A vida de bicho do mato

Se há um teste em que passei com louvor nessa vida foi o da escala de Liebowitz. Esse Liebowitz parece alemão, mas o homem é norte-americano, o que não tem nada demais, pelo menos para quem se chama Fendrich, mas é brasileiro. Pois bem. Liebowitz, acho que Michael, é um psiquiatra que fundou em Nova Iorque uma clínica de transtornos de ansiedade. Há diferentes transtornos de ansiedade, e hoje em dia não existe pessoa em sã consciência que não diga ter um deles, mas o que fez a fama de Liebowitz mesmo, pelo menos o que fez com que ganhasse o nome de uma escala, foi o seu questionário sobre fobia social. Este foi o teste que eu fiz, após o qual se comprovou o óbvio, ou seja, que eu sou mesmo um bicho do mato.

São 24 perguntinhas para avaliar o grau de ansiedade do sujeito em situações das mais corriqueiras, como falar com pessoas desconhecidas, ir a uma festa, devolver um produto em uma loja, telefonar em público, comer em público, beber em público – em suma: o problema é o público. A pessoa diz quanto medo sente em cada situação e com que frequência foge dela. Depois tudo é somado e, quanto maior for a pontuação, mais grave será a fobia. Não é para me gabar, mas eu sinto medo de uma porção de situações corriqueiras e ainda evito a maior parte delas, de modo que não foi surpresa alcançar o resultado “fobia social muito grave”.

Antes um argueiro, antes uma trave no olho, do que uma fobia social. Porque o negócio é sério, tem gente que tranca a faculdade só para não ter que se formar. O sujeito treme, tem taquicardia, sudorese, dores abdominais, o diabo, toda vez que se vê diante de uma situação em que seu desempenho é posto à prova. Há um medo ridículo de parecer ridículo que acaba fazendo com que se pareça ridículo mesmo. Não se trata de uma prosaica timidez, mas de um medo que pode fazer a pessoa ficar trancada em casa pelo resto da vida. É verdade que eu me formei e que, às vezes, até saio de casa, mas é só a muito custo que participo da vida em sociedade, e mais de uma vez eu saí correndo de lugares em que me senti pouco à vontade.

Às situações previstas no teste, eu acrescentaria outras, como entrar em uma loja vazia, o que para mim é particularmente difícil, visto que todas as atenções irão se voltar para mim e eu fatalmente serei objeto do julgamento alheio. Minha tendência é passar devagarzinho pela entrada da loja e só entrar quando todos estiverem distraídos. Ou então atravessar a faixa de pedestres, outra missão difícil, já que estarei desfilando diante dos carros parados, e sabe-se lá que coisas não pensarão sobre mim de dentro deles. Prefiro esperar os carros passarem.

Você precisa se abrir mais com as pessoas, dizem os outros, aqueles mesmos que dizem para o deprimido ter pensamentos positivos. A verdade é que não se tem notícia de um caso de cura, nem mesmo nos cultos da Universal você vê alguém curado de fobia social. Há grupos na Internet em que os sócio-fóbicos se reúnem para lamentações mútuas, já que não podem resolver o problema, e o que menos se diz lá é que seria melhor morrer. E talvez morressem mesmo, se não chamassem a atenção no velório. Estranhos pacientes tem esse Dr. Liebowitz.

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