Mário e o gênio

Imagem: https://www.flickr.com/photos/telemax/
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Mário sempre achava que o seu dia a dia era meio mágico. Enxergava beleza na simplicidade das coisas. Em como elas se resolviam por si mesmas. A vida era boa.

E Mário era um cara muito esperto. Os amigos o consideravam um gênio e ele mesmo já acreditava naquela história.

Acontece que Mário não era um gênio. Ele tinha um gênio. Esse gênio se chamava dona Rosa. Dona Rosa era a mãe do Mário. Era ela quem fazia a magia de tirar a roupa que o rapaz largava pelo quarto, acumular no cesto, separar depois as brancas das coloridas para lavar na máquina, e por fim estender, passar e guardar novamente no armário.

Dona Rosa também era quem preparava a marmita rica em alimentos com ômega 3 para o Mário arrasar nos brainstorms da agência. Era suco de abacaxi com ginseng no café da manhã, arroz com lentilha e salmão no papelote no almoço, castanhas e iogurte para os lanches da manhã e da tarde, e salada verde com amêndoas e não sei mais o que no jantar.

Aquele Mário era o orgulho dela. Mas, a dona Rosa passou a se ressentir da falta de reconhecimento. Gênio ele? Gênia era ela, a grande mulher por trás do grande homem. Ele, sem ela, seria o quê? Mais um rapazola bem intencionado, mas sem meios de chegar ao topo.

E acontece que o Mário não percebia isso. Nem ele, nem a namorada folgada dele, que se dividia entre as horas na academia, as fotos dessa jornada estafante para o instagram e o tempo que ocupava a paciência da dona Rosa esperando no quarto do rapaz pela volta dele para casa.

Então, o Mário tinha um gênio e não fazia a menor ideia. Mas o gênio, aliás, a gênia (vamos nos atentar para a linguagem que esses tempos estão bicudos de tanto empoderamento, patrulhamento pelas minorias dos meios de comunicação, etc. etc. e não somos nós que vamos nos jogar no olho do furacão, mas voltemos à nossa história), a gênia, como dizíamos, se cansou daquela vida de gênia anônima. Uma gênia invisível, absolutamente invisível. Nem um porteiro, nem um gari era tão invisível para aquele filho, sempre tão cioso de parecer sintonizado com a classe média esclarecida.

O filho mal balbuciava um ‘obrigada mãe’ ao deixar a marmita sobre a mesa para que ela desfizesse e a recheasse novamente de comidinha caseira nutricionalmente equilibrada para o dia seguinte. E logo corria para se trancar no quarto com aquela inútil da Marcelinha.

Os tempos eram outros. Dona Rosa cansou de ser gênia. Não ia fazer disso uma estampa de camiseta, é claro. Aliás, pode ser que fizesse, tinha uma caligrafia linda e toda uma experiência de vida que poderia inspirar outras mulheres. Mas isso podia esperar um pouco.

Fez as malas. Comprou pela internet uma passagem só de ida pra Santiago, no Chile. Viajaria pelo deserto de sal, se acabaria nas vinícolas, iria ao estreito de Beagle e de lá pensaria no futuro.

Lavou o resto da louça, guardou o leite na geladeira e pegou uma foto do filho, ainda menino, que ficava no móvel da sala. Não disse nem tchau, o rapaz lamentaria dias depois.

Conseguiu o último voo da noite.

O nerd e o vendedor de poemas

Admito, eu pareço mesmo um nerd. Pelo menos o nerd clássico, quase sempre um magrelo, de corpo franzino e – isso é fundamental – que usa óculos. Claro, não uso óculos para parecer um nerd, mas como, coincidentemente, eu sou, vá lá, que os outros saibam disso apenas em olhar para mim. É verdade que, vez ou outra, usar óculos me faz parecer mais inteligente do que na verdade eu sou. Sou capaz de apostar que é por causa dos óculos que me param tanto na rua em busca de informações que, invariavelmente, eu não sei dar. Às vezes me pedem para fazer operações complicadíssimas no celular – esse cara de óculos deve saber, iludem-se. E também deve ser por conta deles que sou abordado na rodoviária de Brasília por quem vende poemas.

Poemas, isso mesmo que você leu. Estou eu lá parado com a minha nerdice quando um sujeito se aproxima e pergunta se eu quero comprar poemas. Antes mesmo que ele termine a frase, eu já recuo espantado, porque a minha primeira impressão é que se trata de um mendigo (há mais mendigos do que poetas na rodoviária de Brasília). Mas não, o cara quer vender poemas, e poemas que ele mesmo fez. Havia olhado para mim e visto que eu usava óculos, que tinha cara de gente que lê, que devia ser mais ou menos sensível, e veio diretamente para mim, sem prestar atenção nas demais pessoas na fila. Diz que tem muitos poemas e que eu poderia mandá-los à minha namorada, que eu só não tenho porque, como disse, sou o nerd clássico.

Posso até não ter namorada, mas acho muito bonito que alguém queira vender poemas na rodoviária de Brasília, onde são vendidos vales, DVDs, chips de celular, bijuterias, goiabas e adesivos para a unha, e por isso peço: “Me vê um”. Bueno, o vendedor explica que fez vários grupos de quatro poemas e botou dentro de um envelope. Ele deixa que eu abra os envelopes, que eu tire os poemas, que eu leia os poemas, que eu cheire os poemas, que eu apalpe os poemas e escolha aqueles que estiverem mais maduros. Mas aconselha: “Esse aqui o pessoal gosta mais…”, o que sugere que, apesar da crise, há mais gente comprando poemas por aí.

Escolho esse que o pessoal gosta mais e o vendedor diz que o envelope custa dois reais. A cotação de um poema, portanto, é de 50 centavos, o que parece pouco, mas ainda é mais do que eu ganho com uma crônica. Feita a transação, que imagino ilegal, pois o poeta não deve ter registro para vender poemas na rodoviária de Brasília, ele se afasta, em busca de mais alguém que use óculos, enquanto eu me disponho a ler os poemas e ver se seriam dignos da minha amada. Mas descubro que as rimas são forçadas e os versos são clichês. O poeta, é claro, não tem culpa de não ser Drummond, e nem precisa, desde que cultive uma coisa bonita na vida.

O problema é que, desde então, ele já me abordou meia dúzia de vezes, e nunca se lembra de mim, sempre é a minha aparência de nerd que chama a sua atenção. Estou pensando em tirar os óculos para ver se ele aparece mesmo assim. Quem sabe isso também ajude a arrumar uma namorada para receber os poemas. Afinal, é por conta desses óculos que “as meninas do Leblon não olham mais para mim” – ou isso ou o fato de eu nunca ter estado no Rio de Janeiro.

DESPEDIDA DE PARIS

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A noite de ontem teve uma chuva forte, que veio com vontade de lavar ruas e almas, para amanhecer com um chuvisco ameno, apenas para manter molhados os ladrilhos e dar um frescor à vegetação.
Madeleine teve vontade de se embrenhar no meio dos turistas, mesmo sozinha e calada. Apenas ouvindo os seus passos rápidos e com um certo sentido para não se perder no meio da multidão, que falava nos vários idiomas com entusiasmo da arquitetura que saltava à vista a cada esquina. E vieram na lembrança outras visitas que fizera em tempos atrás, com a mesma alegria dos demais transeuntes. Vinham expressões de encantamento e de emoção pelo que podia, mais uma vez, estar ali presente, mas não tinha com quem dividir e comentar sobre a beleza da cidade de Paris, passando pelo Ópera, Cafe de La Paix, Jardin de La Tuileries,Museu du Louvre, não mais outros pontos que gostaria, porque lhe esperava uma pessoa, para ver as imagens pelas fotos que tirara, na ânsia de compartilhar momentos.
E ela se lembrou de uma história que ouviu em tempos atrás sobre dois homens que estavam em camas de hospital no mesmo quarto, ambos impossibilitados de sair. Um deles era cego e o outro um ancião, e este, diariamente, falava das imagens que via pela janela do quarto, como jardins floridos, pássaros, crianças brincando. Um dia, o ancião morre e quando vieram desocupar o seu armário no quarto, o cego pede para que falasse o que estava vendo pela janela naquele momento. A surpresa foi saber que havia sim um paredão escuro no limiar da janela.
O que Madeleine quis fazer foi emprestar os seus olhos, cabeça, corpo para reproduzir um pouco das suas sensações, para quem não tinha como fazer naquela viagem. E foi compensada, pela abertura do sorriso. A frase do escritor mexicano Octavio Paz surgiu na hora: “nada me desengana, o mundo me enfeitiçou”.
Enquanto tivermos um bom coração, nunca deixarão de existir bons sentimentos.

A Propina

propina

Descobri que no Uruguai há o hábito de se dar propina para qualquer coisa. Pelo menos foi o que foi exortado aos turistas. Enquanto passeava por ruas uruguaias refletia sobre o hábito da propina cá e lá e os efeitos intercambiáveis perdidos na tradução. A propina do espanhol é a nossa gorjeta. Não aquela que mobiliza o noticiário político brasileiro que corruptos e corruptores operacionalizam.

Avancei no paralelo e matutei o seguinte. Orientar o turista a dar propina por um serviço pelo qual ele já está pagando não é uma forma de aliciar vantagem? Talvez seja minha paranoia de brasileiro de que o famigerado jeitinho tenha virado commodity no MERCOSUL.

Ou será que é o nosso imperialismo regional manifesto na mentalidade por trás da propina? Aliás, avançando no raciocínio e dispensando a geopolítica para abraçar a história, a pilhagem da coisa pública não teria a ver com o fato de termos sido colonizados para exploração? Todos os turistas vieram para cá pela propina.

Um bom (des)aniversário pra mim!

Eu cobro parabéns no meu aniversário.

Há quem diga que esse ato seja de egoísmo, já escutei ser de extremo mal gosto. mas discordo de ambas as opiniões e faço questão de dizer por quê.

Primeiro de tudo: ninguém, nem mesmo minha própria mamãe, é obrigado a saber quando completo as minhas primaveras; logo, sinto-me quase que na obrigação de informá-los. E como isso acontece anualmente (ufa!), há que se dar um “boi” pelo fatídico esquecimento e lembrar as pessoas todos os anos. Com o passar dos anos, a tecnologia invade a vida das pessoa e a informação vem de enxurrada; isso significa números de telefones, endereços e aniversários sendo retirados da memória, gravados apenas nas redes sociais.

Não se trata de um ato egoísta justamente por que há uma troca: ao receber um abraço de felicitações de alguém, automaticamente todo o carinho recebido é dividido com a pessoa com a qual se abraça – por que o abraço nunca é de uma pessoa só.

Por último, e não menos importante, gosto de “cobrar” os parabéns por que é meu dia, por que é gostoso partilhar de alegria com pessoas queridas e só por gostar de sorrir.

Portanto, eu anuncio e cobro: dêem-me parabéns hoje, sim, hoje!, por que hoje é meu aniversário!!

Dianóia

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Apertou a mão dela com força e firmeza. Em retribuição, sentiu seus ossos estalarem. Ela não era uma dessas muitas que andam por aí, a entortar pescoços despertando apenas sensações físicas. Assim como ele, tinha fogo nos olhos. Respeitava seus colegas, do mesmo sexo biológico, pois acreditava que por serem machos era inerente a força em si. Mas quanto a elas, admirava as belas feições, os pares de pernas, bocas sedutoras e não passava disso. Não acreditava que rostinhos bonitos pudessem ter fibra. Até aquele dia. Seus olhos de carvão, sua mão de ferro, sua fala firme, sua eloquência cadenciada,  inebriavam tanto ou mais que seus cílios longos ou sua forma de ampulheta. Dessa vez, foi ele quem perdeu o rebolado. Emudeceu, estupefato. Gaguejou, tropeçou, deixou fugir o argumento e quase caiu. Ela, sorrindo triunfante, saiu da reunião tranquila. Mais uma vez deixou no chinelo marmanjos barbados. Sem precisar de ferramentas outras que o próprio raciocínio.

O time da crônica

Diz que o Fernando Sabino andava tão mergulhado em literatura que começou a inventar times de futebol com os seus escritores prediletos. E formou um time de prosadores russos fabuloso, capaz de fazer frente ao dos poetas ingleses. Pois eu achei conveniente que também os cronistas deste país tivessem uma equipe que os representasse nos certames literários. E, como ninguém se opôs, resolvi fazer-me então técnico de um time de cronistas. Sendo novato, decidi me valer da experiência do José de Alencar como meu assistente.

De início, adotei o critério de só convocar cronista defunto. Seria, afinal, uma grande injustiça colocar para correr, lado a lado, mortos e vivos. Abri uma exceção apenas para o goleiro. E foi uma exceção tão grande que o goleiro sequer é cronista. Bolas, mas pouca gente defendeu melhor a crônica do que o Antônio Cândido. Se alguém dizia que a crônica era um gênero menor, lá vinha o Antônio Cândido: “Ainda bem, assim ela fica mais próxima de nós”. Estou certo que, colocando-o no gol, impedirei muitos ataques à crônica.

Para a lateral-direita, chamei o Nelson Rodrigues – e se chamei para a direita é porque não poderia chamá-lo para a esquerda. Nelson é um daqueles laterais que sobem pouco ao ataque, meio conservador, mas, em compensação, quando sobe, é capaz de muitas jogadas de efeito. Na lateral-esquerda, botei o Lima Barreto, rapaz de temperamento forte, volta e meia envolvido em polêmicas, mas extremamente ágil nas jogadas de ataque.

Na zaga eu botei o Rubem Braga. O Braga é aquele zagueiro mais raçudo do que habilidoso, e que por isso tem a simpatia da torcida. É daqueles jogadores que fazem gol contra e depois vão ao ataque e fazem um a favor. Também é o capitão. Ao seu lado, eu escalei o Drummond. O Drummond é aquele zagueiro classudo, que consegue desarmar o adversário e sair jogando.

Como cabeça de área, joga o Carlinhos Oliveira, aquele tipo de jogador que pouco aparece em campo, mas que é fundamental para o bom andamento do time. À frente dele está o Antônio Maria, e desse dá para dizer que coloca o coração em campo. É aquele volante que, quando menos se espera, aparece de surpresa para concluir. Botei o Stanislaw Ponte Preta para jogar na meia-esquerda, onde ele é mais agudo, vez ou outra dando dribles que empolgam a torcida.

O meia-direita, a quem dei a camisa 10, só podia ser o Machado de Assis. É aquele jogador que deixa os outros na cara do gol, e pode-se mesmo dizer que o time da crônica só joga o que joga por conta dele. Na frente, escalei o Fernando Sabino, que é aquele atacante ágil e veloz de quem sempre se pode esperar uma boa jogada, e, como referência, o Paulo Mendes Campos, a quem a gente sabe que pode mandar bola, porque certamente sairá uma boa finalização.

Fica então assim definida a escalação do time titular: Cândido; Nelson, Braga, Drummond e Barreto; Carlinhos, Maria, Ponte Preta e Machado; Sabino e Paulo Mendes.

No banco estão o veterano Olavo Bilac, o recém-promovido João Ubaldo Ribeiro, o polivalente Moacyr Scliar, o João do Rio, para atuar ali na intermediária, o Marques Rebelo, porque é preciso alguém bem rodado, o Ivan Lessa, que foi cedo para a Europa, o Roberto Drummond, queridinho do treinador, e o Lourenço Diaféria, porque sempre tem alguém do Corinthians.

Temos ainda o Henrique Pongetti, que teve os seus tempos áureos mas anda esquecido, e o Carlos Rafael Guimaraens como o famoso “quem?”. Cortei o Manuel Bandeira, que vive no departamento médico, e chamei às pressas o Otto Lara Resende.  Tive o cuidado até mesmo de deixar uma ausência, a do Vinicius de Moraes, porque toda seleção precisa ter alguém que não foi chamado.

Agora é treinar para ganhar entrosamento. E que venham os contistas.

MÚSICA QUE TRANSPORTA

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Um violinista entoava uma canção na saída de uma estação de metrô, em Paris. Era a Gare du Nord, movimentada devido às várias interligações com outros meios de transporte, o trem, por exemplo. Os transeuntes apressados pouco prestavam atenção ao artista, que devia estar ali para ganhar o seu ganha-pão. Nós, como turistas e com o tempo diferente dos demais usuários, paramos e sentimos o quanto de sentimento era empregado naquela interpretação e percebemos que se tratava de uma obra do russo Igor Stravinsky, “A Sagração da Primavera”. Foi composta por encomenda para o também russo e coreógrafo Vaslav Nijinsky, que estrearia no Théâtre des Champs-Élysées, na capital francesa, um ballet em dois atos, em maio de 1913.
Esse espetáculo veio subverter a estética musical do século XX e os dois irreverentes artistas – compositor e bailarino – marcaram como o grande acontecimento do início da era moderna na música, saindo um pouco do erudito.
Provavelmente, o violinista do metrô desconheça que o espetáculo contava a história de uma garota que foi entregue como oblação à uma divindade primaveril, durante um ritual pagão, para obter melhores colheitas para o povo.
Sabendo ou não, ele cumpria o seu papel de transpor os passageiros para outras épocas e locais, assim como aconteceu conosco, abrindo um parêntesis nas nossas caminhadas pela cidade.

Escrever…

escrever

Quando deixo de escrever me sinto culpado. Não sou desses escritores compulsivos, mas sinto que a vocação para tal está em mim. O leitor cheio de boa vontade que me acompanha já me flagrou reclamando de crises criativas, de falta de tempo e outras reminiscências de quem escreve ou deixa de escrever.

Escrever é como burilar sua alma. Adornar seu coração. Aparar sua vaidade. É um gesto e é uma contingência. Pode ser terapêutico e pode ser celebratório. Pode ser fácil, mas pode ser doído.  Pode ser natural e pode ser treinado.

Pode ser um exercício de liberdade ou um flagelo do confinamento. É uma arte, mas também uma prática. Algo deletério, mas também redentor. Há grandes manifestações artísticas sobre o poder da palavra e gosto de pensar que este blog, tão bravamente defendido por apaixonados pela palavra, é uma singela contribuição para esse painel complexo.

Escrever é uma declaração de amor à linguagem e à capacidade humana de codificar e decodificar a complexidade da existência.  Escrevo, logo existo.

Meia volta, volver.

Acho que desisti de falar.

O ditado diz que água mole bate em pedra ate que ela fure, mas ultimamente tenho acreditado mais na versão moderna de um ditado primo, que diz que quem espera um dia cansa. E acho que cansei.

O mundo, as pessoas no mundo, estão cada vez menos preocupadas em viver em harmonia: fomentam ódio, encorajam a violência, ignoram a igualdade. E tudo parece tão comum que quase vira normal.

O tanto que eu já falei, insisti, repeti milhares de vezes a mesma coisa, mudei exemplos, transportei situações, vesti sapato de uns e outros, joguei baldes d’água fria, ferventei discussões, provei por A+B, e mesmo assim, não surtiu resultado significativo.

Tem gente, que aí já não asseguro dizer, que parece fingir de besta. Não entende nada ou não quer ou não faz questão de entender. Esses últimos são os que mais me irritam, pois geralmente são os mais ignorantes, os que causam impacto mais negativo. Por que são eles os reis na arte de ignorar o conhecimento, só enxergam aquilo que lhes convém e por mais que a verdade seja escancarada, tomam um espaço aqui, uma vírgula ali e transformam o assunto chato e em algo que eles possam levantar o dedo para o céu e dizer “por que eu…”.

Vejo os estragos que políticos, militares, civis e bandidos têm feito à população, mas vejo também pais e mães criando seus filhos como bichos de estimação, ensinando valores e princípios de bancos aos pequenos, batendo no peito para dizer que meu filho estudou na PUC.

Ok. Então eu pergunto: o que farão eles com isso se antes mesmo de verem os netos o mundo estará em frangalhos? Se a sociedade será um emaranhado de pessoas engalfinhadas em casas enormes ou embaixo de pontes. E ainda dizem que educam?

Não, eu cansei. Hoje já não discuto mais, deicidi que só digo se me perguntarem e mesmo assim analiso se a pessoa está sã o suficiente para receber a mensagem. Do contrário, sou muda.

Somos Terra

Terra

imagem da Internet

O título não tem nenhuma conotação bíblica. Pelo contrário tem por objetivo dar um sacode em quem não percebeu isso ainda. Somos Terra. Não é preciso gritar. Não é preciso mais defender o Planeta é preciso defender o que somos. Eu não tenho que cuidar da casa, tenho de cuidar daquilo que complemento, daquilo sou, daquilo que me é.

Não estamos numa viagem no espaço. Não estamos a navegar. Estamos a viver, fazer viver e a deixar viver. Somos mais um numa galáxia, mas não temos o direito de acreditar que estamos a passeio.

Somos Terra. Abra a janela e olhe para si mesmo. Não estará olhando para fora, mas para dentro. Ao caminhar olhe ao redor, é você. É você Terra. Cuide-se, ame-se.

Mulheres Vestidas

marilyn-monroe-1953

          Em 1953, Marilyn Monroe, símbolo maior do sex appeal ocidental até mesmo nos dias atuais, estampou a capa da primeira Playboy a ser lançada. Em 2015, Cory Jones, editor da mesma revista, solta ao mundo a seguinte frase: “Meu lado 12 anos está muito desapontado”. Isso se deve ao fato de que a Playboy (norte-americana) não irá mais reproduzir, de agora em diante, fotos de mulheres nuas. Com a pornografia barata proporcionada pela era digital, os editores entenderam que as mulheres de papel perderam seu “sentido”. E assim, a revista encerra seu principal motivo de ter sido criada. Em pleno século XXI, esse é o posicionamento de uma empresa frente ao mercado. O que orientou a ação da Playboy não foi a questão da objetificação do corpo feminino, como bem revela a frase de Cory (e há que se duvidar quanto a idade que ele afirma desapontada). A decisão da Playboy de deixar órfãs suas coelhinhas curvilineamente perfeitas trata pura e friamente da questão do lucro. Peladas impressas não estão dando dinheiro. Ponto. Não que as questões feministas* não tenham peso. Ao longo de todos esses anos de publicação, muitas (e muitos, sim homem também pode e deve ser feminista) foram contra, a favor, indiferentes. Mas o que pesa, como bem previsto por Marx, é o capital. Assim, há que se pensar se essa vitória (ou derrota) pode ir para a conta do movimento feminista. Desde que o mundo é mundo, ou de quando os homens tem 12 anos, se pretende a nudez feminina. Mas, aos trancos e barrancos, começa a se olhar para além do rebolado, da comissão de frente, do torneado das pernas.

          Ficarão com o orgulho ferido, as futuras musas que nunca serão capa da Playboy? Marilyn, se estivesse viva, reprovaria o ato? É fato que a vaidade feminina se ressente desse corte de orçamento. Por outro lado, vejam só, uma colunista falará “entusiasticamente” sobre sexo em uma coluna na reformulada revista. De certa forma, é a troca da bunda pelo cérebro. De certa forma, parece haver um fiozinho de esperança de que os homens cada vez mais apreciem também as mulheres vestidas. Mesmo se for por culpa da crise. Sempre haverá males que vem parabéns.

*Veja um post interessante sobre o bicho de muitas cabeças que é o feminismo aqui!!

A vida de bicho do mato

Se há um teste em que passei com louvor nessa vida foi o da escala de Liebowitz. Esse Liebowitz parece alemão, mas o homem é norte-americano, o que não tem nada demais, pelo menos para quem se chama Fendrich, mas é brasileiro. Pois bem. Liebowitz, acho que Michael, é um psiquiatra que fundou em Nova Iorque uma clínica de transtornos de ansiedade. Há diferentes transtornos de ansiedade, e hoje em dia não existe pessoa em sã consciência que não diga ter um deles, mas o que fez a fama de Liebowitz mesmo, pelo menos o que fez com que ganhasse o nome de uma escala, foi o seu questionário sobre fobia social. Este foi o teste que eu fiz, após o qual se comprovou o óbvio, ou seja, que eu sou mesmo um bicho do mato.

São 24 perguntinhas para avaliar o grau de ansiedade do sujeito em situações das mais corriqueiras, como falar com pessoas desconhecidas, ir a uma festa, devolver um produto em uma loja, telefonar em público, comer em público, beber em público – em suma: o problema é o público. A pessoa diz quanto medo sente em cada situação e com que frequência foge dela. Depois tudo é somado e, quanto maior for a pontuação, mais grave será a fobia. Não é para me gabar, mas eu sinto medo de uma porção de situações corriqueiras e ainda evito a maior parte delas, de modo que não foi surpresa alcançar o resultado “fobia social muito grave”.

Antes um argueiro, antes uma trave no olho, do que uma fobia social. Porque o negócio é sério, tem gente que tranca a faculdade só para não ter que se formar. O sujeito treme, tem taquicardia, sudorese, dores abdominais, o diabo, toda vez que se vê diante de uma situação em que seu desempenho é posto à prova. Há um medo ridículo de parecer ridículo que acaba fazendo com que se pareça ridículo mesmo. Não se trata de uma prosaica timidez, mas de um medo que pode fazer a pessoa ficar trancada em casa pelo resto da vida. É verdade que eu me formei e que, às vezes, até saio de casa, mas é só a muito custo que participo da vida em sociedade, e mais de uma vez eu saí correndo de lugares em que me senti pouco à vontade.

Às situações previstas no teste, eu acrescentaria outras, como entrar em uma loja vazia, o que para mim é particularmente difícil, visto que todas as atenções irão se voltar para mim e eu fatalmente serei objeto do julgamento alheio. Minha tendência é passar devagarzinho pela entrada da loja e só entrar quando todos estiverem distraídos. Ou então atravessar a faixa de pedestres, outra missão difícil, já que estarei desfilando diante dos carros parados, e sabe-se lá que coisas não pensarão sobre mim de dentro deles. Prefiro esperar os carros passarem.

Você precisa se abrir mais com as pessoas, dizem os outros, aqueles mesmos que dizem para o deprimido ter pensamentos positivos. A verdade é que não se tem notícia de um caso de cura, nem mesmo nos cultos da Universal você vê alguém curado de fobia social. Há grupos na Internet em que os sócio-fóbicos se reúnem para lamentações mútuas, já que não podem resolver o problema, e o que menos se diz lá é que seria melhor morrer. E talvez morressem mesmo, se não chamassem a atenção no velório. Estranhos pacientes tem esse Dr. Liebowitz.

EXEMPLOS QUE MARCAM

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Ela foi a primeira mulher a me causar admiração, fora dos laços familiares. Antes dela, mãe, tias e vizinhas. Não que fosse um modelo esbelto, de alta estatura e de roupas modernas e coloridas. Tinha cerca de 1,50 metro, gordinha, trajava-se com sobriedade, sempre de saias abaixo dos joelhos, blusas de mangas compridas ou 3/4, sapatos de saltos grossos, cabelos presos como um birote, como minha avó usava, e tinha perto de uns 50 anos. Seu nome era Dna. Penha, ou melhor, professora Penha.
Com esse perfil físico, chegava a pensar o motivo da minha atenção por essa mulher. Depois, aos poucos, fui descobrindo que era por sua inteligência, educação e finura no trato. Agora, lembrando dela, vem do fundo da minha memória olfativa o seu perfume discreto, que era sentido ao passar em revista as crianças na hora da fila de entrada ou quando andava entre as carteiras verificando a caligrafia.
Expansiva também não era e sem pendores carinhosos, mas tudo na medida e tratando todos os alunos do mesmo jeito e respeito. Severa, mas nem por isso, deixou de me trazer as melhores lembranças do meu curso primário, iniciando o primeiro ciclo aos sete anos de idade. Naquela época, começava-se nessa faixa etária no Grupo Escolar Municipal.
Para seus aluninhos, ela era um poço de sabedoria, um contraste grande com nosso universo, pois nada sabíamos, muito menos ler e escrever. E pelas suas lições, o mundo se abria cheio de oportunidades e grandezas.
Sim, foi um alicerce bem construído o meu curso inicial na escola, havendo uma boa sequência nos próximos. Devo tudo isso aos professores, mestres, docentes, como queiram chamar. Platão, em sua obra “A República”, falava da importância dessa carreira na formação do cidadão. Está a faltar a valorização a quem se dedica à arte de ensinar com amor, ética e postura. Essa base da educação faz a diferença.