Mãe e filha

Como uma mãe não sabe onde está o próprio filho? Sempre disse pra minha menina pra me avisar aonde ela ia. Mas os filhos nunca fazem isso, né? Depois quando acontece algo, a primeira coisa que saem dizendo é ‘que mãe é essa que não sabe onde a própria filha se meteu?’.

Eu não sabia, não tinha como saber dessa vez. A menina sumiu. E eu só soube porque a namorada dela veio bater aqui pra saber se ela tinha passado pra pegar uma mala pra viagem. “Viagem?”, mas ela não me falou de viagem nenhuma. Era pra um trabalho de uns dias em São Paulo. Ela estava parada já tinha um tempo, o desemprego só aumenta e não dá pra ficar sem dinheiro pras coisas de todo dia, eu entendo, claro que eu entendo. Sou a mãe dela, né?

Eu que criei ela assim, pra ter responsabilidade, não depender de homem, nem de mulher, que pra essas coisas tanto faz. O importante é poder ser livre pra entrar e sair da vida de alguém quando chegar a hora. Veja o pai dela, não fiquei presa naquele traste nem um dia depois que percebi o que ele era, um bruto mulherengo, nem um dia eu fiquei com ele a mais. Não tinha necessidade, tinha?

Daí que ela veio pra São Paulo e sumiu. E dizer que está em São Paulo é o mesmo que dizer que está no Brasil, de tão grande que é essa cidade. Mas eu vim atrás, vim mais de uma vez. Procurei por onde ela tinha estado, consegui com a companhia do celular mais ou menos os lugares e fui checando um por um.

E eu estive lá antes, e eu avisei a polícia, mas eles nem deram bola. Eu fui lá, mostrei a foto pros vizinhos e eles confirmaram que a tinham visto por ali, mas fazia tempo, já. Um mês, um mês e meio talvez. Eu falei que a minha filha tinha estado por ali, eu falei!

Quando descobriram aquele caso do matador da zona sul, eu nem pensei duas vezes: avisei meu patrão e vim direto acompanhar os trabalhos. Mais uma vez, a polícia disse que eu me precipitei, que deveria deixar fazer o trabalho deles. Mas eu não ia deixar a minha menina na dependência da polícia, de novo não. Eu e a Márcia, a namorada dela, pegamos nós mesmas as pás e escavamos. O dia inteiro. Saí com a blusa colada nas costas de suor. Com as pernas assadas de ficar naquele lugar abafado. Achamos o celular dela. E uma corrente de bijuteria com o nome dela gravado.

Fui lá mostrar pro delegado. Finalmente, eu sabia onde estava a minha filha.

Agora, só quero levá-la de volta pra casa.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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