Limite

Mariane queria ele fosse feliz depois que eles terminaram o namoro.  Feliz mesmo, de verdade. Só que felicidade de ex precisa ter limites, né? Quem quer ver o sujeito dando pulinhos de alegria logo depois de a relação ter terminado?

Era o que ela pensava.  Não era justo e sequer era saudável ver o outro publicar fotinhos com a nova companhia na Disney, cozinhando juntinhos, correndo no Ibirapuera. E mesmo que as fotos fossem só dele malhando sorridente, ou caindo na balada com a turma, também não era legal. Tinha que haver um período de luto, até uma psicóloga dizia isso num site.

Ela sim, ainda estava assimilando a nova fase de vida, revendo quais amigos ainda iriam falar com ela depois de três anos de namoro perdidos com aquele infeliz, em qual curso ela iria se matricular pra manter a mente ocupada e, principalmente, para onde iria viajar pra não ouvir a mãe a acusando mais uma vez pela escolha errada, que a enterrou ainda mais baixo no buraco das encalhadas.

E o sujeito estava lá, com o sorriso Colgate. Felizão. Nem parecia que tinha sofrido uma perda tão grande. Afinal, deixar de namorar com ela, uma moça bonita, trabalhadora, boa cozinheira e disposta a tentar manobras da revista Nova (e até da Vip) na cama, era sem dúvida, uma baita perda, né?

Olha, feliz, tudo bem, mas daquele jeito já era afronta, disse Mariane à única amiga que a visitou na clínica. Sim, agora ela estava numa clínica para pessoas que amam demais. Tudo porque ela havia ameaçado Gus, o ex. “Só ameacei, minha gente, não significa que eu fosse fazer nada, né?”, disse ela ao diretor do manicômio, perdão, da clínica.

Ameaçou mesmo. De mutilação física. Mais especificamente, da ferramenta que mais proporcionava alegria ao cidadão que ela mesma havia dispensado.  Tudo flagrado pelas câmeras do prédio deles, aliás, dele, agora que ela havia saído de casa.

Dispensou porque ele a traiu com a recepcionista do escritório, aquela peituda nojenta com as pernas coalhadas de celulite. Ela pegou os dois em flagrante. Ela era a vítima! Era ela quem estava traumatizada. E agora ela estava enquadrada na Lei Maria da Penha. Tinha que fazer tratamento e tal. Só que Mariane nunca o amou demais. “Nunca amei demais aquele desgraçado, que fique bem claro! Eu gostava dele e só. O que ele fez depois foi uma puta falta de respeito. Falta de respeito, viu?!”, disse à amiga. Lidiane não contou nada às outras sobre a visita. Porque, no fundo, ela apoiava a atitude da amiga. Era melhor não dar na vista.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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