ganhar entrosamento. E que venham os contistas.

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2 respostas para “O time da crônica

  • Oliveira Neto

    Brilhante! Já conhecia o esboço da seleção. Mas como todo torcedor que não acompanha a crônica como deveria, faz aquela pergunta: “Quem são os volantes? Nunca ouvi falar.”

    • Henrique Fendrich

      Frank, são dois mestres do gênero também. O Antônio Maria só não tem a mesma fama que os outros porque morreu novo, de um infarto, nos anos 60. O Carlinhos Oliveira é capixaba como o Braga, escreveu muito dos anos 60 a 80, quando também morreu novo. São dois nomes que precisam ser resgatados.

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